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livros
A História do Hidroavião, 1994
3 artigos
por
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Paulo Ferreira
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Sara Silva
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Sílvio Mendes
Paulo Ferreira
O deus inteligível
Dizer que António Lobo
Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante
quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos
evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não
consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha
tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se
possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu
ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em
dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.
Contrariando o que vinha a
ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O
que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem
uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e
ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do
amigo Vitorino.
Contudo, ao lermos o texto,
percebemos que o mesmo atinge jovens e graúdos. É um daqueles livros que se
poderá contar (não ler textualmente) ao público mais infantil, mas que os
adultos poderão repousar o olhar sem prejuízo de estarem perante um texto
escrito para crianças – porque de facto este não é um texto para crianças. O
mesmo poderá ser lido tanto aos 8 como aos 40 anos, tirando de cada uma das
leituras as interpretações que o entendimento assim o permita e consiga.
É um livro inteligente pois
claro, onde Lobo Antunes está presente de corpo e alma, ou de estilo e universo
se quiser. Existe África, e Lisboa também está lá, ou vice versa. Existem
relações humanas à flor da pele e as memórias do médico que esteve no Ultramar,
borbulhando intensamente; temos as imagens (únicas) de Lobo Antunes e até as
marcas repetitivas de oralidade do autor.
Contando a história de dois
amigos vindos de África, (“Como é Lisboa, Artur?”), com a nostalgia daquele
continente a morder-lhes a pele, Lisboa é o cenário para evasão de outro mundo
que não aquele que fora cadinho de mais de 40 anos de memórias, onde um deles
“foi motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes”. Comovente o
retrato humano dos dois personagens, onde Lisboa serve apenas para retratar a
dimensão triste de dois homens arrancados brutalmente do seu útero.
Face ao livro, e não ao que
aqui se escreve, sugiro-lhe pois que largue este jornal e corra. Para a livraria
mais próxima; não espere pelo local mais confortável para folhear a obra. Abra-a
ali mesmo e leia. Traga-o para casa. Aconselha-se releitura e repetição como se
de uma oração se tratasse.
Título: A História do Hidroavião
Autor: António Lobo Antunes. Ilustrações de Vitorino
Editora: Publicações Dom Quixote
Nr. Páginas: 30
por Paulo Ferreira
Jornal de Vila Franca
16.11.2005
topo
Sara
Silva
«Uma
comovente história de amor e saudade por África e uma estranha viagem de
hidroavião sobre Lisboa, ilustrada por um músico, Vitorino. António Lobo
Antunes no seu melhor.» (1998) As palavras citadas encontram-se
registadas na contracapa de A História do Hidroavião e parecem resumir o
núcleo semântico de toda a narrativa. Acrescentaríamos, porém, a essa
“história de amor e saudade” a palavra trágica, porque é, de facto, de
um retrato profundamente trágico, que redunda numa metáfora de sabor
amargo, que se trata.
O tratamento ficcional de problemáticas atinentes à descolonização
portuguesa constitui, a nosso ver, um topos da produção literária de
António Lobo Antunes. A verdade é que o autor do recém-editado romance
Que farei quando tudo arde? escreve, frequentemente, sobre Portugal de
um modo pessimista e desencantado, castigando um passado para muitos
marcado, de forma indelével, por dissabores, nunca superados. (É o caso,
por exemplo, de As Naus, história(s) feita(s) de um pedaço relevante da
História de Portugal do séc. XX, por nela se prefigurarem diversos
relatos de vidas que partilham o movimento de retorno à Pátria, fruto do
processo de descolonização sequente ao 25 de Abril de 1974).
Em A História
do Hidroavião, o espaço a partir do qual se equaciona o presente em face
do passado é, mais uma vez e à semelhança do que ocorre, por exemplo, na
obra As Naus, Lisboa. A centralidade da capital nesta narrativa só pode,
no entanto, ser encarada num plano físico, já que o protagonista da
diegese - um homem «que tinha chegado de África (...)», após quarenta e
sete anos, «... sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um
baralho de cartas...» (Antunes, 1998: 2) -, situado em Lisboa, invoca
constantemente África, fazendo desta o cerne espacial da história,
através de conjunto de viagens sonhadas, interiores e íntimas. Aliás, e
em oposição às referências evocativas a Luanda, a imagem de Lisboa que o
narrador oferece é a de uma cidade malvada, feia, tétrica, suja e nada
hospitaleira. Trata-se, portanto, da recriação de um cenário disfémico,
do qual sobressaem barracas, caldos, «cachorros vadios sempre à cata de
sobras» (idem, ibidem: 16) e «os pântanos do Tejo» (idem, ibidem: 12).
Misturam-se, assim, dois espaços, Lisboa e Luanda, correspondentes,
respectivamente, ao presente e ao passado. E é neste sentido que a uma
sobrevivência precária, miserável, real e presente se contrapõem
vivências passadas, luminosas e aprazíveis. Por isso, talvez, o
protagonista, representante do reverso humano do império Português,
pareça não buscar sequer um sentido para a vida, porque a Vida já foi,
em África.
A quebrar ligeiramente o desencanto que emana do texto, parece estar o
hidroavião. Se, à primeira vista, a sua aparência - «...era um esqueleto
de morcego, com a pele de lona, a desfazer-se debaixo da surpresa das
gaivotas...» (idem, ibidem: 2) - não ilumina a vida dos retornados
habitantes de Cabo Ruivo, no desfecho da narrativa, este meio simbólico
acaba por proporcionar a evasão misteriosa do homem, que vivia a jogar
cartas, e do seu companheiro cego, que, lapidar e ininterruptamente,
indagava: «- Como é Lisboa, Artur?» (idem, ibidem: 7, 8, 9, 12).
Seguindo as palavras de José António Gomes (1997: 81), «Relato de sonhos
“por percorrer” e desejos por realizar, de que a imagem do hidroavião
abandonado é uma metáfora, o texto de Lobo Antunes detém-se na descrição
de um ambiente suburbano, das personagens e seus devaneios, abordando
cenas da vida de um grupo de retornados de África, gente dilacerada pelo
corte forçado com o passado, com uma terra de excessos e abundância: “-
Como é Lisboa, Artur? (...) - Lisboa é esta infelicidade, amigo.”».
A título conclusivo, e tendo em conta a densidade psicológica e/ou a
complexidade dramática das personagens, bem como as portas que o
desfecho da diegese abre à fantasia - Artur e o Cego parecem ter voado
de hidroavião e ter desaparecido em direcção a Luanda -, A História do
Hidroavião é, em nosso entender, um conto exemplar, um testemunho vivo
de que, para António Lobo Antunes, o que interessa verdadeiramente «são
pessoas que tenham uma espessura de vida.» (Antunes, 1994)
por Sara Silva
em
Terra Nova 105 FM
não datado
topo
Sílvio
Mendes
E se o Lobo aparasse as garras para não arranhar a
interpretação dos leitores mais novos? Concebesse uma crónica afiada nas asas,
pronta a levantar voo, via sonho, pronta a descolar num leque de leitores,
aeródromo, mais extenso? E, na iminência das ilustrações, chamasse outra vez o
lápis
deste amigo?
Imaginar a pena de António Lobo Antunes num
universo de literatura infanto-juvenil (ou para maiores de 10, ou para todos) é,
à primeira vista, tão surpreendente como encontrar A história do Hidroavião
a espreitar numa prateleira arrumada em preços baixos. As asas de um avião,
desenhado pela pureza artística de Vitorino, a acenarem ruidosamente
(asas por momentos braços). Leva-me contigo se ainda crês no conceito de voar.
E, para sorte do desejo, ainda há muito quem acredite em tal recurso de estilo.
Dizia eu, tão inesperado como encontrá-la – qual anónimo no metro – sem saber de
onde vinha, se vinha, porque ia, que existia. Mas esta história, ao contrário
dos desconhecidos, vinha, vinha mesmo, existia, vinha para ficar.
E, mesmo assim, por mais penoso e difícil que pareça, a imaginação dorme e
acorda na realidade – na inevitabilidade de um texto delicioso.
Em A história de um hidroavião, Lobo Antunes (nota: futuro Prémio Nobel
da Literatura) semeia o néctar da lucidez, de como a vida dos cruéis obstáculos
pode ser tão bem contada. Raízes de África (haverá raiz mais instintiva na sua
prosa?) numa Lisboa demasiado descolorada pela vontade de fuga, de regresso, no
direito da árvore voltar à raiz, do homem cego a tactear a luz do útero. Numa
Lisboa que nunca pertence a quem não a deseja. E, no caso extremo da personagem
cega que ilumina o texto, a quem nem a conseguiu ver.
A história do Hidroavião é uma crónica maior – por (também) ser para os mais
pequenos, desconfio. É a síntese implacável da incapacidade humana em adaptar-se
(conformar-se) a destinos afastados do coração, da trágica obsessão por nunca
desistir, mesmo que tal signifique perder-se no azul, agarrado a um balão de
sonho.
Lobo Antunes ajustou a sua sensibilidade às
ventoinhas de um hidroavião imprevisível.
Vitorino,
o indomável cantautor, deu tons, linhas e cor à imprevisibilidade do aparelho. O
hidroavião e a sua história são a prova irrefutável de que qualquer carcaça,
desde que sonhadora, tem como génese um vírus de voo.
por Sílvio Mendes
Rascunho
não datado
topo
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