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A
Morte de Carlos Gardel, 1994
3 artigos
por
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Hege Steinsland
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Nuno Barbosa
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Sílvio Mendes
Hege Steinsland
Magistral história sobre o vazio, pelo
mais importante modernista português
A Morte de Carlos Gardel é o
terceiro livro da trilogia do português Antunes traduzido para norueguês...
Ler o romance é como entrar num buraco negro, onde apenas se encontra doença,
morte, ódio, cinismo e amargura. Como nos outros dois romances, a acção
localiza-se num bairro de Lisboa do nosso século
[séc. XX].O
tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. o
protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, (...) é incapaz
de amar, amargurado e cínico, um rosto sem feições. A sua única razão de viver
é o tango de Carlos Gardel. Nunca há romantismo ou calor humano entre as
personagens, penas irritação e momentos de sofrimento sem fim...
... O que mais fascina nos romances de Antunes é a
linguagem. É espantoso como ele consegue tornar o romance claro e nítido,
mesmo abordando vários acontecimentos no mesmo parágrafo... Os pensamentos
saltam elegantemente de um plano temporal para outro. Outras frases são
utilizadas repetidas vezes. É uma forma de stream-of-consciousness... Além da
corrente de pensamentos, que flui naturalmente, os narradores fazem associações
que conferem ao romance uma expressão poética e rica em imagens...
De facto, a leitura deste romance é uma labuta,
devido ao estilo labiríntico e ao conteúdo triste. Mesmo que o tom cínico e
sombrio da descrição das personagens não seja do meu agrado, fiquei
impressionado com a obra de um artista linguístico, um autor modernista, que é
mencionado pelos críticos como digno do Nobel da literatura...
A mensagem deste romance pode ser descrita como
dever amar e ser amado com respeito, mesmo que a história da vida das
personagens conte o contrário: a frieza, o sentimentalismo e o vazio.
por Hege Steinsland
1995
Noruega
(citado do site do
Instituto Camões)
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Nuno Barbosa
Comentário - A Morte de
Carlos Gardel
"Deus me livre de gostar
das pessoas."
A frase é da pertença de
Joaquim, uma das personagens deste livro. Poder-se-ia afirmar que qualquer uma
das figuras que desfilam perante o leitor não o faz.
Não é que elas até não
queiram amar, o facto é que não o são capazes: "a minha mãe e eu não nos
abraçávamos, que patetice, não era um filme, era a vida tanto quanto me lembro
não nos abraçámos nunca, se era preciso um beijo encostávamos a bochecha uma à
outra, beijávamos o ar e ela abria logo uma caixinha de tartaruga e recompunha a
maquilhagem, ao meio-dia."
Sempre expectantes de algo
mais, procuram agarrar-se a qualquer coisa, a qualquer foco de aparente
conforto, a uma promessa débil de companhia, de modo a combater o que realmente
mais os aterra - estarem sós, viverem sós, acabarem sós - acabam por preencher o
vazio com o que têm mais à mão: "e pouco me importa a opinião da Dona
Silvina e da minha prima, e das minhas amigas, sobre se o Álvaro gosta ou não
gosta de mim, pouco me importa que me supliquem que me separe dele e, para ser
completamente sincera, pouco me importa se me ama dado que (...) não suporto a
ideia de não encontrar ninguém na sala mesmo contrariado, mesmo sem fazer amor
comigo, mesmo sem conversar, mesmo sacudindo-me quando venho do quarto, não
suporto a ideia de uma única toalha na banheira, de um único prato na mesa, de
uma única escova de dentes no copo."
O que resta ao ler a palavra
FIM é uma incómoda sensação de frustração, visto não haver nem uma situação em
que a amargura não se imponha, em que a dor não esteja presente, em que o
cansaço não seja tónica dominante.
Assim, necessariamente, não
é de estranhar sermos confrontados com afirmações desta natureza: "o casamento
no fundo é isto, duas pessoas sem alma para cozinhar e nada para dizer
partilhando peúgas em detergente e frangos de churrasco".
A ausência de um sentimento
forte e vivificador, de uma união que surge porque as pessoas que se interessam
e não por interesse, leva inevitavelmente à fadiga, ao enfartamento eventual do
outro e ao suplício da convivência, sintomático na procura de outros
(salvaguardando mais ou menos a permanência do poder sempre regressar a), no
afastamento gradual e, muito importante, na indiferença.
Esta sim, a verdadeira
assassina, a causa da mágoa, a operadora da transformação das pessoas em algo
como objectos, desinteressantes, monótonos, prescindíveis até: "- Vai-te embora
desta casa como quem decidiu mudar os sofás ou as cortinas das janelas".
Afinal, o sofrimento é a
condenação destes seres fracos, incapazes de revolta, de uma insurreição cobarde
ou meramente projecto ("eu a feri-la ferindo-me"; "apetecia-me bater-lhe como se
me batesse"), sem a vida, a força, ou a pujança de um Carlos Gardel ("e o Álvaro
limpava um disco com a escovinha, colocava-o no prato, premia um botão, Carlos
Gardel começava a cantar, e ele - Se eu fosse capaz de um grito assim era
feliz"), sendo afinal eles quem o assassinavam e não a queda do avião em que
seguia.
António Lobo Antunes,
implacável, dá-nos a conhecer uma família e os que em seu torno gravitam, num
retrato árido e cruel, que leva o leitor, pelo menos, a repensar as relações
entre os homens num Portugal prestes a entrar no século vinte.
Fica, então, o
desânimo/pessimismo (?) do autor como alerta, para que não se surpreenda se lhe
suceder presenciar o mesmo que Cláudia: "e nisto vi a mulher da moradia ao lado,
uma vivendinha com saguão e um pátio de cimento, encostar, cantarolando, uma
escada à parede, trepar os degraus, alcançar o telhado, e no instante em que o
meu pai surgiu na cancela, agarrado à muleta, com a calça da perna que não tinha
dobrada para cima e presa à virilha com uma mola de roupa, a mulher, muito
alegre, inclinou-se para a frente, abriu os braços, e sem uma palavra
despenhou-se no pátio."
Nuno Barbosa
citado
daqui
[não datado]
topo
Sílvio Mendes
Espanto, fascínio. Das palavras mais
barrigudas, porque compostas por justa-precisão.
É justo que as gaste em elogios às garras do Lobo. Associadas a este
António é impossível que se gastem, na verdade. Numa verdade que não se
impõe, nem na pretensão de sonhar imposições, de tão humilde que é, a
verdade, tanto que nem chega a ser certo que não nos minta a todos.
Renovam-se a cada estucada selvagem da pata do escravo literário,
escravo livre, mas escravo, linha a linha, descarrilada ou nem por isso,
verbo a verbo, na conjugação de espinhos e de lanças.
Espanto e fascínio mas sem doçura. Vida
dentro de cabeças que a perdem sem saber. Vida a marcar passo nas
árvores de Lisboa, no barco que avança sobre o Tejo, vida que avança
sobre o escuro, para a morte, vida que pára, parada até à morte. Não
dócil, não doce e, parando, livre. A morte de Carlos Gardel não
sei o que é. Porque ele está vivo, como é sabido, os aviões não caem e,
se caíssem, não seria para o lado terrestre. A lei da gravidade nasce
invertida para os que voam. E, portanto, a morte de Carlos Gardel (o
maior cantor de tangos de todos os tempos!) só pode ser isso, uma órfã
das coisas que não são.
Entre uma homenagem (disfarçada? assumida?
qual homenagem qual quê? o Tejo é uma grande lágrima de um só homem) ao
grande cantor da brilhantina no cabelo e uma Lisboa sem pele, uma Lisboa
que só vive dentro de cada dor, na esfera do inalcançável sentimento de
cada ser humano, estaciona esta obra de António Lobo Antunes.
Dito por não saber o que é, ainda não, nunca saberei o que é. Obra
inadaptável para qualquer outro formato (impossível filmar o pensamento,
impossível cantar a perna que balança, o pedaço de perna nu entre as
calças e as meias, enquanto os braços agarram o jornal), onde nada é
externo, apesar dos prédios, das árvores, da descrição do Tejo e dos
palhaços de porcelana, apesar dos nomes de ruas, das espécies de
verdura, tudo é memória, tudo vive dentro. De cada abraço falhado por
falta de coragem, de cada canção de Gardel, do Livro.
Por una cabeza, Milonga
Sentimental, Lejana Tierra Mial, El dia que me quieras e Melodia de
Arrabal – cinco celebrações de alma do mago de
Buenos Aires - dão nome e timbre e luz e drama e trovões de demência e
ternura e sal e bico de pássaro (não pares de cantar, por favor) aos
cinco capítulos. Dentro deles (sempre dentro, nada é externo) há a
personagem, esquecida da vida, como um corpo esmagado pela cabeça
demasiado pesada, que só encontra o nascer do sol num disco de Gardel
(homenagem disfarçada ou assumida?), volume máximo, vizinhos a
barafustar com vassouras contra a parede, contra o chão e contra a
sanidade. E depois, e antes, e sempre, a morte de um rapaz como
epicentro – a morte dos que ficam sem saber viver. O combate das emoções
às escuras. Um apaixonado por Gardel e outras tantas que nem tanto.
Sempre num discurso de dentro, em primeira pessoa, em várias primeiras
pessoas que se cruzam no tempo numa convulsão de memórias e emoções e
sensibilidades. Para cada uma, um por do sol diferente. A vida não lhes
foi prometida com as mesmas cores. E a morte, a vida, um livro cru, na
asfixia das páginas.
«Não estou a ser cruel no livro, estou a dizer como é», afirmava
Lobo Antunes ao Público, em Abril de 1994. E esse “dizer como é” fica
atravessado na ressaca de querer ler mais. Espanto, fascínio – mas dói.
por Sílvio Mendes
em
Rascunho
não datado
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