(...) penso no absurdo de escrever. De estar a
escrever quando podia estar com os amigos, ir ao cinema, ir dançar que é uma
coisa de que gosto... mas não, um tipo está ali e é um bocado esquizofrénico.
(...) Há sempre uma parte subterrânea nas obras de arte impossível de explicar.
Como no amor. Esse mistério é, talvez seja, a própria essência do acto criador.
(...) Quando criamos é como se provocássemos uma espécie de loucura, quando nos
fechamos sozinhos para escrever é como se nos tornássemos doentes. A nossa
superfície de contacto com a realidade diminui, ali estamos encarcerados numa
espécie de ovo... só que tem de haver uma parte racional em nós que ordene a
desordem provocada. A escrita é um delírio organizado.
fonte: Jornal de Letras, Janeiro
1982