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A Ordem Natural das
Coisas, 1992
1 artigo por
-
Peter Ephross
Peter Ephross
Na primeira metade do
século XX, escritores como Viriginia Woolf, William Faulkner e James Joyce
elaboraram difíceis obras-primas com narradores à deriva e mudando as
sequências temporais. Depois da Segunda Guerra Mundial, este método de escrita
caiu em desuso, mas um romance português recentemente traduzido para inglês
faz homenagem a essa mesma técnica – e insere uma boa dose de um realismo
mágico.
Em A Ordem Natural das
Coisas, António Lobo Antunes traça o complexo fado multi-geracional de duas
famílias que são assombradas pelos seus passados. O livro abre com as divagações
nocturnas de um homem de meia-idade quando se deita na cama ao lado de uma
mulher diabética, mais nova. Torna-se claro que não se trata de uma relação
fácil entre ambos. Como pateticamente o homem diz, “sempre que falo de mim,
encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas
escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por
me calar”.
Nos capítulos seguintes, a
narração é tomada por alternadas falas de um homem amargurado que envelhece, e
um oficial do exército que é preso e torturado. E isto tudo na primeira parte.
Os capítulos posteriores apresentam-nos uma prostituta e o seu chulo, e uma
menina, filha ilegítima de um pai que a mantém trancada. O escritor não narra
exactamente assim, não é fácil encontrar o trilho à intriga no meio de um
emaranhado de narrativas. Quando o interlocutor salta, abruptamente, a meio de
um parágrafo, o tempo também se desloca, levando o leitor através de várias
décadas e desde a Lisboa actual até à África colonizada (a relativa obscuridade
da história portuguesa é um obstáculo adicional). Apenas nas cerca de 50 páginas
finais poderá o
leitor mais atento
capaz de reunir as peças do puzzle e construir a teia que apanha as principais
personagens.
Porém este romance não se
faz pela intriga, pela trama, pelo menos no sentido tradicional; e os leitores
não preparados para esta luta não se sentirão com vontade de ir além das
primeiras 75 páginas. Então porque vale este livro o esforço? Porque tal como
nos clássicos modernistas, as ideias e a linguagem – sim, mesmo numa tradução! –
fazem deste percurso surreal uma viagem pelos labirintos da mente humana.
Antunes possui uma habilidade excepcional de descrição, tal como quando comenta
a sensação de espera que uma dose de Valium surta efeito: “sinto um ornato de
sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins
e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas”. De igual modo
descreve com muito à vontade as futilidades do dia-a-dia quotidiano, o
despropósito das idas às consultas com o médico, em que se esquece de pagar a
viagem do táxi, ou os concelhos do médico incoerentes, e os momentos distintos
das nossas vidas que nos define – ou na verdade nos surpreende.
Como as criações
atormentadas de Faulkner, as personagens são oprimidas pelo seu próprio passado
– seja o fardo de uma falácia pessoal, como relações extra-conjugais, seja a
opressão da crueldade política e a vida na prisão. Como diz uma das suas
personagens, “Não, não proteste, não me censure, palavra de honra que faço os
possíveis e contudo, é assim mesmo, a memória tem o seu mecanismo próprio, o seu
ritmo, as suas leis, os seus caprichos”. O que sobra às pessoas depois do
resultado das suas batalhas com o destino, argumenta Antunes, é uma história que
elas devem tentar aceitar, mesmo que isso seja, em última análise, impossível.
(opinião escrita por ocasião da tradução para o
inglês do livro, The Natural Order of Things, edição Grove/Atlantic,
2000, EUA)
por Peter Ephross
05.04.2000
City Pages
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]
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