O Globo -
excerto de entrevista on-line
texto de Suzana
Velasco
05 de Junho
de 2009
Grande atracção da Flip, António
Lobo Antunes diz que as histórias não importam, só as palavras
António Lobo Antunes atende o telefone e parece confirmar a fama de
avesso a entrevistas: "Podemos falar rapidamente". Ele oferece a mesma
resistência que seus livros oferecem ao leitor, levando este aos poucos
para dentro deles. Ao fim de quase uma hora, já tinha falado não só do
ofício de escrever como da família protetora, da formação em
psiquiatria, de Portugal e do Brasil.
Na semana que vem, a Alfaguara lança dois livros do escritor de 66 anos,
um dos maiores da literatura portuguesa, vencedor de prêmios como Camões
e Juan Rulfo. "Explicação dos pássaros", de 1981, ele ainda considera um
romance, mas, "O meu nome é Legião", de 2007, diz que não sabe bem o que
é. O intervalo de 26 anos mostra um percurso de interesse pela
linguagem, mais do que por temas específicos, mostrando que Portugal -
tão presente em seus três primeiros livros, em que aborda a guerra em
Angola, da qual participou, entre 1970 e 1973 - é mais e mais um
"território ficcional".
Maior nome de literatura da sétima Festa Literária Internacional de Paraty, o
escritor falará no horário nobre, às 19h de sábado, dia 4 de julho, em conversa
com Humberto Werneck. Resistente mais uma vez, ele diz que só vai falar se lhe
apetecer, que fala pouco. Que seja tão pouco quanto nesta entrevista.
No Brasil, serão lançados em breve dois livros seus: "Explicação dos pássaros",
de 1981, e "O meu nome é Legião", de 2007. Sua relação com a literatura mudou
muito de lá para cá?
O que eu acho que deve ser um livro foi mudando com o tempo. Antes estava
interessado na história, agora a história não me interessa absolutamente nada.
Não vejo os personagens fisicamente, não imagino como eles são. Meus livros são
vozes, sobretudo os últimos, são muito simbólicos, não tendem para um fim
definido. Não me interessava mais fazer romances, mas pôr a vida inteira entre
as capas de um livro.
Em "Explicação dos pássaros" já há um afastamento dos temas autobiográficos dos
primeiros romances, que tratavam da experiência na guerra. Foi importante se
distanciar da sua história para escrever?
Autobiografia é inevitável. Você não inventa nada, vai trabalhando com memórias,
acaba a parecer um mendigo que anda procurando restos no lixo. Uma grande parte
não me é consciente. Um livro não se faz com ideias, se faz com palavras. Então
fico sentado a esperar que as palavras venham. Quando comecei, fazia planos
muito detalhados. Depois compreendi que um livro é um organismo vivo, tem sua
própria fisionomia, seu próprio temperamento. Você não faz mais do que seguir o
que o livro quer. O princípio é muito difícil, a distância tão grande entre a
intensidade das emoções e o que está no papel... Todo o trabalho é aproximar
essas duas coisas. E isso só se consegue corrigindo e corrigindo e corrigindo.
A impotência diante da vida aparece em seus romances, e também em "O meu nome é
Legião".
Aquilo era quase um livro sobre como escrever um livro. O policial era o
escritor que estava lutando com o material, e o material eram os meninos da rua,
que têm uma sede imensa de ternura, mas que, por razões várias, culturais,
sociais, a única maneira que têm de exprimir suas emoções é através da
violência. Mas eu não acho que eles sejam violentos, acho que eles estão cheios
de ternura. Eu gostei deles.
O livro trata da criminalidade entre jovens descendentes de africanos na
periferia de Lisboa. A História de Portugal volta com força, mas é um Portugal
contemporâneo, lidando com o racismo contra os imigrantes. O senhor vê isso como
um problema da Europa hoje?
Não pensei nisso porque não sei o que é Europa. Você, para escrever, tem que
criar um território ficcional. Chicago do Hemingway não existe, Minas do
Drummond não existe. Por comodidade, pode se chamar Portugal ou Lisboa, mas isso
para mim não é relevante. Nunca tive sentimento de nacionalidade, porque sou
mestiço. Fui educado em Portugal à maneira do Norte do Brasil (o avô nasceu no
Pará). Além disso, pensava que toda a gente tinha olhos azuis (risos). Pensava
que só as empregadas tinham olhos castanhos. Foi uma educação um pouco sui
generis. Mas sentimento de pertença a um país, a um continente, isso eu nunca
tive. Quando era menino, as canções que meu avô cantava eram as da Guerra do
Paraguai. Eu não sei o que é Europa, tampouco sei o que é Portugal. Vivo em
Lisboa porque gosto da luz, e porque no Rio é impossível escrever, você fica
olhando o tempo inteiro.
O senhor começou a escrever quando era menino?
Minha mãe tinha me ensinado a ler. Com 4 anos, tive uma tuberculose e tinha que
ficar numa cama. Comecei a escrever, e fazia sentido. Por volta dos 14 anos,
você começa a entender que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal,
então começa a angústia. Depois, por volta dos 17, 18 anos, você entende que há
uma diferença ainda maior entre escrever bem e obra-prima, e aí a angústia é
total.
E o objetivo é sempre escrever obras-primas?
Se você não escreve para ser o melhor, não vale a pena. Você tem que escrever
contra os escritores de que gosta, tem que ser melhor que eles.
O senhor vem em julho para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Qual é a sua aproximação com a literatura brasileira?
Também não sei o que é Brasil. Acho que o que o Brasil deu de mais importante no
século XX foram os poetas. Cabral (João Cabral de Melo Neto) é um dos mais altos
poetas não só da literatura (em língua) portuguesa, mas de toda a literatura.
Poetas como Drummond e outros que estão esquecidos, como Paulo Mendes Campos,
Mario Quintana, Cassiano Ricardo.
excerto da entrevista a
O Globo
05.06.2009

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