Revista
Ler - entrevista de Francisco José Viegas
Inverno de 1997
O Manual dos Inquisidores
Ainda O Manual dos Inquisidores (Dom Quixote)
frequentava os primeiros lugares das listas de vendas nas livrarias, já
António Lobo Antunes terminava o seu novíssimo romance – uma história
sobre África, tendo como cenário Malanje, em Angola.
Com O Manual dos
Inquisidores regressa a Portugal, volta a eleger Portugal como um
tema de romance… Claro que há uma família que se transforma em
personagem fundamental, quase saga, mas parece-me que este livro é parte
de um projecto mais vasto, uma tetralogia sobre um tema que já quase não
está na moda: Portugal.
Sim, mas esse livro já está pronto há dois anos,
e, entretanto, estou neste momento a acabar um novo. Bom, já está mesmo
acabado e inclui-se nessa série de quatro livros sobre o poder e sobre o
exercício do poder em Portugal. Portanto, O Manual dos Inquisidores
seria o primeiro. Há este, novo, que já está pronto, e, quanto aos
outros dois, vamos a ver…
Como é que lhe apareceu
a ideia central do Manual?
Um livro começa sempre por um clique e neste, no
Manual, foi muito curioso, porque teve a ver com uma frase.
Aliás, antes disso, tenho que dizer que devo um pouco livro ao João
[João Lobo Antunes, irmão do escritor, neurocirurgião]
porque, há uns três ou quatro anos, contou-me
uma história de um senhor, um grande solteirão, ou viúvo, já não sei,
que dizia, em relação às mulheres: «Eu faço tudo o que elas querem, mas
nunca tiro o chapéu da cabeça». Aquilo ficou-me cá dentro. Esta frase
foi a primeira coisa que eu tive do livro, é uma frase espantosa. É
engraçado porque, normalmente, começo por um plano do livro, com
personagens, cenários e tal, mas aqui o clique, esse tal clique que é
necessário a todo o livro, foi a frase. Creio que era um proprietário de
uma empresa de vinhos, uma marca de vinhos muito conhecida. O livro,
propriamente dito, começou com a personagem do ministro, só depois
aparecendo os outros personagens da família. Quando comecei a escrever
já tinha, como de costume, as várias partes e as vozes principais, mas
esse personagem era fascinante. Tal como é fascinante entrar nesse
universo das grandes famílias, conhecer as suas histórias…
Você opta por um
narrador invisível, escritor, que parece munido de um gravador para
recolher depoimentos dos personagens. Isso facilitou-lhe as coisas?
É uma técnica que tenho vindo a aperfeiçoar,
porque eu estava descontente com os primeiros livros e pensei que uma
técnica mais polifónica me permitiria que os personagens se reflectissem
melhor na própria história. Eles é que contam, num livro. E o método
usado permite ir mais fundo no que diz respeito à caracterização das
pessoas. E até ao nível da própria escrita, que é fundamental…
Por que é que diz que
os outros livros, os primeiros, são livros de aprendiz?
O Memória de Elefante é, claramente, um
livro de aprendiz, Os Cus de Judas é um livro binário, com aquele
jogo entre mulher-guerra… E, depois, Conhecimento do Inferno, que
é provavelmente o mais fraco deles todos, é onde começam a aparecer,
ainda que timidamente, todos os processos que eu depois comecei a tentar
desenvolver melhor nos livros a seguir. Mas, se eu voltasse atrás, teria
começado a publicar com Explicação dos Pássaros.
É como se estivesse a
renegar livros seus…
Eu poderia ter esperado mais um pouco, sabe?
Aliás, esperei até aos trinta e seis anos para publicar um livro. Nunca
tinha publicado e também podia ter continuado a viver sem publicar.
Publicar não era fundamental, escrever é que sempre escrevi, mas, se
calhar, deveria ter continuado a esperar e fazer como fazia até ao
Memória de Elefante, que era escrever livros e deitá-los fora.
Quantos é que deitou
fora?
Muitos, imensos. Comecei a escrever com treze
anos. Na adolescência já tinha uma vasta «obra completa», mas depois
chegava ao quintal dos meus pais, onde havia uma figueira, e queimava
aquilo tudo, porque tinha a consciência de não ter encontrado uma voz,
em primeiro lugar, uma maneira de escrever, um modo de contar, e depois
havia sempre uma grande distância entre a emoção sentida e o pobre
resultado que ficava escrito, tão mau como quando, em muito miúdo,
comecei por fazer poesia de muito má qualidade. A distância era muito,
muito grande, e o meu problema era como encurtar essa distância…
Era uma família de
gente precoce: o seu irmão João tinha um programa de televisão aos
quinze anos; você, aos treze anos, escrevia romances…
Nós somos seis rapazes e tivemos a sorte de os
meus pais serem extremamente estimulantes, no sentido de nos fazerem
interessar por tudo, desde cálculo integral até literatura. Havia uma
enorme curiosidade intelectual por parte do meu pai, sobretudo, mas
também da minha mãe. A minha mãe é das raras mulheres que eu conheço que
lia Proust. Lembro-me de, aos catorze anos, o meu pai dar a ler a
Voyage au Bout de La Nuit. Falávamos
muito de livros, de arte, de coisas assim. Talvez por na família haver
uma grande contenção e uma grande austeridade, ainda hoje falo com o meu
pai mais de literatura do que dos nossos sentimentos pessoais… Sou capaz
de falar de emoções e sentimentos com os meus amigos, mas, com os meus
irmãos, embora goste muito deles, e com os meus pais, há um enorme
pudor, não sei se estão bem afectivamente, em que partido é que eles
votam. Bom, posso presumir, mas não sei com rigor… Portanto, a nossa
relação fazia-se através de livros, das ciências, da física… Sobretudo
com o João, porque vivíamos dois a dois, em cada quarto, e o João era o
meu companheiro. Íamos descobrindo as coisas ao mesmo tempo, mas, sem
dúvida, foram os nossos pais que nos incitaram mais nessa descoberta.
E a escolha da medicina
foi também por razões familiares?
Na verdade, nunca quis ser médico. Mas eu era o
mais velho e, naquela altura, quando se chegava ao quinto ano, tínhamos
de escolher entre ciências e letras. Ora, eu tinha treze anos – o meu
pai perguntou-me o que é que eu queria fazer, eu disse que queria ser
escritor e, portanto, queria ir, naturalmente, para a Faculdade de
Letras. Ele tomou isso a sério, nem sequer fez troça, que era o que eu
teria feito se uma filha minha me dissesse que queria ir para pintura ou
escultura, ou coisa parecida. Mas lembro-me de o meu pai me dizer, na
altura, que, se eu queria ser escritor, o melhor seria tirar um curso
técnico, que isso me daria uma preparação melhor. Eu penso que ele
estava preocupado com a ideia de eu ter de ser professor de liceu e que
tivesse uma vida mais ou menos difícil e triste, e achava que a medicina
poderia ser uma via melhor para mim, além de que ele tinha alguns amigos
médicos que eram pessoas de grande qualidade, como o Miller Guerra, um
homem chamado Furillo de Andrade, que ainda é vivo, e é o único
português que tem uma doença com o nome dele. Às vezes telefonava às
sete da manhã, o meu pai atravessava a casa, desesperado, a avisar: «É o
Furillo! É o Furillo!». Eu penso que essas pessoas também tiveram
influência. Olhe, a biblioteca do professor Miller Guerra era enorme,
colossal, tinha muitos livros, e eu ia almoçar a casa dele (era amigo de
um dos filhos dele) e ficava a olhar para aquilo com ar guloso. Os
médicos que eu conhecia interessavam-se todos pela literatura, pela
pintura, pela música. Não eram, nem tinham nada a ver com os engenheiros
da medicina que a gente vê hoje em dia, os rapazes e as raparigas que
acabam o curso agora, e, portanto, embora não gostasse do curso, lá fui
matricular-me em medicina. E, de facto, não gostei nada do curso até ao
fim. Não estudava nada, estive três anos no primeiro ano. Entrei para a
Faculdade com dezasseis anos, dediquei esse ano a escrever, nem fiz
exame nenhum. No segundo ano, fui a exame sem saber literalmente nada, o
que foi muito aborrecido porque o professor escreveu uma carta ao meu
pai a dizer que «o seu filho veio aqui, não sabia nada, tive que o
reprovar», e o meu pai apareceu-me com a carta, com um ar muito triste…
A partir daí, pronto, não reprovei mais. Também, rapidamente, descobri
que não era difícil passar na faculdade. E tive a sorte de haver alguns
mestres excepcionais, o professor Cid dos Santos, pai do pintor Reynaldo
dos Santos, que era um homem de uma qualidade excepcional e tocava piano
no consultório, ou outros, como Celestino da Costa, Juvenal Esteves.
Eram homens como eu penso que já não existem. Lembro-me dos professores
de psiquiatria, como o Barahona Fernandes, que tinha uma enorme
biblioteca, impressionante – ele era casado com a filha do maestro
Vianna da Mota e tinha não só a sua enorme biblioteca, mas também a
biblioteca de Vianna da Mota. E foi assim que acabei de tirar o curso de
medicina… No meio de livros…
Você estava fascinado
pelo mundo dos médicos, mais do que pelo mundo da medicina…
Por esses médicos que, de facto, eram figuras
excepcionais. Julgo que não existem hoje pessoas dessa craveira
intelectual e moral…
Como é você como
médico? Quais são os seus tiques?
Eu já não sou médico, atenção…No início, o que me
chocava mais era o poder médico, quer dizer, uma pessoa vai ao hospital
e tanto podia levar uma pastilha como ficar ali para ser operado... O
poder médico assustava-me muito. Uma pessoa tanto pode levar uma
consulta, como uma palmada nas costas, como um electrochoque, e as
pessoas entregam-se muito confiadamente nas mãos de um médico.
Lembro-me de estar no internato geral, e aparecia uma pessoa com uma
dor na barriga em Santa Maria. Operava-se o apêndice para fazer
curriculum, mas, muitas vezes, era uma cólica ovárica ou outra coisa
qualquer... Portanto, essa sensação de poder, para mim, era muito
amedrontante, era um poder discricionário, indiscutível e indiscutido.
Depois, percebi que a gente só diagnostica aquilo que conhece, por muita
intuição que tenha. Hipócrates tinha uma frase muito bonita acerca da
medicina: a arte é longa, a vida é breve, a experiência é enganadora, e
o juízo difícil. Isto aplica-se a qualquer arte, está claro. Para ser um
médico honesto, tinha de saber medicina, não era justo uma pessoa morrer
por um erro de diagnóstico. Quando já estava no internato de psiquiatria
do hospital Miguel Bombarda, apareceu um rapaz de trinta e dois anos com
um delírio megalómano a quem eu fiz um diagnóstico de psicose paranóica,
mas, de facto, ele tinha uma sífilis, aquilo era um delírio megalómano
típico da sífilis. Bom, ele morre, e levado para o Instituto de Medicina
Legal com o diagnóstico de psicose paranóica e, na autópsia, descobre-se
que é sífilis. O director do hospital, na altura, mandou-me chamar e
disse: «Este doente morreu por sua causa, você fez o diagnóstico mal
feito, era uma coisa que se podia curar com penicilina...» Este foi o
episódio mais dramático que eu tive. Quando fui para África, ainda que
contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações,
tinha que fazer essas coisas tramadas que há a fazer em tempo de
guerra... Então, levava o tratado de cirurgia, o furriel enfermeiro, que
não podia ver sangue, ia-me lendo aquilo tudo, os procedimentos, e eu ia
operando. Felizmente nunca nos morreu ninguém assim. Portanto, a minha
relação com a medicina era essa. Melhor, servia, em primeiro lugar,
para ganhar dinheiro, porque, entretanto, tinha uma filha, depois tive
duas filhas, e trabalhava muito. Depois, quando voltei de África, fazia
bancos em vários sítios porque ganhava muito pouco dinheiro como interno
e, depois, chegava a casa e continuava a escrever. Mas, mesmo em Angola,
mesmo debaixo de fogo, mesmo nos abrigos, eu continuava a escrever
sempre. Por um lado, funcionava como anti depressivo e, por outro, tinha
a sorte de estar com o Ernesto Melo Antunes, que era o meu capitão.
Recebíamos imensos livros, líamos muitos livros. O relacionamento com o
Melo Antunes foi decisivo para mim e é uma amizade que ainda hoje
dura...
E a quem dedica este livro. Mas ainda não respondeu...
Em relação à medicina? Olhe, tem a ver com o
interesse de cada um. Veja o caso do João: a medicina é o interesse
principal da vida dele, tal como a arquitectura é do Pedro, como ser
jurista é o interesse principal do Miguel, como ser diplomata é do
Manuel, a neurologia pediátrica do Nuno... O meu foi sempre a
literatura, a medicina era uma espécie de segunda profissão, era o que
me dava dinheiro... Quando aparece o Memória de Elefante é que já
deixou de ser tanto, porque o livro vendeu muito e estive para abandonar
o trabalho no hospital. Só que, entretanto, houve uns problemas com o
editor, fomos para tribunal, houve dinheiro que não pagou, etc.
Qual é o seu balanço desses primeiros anos de escritor?
É muito estranho. O Daniel Sampaio andou com o
livro por todos os editores, e foi recusado em todo o lado. Até que eu
fui de férias com as miúdas e, quando regressei, estava o livro nas
montras das livrarias. Isto foi em 1979, o livro já tinha feito duas ou
três edições durante o Verão... Foi tudo muito estranho e muito rápido.
No lançamento do livro, nas instalações da editora, que era ali na Rua
Jorge Ferreira de Vasconcelos, estavam dez pessoas. Mas ninguém ligado a
escrita. Estavam alguns amigos meus, amigos do editor e uns copos de
vinho branco, uma coisa de pequena aldeia. Lembro-me de ter chegado,
depois das férias, e de ver o meu nome nas montras...
Qual foi a sua reacção?
Um misto de vergonha e contentamento. Logo a
seguir, saiu Os Cus de Judas e, depois, foi esta bola de
neve... Em 1980, recebi uma carta de um agente e não respondi. Pensei
que era uma piada e não respondi, pronto. Depois começaram as traduções,
por aí fora, e é ainda o mesmo agente. Foi como Ihe disse, tudo muito
rápido. Na altura das recusas do Memória de Elefante, já estava
pronto Os Cus de Judas e já estava a escrever o terceiro. As
editoras são muito cruéis para as pessoas que começam, porque nem sequer
respondiam, e eu não tive coragem para insistir. Não conhecia nenhum
escritor, nem nunca tive a coragem de mandar o romance a alguém só para
saber a opinião. Tal como agora acontece em relação a mim. Recebo muitos
originais, tenho a cómoda cheia... Mas eu não tinha coragem. E,
felizmente, só comecei a conhecer escritores depois de os livros saírem.
Nessa altura não conhecia ninguém do mundo literário, e lembro-me de que
ia, ainda adolescente, espreitar os génios para os lados do Chiado: o
Aquilino, o Ferreira de Castro... Havia uma cervejaria ao lado do Jardim
Zoológico, chamada Coral, onde comiam a Natália Correia, o David
Mourão-Ferreira, o Namora... Havia uma tertúlia na Sá da Costa, outra na
Bertrand, e eu ia lá e fingia que comprava livros, mas a intenção era só
a de olhar para eles... Lembro-me de ver o Namora, quando descia a
Baixa, e da admiração que sentia por ele. Aos quinze anos, a gente gosta
de livros muito maus. Ainda hoje gosto de livros maus, mas houve uma
altura em que gostava muito mais...
De que livros maus
gostava?
Lia tudo, como continuo a ler tudo... É aborrecido
pessoalizar, mas você sabe, são aqueles romances que a gente lia aos
quinze ou dezasseis anos e que agora... Se chegar a feira do livro e vir
os livros do Namora, que era um escritor com imenso sucesso nos anos
cinquenta, a cem escudos ou pouco mais e ninguém lhes pegar, é um bocado
chocante... Mas, na altura, para mim, o Domingo à Tarde, que
descobri com o João, ou os Retalhos da Vida de um Médico eram
coisas de primeira linha. Achava esses livros uma maravilha, contra a
opinião do meu pai, que achava aquilo tudo muito mau. E, como
contrapartida, dava-me a ler os escritores favoritos dele, os grandes
russos, alguns bons franceses, os ingleses, por aí fora...
O seu pai exerceu uma função
determinante na sua formação, inclusive até na literária...
Isso acontece com todos nós, sobretudo através do
exemplo. Não tanto através de ordens, conselhos ou opiniões, mas
sobretudo através do exemplo. Ele é, realmente, um homem de uma grande
visão, de superior inteligência, de grande sensibilidade...
Você disse, uma vez,
que o seu pai não tinha gostado do Memória de Elefante...
Na altura mostrei-lhe o livro, e ele disse: «É um
livro de principiante». E tinha toda a razão. Depois, estranhamente,
gostou de Os Cus de Judas. Quando voltámos a falar do assunto, vi que
tinha gostado do Fado Alexandrino que, aliás, tinha nascido de um
desafio lançado pelo meu pai. Ele dizia que eu só seria um escritor
quando escrevesse um romance de peso, com muitas páginas, a sério...
Escrevi parte desse romance em Nova Iorque, onde estava com o João, no
intervalo do basquetebol, que é um espectáculo deslumbrante. À noite,
íamos ver os jogos e, durante o dia, ficava em casa a escrever. Ele
tinha uma casa muito agradável, com uns esquilos no jardim e uma varanda
onde tomávamos chá. Havia também uma criada espanhola... O João ia para
o hospital, e eu ficava a trabalhar nesse livro. Nessa altura, já tinham
saído algumas traduções e a primeira do Fado foi na Random House
nos EUA, justamente. Depressa me apercebi de que, conquistando o eixo
Nova lorque-Berlim, por exemplo, o trabalho de divulgação no estrangeiro
fica muito facilitado. Não calculava que a crítica alemã tivesse tanta
importância na Europa, muito mais do que a francesa... A crítica alemã é
decisiva, não só nos países do Leste europeu, como para os países
nórdicos...
Houve, nessa matéria, alguma estratégia deliberada da sua
parte?
Nunca tive. Da minha parte, não. Se alguém teve,
foi o agente. Mas também, de início, ele andava com os livros pelas
editoras, e ninguém os queria... Depois, em 1981, salvo erro, saiu uma
edição norte-americana, depois saiu uma francesa, e depois foi um pouco
uma bola de neve... E tive a sorte de As Naus ter sido publicado
na revista da Universidade de Nova Iorque, o que foi muito importante
para mim, mas, de facto, parece-me, com as conversas que vou tendo com
os editores, que a Alemanha é o país-chave da Europa... E os jornais
alemães têm óptimos suplementos literários, excelentes, bem feitos, as
criticas são bem feitas... Não é como as pessoas que escrevem sobre
livros em Portugal... Isto é muito pequeno e há muita inveja, há má-fé
e há cobiça, tenho visto classificar livros que me parecem bons no fundo
do poço e tenho visto pôr nas nuvens livros que não me parecem grande
coisa...
Dê um exemplo...
É sempre maçador dar exemplos... Da mesma forma
que o Namora era considerado um génio nos anos cinquenta, têm aparecido
outras pessoas depois... Reparou que, em todos os séculos, havia um
escritor melhor do que o Camões? Olhe, o Tomás Ribeiro no século XIX, o
desembargador Gabriel Ferreira de Castro no século XVIII... Todos
considerados melhores do que ele! Mas acabaram por passar, e o Camões
fica! É como o Pessoa, que me parece, apesar de tudo, melhor que o Tomás
Ribeiro!
Você disse logo em
1992, numa entrevista, que Ihe 'deram pancada nos livros' e que os seus
romances nunca tiveram grande recepção em Portugal senão depois de terem
começado as traduções no estrangeiro. Acha que, em Portugal, não
reconhecem a sua importância como romancista? Ou acha que a opinião da
crítica é sempre marcada por invejas?
Ao princípio, ficava magoado. Agora, não. Agora,
às vezes, quando as críticas são elogiosas em Portugal, dá-me a sensação
que os defeitos encontrados não são esses e que as qualidades apontadas
também não são essas. É que, muitas vezes, a gente acha qualidades
defeitos disfarçados... Já reparou? Defeitos mais ou menos
maquilhados... depois, a gente promove-os a qualidades quando não sabe
da coisa literária. O Picasso dizia que a pintura se aprende como o
chinês. Conheço uma rapariga que acabou o curso de jornalismo e foi para
crítica de artes plásticas nessas revistas de senhoras... É impossível!
Não sabem! Muitas vezes há até pessoas com uma intuição extraordinária
ou só muito inteligentes, mas é muito difícil ser um bom crítico antes
dos trinta e tal anos, como é difícil escrever um bom romance antes
dessa idade. É preciso ter vivido primeiro, do meu ponto de vista, e,
muitas vezes, põem-se meninos e meninas de vinte anos a escrever
críticas. E há outros que também escrevem romances. É muito raro
aparecerem bons romances antes dos trinta anos, muito raro. Um tipo só
pode fazer uma coisa de jeito depois de ter passado pelas coisas. Se não
viveu, os livros até podem estar 'tecnologicamente' correctos, mas não
há ali mais nada. A experiência de vida cada vez mais me parece
fundamental...
E quais são as
experiências de vida mais marcantes para si?
Tudo. Lembro-me da tuberculose que tive quando era
pequenino. Eu estava deitado na cama, e as pessoas estavam em pé, à
minha volta. Era muito estranho, mas isso marcou-me. Antes tive uma
meningite, mas dessa não me lembro. Também tive a sorte de ter uma
infância muito boa, passada em Benfica que, na altura, era um
microcosmos das várias classes sociais, tudo aquilo misturado,
larguinhos, pracinhas. Agora nada disso existe... Mas lembro-me de ir
buscar o leite todos os dias. Leite fresco, a sério... Havia um
investimento na cultura e no desporto, e nós, lá em casa, chegámos a
jogar no Benfica. Isto foi há muito tempo, eu tinha quinze anos,
e o João a caminho — foi um dirigente do Benfica a casa do meu pai
oferecer-nos, na altura, quinhentos escudos, ou lá o que era, para nós
nos transferirmos para o Benfica. Imagine que, já nesta altura, e
naquela modalidade sem importância nenhuma, se pagava dinheiro para os
miúdos jogarem. Eu lembro-me de, um dia, nos balneários, estar a ver
fotografias das várias equipas e de haver uma em que estava o meu pai
com uma camisa verde por baixo da camisa do Benfica. Perguntei-lhe:
«Porquê a camisa verde debaixo da outra?» E ele disse: «Sei lá quem é
que lavava as camisolas!» Lembro-me perfeitamente desta frase.
Qual era a sua
modalidade no Benfica?
Hóquei em patins. Começámos a patinar
muito cedo, porque íamos para o Jardim Zoológico onde estava aquele
senhor preto todos os domingos, havia aquelas meninas todas vestidas de
branco, pareciam anjos, davam piruetas debaixo daquelas árvores...
Como é que aparece a
literatura no meio disso tudo?
De uma forma muito engraçada, porque eu chegava
dos treinos e ia ler e escrever. Em parte às escondidas, para não
pensarem que eu não estava a estudar. Ainda hoje tenho esse hábito,
por exemplo, que é o de esconder o que estou a fazer... Ainda
escrevo, como nessa altura, em blocos pequeninos. Ora, quando ouvia
passos no corredor, mudava a ordem das coisas que eu tinha à minha
frente, livros de estudo e essa trapalhada toda, e punha o bloquinho em
baixo, para os meus pais pensarem que eu estava a estudar. Entretanto,
como eu perdi esses anos todos na faculdade, o João, que era mais novo,
apanhou-me facilmente... Ele foi sempre brilhante e sublinhava o que é
que eu tinha de estudar para os exames. E eu só estudava aquilo. Foi uma
experiência boa, porque havia uma outra personagem fundamental para nós
que era o meu avô, pai do meu pai, um militar. Era um homem duma coragem
lendária, um homem que andava à porrada com a Filarmónica de Benfica
inteira. Teve dois desgostos na vida, nesses tempos: um deles era que o
neto mais velho, eu, não fosse nem monárquico nem muito católico. O
outro teve-o quando soube que eu escrevia, que escrevia umas coisas por
aí, em caderninhos. Chamou-me, inquietíssimo, a perguntar: «Ó filho, tu
és maricas?» Para um oficial de cavalaria, escrever era sinónimo de
mariquice... A angústia dele era ver o neto maricas! Jurei-Ihe que não
era maricas e aproveitei para Ihe fanar um maço de Português Suave, que
eram umas caixas de cartão que ele tinha sempre na gaveta, e
ia fumar com o filho do caseiro para o jardim da quinta em
Benfica... A chumbada com o meu avô era aos sábados de manhã quando
tínhamos que ir montar a cavalo para Cavalaria 7... Eu detestava os
cavalos. Era um frete o cavalo. O João e os outros meus irmãos, acho
que gostavam, mas, para mim, era um tormento. Ainda por cima, eu tinha
os rins habituados ao hóquei em patins, andava curvado pelo ringue.
Portanto, era terrivelmente difícil montar a cavalo no picadeiro da
Ajuda. Para mim, aqueles sábados eram tormentosos, mas ele era um avô
espantoso, pegava em nós todos, levava-nos ao Jardim Zoológico, ao
Coliseu... Era um homem espantoso, morreu quando eu tinha dezoito anos,
e todos os dias me lembro dele. Falava de coisas que para mim eram
estranhas e fascinantes, encantadoras, porque ele era filho de
'brasileiros', de família do Brasil, e as histórias que ele contava
falavam de um universo que provocava imenso a imaginação de um miúdo que
se alimentava de Sandokans, de Júlio Verne, de que ainda hoje continuo a
gostar muito... Havia em casa dos meus avós um livro do Júlio Verne, de
capa encarnada, dura, muito antigo, com gravuras fascinantes...
Lembro-me até de alguns diálogos... É um belíssimo escritor e estimulava
a escrever. O Júlio Verne e mais o Mundo de Aventuras, mais o
Cavaleiro Andante, mais os escritores que a gente ia descobrindo.
Como eu era um tipo introvertido e fechado, acabava por brincar sozinho,
e, aqui há uns tempos, a minha mãe dizia que se lembra de mim sempre a
escrever, sempre a escrever. A ideia que eu tenho do final da minha
infância e da minha adolescência passa-se entre ler, escrever e jogar
hóquei e futebol...
Não tinha amigos?
Tinha muito poucos amigos. Nunca tive muitos
amigos, de resto. E, amigos íntimos, quem tenho eu? O Ernesto Melo
Antunes, o Zé Cardoso Pires, o Daniel Sampaio, não tenho mais... Há, é
claro, pessoas que eu estimo, de quem eu sou amigo, mas não com esse
lado de intimidade. Mas há pessoas notáveis como o Pedro Tamen, que eu
acho um poeta de grande categoria, do meu ponto de vista. E outras
pessoas assim, como o Mário Cláudio, com quem eu tenho uma relação muito
agradável, muito boa, e que tem sido sempre muito generoso para mim...
Como é que você se dá com o meio literário português?
Não há muito tempo. Dantes, as pessoas
encontravam-se nos cafés, nos bares, mas agora não há tempo para nada
disso. Bom, por mim nunca fiz vida de café... Mas também tenho os dias
por minha conta...
O Mário de Carvalho dizia, um dia destes, que não tinha muita
paciência para o lado social do meio literário, para ir aos
lançamentos... Sei que você também não tem muito, mas isso pode
ser confundido, muitas vezes, com uma certa arrogância em
relação ao meio literário, com um certo sentimento de
superioridade...
Para mim, os lançamentos e as inaugurações de
exposições são sítios pouco agradáveis, cheios de conflitos... E,
depois, não tenho muito a dizer às pessoas, nem muito para ouvir. Cada
vez mais, essas pessoas cansam-me. Ao fim de uma ou duas horas, fico
cansado e apetece-me estar sozinho. Aquilo que dizem não me interessa
muito, e aquilo que eu Ihes digo, provavelmente, também não Ihes
interessa muito a eles...
Por que é que você se cansa das pessoas?
É uma coisa que anda a acontecer cada vez mais.
Mas também outras... Ando a gostar cada vez mais de sopa, comecei a
gostar de sopa. É muito curioso, porque o nosso universo vai ganhando
outra dimensão, vai-se estreitando... Olhe, o prazer que o futebol me
dava já não me dá, já não me interesso pelo Benfica, até aos trinta e
tal anos ia todos os domingos aos estádios, mas agora já não vou...
Isso é porque o Benfica anda a perder...
Não, isto aconteceu-me quando o Benfica ainda
ganhava jogos e conquistava campeonatos. Mas, mesmo ir ao cinema, começo
a pensar que é uma maçada, começo a pensar que tenho de arrumar o carro,
de voltar para casa... A minha vida é simples porque, quando não estou a
escrever, tenho muito tempo. Por exemplo, a partir do mês que vem, não
vou ser capaz de trabalhar antes do Verão e, portanto, vou ter quatro ou
cinco meses sem fazer literalmente nada. Vou aproveitar para ler mais
ainda, isso é uma coisa que aumenta cada vez mais em mim, o prazer de
ler. Cada vez mais, até livros maus. Outro dia, li um livro da Jackie
Collins e adorei! Tinha uma descrição fabulosa de um felatio,
uma descrição extremamente bem feita, logo a abrir o livro. É um
tipo de descrição muito difícil de fazer... Lembra-se da descrição da
primeira relação sexual dos dois velhos no Amor em Tempos de Cólera,
a delicadeza com que ele descreve aquilo?...
E muito dificil escrever sobre
sexo... Pode cair-se facilmente no piroso.
Pois pode, e é o mais tentador. Escrever sobre
sexo é muito difícil, de facto. Nunca fui capaz de escrever uma cena de
sexo... O Orson Welles dizia que havia duas coisas que não se podiam
filmar: um acto sexual e uma pessoa a rezar. Mas essa cena de sexo entre
os dois velhos, escrita pelo García Márquez, é muito boa, muito bem
feita. Eu não sou um grande fã do García Márquez, mas devo reconhecer
que é um grande escritor, mas não sou grande fã. Prefiro outros
sul-americanos, como o Juan Rulfo, mas acho esse romance do García
Márquez um romance notável, um grande livro em qualquer parte do
mundo...
Você falou do Juan
Rulfo, mas o Pedro Páramo não tem nada a ver com a sua maneira de
escrever...
Pois não, mas gosto, escreve de uma forma tocante.
É um homem muito amargurado, como o Ernesto Sábato, outro escritor
admirável. Escreveu três romances, era professor de física atómica...
Olhe, tenho uma fotografia muito gira com ele em Paris. Temos o mesmo
agente... É um homem muito alto, calado, secreto...
Quais são os romances
que recorda com mais emoção?
Em primeiro lugar os do Salgari, com aquelas
aventuras todas. Depois, os do Júlio Verne. Aos treze ou catorze anos,
tive a descoberta dos franceses, com aquela gente, Sartre, Camus,
Malraux, que rapidamente me desinteressaram, porque rapidamente descobri
os ingleses e os norte-americanos. Graham Greene foi uma grande
descoberta para mim. É um escritor que eu ainda hoje admiro. Gosto de
ler os livros dele, mas não gostaria de os ter escrito. Mais tarde, foi
a descoberta do Simenon, que continuo a achar um grande escritor, homem
de três ou quatro frases, espantoso com aqueles ambientes e o modo de
descrever as personagens. Depois, ainda, foi a grande descoberta dos
russos, com o Tolstoi, o Tchekov... Sobretudo estes dois, e até o
Dostoievski, mas muito, muito menos. O Dostoievski era um bocado
aborrecido. Mas o Gorki é que me enerva. Aqueles livros davam uma grande
vontade de chorar, livros chuvosos, cheios de chuva e de lama, uma coisa
horrorosa. Finalmente, a descoberta dos ingleses e dos norte-americanos
do século passado, que, para mim, foi decisiva na minha formação.
É curioso isso que você
diz: gostar do Tolstoi e não gostar do Dostoievski, porque Milan Kundera
diz que há duas linhas fundamentais na história do romance: uma que vem
de Tolstoi e outra de Dostoievski. Uma ligada ao romance—problema e
outra, se quiser, a de Tolstoi, ligada ao ‘romance de história’.
Eu não defendo nem ataco, mas comecei por ler o
Tolstoi na adolescência. Ana Karenine e depois o Guerra e Paz,
que são dois livros fabulosos.... Todas as pessoas são felizes da
mesma maneira, mas as pessoas infelizes, meu Deus, é dramático... A
Morte de Ivan Ilitch é uma obra-prima, parece-me a mim. E o Moby
Dick, do Melville, ou as histórias de Stephen Crane...
A Insígnia Rubra da
Coragem...
Espantoso. Aquele sofrimento da guerra...
Disse, há uns anos,
que uma das razões por que preferia viver em Portugal é
porque queria mostrar como é que se fazia um romance. Ainda continua a
tentar? Ou gostava mesmo era de viver no estrangeiro?
Uma vez fui para a Alemanha com um convite da
cidade de Berlim, em 1984 ou 1986, já não me recordo, e era tremendo,
ninguém falava a minha língua, não havia Portugueses. Também estive em
Paris a escrever metade de um livro, estive em Nova Iorque muito tempo,
já Ihe contei... Mas foi sempre muito difícil estar longe de Portugal,
deixar de ouvir a minha língua. A língua, sobretudo... Eu gosto desta
terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto. Quando
estava mais tempo longe, chegava ao aeroporto e via polícias e tinha
vontade de beijar os polícias. Palavra de honra! Mas, em momentos de
desespero, apetecia-me era ser angolano. Estive lá durante a guerra, e
era o país mais bonito que eu conheci. Angola. Era uma terra de uma
ternura, de uma beleza! Tudo era novo, tudo flutua, a terra dava arroz,
girassol, algodão duas vezes por ano, e uma paisagem daquelas... As
noites são enormes, e o que era estranho para mim era o céu, que é
completamente diferente do nosso. Não se vêem as Ursas, vê-se o Cruzeiro
do Sul... Não tenho saudades de nenhum lugar, mas de África tenho muitas
saudades. Há uns tempos, convidaram-me para ir a Africa, mas as cidades
de que eu gostava já não existem, foram destruídas pela guerra civil...
Olhe, Malanje. Não me importava de viver em Malanje, na Malanje que eu
conheci...
O seu novo livro fala
de África...
É todo sobre Africa, a volta de Malanje. Há lá um
sítio chamado Baixa do Cassanje em que a gente via vinte hectares de
algodão e de girassol, era muito engraçado ver aquelas flores a abrirem
os olhos, enormes, voltadas para o sol...
Vão acusá-lo de
neocolonialismo...
E eu nas tintas. Mas não sei. A verdade é que não
me preocupa muito. Este livro é todo sobre os colonos de África, um
livro sobre a vida em África até 1961. Depois salta de 1961 para 1975,
sem falar da guerra colonial...
Qual é a história do
livro?
É sobre uma mãe, que está em Angola, e três
filhos que ela pôs no barco para cá em finais dos anos setenta. É um
livro com trinta capítulos e três partes... Eu penso que tenho vindo a
aprender a escrever e acho que o livro marca um passo muito grande em
relação a este [O
Manual dos Inquisidores]. São só
quatro pessoas. Penso que, ao nível da escrita, está muito mais maduro,
sério, bem construído. Como tenho estado a trabalhar nele nos últimos
dias, acho que marca um passo em frente. Bom, este foi tão bem recebido
pela crítica, que não sei que adjectivos vão usar para o próximo! Já
reparou que, com este livro, se fez a unanimidade em Portugal?
Não a unanimidade...
Está bem, O Independente diz sempre mal,
isso não é relevante...
De que forma é que vê a
relação dos Portugueses com África? É da África ainda portuguesa que
você fala neste livro... Como é que vê, hoje, a memória dos Portugueses
de África?
A situação dos colonos, que nos achávamos — e eram
— reaccionários, era muito complexa, porque eles tinham a sensação de
ser os pretos dos brancos daqui...
Brancos de segunda?
Ou isso. Trabalharam aquelas terras com muita
dedicação. Devia ser terrível andarem a lavrar a terra com bois e os
homens de colete com um calor insuportável, as mulheres com lenço na
cabeça, xaile... Não estou a falar ao nível das pessoas muito ricas, mas
ao nível do colono pobre. E há coisas espantosas, como o túmulo do Zé do
Telhado. É um túmulo espantoso. Depois, falo de personagens que se
distinguiram vindos do nada, como um que era soldado da Guarda
Republicana e que ficou podre de rico com alguns negócios... É disso
tudo que eu falo, da compra dos Bailundos cá de baixo, da maneira como
os chefes colaboravam com o negócio, dos cubos de gelo pelo rabo acima
para aqueles que não queriam trabalhar, dos enforcamentos que ainda vi.
Era muito brutal tudo aquilo, muito estranho para um portuguesinho
qualquer da Metrópole. Lembro-me de umas eleições de misses lá no
Ferroviário local. Pois, nesse mesmo dia, assassinaram a miss
eleita, a tiro... Era um faroeste cruel. Antes da primeira revolta,
houve uma chacina na baixa do Cassanje, mataram mais de mil
trabalhadores. O livro anda à volta destes pormenores, mas é evidente
que isto é só o enredo de base. O Picasso diria que a intriga é o prego
onde eu tenho os meus quadros, e o que me interessa é ao nível da
escrita.
Só?
Bom, tem que ter uma história, mas isso a gente
aprende nos americanos. Os romances 'paralisados', à francesa, é que
não...
Você fala dos americanos, sobretudo
dos 'seus americanos', como se eles tivessem inventado a arte do
romance. Mas você tem algumas histórias muito boas, e não são só os
americanos que sabem contar histórias... Antes dos seus americanos já
havia muita gente a escrever como você diz. Desde o princípio do
mundo...
Pois, talvez. Mas, voltando à conversa, as
inovações técnicas do Faulkner existem para servirem a narrativa que ele
está a contar, enquanto que, muitas vezes, as inovações técnicas do
Joyce são piruetas apenas... Do género: «Eu sou o Joyce, vejam como é
que o Joyce brinca com as frases, vejam esta construção, vejam como ele
sabe fazê-las bem...» Eu sou um grande admirador do Joyce, um leitor e
releitor do Ulisses, e até das diferentes edições, por causa dos
prefácios, mas há uma pirotecnia técnica que não está, muitas vezes, a
servir a história. Isso prende-se com aquela noção do Tolstoi, que
falava da arte do romance em termos de eficácia. Ele dizia que um bom
romancista era um romancista eficaz, aquele que não se sacrifica à
pirueta, à metáfora... O seu objectivo é a eficácia da narrativa.
Mas você tem diminuído aquelas
metáforas que usava a princípio...
É aí que reside grande parte dos erros dos meus
primeiros livros — eu tinha muito o desejo de mostrar como era capaz de
fazer imagens bonitas, bom... que eu achava bonitas, ou metáforas ou
não sei quê. Todo o livro é que tem de ser a metáfora...
E este novo livro é a metáfora de
quê?
De uma parte da nossa identidade. Os outros livros
também tenho tentado que sejam, sobretudo a partir do Tratado das
Paixões da Alma... Acho que os primeiros livros que escrevi são
fraquinhos, os outros a seguir são promessas agradáveis, mas acho que, a
partir do Tratado, os livros estão bem.
Sim, mas há referências permanentes...
As minhas opções é que são sempre as mesmas: a
vida, a morte, a ausência de amor, a incomunicabilidade. Sob esse
aspecto, tenho sido fiel. Mas todos vivemos com as mesmas obsessões. Por
exemplo, antes de vir para esta entrevista estive a ler os seus livros
de poemas, que tenho ali, e é curioso que, depois de passar para os seus
romances, que também tenho, as suas opções também são sempre as mesmas.
São sempre quatro ou cinco: a água, a luz, o céu, os lugares e o perigo
das paixões são coisas que aparecem com uma frequência imensa...
Mas há outro aspecto para além das obsessões. Por exemplo,
quando você fala de amor... Nunca há uma relação
nova que se inicia, há sempre fins de relação, restos...
Lembro-me do que o Columbano dizia: «não tenho fé,
mas tenho muita esperança». Eu acho que também tenho pudor em mostrar
isso, talvez por educação, por temperamento, mas, curiosamente, a
crítica espanhola e alemã acham os livros optimistas e divertidos.
Por que é que não há nunca esses
'começos' de amor?
Isso tem, talvez, que ver com a minha relação com
a morte e com a incompreensão que eu tenho perante o sofrimento. Quando
eu era interno de pediatria, estavam na minha enfermaria muitos miúdos
com doenças terminais. Não era bonito de se ver. Eu não me esqueço de
ver miúdos e miúdas de quatro anos a chamarem aos gritos por uma
injecção de morfina... Isto era comovente até às lágrimas, e era
desesperante a sensação de impotência perante o sofrimento de pessoas
que nunca tinham feito mal a ninguém. Era desesperante estar diante
dessa injustiça. Lembro-me de uma miúda que tinha uma leucemia com treze
anos e que se levantou e foi ao gabinete de enfermagem e, quando fui
ver, ela estava a chorar porque tinha uma leucemia... Só conheci a morte
muito tarde... Sou o filho mais velho de dois filhos mais velhos, os
meus avós não tinham cinquenta anos quando eu nasci, não havia mortos,
não havia nada, e, de repente, dou de caras com a morte nos hospitais.
Em primeiro lugar, foi muito bom porque poucas coisas têm realmente
importância quando se fala no sucesso. Talvez por isso esteja sempre
presente em mim o fantasma da morte. E os fantasmas de tudo, do amor, da
nossa própria morte. Acho injusto que o Bach, que é reconhecido só no
século passado, praticamente não tenha podido usufruir nada do seu
êxito! Acho que o Namora deve ter morrido feliz, era um escritor de
sucesso. Depois, acho injusto, até ao nível da literatura, que
certos escritores tenham sido esquecidos, como o Redol, tenho uma
grande admiração pelo Redol, não me atrevo a dizer que um livro dele é
mau, porque há ali trabalho de operário. Tenho uma grande admiração pelo
Redol porque era um escritor a sério e acho que é um bom exemplo para
nós todos que andamos a mexer nas palavras. Acho injusto o esquecimento
em redor do Carlos de Oliveira... Quem é que lê, hoje, Carlos de
Oliveira? A mim choca-me isto. Por isso é bom descobrir vozes novas,
como eu agora descobri o António Franco Alexandre, um poeta
extraordinário. Escrevi para o Publico sobre ele, que eu não sei
quem é, não conheço, não sei o que faz, mas parece-me um escritor de
grande qualidade.
Você parece o doutor
Cunhal a fugir às perguntas...
Gosto do Álvaro Cunhal, não acho que ele fuja as
perguntas... Aí está outro homem que eu admiro...
Você esteve próximo do
PCP...
Sabe?, eu gostava de ser do PC, mas, para mim, é
impossível. Se a estrutura do Partido não fosse tão vertical... gostava
de ser militante, sim... Há um lado eclesiástico do PC que me repugna um
bocado... A forte hierarquia, a ausência de debate aberto e alargado,
isso assusta-me um bocado. Eu li uma vez uma entrevista do Mário de
Carvalho em que ele explica por que é que é comunista, e pareceu-me
muito romântico... A ideia que tenho dele é que me parece um homem
extremamente bom, tem uma margem na política para o sonho, que eu não
tenho. Quase todos os homens políticos foram uma profunda desilusão para
mim, pelo menos aqueles que eu conheci pessoalmente...
Você é um homem
permanentemente amargurado, magoado, sempre em sofrimento, parece que
não tem momentos de alegria...
Então não tenho?! Eu acho que o facto de ser
hipercrítico me impede de grandes demonstrações de afecto. Mas, de
facto, não sou expansivo. O meu amigo Daniel Sampaio diz que eu tenho a
depressão do sucesso: o sucesso nunca me deu alegria, os editores mandam
livros meus acabados de sair, e eu nem os abro. Também, nunca li um
Iivro meu, porque me dá logo vontade de começar a corrigi-lo e a
emendá-lo, como até acontece muitas vezes com os livros dos outros. Dá
vontade de me atirar a eles, mas não é por maldade. No fundo, a nossa
opinião é sempre muito parcial, e temos tendência para repudiar tudo o
resto... E depois confundimos paixões com ideias. É muito raro a gente
apreciar um livro de um escritor de quem não gosta de dizer: «Eu não
gosto, mas é bom!» E acontece: eu não gostava do Vergílio Ferreira,
achava-o um tipo, enfim, um tipo de que eu não podia gostar, um
bocadinho para o estupor. No entanto... Ele tem livros mesmo bons, bons
a sério. Isto é verdade, e tenho que reconhecer. Há escritores de quem
não gosto, e tenho que reconhecer que são bons. E é-nos muito difícil
isto, a nós todos. Eu gosto do Camões porquê? Porque é da minha família.
Fernando Pessoa não é, por exemplo. Gosto da sensibilidade do Camões,
continuo a achar que ele inventou o português tal qual a gente o fala ou
sente. Por exemplo, o José Cardoso Pires adora a Peregrinação.
Eu gosto, mas... acho aquilo, enfim... Agora quanto à amargura... Eu não
tenho grandes depressões, mas tenho momentos de zanga, de desespero,
cada vez mais. O difícil vai ser, agora, passar estes próximos quatro ou
cinco meses sem escrever, porque aquelas coisinhas que eu faço para o
Público são puramente alimentares... Qualquer jornal que me pagasse,
eu fazia também...
Como é que você
encontra os temas para as crónicas?
Isso é um sarilho. Veja esta última que escrevi...
Aqui há uns tempos foi-me proposto fazer crítica literária. Não me acho
capaz de a fazer, mas apeteceu-me falar daquele livro que me tinha
tocado, os poemas desse António Franco Alexandre. Eu começo sempre por
dizer que me interesso pouco pela história da literatura portuguesa e
que os escritores portugueses me surpreendem, geralmente, pela negativa.
O Júlio Verne tinha um sistema engraçado... O gabinete dele era uma
grande confusão, tudo cheio de papéis, de cadernos, de estampas de
livros... Então, quando acabava uma página, punha-a debaixo do rabo para
não a perder. Os escritores portugueses deviam fazer isso para não se
perderem a si próprios... Há escritores que encontram uma fórmula que
fez sucesso e que optam sempre por aquele tipo de escrita. Parecem uma
fábrica de pastéis de nata! Mas a nossa relação com os livros é curiosa,
porque acabamos sempre por ir comprar um grande livro, um Simenon ou
parecido, à procura de uma certa atmosfera que, ao mesmo tempo, nos
irrita... Até os escritores que nós admiramos, sobretudo esses, nos
irritam. Irrita-nos aquilo que a gente vai procurar, é muito engraçado,
temos uma relação muito ambivalente em relação aos escritores de que
gostamos... Então, vamos à procura de uma coisa e queremos que eles
fizessem outra?! E depois dizemos «perdeu frescura», ou fomos nós que
perdemos frescura? Como é que trabalham os nossos olhos em relação a
eles? É muito complicado, até porque, quando a gente anda a trabalhar
com livros, são capazes de aparecer sentimentos próximos, muito próximos
da inveja, do ciúme, inevitavelmente. E é muito complicado lidar com o
sucesso, muitas vezes...
Como é que você lida
com o seu sucesso?
Acho que cada pessoa tem o direito a pensar a sua
realidade, durante algum tempo, como se fosse a única no mundo. Às
vezes, há pessoas que vão à televisão, ao seu programa, e que fazem umas
figuras... De resto, tenho reparado que os escritores com mais talento
são os mais modestos. Das pessoas que lá tem levado e que eu tenho
gostado de ouvir, as que têm mais talento são as mais modestas e as mais
abertas. Às vezes tem a ver, só, com a honestidade. Há aí um homem, o
Vasco Graça Moura, que não gosta de mim nem eu gosto dele como pessoa,
mas parece-me um tipo honesto. Eu acho que ele parece um homem honesto,
bom poeta, bom escritor, e a tradução que ele fez do Dante, e que Ihe
dá o prémio, é muito boa... Quer dizer, a tradução pareceu-me excelente,
do meu ponto de vista... Traduzir poesia é muito difícil, é tramado.
Olhe, o Cavafy traduzido pelo Sena é uma merda... Ele não era lá muito
bom tradutor: traduziu as Palmeiras Bravas, do Faulkner, e O
Velho e o Mar, do Hemingway, de uma maneira... Não percebeu nada. E
depois faz aquele romance que é um pastelão e que a malta gosta de ler,
Sinais de Fogo. Mas, também, a malta também gosta de ler o Mau
Tempo no Canal, que parece uma sopa de pedra! E nós temos excelentes
romances, Casa Grande de Romarigães, que é uma delícia de
romance, Finisterra, Barranca de Cegos, O Delfim, por exemplo,
etc. Mas há mais, como o Casas Pardas... Não somos assim tão
pobres quanto isso... O Que Diz Molero, quer queiramos quer não,
é um livro muito engraçado, abriu muitas portas. É um livro muito
engraçado...
Continua a escrever,
dias inteiros?
Catorze ou quinze horas por dia, sábados e
domingos, sempre ou quase sempre. Todo o tempo me faz falta, até as
horas das refeições, porque, neste momento da minha vida, o trabalho
é-me cada vez mais importante e me leva a corrigir, a corrigir, a
corrigir... Aquilo que acaba por ser publicado é aí um quinto da
primeira versão.
Faz muitas versões de
cada livro?
Faço duas à mão, primeiro, e depois aí umas três,
quatro ou mesmo cinco já em dactilografia, mas sempre a cortar. Havia
escritores que acrescentavam: Camilo, Proust... Eu tiro, tiro, tiro...
O que é que gostava que
acontecesse a este novo livro?
Que fosse feliz, claro. Que fosse o melhor. Aquele
homem, o Cabrera Infante, o autor de Três Tristes Tigres, o
Cabrera diz que a gente escreve não para ser lido, mas para ser
escrito... Não sei... Para mim, agora, a opinião fundamental é a do meu
agente, que me diz sempre na cara aquilo que pensa e que é o primeiro
leitor. O livro não vai sair cá em Portugal logo, até porque eu acho que
não há público para ler um romance por ano em Portugal. Tenho de mandar
o livro para o agente e para os editores estrangeiros com quem já tenho
o contacto feito, e, depois, aqui em Portugal se verá... Até porque este
livro [Manual dos Inquisidores]
continua a vender bem e, portanto, vou deixá-lo viver...
Só vai publicá-lo no
Natal?
Sim. O Manual dos Inquisidores esteve um
ano e tal à espera de ser publicado aqui. Saiu primeiro em França, as
outras editoras atrasaram-se com a tradução, vamos ver o que vai
acontecer... Primeiro, é preciso eu estar satisfeito, e eu já estou
satisfeito com ele, mas nunca me importei que não gostassem dos meus
livros, desde que o façam com boa-fé. Nunca respondi a nenhuma crítica
porque há pessoas que não gostam de um livro, escrevem isso mesmo e o
fazem de boa-fé... Isso não me importa. Agora, quando as coisas são
feitas com burrice e com má-fé, isso choca-me. A única vez que falei
sobre um livro foi na primeira crónica do Público, sobre um livro
do Mário Cláudio, que é uma pessoa que eu estimo e que respeito e que
foi completamente crucificado por uma crítica ao Tocata para Dois
Clarins, e eu achei tremendamente injusto. Foi crucificado por toda
a parte... No Expresso, no Independente, até no Diário
de Notícias, onde uma menina qualquer, uma patetinha, escreveu as
maiores burrices sobre o livro, sem ter havido um esforço para entender
o trabalho daquele homem... Eu acho que é um livro notável, do meu ponto
de vista...
Os escritores
Portugueses são mal tratados em Portugal?
Não... Eu acho que não tem relevância uma crítica
boa ou má dum senhor qualquer ou da menina não sei quantas... Acho que é
mais relevante o Eduardo Prado Coelho escrever sobre o livro, mesmo que
não goste. Porque tem outra inteligência, tem outra maturidade. Ou o
Eduardo Lourenço, ou o Óscar Lopes, com quem eu muitas vezes estou em
desacordo, mas não interessa. Tem um peso de honestidade e de seriedade,
quer a gente queira ou não. Nisso, o Jorge de Sena tinha razão: quando a
crítica é feita por um escritor, ele está a falar de qualquer coisa que
conhece de dentro e, então, pode dizer coisas muito mais inteligentes.
Por exemplo, o José Cardoso Pires seria um excelente crítico, se
quisesse...
Porque é que não há
muitos escritores a fazer crítica em Portugal?
No estrangeiro, há... Eu não me importava nada de
fazer crítica, mas só a livros de que gostasse. Penso que é uma questão
de preço; os escritores ganham tão pouco em Portugal que, se fossem bem
pagos, faziam com certeza... Olhe, ninguém discute o Prémio Nobel da
Física, mas toda a gente se acha capaz de discutir o Prémio Nobel da
Literatura, como se a literatura fosse uma coisa simples e acessível...
Mas romances toda a
gente lê, pode ler, enquanto que a investigação em física ou biologia...
Isso é verdade, mas vacinas toda a gente
toma! Todos nós temos opiniões sobre pintura ou sobre música, ou não sei
quê, e saber, de facto, de literatura é muito complicado. Eu ainda estou
a aprender... Então, um livro bom, em que não se vêem as costuras, nem
os parafusos, nem as porcas, a gente tem que ler duas e três vezes para
ver onde é que o escritor hesitou, onde é que ele teve problemas... A
gente vê um livro mau, por exemplo, de um homem de que eu gostava multo,
como o David Mourão-Ferreira... Um Amor Feliz, do meu ponto de
vista, é um mau romance. Quando Ihe aparece uma dificuldade técnica, faz
a pirueta de um poema... Bolas, quer dizer, isso é uma das razões por
que eu acho aquilo um livro que não convence nada. De cada vez que
aparece um problema, o narrador dá uma cambalhota, ou com uma imagem,
ou com um poema, ou com uma carta. Isso, não... Olhe, por exemplo, o
Fitzgerald, que eu acho um excelente romancista... Quando ele tem uma
dificuldade técnica, torna-se muito mais precioso, desce ao pormenor do
pormenor, fica uma filigrana... O Grande Gatsby é um romance
quase perfeito, não é? A gente vê grandes romances, como, por exemplo, o
Debaixo do Vulcão, que ninguém lê, não se fala nele... O Nuno
Bragança, num outro plano, quando começa a ter problemas com A Noite
e o Riso, lança-se numas piruetas de estilo... Porque se vê logo que
ele estava com problemas na escrita do livro... Quando li a primeira
vez, achei deslumbrante, foi uma descoberta! Depois, comecei a ler
aquilo mais vezes e acho que, sem ele querer, acaba por ser responsável
por muita merda que se fez depois, com uma série de indivíduos que
desataram a escrever porcaria como se fossem modernos.
Quando é que você sente
que um livro seu está terminado?
Exactamente da mesma maneira que o Freud dizia que
uma análise está acabada. Uma análise está acabada quando eu e o
paciente estamos, ambos, contentes... A certa altura, o livro já não
aceita mais trabalho, é nessa altura que eu sei que já está acabado. Já
escrevi livros suficientes para sentir isso. Eu, uma vez, vivi numa casa
que não gostava de mim, o que, de si, já era horrível, era uma casa que
me empurrava para a rua constantemente... O romance também faz isso
connosco. No Manual queria pôr um travesti, à força, como amante
do velho ministro. Andei para aí atrás dos travestis e a falar com eles
— é um mundo espantoso, de uma crueldade e uma dor infinitas — e,
depois, queria meter o travesti e não conseguia! Acabou por entrar a
tal Milá... Isso é muito curioso, porque o romance se transforma num
organismo vivo, com regras próprias...
É muito lento a
escrever?
Sou, o que não é virtude nenhuma. Mas eu trabalho
todos os dias... Este país é que é muito preguiçoso. Eu acho que ele é
preguiçoso, é um país que vai para os bares, para os cafés...
Você não vai para os
bares?
Eu já não bebo, e os bares são coisas
tristíssimas. Houve uma altura da minha vida em que eu andava muito com
o Dinis Machado e com o Artur Semedo, era um grupo de pessoas engraçadas
e divertidas. E eles bebiam, íamos para o Procópio, mas ao fim de uma
hora estava farto, já conhecia as pessoas todas... Aliás, eram sempre as
mesmas em todos os sítios... Mas eu sou uma pessoa fácil de viver porque
não gasto muito dinheiro e também porque não me mexo muito...
Por mim, gosto de estar
em casa, faço tudo para não sair...
Essa é a vantagem do meu trabalho, de se ser
escritor...
Como é que você passa
as suas noites?
Trabalho, leio, às vezes vejo televisão, mas
pouco... Estou com os amigos muito raramente. Com o Daniel Sampaio,
almoço uma vez por mês com dia marcado, é uma tradição... Com o Ernesto
Melo Antunes, também... Vejo mais o Zé
[Cardoso Pires], de facto. Mas eu gosto de
poupar os meus amigos, e com a idade a gente vai vendo cada vez menos as
pessoas. Vejo as miúdas uma vez por semana, e a gente descobre que elas
são diferentes de nós, que não são nossas. É espantoso, as filhas
prolongam coisas nossas. Uma das minhas filhas tem as mãos iguais às
minhas. Mas são outras pessoas completamente diferentes, isso é uma
descoberta maravilhosa, ver crescer os filhos...
Não se sente sozinho?
Não,
não me sinto sozinho... Tenho uma vida afectiva agradável, não me sinto
sozinho... Antes, sentia-me horrivelmente sozinho, mas, de há uns anos
para cá, não tenho sentido nada disso... Estava a lembrar-me do poema de
Carlos Drummond de Andrade acerca do envelhecimento, um poema feito aos
quarenta anos. O começo é assombroso: «Talvez uma sensibilidade maior ao
frio, desejo de voltar mais cedo para casa...»
Revista Ler
Inverno de 1997

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