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Boa Tarde Às Coisas
Aqui Em Baixo, 1985
9 artigos
por
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Agripina Vieira
- Belém
Barbosa
-
Carlos Eduardo Ortolan Miranda
-
Cidália Alves dos Santos
-
Denis Leandro
-
Federico Mengozzi
- Guesa
Errante
-
Manuel Gomes
-
Marcelo Pen
Agripina Vieira
Angola, o regresso
Angola de novo em António Lobo Antunes. Com
uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um
romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e
mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de
90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde
Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso
singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana,
Angola.
O título, extraído de um texto de Enrique
Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde
logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud,
“Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm
a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu
poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar
que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é
criada e que por vezes a linguagem mostra-se incapaz de reproduzir os
objectos e o mundo que nos rodeia. Ao longo do texto, vamos
reencontrando insistentemente essa preocupação com a palavra, que leva
algumas personagens a questionarem-se vezes sem conta “será que remendo
isto com palavras ou falo do que aconteceu de facto?”, sabendo de
antemão que, ao Serviço – para o qual trabalham – como à generalidade
das pessoas, apenas interessa a versão mais favorável dos
acontecimentos. Por analogia, esta citação chama igualmente a nossa
atenção, para o trabalho do próprio escritor, já que ele é, por
excelência, o grande obreiro das palavras, particularmente este autor.
Com efeito, esta problemática ganha uma outra dimensão quando falamos da
obra de António Lobo Antunes, o seu trabalho com a língua é
particularmente notável. Os caminhos da escrita por ele encetados na
década de setenta conduziram-no até este romance. Um texto de uma grande
depuração e rigor, onde cada palavra foi pensada e escolhida pela força
das imagens que à sua volta irradiam, convidando o leitor a penetrar no
universo perturbado e perturbante de homens e mulheres comuns, sem
grandes defeitos nem virtudes particulares, que vêem as suas vidas
manipuladas e destruídas por uma máquina institucional que nem tentam
contrariar.
Situando os acontecimentos narrados no
período da pós-descolonização, é ao espaço que cabe o papel fulcral da
organização diegética. Com efeito, é Angola que vai unir Seabra,
Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares (funcionários governamentais
portugueses, agentes dos Serviço, ou militares) e Mariana (a mestiça
angolana), unificando dessa forma a trama do romance. Os destinos dos
agentes de espionagem, homens simples e anódinos, nos antípodas do
herói, estão tão marcados quanto os dos toiros lidados na praça situada
frente aos escritórios do Serviço no Campo Pequeno, destinos que se
confundem e se fundem de tal forma que cada nova entrada de toiro na
arena coincide com o aparecimento de um novo agente para substituir
aquele que antes de si falhou – “um segundo toiro idêntico a mim” nas
palavras de Seabra. No escritório são “lidados” pelos superiores
hierárquicos: “ao confortar-me o ombro o director colocou a fitinha em
mim, o responsável do oitavo andar quando palpei o osso, quando mugi/ -
Tem comichão Seabra?”, as páginas com as ordens de serviço
metamorfoseiam-se em trapos coloridos que os espicaçam, “os bicos de
caneta que em vez de sublinhar parágrafos (…) incomodavam a garupa”.
Cada livro veicula focalizações diegéticas
diferentes, narrando os acontecimentos referente à viagem de um novo
agente a Angola, viagem condenada à incompletude porque sem regresso “da
mesma forma que nenhum toiro torna à camioneta em que veio”. Enquanto
que nos dois primeiros livros, surge com evidência um ponto de vista
dominante, respectivamente o de Seabra e o de Migueis, no terceiro livro
o leitor vê-se perante uma pulverização de olhares e de vozes
narrativas, não só os do agente de espionagem, Morais ou Borges – (o
leitor nunca saberá a verdadeira identidade do terceiro agente uma vez
que lhe entregaram “um passaporte com outro nome”), mas igualmente a dos
membros da coluna militar que sucessivamente vão tomando a palavra dando
conta da sua forma particular de ver o mundo, dos valores que norteiam
as suas opções. Estes três homens (Seabra, Migueis e Morais ou Borges)
vão sendo sucessivamente incumbidos de uma tarefa delicada e secreta. A
sua missão consiste em contrabandear diamantes, recuperando e trazendo
para Portugal as pedras preciosas roubadas que não puderam ser enviados
atempadamente para o território nacional e que o Serviço descobriu
estarem na posse de Marina. À medida que um falha é substituído pelo
seguinte, partilhando todos o mesmo destino fatal, que os inibe de
regressar a Portugal, ficando na fazenda angolana: o Seabra assim como
“o seu sucessor e o sucessor do seu sucessor”.
Mais do que as peripécias inerentes a tais
buscas, o que se constitui como o cerne dês te romance é a incursão na
existência destas personagens, a descoberta dos seus medos, das suas
obsessões, das suas frustrações, dos seus anseios. “Descoberta” é aliás
a palavra-chave quando se fala da produção antuniana e dos caminhos de
leitura pelos quais o seu leitor se vê levado. António Lobo Antunes de
uma forma exímia e fascinante as técnicas discursivas que dão corpo ao
romance, desafiando o seu leitor a entrar num jogo interpretativo,
embrenhando-o no universo intimista das personagens. Paulatinamente,
vamos descobrindo as razões que ditam as curiosas atitudes de Seabra
(este homem solitário que vive com a sua velha mãe, igualmente só,
mulher obcecada pelo alinhamento perfeito e simétrico das franjas do
tapete da sala), as causas que explicam os traumas de Tavares em relação
à sua altura (casado com uma mulher mais alta do que ele transforma-se
na chacota da família, por isso escolhe uma amante com quem possa
passear sem complexos), os receios de um dos militares da coluna que
deambula pelo capim angolano que, embora ferido, o obrigam a afirmar
insistentemente “Estou bom” para não ser eliminado pelos seus
companheiros em fuga, os motivos que levam Mariana a denunciar o seu
esconderijo a esses homens que vieram em sua perseguição. E o que nos
parecia estranho ou invulgar vai ganhando sentido: Migueis – a
personagem que desperta em nós uma imediata antipatia pelo seu machismo
exacerbado – suscita agora a nossa compreensão (traumatizado por uma
relação difícil com os seus pais não consegue realizar-se no seu próprio
casamento), aquelas frases misteriosas e obsessivas que pontuam de forma
recorrente o texto desvendam o seu propósito. Nomeadamente a frase que
se constitui como leitmotiv do Prólogo: “Esta era a casa”, que nos
transporta do presente veiculado pelo deíctico, para o passado do verbo.
Ao presente das ruínas (metonímia do estado a que o país se vê
condenado) corresponde um passado de ordem e norma. Ao longo do texto,
as questões políticas e sociais vão surgindo de forma diluída,
inscrevem-se em filigrana na diegese na medida em que condicionam a vida
das personagens.
Como se depreende desta breve apresentação
de um romance tão rico quanto este, e na esteira da produção anterior,
Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo alicerça-se pelo poder da
fragmentação, da recorrência e do não dito. Em nenhum momento da nossa
leitura, estaremos na posse de um entendimento conclusivo. Vamos
construindo-o à medida que entramos na existência de cada personagem,
que descobrimos as suas dores, os seus temores, as suas angústias. Este
trabalho de leitura é simultaneamente uma construção de sentidos e um
desvendar de mistérios, onde cada leitor empreende o seu caminho de
leitura, deixando-se conduzir pelo pulsar das palavras, pela cadência da
frase (ora longa ora curta), pelo ritmo do discurso.
Poder-se-ia pensar que estamos perante um
livro triste e até trágico onde as personagens apenas se submetem a um
destino previamente traçado, embora totalmente desconhecido do leitor.
Bem pelo contrário, uma verdadeira sensação de felicidade apodera-se de
nós a cada descoberta realizada, a cada peça que colocamos deste mosaico
que é o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. O diálogo com o livro
estende-se, para nosso prazer, ao conjunto da obra e ao seu criador, que
nos desafia a entrar no seu mundo ficcional e autoral, fazendo-nos
partilhar os seus pensamentos pelo viés de um monólogo interior que, sem
qualquer indicação textual ou tipográfica, irrompe na trama ficcional
fazendo-nos oscilar entre a efabulação e a referência factual. São
momentos de grande partilha, aqueles em que o autor questiona a suas
opções de escrita e se põe em causa, como no seguinte passo “quem me
conta esta história, quem narra isto por mim?/ uma traineira não, nem
pássaros, nem mulatas que te melhorem o capítulo António, acordas com o
romance, adormeces com o romance (…) esta narrativa que mais do que as
outras se tornou uma doença que te gasta e de que não sabes curar-te,
pode ser/ vá lá experimenta” ou ainda nesta pergunta a meio caminho
entre o sarcástico e o divertido, numa clara alusão ao seu romance
anterior, Que Farei Quando Tudo Arde?: “(deste-te bem com os pavões
noutro livro?)”.
Ler António Lobo Antunes
é mais do que acompanhar as peripécias da vida das personagens, é mais
do que ler uma boa história, é deixar-se embrenhar no mundo de
efabulação criado, é entrar no jogo do autor na tentativa de descobrir
para partilhar, com ele, os seus caminhos de criação.»
por Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição 862
15.10.2003
topo
Belém
Barbosa
«existo ao mesmo tempo em todos os lugares
da minha vida»
A memória é um dos elementos fundamentais da obra de
Lobo Antunes. Cada ser é, em cada momento, invadido pelo seu passado, incapaz de
controlar memórias que se atropelam umas às outras e se misturam com o presente.
As personagens são complexas, muito ricas de passado e sequiosas de comunicar,
envoltas que estão no silêncio, no esquecimento, num não-lugar familiar e
social.
«a única coisa que pretendo é que me deixem em paz
sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei»
Essa sede de comunicação torna o discurso tenso e
ritmado, em que pontuação omissa pela urgência de falar é compensada pela
expressividade e pela poesia.
Tal como o tempo/memória, também “o que sou; o que
penso que sou; o que gostaria de ser” não são estanques. Por vezes, o que é
afirmado como real não é mais do que uma máscara/projecção dos desejos, como é
expressa, por exemplo, no título da obra.
«o tempo imóvel, quer dizer muita coisa a passar em
mim»
Lobo Antunes disse em várias entrevistas que cada
livro é a reescrita dos anteriores. Neste seu último romance, a ligação aos
demais livros é feita pelo reaparecimento de imagens e personagens que marcaram
leituras anteriores, como o comboio, uma capeline, os carvalhos impossíveis. As
próprias personagens brincam com o escritor, provocam-no: “deste-te bem com os
pavões noutro livro?”
Apesar dos constantes reflexos de livros anteriores
– provavelmente uma finíssima rede de reencontros, uma filigrana que sugere
releituras, este livro não necessita de um profundo conhecimento prévio da obra
antuniana; beneficia-a, é certo, mas não invalida a leitura menos experiente.
Como sedução primeira, um
interessante exercício de germinação do livro, que ocupa o seu prólogo: o
narrador (escritor?) inicia a narração com lentas hesitações, (não sei se ela
disse; se calhar; não estou certo...), e avança não muito até questionar “será
que remendo com palavras ou falo do que aconteceu de facto”, assim lançando um
mote para conhecer, camada a camada, um ser que se expõe.
por Belém Barbosa
em
Nova
Cultura
Novembro 2004
topo
Carlos Eduardo Ortolan Miranda
A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES
Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o
autor português leva ao ápice sua literatura radical
Existem em nós divisões, alienações, guerras e
palavras.
Paul Nizan, Aden,
Arábia
A literatura contemporânea de Portugal tem
desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente
à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à
deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos,
os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que,
estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.
Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação
tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e
lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa
intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos
angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as
crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas
portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas
Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.
Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar
o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António
Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo”
(pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve
lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.
Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor
profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das
letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela
crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da
literatura atual de seu país.
No lugar do sentimentalismo e do derramamento
romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo
Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências
de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao
inferno das situações-limite da condição humana.
Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como
médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria
histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas”
(pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal”
(editora Rocco), já também publicados entre nós.
Essa comédia humana do horror e do desespero
perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a
miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto,
desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e
de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens
incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa
tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já
deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse
romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da
narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.
O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e,
de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do
exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor,
que cumprira tarefa similar.
A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo
Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na
qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas
às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser
reconstituída.
Um agente procura um agente que procurava um agente.
Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas
vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto,
perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do
labirinto.
Não é casual que o topos da tauromaquia compareça
nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes
de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as
personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se
debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido
não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará
remissão.
Temos então um libelo pacifista contra a guerra
colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual
para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras
reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar).
Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e
forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos
móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na
acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra
colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua
tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.
De fato, os matadores (e futuros touros abatidos)
comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das
descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do
racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial
do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da
memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças
infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal
e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética
cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento
pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro
musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se
realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo
Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o
grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo
que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados
pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela
literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes,
esse taumaturgo da palavra.
por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando
em filosofia na USP.
via
Trópico (Brasil)
topo
Cidália Alves dos Santos
Resenha a
Buenas Tardes a las Cosas de Aquí
Abajo
No seu último romance, Buenas tardes a las cosas de aquí abajo, Lobo
Antunes ressuscita os fantasmas de uma Angola pos-colonial, marcada pela
guerra, pela luta individual pela sobrevivência e pela presença de agentes
portugueses que pretendem retomar o tráfico de diamantes.
Ainda que a trama se pareça a
de um romance de espionagem, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo é algo muito
diferente: é um romance puzzle e um jogo de espelhos. As personagens vivem
suas experiências em dois mundos, o mundo real, exterior, onde as coisas
ocorrem, e o mundo interior, neste caso bastante mais importante, onde esses
episódios se incrustam para configurar a personagem. Assim, mais que os
acontecimentos da história, importa o mundo interior de cada uma das
personagens, importa como esses mundos individuais se enlaçam e actuam entre
si e com o exterior real. Em cada personagem há memórias obsessivas, medos,
traumas, imagens do passado que se sobrepõem ao presente e condicionam a sua
leitura da realidade, condicionando também a leitura da obra: o leitor
angustia-se com as angústias das personagens, o que denuncia a força que
alcança a narrativa.
Por outro lado, a existência de
várias vozes e de vários narradores distintos, que se apresentam sem avisar, de
surpresa, exige ao leitor um papel
importante de "reconstrutor"
da história. Por isso se trata de um romance puzzle: o autor, através dos seus
vários narradores, vai nos dando bocadinhos da história, pedaços de mundos e de
personagens que devemos (ou não) reconstituir para dar sentido - nosso sentido,
nossa leitura - à obra. Porque a sobreposição de espaços (Lisboa, Angola), de
tempos (presente e passados), de mundos (das realidades e das vivências, o
exterior e o interior) requer um leitor activo, reclama um leitor preparado e
disposto a uma entrega total.
Lobo Antunes opta por um
discurso fluido, marcado por espaços gráficos que substituem a pontuação e que
se aproximam à corrente de consciência nos discursos na primeira pessoa;
trata-se de um discurso sem pausas e com um ritmo repetitivo que acompanha o
aluvião de sentimentos e obsessões das personagens.
De destacar o bom trabalho de
tradução de Mario Merlino. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo não é um romance
fácil, mas é um romance que vale a pena.
Cidália Alves dos Santos
em
Imaginando
2004
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
topo
Denis Leandro
Labirinto de Dédalo
Boa tarde às coisas aqui em baixo,
de António Lobo Antunes, foi selecionado para concorrer ao prêmio
Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007, passou à
segunda fase do prestigiado concurso e foi classificado como finalista,
mas Jerusalém, do também português Gonçalo Tavares, acabou
recebendo a premiação. Esse curioso “romance em três livros com prólogo
e epílogo”, conforme se pode ler nas suas páginas de abertura, evoca em
seu título uma frase singular e “intraduzível” – singularidade e
intraduzibilidade que irão se reafirmar ao longo dessa vasta narrativa
que cruza espacialidades portuguesas e angolanas numa torrente de
rememorações atormentadas.
Não é sem razão que os diversos narradores que se
alternam e se confundem em meio à convulsão narrativa desses excertos de
histórias reclamam ajuda para narrar suas vidas irrecorrivelmente
estraçalhadas: “Tão difícil explicar-me, de que maneira explicar-me,
como se diz isto, quem me ajuda a contar, a ser a pá que desperta o
sono, dilacera a garganta da terra e traz à luz os ossos sob as folhas
secas?” (p. 45). Também o leitor, ao percorrer páginas e páginas da mais
extenuante dispersão do acontecimento romanesco, vê-se impelido a
abandonar sua tradicional atitude de investigador dos fatos narrados e
aceitar que a esse quebra-cabeças ficcional faltam incontáveis peças –
ou que para se jogar o jogo da leitura desse romance antuniano há que se
aprender a jogar com peças que, aparentemente, não se encaixam.
Uma mulher de nome Marina mostra a um sujeito anônimo o
que julga ser a casa onde vivera, há vinte anos, na Muxima – vila e
município da província do Bengo, em Angola. Lampejos de tropas do
governo, de cubanos, mercenários de toda ordem – franceses e belgas,
negros e brancos –, de praias transformadas num baldio de misérias,
repletas de indigentes, de cegos e crianças de muletas – “visto que
todas as crianças usam muletas em Angola” (p. 19) – constroem um
panorama de uma Angola pós-descolonização e pós-esperança, nessa cena
continuamente entrecortada pela voz da tal mulher a afirmar
reiteradamente: “– Esta era a casa”. Essa casa, invadida pela erva,
afogada em destroços, a arder em chamas desde a fundação até o teto
terá, logo em seguida, o que restou de suas paredes derrubado por um
trator conduzido por essa mesma mulher que, ao que parece, deseja, a
todo custo, soterrar o passado – ou o que quer que tenha sobejado dele.
Tradicionalmente, o prólogo consiste em uma cena
introdutória na qual se fornecem dados prévios elucidativos do enredo da
peça – ao menos assim se dava na tragédia, no antigo teatro grego. Em
Boa tarde às coisas aqui em baixo, o prólogo, acima brevemente
descrito, algo se exime de elucidar o que quer que seja, cabendo ao
leitor do texto antuniano, muito mais do que se exigia do expectador da
tragédia grega, empenhar-se na busca de relações e diálogos entre o que
ali revoltamente se apresenta e o que se desenvolverá nos capítulos
subseqüentes.
O primeiro livro alterna as histórias de Seabra, agente
enviado a Angola pelo “Serviço” – um órgão militar português não-oficial
–, e dessa mesma Marina, africana mestiça, filha de pai negro e mãe
branca, sobrinha de um procurado contrabandista de diamantes. A tarefa
do agente Seabra é localizar os diamantes que estão em poder do tal
contrabandista e, claro, eliminá-lo. Mas ocorre que, um a um, esses
agentes enviados à ex-colônia portuguesa, estranhamente, não retornam de
suas missões, desaparecendo sem deixar vestígios, como se devorados pela
terra de África, e tendo de ser substituídos por outro, e outro e mais
outro, como touros continuamente abatidos em um espetáculo de arena.
O segundo livro é narrado pela voz de Miguéis, novo
agente enviado para limpar os rastos deixados pelo seu antecessor –
incluindo este próprio – e recuperar as pedras. Em meio a confusas e
variadas referências a ordens e relatórios, mapas e coordenadas,
fronteiras e rios, perpassam considerações subjetivas e reminiscências
de coisas irrecuperáveis – que vão desde pais que se tenta, sem sucesso,
agradar e copiar, passando por vidas conjugais desfeitas e filhos que
não respondem à demanda de afeto de seus pais e vice-versa, até
escarnecedores patos de plástico da infância –, coisas irrecuperáveis e
que, contudo, não cessam de perseguir esses sujeitos, persistentes “como
certas memórias, certos remorsos, certos ecos compridos, o apito dos
navios por exemplo mesmo depois dos navios, durante anos, a gente a
cuidar que os esqueceu e o apito de volta” (p. 278).
A voz insegura de Miguéis cede lugar – ou é
inadvertidamente atravessada – às não menos débeis vozes de sua esposa e
de sua filha – personagem que também oferece uma versão de sua vida
junto aos pais, recorda a partida do namorado e a visita de despedida
que lhe faz o pai, a dor e o tormento da doença que a transforma em uma
espécie de “espantalho” e a faz desejar uma única coisa: “que me deixem
em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que
me tornei” (p. 333). Narradores que não se decidem sobre se áceres ou
carvalhos, se este ou aquele nome, se Marimbanguengo ou se o Congo e
para os quais qualquer tentativa de evadir essa vida de degradação e de
remorsos afigura-se impossível, “dado ser tarde compreende, não apenas
tarde para mim, tarde para si também” (p. 343). Tarde, sem exceção, para
todos.
O terceiro livro acompanha a peregrinação de um grupo de
cinco homens, todos ex-agentes dissidentes do Serviço português, pela
mata de Angola, na tentativa desesperada de alcançar a fronteira com o
Congo, carregando os diamantes que serão contrabandeados. Perseguidos
por militares e americanos que tentam resgatar as jóias, esses pobres
touros desgarrados rememoram suas vivências cotidianas e nada
exemplares, em meio à tensão e iminência de uma morte inevitável.
Intercalando dialogicamente, a cada um dos dez capítulos que compõem
essa parte, a voz de cada um dos cinco fugitivos à voz de Morais, o
agente que os persegue, esse último livro constitui-se em uma explosão
de imagens do passado embaralhadas às cenas atuais que convergem para a
emboscada da qual esses homens se aproximam.
Gonçalves, com seus pais, mães e cães a saltitarem
raivosamente da memória; Mateus, que se perde nas confusas linhas do
mapa que carrega e que mal lê e nas não menos confusas recordações de
filhas, esposas e padres pedófilos; Mendonça, que sonha abrir um café na
Argentina enquanto é dilacerado pela origem mestiça da irmã – a quem
amava e odiava amar; Sampaio, traidor contratado pelos americanos para
conduzir o grupo ao local da armadilha, com sua onipresente imagem de
uma irmã levada de casa ainda criança pelo pai e que não lhe concede um
só instante de paz; Tavares, que, ferido no joelho, põe-se a recordar as
últimas e ambivalentes férias passadas com a família em Portugal; e,
finalmente, o próprio agente Morais, perseguidor que é, ao mesmo tempo,
perseguido, também ele, por uma esposa, uma mãe ausente sob a chuva, um
filho e comboios do passado.
Nessa narração absurdamente insegura e provisória, que se
erige sobre a incerteza, sobre a desordem irrevogável da desmemória –
“não estou bem seguro e já não estou seguro de nada” (p. 216) –, nada de
permanente irá se afirmar ou, talvez, um único elemento se projete no
texto, após o desaparecimento, de uma forma ou de outra, de todas as
personagens, todas as reminiscências e de todo o narrado: a terra
vermelha (ou amarela?) de Angola, a tragar indistintamente tudo e todos
para o seu interior, “porque tudo pertence à terra em Angola, as nuvens,
por exemplo, que bem as noto a descer no capim, as pessoas e as casas
que regressam ao chão depois de se agitarem um momento numa pergunta a
que nada responde” (p. 100).
Finalmente, o epílogo consiste em uma inusitada redação
infantil, redigida por uma garotinha a mando do professor de Português,
sobre as “férias grandes” que passou com a família a bordo de um iate em
Luanda. A paisagem paradisíaca e de calmaria apresentada nessa cena
final contrasta com as imagens de caos, desespero e miséria da guerra
pelas riquezas que brotam do solo angolano. A ingenuidade que emana da
narrativa da criança, assim como a simplicidade da forma de sua
expressão escrita, por sua vez, opõem-se à ferocidade da narrativa como
um todo, bem como serve de afronta à ganância dos adultos que mandam e
desmandam, para garantir interesses próprios, nas terras e nas vidas
alheias.
Esse é o primeiro livro, desde a publicação de O
esplendor de Portugal, há dez anos, em que Lobo Antunes revisita o
espaço ficcional de Angola e o tópos da guerra. Reunindo, em uma mesma
massa “amorfa”, raças, classes sociais, temporalidades e espacialidades
heterogêneas e disjuntivas, a narrativa “líquida” de Boa tarde às
coisas aqui em baixo expõe a violenta degradação imposta a sujeitos
em sua luta por uma improvável emancipação. Mais uma vez, a incômoda
irresolução do narrado – com seu sentido errante que circula
incessantemente sem se fixar em parte alguma da escrita – faz ecoar a
afirmação, enunciada por um dos narradores, de que a existência é uma
pergunta à qual nada responde. Frente às coisas inacreditáveis desse
mundo de “aqui em baixo”, como intui prematuramente a criança que
escreve, apenas o entorpecimento e a estupefação: sentimentos que o
leitor verá se replicarem nessa ciranda de touros enlouquecidos, nesse
labirinto, sem saída, de Dédalo.
ANTUNES,
António Lobo. Boa tarde às coisas aqui em baixo. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2003.
por Denis Leandro
crítico literário, mestre em Literatura Brasileira
doutorando em Literatura Comparada da UFMG
enviado por e-mail em 07.12.2007
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Federico Mengozzi
Boa Tarde, Angola
António Lobo Antunes é
feito para ser lido, não para ser ouvido. Quem quiser que o escritor
português, um dos mais aclamados de seu país, esclareça um ou outro aspecto de
seu novo romance, o 16o, Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo, vai
esbarrar em dificuldades. Lobo Antunes não é de pegar na mão do leitor e dar o
mapa da mina. Ao contrário: imaginando que formou seus leitores ao longo de 25
anos de literatura, acha que eles podem andar com as próprias pernas. 'O
escritor ensina seu leitor a ler', arrisca, falando a ÉPOCA. Por isso, depois
de muitas delongas, ele sugere que não lhe perguntem nada e dirijam-se ao
livro. Mesmo porque ele apenas o escreveu. 'Não o li. Ao menos não com olhos
de leitor.'
Em Portugal, 200 mil pessoas
seguiram sua recomendação e foram ao livro, recém-lançado e já na sexta edição.
É um sucesso. Mas Lobo Antunes, assim como Carlos Drummond de Andrade e João
Cabral de Melo Neto (brasileiros que ele cita), não escreve para fazer sucesso.
O sucesso, se vier, é conseqüência. 'Por que um escritor escreve? Julgo que
nenhum escritor saiba dar uma resposta honesta. E a resposta desonesta não me
interessa. Escrevo porque circula em meu sangue.' E mais não diz.
É um livro difícil. O autor
discorda e cita a alta vendagem. 'Mas é claro que nem todos os que compram o
livro o lerão', reconhece, cético. Uma leitura complexa, com parágrafos que a
rigor não começam e a rigor não terminam, sem uma história que se revele com
clareza, mas em lampejos, flashes que o leitor junta como pode, de acordo com
sua percepção. O cenário é a Angola pós-independente, tempo de descaminhos que
Lobo Antunes vê sem condescendência. Assim: 'Quando depois do que chamavam
independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto
é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem
desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões…'
António Lobo Antunes é
médico psiquiatra, mas atualmente só se dedica à literatura. Participou,
convocado pelo Exército português, da guerra colonial e fez de Angola o cenário
de vários de seus livros, como Os Cus de Judas (1979), narrado por um
médico como ele, que diz de si mesmo: 'Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer
de mim o que sou hoje e intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não
se telefona e cujo telefonema ninguém espera...' Por que, mais uma vez, Angola?
'É um lugar onde vivi por muito tempo. Mais precisamente, por dois anos e alguns
meses, durante a guerra, que equivalem a mais anos de vida. Não, não fui ferido
fisicamente. Mas há muitas maneiras de ser ferido. Foi uma guerra cruel.'
Boa Tarde às Coisas aqui
em Baixo volta ao
país, mesmo porque, escreve o autor no livro, 'não se foge de Angola'. Um
resumo? Lobo Antunes se recusa a fazer isso. 'Se eu pudesse resumir o livro, não
o escreveria. Passei dois anos escrevendo.' Não diz, mas deve pensar que não
seria mau se o leitor empregasse alguns dias em sua leitura. Tudo se junta no
romance, ficção e realidade, devaneios e reflexões, em três partes, mais prólogo
e epílogo, nas quais se misturam agentes de espionagem, contrabando de
diamantes, atos de corrupção, a Angola que foi, a que é. E o autor, referindo-se
à guerra civil, diz coisas como: 'Visto que todas as crianças usam muletas em
Angola...' Uma narrativa que não diz, apenas sugere.
Lobo Antunes já foi
considerado o anti-José Saramago. Ele nem nega, nem confirma. 'Não cabe a mim
responder.' É, ao lado de Saramago, o escritor português mais conhecido no
Exterior. E, se o colega já levou o Prêmio Nobel, ele continua cotado para
recebê-lo, embora não ligue muito. 'Não acho importante.' Enquanto o outro se
transformou numa espécie de voz oficial da cultura lusitana, Lobo Antunes
continua à margem. Até porque não é português de raiz, e sim descendente de uma
família brasileira radicada em Portugal, que guardava autores como José de
Alencar e Monteiro Lobato na estante - ainda hoje, tem muitos primos no Brasil.
Por isso, sempre cita autores brasileiros. Como Saramago, mora fora de Portugal
- a maior parte do tempo em Paris. E costuma lançar seus livros por editoras
não-portuguesas.
Boa Tarde às Coisas aqui
em Baixo é um
lançamento de acordo com a fama de seu autor: um inovador que vai além da forma
e põe o dedo em feridas abertas.
Federico Mengozzi
em
Época
[não datado]
topo
artigo do suplemento Cultural e Literário
JP Guesa Errante (Brasil)
Sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui
Em Baixo [excerto]
[...]
Boa Tarde às Coisas Aqui em
Baixo, em termos de invenção ou criação literária, é uma espécie de último
degrau a que um escritor, que opta pela prática experimental, consegue chegar.
Podemos arriscar qualificá-lo como um escritor que se propõe ir além das
conquistas experimentais até então cristalizadas por Rabelais, Sterne, Lewis
Carroll, Édouard Dujardin, James Joyce e Cortázar.
António Lobo Antunes empreende uma luta titânica contra o Minotauro no labirinto
do texto. De posse do fio de Ariadne, na busca da saída, ele trava uma batalha
decisiva. Para encontrar a saída, Antunes usa de vários pretextos, entre eles
fratura, mutilação, adulteração e bifurcação do fio da meada, para convencer o
Minotauro de que está perdido, deixando no ar a idéia de que o fio se partiu em
inúmeros pedaços. Mas apenas quebra o fio e se esconde, sempre numa pequena
volta. E, quando o Minotauro, que já conhece o caminho de cor e salteado e, com
certeza, já está cansado de trilhá-lo, e guardá-lo indefinidamente, resolve
deixar que o protagonista, no caso o próprio texto, desconstrua a meada, após
efetuar remendos que possibilitem a arte dos desvios. Então, percebe-se que ele
aceita deliberadamente a própria morte. Essa alegoria implica em compreender-se
que a morte do Minotauro representa a vida do texto pós-moderno.
A narrativa de Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo é propositadamente descosturada,
pois conscientemente armada como O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Só que em
Cortázar há a fusão de vários romances ou histórias numa mesma narrativa
descontínua, mas que se interpenetram de maneira programada e matematicamente
progressiva como um tratado virtuosístico.
Em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, a descontinuidade é cinematograficamente
flagrante, pois ocorre intermitentemente. Nele, todos os textos apresentam
cortes instantâneos no nexo das frases ou como um deslance, um contramolde,
provocados no momento da frase enunciada e simultaneamente quebrada, fraturada.
Percebe-se que, com isso, o escritor pretende representar com frases rupturadas,
aparentemente desconexas, a situação caótica das próprias existências dos
angolanos que, nas décadas de 60 e 70, durante a Guerra, como que se diluíam ou
eram perdidas de vista. Assim, o traçado estético do discurso romanesco de
Antunes soa como algo vertiginoso, mas que escoa, estaca repentinamente, como se
todas as frases fossem amputadas; como, de uma maneira ou de outra, acontece com
as vidas das pessoas durante e após o término das guerras, pessoas que,
sobreviventes do holocausto da guerra, estão mortas na alma, perdidas de suas
próprias identidades.
Conforme o próprio comentarista da contracapa da obra em questão se expressa
“consagrado como um dos mais importantes romancistas portugueses, indicado ao
Nobel de Literatura, António Lobo Antunes volta à temática essencial de sua obra
em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo. Neste livro, o autor traça um retrato
contemporâneo de Angola, país onde viveu durante a guerra de libertação nacional
nos anos 60 e 70.
Homens que somem sem deixar vestígios são os protagonistas deste romance. Assim
acontece com o primeiro agente português que viaja à antiga colônia, com uma
missão arriscada. Ele não volta, sendo substituído por outro, e depois outro,
como na arena os touros vão sendo mortos um a um.
Grande vencedor do XIV Prêmio Internacional União Latina de Literatura, Lobo
Antunes exerce com maestria a arte de encantar o leitor, através de uma
narrativa subversiva e radicalmente original.”
Como o próprio escritor revela na abertura desta instigante obra literária
“romance em três livros com prólogo & epílogo”, António Lobo Antunes, para
contar a saga da guerra angolana, que usa como pretexto, ainda que doloroso,
para exercitar e esgotar todo seu potencial de conhecimentos sobre criação
literária no campo específico da arte romanesca, consegue se superar em tudo
quanto antes escreveu e sempre com admirável talento.
António Lobo Antunes é o típico escritor para quem a divisão das composições
literárias em gêneros é algo obsoleto e anacrônico, pois ele consegue fundir no
mesmo romance todos os gêneros como o fez James Joyce, indo mais além, diluindo
os gêneros de tal modo, que em seu texto tudo é apenas pura poesia. Para ele,
repetir-se na obra seguinte é sempre um trabalho de preguiçoso.
Obra eminentemente metalingüística, já que o protagonista da história é a
própria narrativa, sendo tudo o mais pretexto para que ela se engendre a si
mesma. Daí por que ela questiona as próprias construções de textos anteriores
discutindo, adulterando e mutilando as técnicas do fluxo da memória e do
monólogo interior, no sentido positivo de acrescentar-lhes novos arranjos ou uma
gama de possibilidades de fazer com que os textos se desengendrem para um plano
de desfechos completamente imprevisíveis.
Aqui a desconstrução do discurso narrativo recria novidades no campo dos
flashbacks que passam a ser contínua, ininterrupta e consecutivamente
instantâneos.
Os cortes de períodos e frases acontecem em cadeia através de mutações e
mutilações de enunciados, cujas seqüências, momentaneamente, ou para sempre,
somem, como somem ou desaparecem as pessoas durante as guerras. Assim, famílias
inteiras de frases ficam truncadas ou desaparecem, ou se perdem uma das outras,
pedaços de sentenças e enunciados se distanciam ou acabam incompletos,
exterminados, massacrados, desfamiliarizados como as pessoas durante e após as
guerras. Caberá ao leitor, como aos sobreviventes, procurarem nos destroços da
linguagem as partes que faltaram ou restaram. Constatamos assim que António Lobo
Antunes está envolvido com duas guerras: uma, a de Angola, e a outra, a de uma
escrita completamente radical. O ponto crucial é deflagrado contra a ordem
preestabelecida das famílias de palavras que corresponde ao massacre ou
mutilação das famílias de pessoas. Já não se trata de um recurso meramente
paradoxal ou ambíguo, mas do texto mutilado como a retratar a própria mutilação
da existência dos seres humanos naquilo que eles têm de mais precioso, que a
vida biológica, a identidade. A verosimilhança é tão impressionante que a supra-realidade
do texto parece superar a própria realidade da guerra. Assim, o texto transita
entre o real geográfico, topográfico, biográfico, beligerante, genocida e o
surrealismo da construção do texto cuja tessitura, embora pareça absurda,
reflete a própria realidade. Nesse estágio, o escritor atinge a plenitude da
arte de escrever, que acontece quando a supra-realidade supera em verosimilhança
as atrocidades e massacres da guerra, quando percebe-se o quanto o ser humano,
voltando à barbárie, vive mais para a crueldade, o sadismo e o masoquismo, esse
estágio radical de aniquilamento do ser humano, reduzido a fera.
autor não identificado
05.01.2006
excerto do artigo publicado no
suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil)
leia o artigo completo
aqui
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Manuel
Gomes
A leitura como um
jogo. Um desafio e uma construção. Um passeio literário que transporta o
leitor para o verdadeiro prazer de ler. Eis o verdadeiro Lobo Antunes.
Memórias nostálgicas de África, um tema quase obsessivo em Lobo Antunes. Mas
também uma perspectiva crítica mordaz á forma como Portugal procurou tirar de
África, a todo o custo, os seus melhores recursos, mesmo à custa de vidas
humanas, barbaramente desperdiçadas. Deambulando entre uma escrita
profundamente melancólica e um sentido de humor discreto mas eficaz, o Autor
presenteia-nos com uma obra complexa mas de uma qualidade literária apenas ao
alcance desse pequeno grupo de escritores a que podemos chamar “génios”.
Agentes mais ou menos secretos, portugueses, cobiçosos, meros paus-mandados de
uma cobiça maior, à procura de alvos difusos. Personagens vulgares, joguetes
do poder viajam para Angola, sempre com o mesmo fito: os diamantes, réstia
valiosa de um poder decrépito mas sempre desumano. Os Portugueses, os cubanos,
os americanos, sempre os americanos, juntos numa amálgama de desespero e
ambição. Vidas que se perdem ao serviço de uma causa dita maior. Seabra,
Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares, anti-heróis, desgraçados ambiciosos e
manipulados são gente como nós, gente simples, vítimas de um mundo onde reina
a desumanidade.
Manipulados pelo misterioso “serviço”, herdeiro de uma colonização mal
desfeita, os seus enviados são consecutivamente impedidos de regressar a
Portugal. A terra de Angola, vermelha de sangue, funciona como uma força de
atracção que os impede de regressar.
O romance é apresentado em três livros com prólogo e epílogo. O estilo
inconfundível de Lobo Antunes, com a multiplicidade de narradores, envolve o
leitor numa trama complexa mas apaixonante. Numa obra com 573 páginas, é
espantosa a forma como o autor conduz o leitor a um ritmo de leitura
vertiginoso. Na verdade, a escrita de Lobo Antunes, segue a velocidade do
pensamento: temas que se misturam, personagens que se multiplicam, enredos que
se entrelaçam de tal forma que é ao leitor que cabe compor as peças do puzzle.
Dominando como ninguém a língua portuguesa, Lobo Antunes, na sua
característica modéstia, lamenta-se constantemente da falta de palavras para
descrever situações e sentimentos. Curioso facto, este: um dos maiores
escritores de sempre da língua portuguesa, lamenta-se da falta de palavras! A
explicação é simples: se bem que a máquina institucional que submerge os
personagens seja imensa, e por mais simples e vulgares que sejam as pessoas, o
seu interior, os seus pensamentos e sentimentos são sempre imensos. Neste
sentido, poderemos talvez adjectivar a escrita de Antunes como intimista:
parece haver um esforço incontido de escalpelizar ao máximo todo o espírito
humano. Mas o ser humano é tão grande e profundo que as palavras não chegam.
Nem ao génio.
O epílogo, escrito sob a forma de uma redacção escolar infantil, é um texto de
uma excelência literária espantosa. Vem ao de cima a crítica da ambição e do
poder e todo o humanismo que caracteriza a escrita de Lobo Antunes.
Para ler, reler, guardar e mais tarde reiniciar o ciclo.
por Manuel Gomes
em
Citador
27.08.2007
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Marcelo Pen
Lobo Antunes reinventa Angola em novo livro
"Boa
Tarde às Coisas Aqui em Baixo", do romancista português, evoca guerra civil
O português António Lobo Antunes, de 61anos, é um
escritor dedicado a três coisas. A Angola, país que presenciou ser arrasado
pela guerra e que tornou a eleger "território ficcional" em seu novo romance,
"Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo". À leitura, prazer mantido ao longo dos anos, em
detrimento de outros, como o futebol, que hoje não gosta de ver "nem na
televisão". E ao aperfeiçoamento da arte narrativa, que o obriga a uma rotina de
mais de 12 horas diárias de labuta. O ritmo exaustivo decorre por um lado da
sensação de que é preciso correr contra o tempo, que escoa muito depressa. Por
outro, da descoberta, proporcionada pelo ofício e corroborada na experiência de
outros escritores, de que "o romance é sobretudo trabalho". "Trabalho" é uma
palavra que escapa com facilidade dos lábios do romancista, que se sente mais à
vontade quando fala de sua criação. "Um livro começa com um som, um cheiro,
coisas muito difusas que, pouco a pouco, vão confluindo e cristalizando", diz o
autor, em entrevista à Folha.
Em certa altura, o artista percebe que o livro está
pronto para começar a ser escrito. Inicia-se um processo "difícil e doloroso" de
determinar o tom e a cor certos. "É como ter água no soalho, sem que se tenha
localizado o desnível por onde ela possa escoar: o problema está em encontrar
essa calha por onde a água pode correr", explica.
No início da carreira, Lobo Antunes preocupava-se
muito mais com a arquitetura do romance, que planejava rigorosamente. Depois,
começou "a entender que o romance é um organismo vivo, que age independente de
você, pois tem suas próprias regras". O "desafio" está em "lutar contra a
resistência do material que se opõe a si".
Lobo Antunes afirma que é preciso ser absolutamente
"implacável" com a própria obra: "Tudo aquilo que não se agüenta, vai fora". O
que ele procura obter é um efeito próximo ao da poesia ou da música: "Como
Schubert, digamos, naquelas peças para piano em que cada nota parece que está
tocando um nervo sensível, um nervo exposto num dente".
O romancista confessa ter trazido uma "grande ferida
da África", que conheceu quando serviu na guerra da Angola. "Vi Luanda, uma
cidade tão bonita quanto o Rio de Janeiro, ser destruída", diz. Mas faz questão
de frisar que não voltou mais lá. A Angola de "Boa Tarde" é um país "inventado".
O importante, para ele, é criar um espaço ficcional
que funciona como "símbolo de outras coisas". "Gosto de descobrir escritores que
me ajudam a conhecer a mim mesmo, que me mostram o país que eu sou, e a casa
cheia de portas fechadas que eu sou, porque no fundo vivemos numa parte muito
pequena de nós mesmos."
Dentre esses escritores, Lobo Antunes revela
predileção pelos poetas brasileiros ("para mim, a grande poesia do século 20 em
língua portuguesa foi escrita no Brasil") e Clarice Lispector ("sem dúvida a
maior romancista de nosso idioma"). Ele destaca também Herman Melville e Joseph
Conrad, "durante muito tempo subestimado como escritor de aventuras", além do
ficcionista americano William Gaddis, morto em 1998, ainda "desconhecido em seu
país de origem".
Lobo Antunes também sofreu com o desconhecimento.
"Em princípio não me queriam em Portugal, depois ninguém me queria nos outros
países." Do Brasil, onde parte de sua família mora no Rio de Janeiro, o escritor
preferia guardar distância. Hoje tudo mudou. A editora Objetiva adquiriu
direitos de publicação de toda a obra do autor, que foi premiado pela Associação
Portuguesa de Escritores e pela União Latina de Literatura.
O próximo romance, no qual vem
trabalhando há dois anos, deve chamar-se "Eu Hei-de Amar uma Pedra" frase tirada
de uma moda do Alentejo. Mais uma vez não há um fio narrativo preciso. Para esse
escritor caudaloso, que diz precisar "de espaço para ocupar", isso não
representa um problema, "pois se você pudesse dizer do que se trata o livro, não
valia a pena escrevê-lo".
por Marcelo Pen
A Folha (2003)
citado
daqui
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