ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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Conhecimento do Inferno, 1980

 

6 artigos por

 

- Alan Gilbert

- Ellen Wernecke

- Gregório Dantas

- O Estado de S. Paulo (autor desconhecido)

- Ricardo Daehn

- Vinicius Jatoba

 


Alan Gilbert

 

Terapeutas maltratados

 

 

É seguro dizer que o romance de António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, não o tornará convidado para discursar em nenhuma conferência de psicanalistas. Muito do seu livro cativante é um rol vicioso de críticas contra a profissão: «De todos os médicos que conheci, psicanalistas, uma congregação de padres leigos com Bíblia, rituais, e os crentes, constituem a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies». A ironia aqui é que António Lobo Antunes trabalha ele próprio como psiquiatria em Lisboa quando não está a escrever os vários romances pelos quais recebeu acalamação internacional (pelo menos nos Estados Unidos) – incluindo, dizem os boatos, ser incluído na lista de nomeados para o Prémio Nobel de Literatura.

 

Conhecimento do Inferno demonstra as impressionantes técnicas de Lobo Antunes para derrubar as barreiras entre passado e presente, realidade e ilusão. Tal como nos seus romances anteriores, o livro alterna com destreza entre várias personagens, cenários, e momentos históricos, resultando num narrador – uma pouco velada substituição autobiográfica – dividido em «eu» e «ele». A dissociação num sentido ao mesmo tempo cínico e estilístico é um tropo dominante. Enquadrada por uma viagem que dura um dia inteiro, a narrativa consiste numa série de encontros, analepses, e quase-alucinações em torno do trabalho do narrador num hospital psiquiátrico, o seu serviço no início dos anos 70 como médico na guerra colonial em Angola, e diversas memórias da infância e relações anteriores.

 

Inferno não são as outras pessoas; é o que as instituições fazem às pessoas. Lobo Antunes oscila entre a complacência e a sordidez, mesmo transcrições brutais de quase toda a gente no livro, incluindo ele próprio: «Asilos são nada menos que jardins regados com injecções de fertilizante». Os leitores mais apaixonados abrirão eventualmente sorrisos nos lábios perante o humor perverso e a compaixão que sublinham uma visão negra tão implacável. Este humor dissipa-se parcialmente após a meia-noite, perto do final da viagem depois de parar para uma vodka, altura em que o narrador começa a sentir sentimentos de ternura, especialmente quando pensa na filha, a quem o romance é dedicado. A felicidade pode ser exagerada, mas o futuro que as crianças encarnam leva a visão mais pessimista a dar lugar à esperança.

 

Knowledge of Hell (Trad: Clifford Landers) acaba de ser publicado nos EUA (18 Março 2008).

 

Alan Gilbert

em The Village Voice

18.03.2007

[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

 

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Ellen Wernecke

 

Knowledge of Hell

 

Com a primeira publicação inglesa, por via da tradução de Clifford E. Landers, o romance de António Lobo Antunes publicado em 1980, Conhecimento do Inferno, será reunido aos trabalhos de outros realistas de línguas românicas como Gabriel García Márquez. Mas a melhor comparação será com o romancista turco Orhan Pamuk, cujos romances, por todas as suas filosofias, nunca se desligam de uma corrente perpétua de medo que corta qualquer personagem que fale em determinado momento. Mas as imagens inócuas de Pamuk, como a aldeia vítima das intempéries de Neve, não têm par com as investidas de pesadelos multi-sensoriais de Lobo Antunes.

 

Com a extensão que importa ao romance, o enredo segue um psiquiatra – que partilha o nome do autor – que viaja pelo interior português de regresso ao hospital de Lisboa onde trabalha. O regresso ao seu trabalho enche-o de medo; enquanto avança, cada paragem na sua viagem inunda-o de memórias do seu trabalho com os soldados e as baixas na guerra de Portugal em Angola, bem como dos doentes com que lida agora. A narrativa alterna com fluidez da priemira para a terceira pessoa, mas nunca abandona a perspectiva do médico: «Ele examinou-se ao espelho, assegurando-se da sua gravata, do seu casaco, do risco no cabelo, e pensou “Sou um médico” tal como uma criança repete “Sou crescido”... Vou finalmente ser uma pessoa respeitável inclinado sobre um bloco de receitas numa nobreza abstraída e apressada». (Honra seja feita à tradução de Lander, que faz estas transições sem aumentar a confusão inerente à história do médico).

 

O inferno do médico está presente mesmo em memórias que deveriam ser calmantes, como imagens da sua mulher durante a lua-de-mel há muito passada e visões momentâneas de paisagens marítimas ao longo da estrada, e a curiosa abertura da sua cabeça para que os leitores possam experienciar esta cadeia de imagens cada vez mais horríveis faz Conhecimento do Inferno agarrar o leitor do princípio ao fim das páginas. Nos pesadelos elaborados do médico, também, está sentido de que a sua história é demasiado terrível para ser directamente comprometida. Ele tem uma recusa de Jean Rhysian em aceitar o valor normal das coisas por que passa; elas podem apenas recordar-lhe choques passados. A cumplicidade do médico faz parte da onda nauseante que o empurra para o seu odioso trabalho, construído no sentido de responsabilidade que ele nunca poderá representar completamente. Apenas a entrega lírica destas memórias, camada sobre camada, faz os leitores avançarem através dos seus sonhos sonâmbulos delirantes.


 

Ellen Wernecke

em A.V. Club

27.03.2007

[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

 

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Gregório Dantas

 

Todos ao caldeirão

 

edição Alfaguara - Brasil

 

Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, em tom mordaz e de zombaria, não poupa ninguém numa viagem pelo horror da existência
 

[...] Memória de elefante, Os cus de Judas e Conhecimento do inferno foram lançados em um prazo muito curto, entre 1979 e 1980. Enredos e temas se assemelham: nos três romances, a ação transcorre em curto período de tempo (cerca de um dia) enquanto o protagonista, um médico psiquiatra que tem muito de Lobo Antunes, às vezes até o nome, rememora sua vida. O texto é essencialmente um longo monólogo interior, em que se entrelaçam memórias da infância, da família, do hospital psiquiátrico, da guerra colonial em Angola.

 

[(no Brasil)] Conhecimento do inferno não parece estar entre os títulos mais festejados do autor. Talvez exatamente por ser o fecho de uma assim chamada trilogia, carregue certa impressão de cansaço da forma ou do tema adotados. Essa impressão é falsa: trata-se de um grande romance. Além disso, a leitura em conjunto dos três livros promove uma rica visão de como obsessões formais e temáticas de um grande autor podem adquirir novos contornos, em um rico jogo de auto-referência e reavaliação literária. Jogo que, no limite, persiste em seus livros até hoje.

 

Muitas vezes, um bom romance começa na epígrafe. A de Conhecimento do inferno é a transcrição do trecho de uma resenha publicada no The Quarterly Review, em 1860, sobre um romance de George Eliot. O resenhista, conservador e rigoroso, condena o tipo de ficção que se ocupa de vícios, crimes imaginários, fantasias e perplexidades, assuntos que podem invadir e corromper as mentes dos leitores, "com o conhecimento desnecessário do inferno". Em certa medida, (re)conhecer o inferno é precisamente ao que se propõe a literatura de António Lobo Antunes.

 

O enredo gira em torno de uma viagem de carro que o narrador empreende pelo sul de Portugal, do Algarve em direção a Lisboa. Cada localidade que atravessa corresponde aproximadamente a um capítulo do livro, até a chegada na casa dos pais, na madrugada do mesmo dia. A ação dura, portanto, parte de uma tarde e de uma noite. Como nos romances anteriores, a memória pode ser deflagrada voluntária ou involuntariamente, por imagens ou palavras que remetam, mesmo que de maneira tortuosa, a eventos da infância do narrador, da guerra colonial, da família. A rememoração, porém, nunca é linear e é sempre carregada de um alto grau de estranheza. Colabora, para esse estranhamento, o requinte dos detalhes e de certas metáforas incomuns que fazem de objetos cotidianos imagens aterradoras, provocando a transfiguração quase surreal do cenário e dos personagens.

 

Logo no início do romance, por exemplo, chama atenção a artificialidade caricatural da paisagem. Na região de veraneio, tudo é falso, e apenas os turistas estrangeiros parecem não se dar por isso: "O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem". Sob o "sol de papel", os turistas compram "colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo", e consomem "bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão". O narrador, rancoroso, não poupa a vulgaridade das classes média e alta, ao atravessar os lugares "onde pessoas de plástico passavam férias de plástico no aborrecimento de plástico dos ricos, sob árvores semelhantes a grinaldas de papel de seda".

 

Torna-se evidente o contraste destas imagens kitsch com as impactantes memórias do narrador. Em Conhecimento do inferno, prevalecem as lembranças de sua passagem pela guerra colonial em Angola e da experiência no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde ingressou em 73, "para iniciar a longa travessia do inferno".

 
Sem noite
Um episódio em particular merece especial atenção. Na África, um nativo ensina ao narrador que em Lisboa não há noite, e que o dia europeu se divide em dois: o do sol e o dos candeeiros. Já Angola, diz o narrador, "é um país de leprosos e de treva, um país de vultos inquietos, de rumorosos fantasmas (...) É o país onde os defuntos assistem sentados aos batuques, frenéticos da presença invisível dos deuses". No país da guerra, os homens são "animais de sombra", e a natureza assume contornos de um pesadelo sombrio. Em Portugal, contudo, o narrador reencontra as sombras e o pesadelo nos recônditos do hospital, onde a noite se esconde. Nas esquinas dos corredores, na prática médica ou nos efeitos dos remédios encontram-se "absolutas trevas, de um negro tão completo como os das noites dos cegos, cujas órbitas se assemelham a pássaros defuntos estendidos nas gaiolas das pestanas".

 

Mas o tom grave e de pesadelo dessas imagens ganha ares cômicos em diversas passagens. Em relação aos livros anteriores, em Conhecimento do inferno é mais evidente o tom de zombaria, de uma mordacidade que não dispensa imagens fortes e não poupa ninguém, principalmente a classe médica. O conhecimento dos médicos é reduzido a "palavrões imbecis" ou um "Reader's Digest pretensioso" e sua atividade é comparada à da Inquisição. Pessoalmente, seus colegas são verdadeiras caricaturas sinistras: uma médica possui feições de égua, uma "psicóloga feia" esconde "múltiplos membros aracnídeos de unhas roídas", além daquele médico com uma "barba Colóquio Letras & Artes" (em referência à prestigiada revista acadêmica portuguesa), "que possuía a compostura dos estúpidos, essa espécie de comedimento imbecil que faz às vezes do bom senso".

 

A prática psiquiátrica é ridicularizada a ponto do próprio médico ser confundido com um paciente, sem que haja qualquer indício de que o equívoco será corrigido. São demolidas definitivamente as fronteiras entre sãos e doentes: depois de assistirmos aos vôos dos pacientes, o próprio narrador perde os pés do chão.

 

Os meus próprios ossos adquiriam uma textura de espuma, a carne ornava-se fibrosa e leve como a madeira dos barcos. (...) Uma bolha de gás escapou-se-me do ânus. Deixei de sentir o chão nos sapatos. O corpo inclinou-se a pouco e pouco até se tornar horizontal, e desatei a remar na luz, piando desesperadamente na direcção dos outros.

Acho que nunca tinha voado.

Mas a principal fronteira a ser derrubada é outra: o recorrente paralelismo entre as memórias de guerra e as do hospital confere a ambas um caráter cada vez mais insólito. A prática canibal sugerida em um momento extremo no interior da África é transposta para uma reunião elegante entre os médicos, e estes compartilham com os soldados a prática da tortura e o exercício do poder pelo medo.

 

Entre os procedimentos mais comuns usados por Lobo Antunes para tornar quase indissociáveis as memórias de guerra e as do hospital consiste na repetição constante de uma frase ou uma expressão que ecoa entre os dois mundos. À certa altura, o narrador afirma, peremptório: "Nunca saí do hospital". Afirmação instigante, que sugere de imediato que a experiência do inferno hospitalar jamais o abandonou. Inferno cujo conhecimento o autor promove através dessa literatura forte, violenta, que não admite concessões.

 

Descrito assim, o romance perde muito. E essa trilogia "autobiográfica" de Lobo Antunes pede inevitavelmente uma releitura: haverá sempre imagens ou associações de palavras que, perdidas das sombras do texto, passaram despercebidas, mesmo ao leitor mais atento. Que a ficção de António Lobo Antunes mudou muito desde então, somos forçados a concordar. Mas seus livros iniciais são muito mais do que mero rascunho para as obras mais maduras. Como poucas narrativas contemporâneas, esses livros elaboram uma sofisticada rede de imagens e sentidos dos quais não é permitido se expor impunemente. [...]

 

 

Gregório Dantas

em Rascunho

não datado

 

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autor desconhecido

 

Um tipo de romance todo seu

 

Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exatos para a compulsiva seqüência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e noturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado Conhecimento do Inferno, um de seus primeiros livros, e Eu Hei-de Amar uma Pedra, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a idéia exata de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, dois deles já editados pela Objetiva, alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afeto, seja ele entre parentes, seja no matrimônio.

O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura.

Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário A Ordem Natural das Coisas, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a Tratado das Paixões da Alma. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busc a da eficácia.

A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajetória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acúmulo inflacionado de imagens e adjetivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas Exortação aos Crocodilos e Manual dos Inquisidores conseguem mais com estratégias indiretas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didático. Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajetória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores.

Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto d e seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela ótica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranqüila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.
 

 

artigo de O Estado de S. Paulo

citado do site Notícias Traça

autor desconhecido, não datado

 

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Ricardo Daehn

 

Travessura de Lobo

 

Há mais de 15 anos um nome corrente nas especulações em torno do Prêmio Nobel de Literatura, o lisboeta António Lobo Antunes não é figura festiva como o compatriota José Saramago e, ao mesmo tempo, não se revela pessoa fácil. A escrita que comete, com criatividade única e por vezes incompreensível, pode dar a medida da sua personalidade: Lobo Antunes não se rende ao aclamado Philip Roth, muito menos admira as histórias “bem contadas” do canadense Saul Bellow (Herzog). Só abre exceção quando trata-se de García Márquez, que trouxe “novidade” ao meio literário.

 

À frente de 18 romances (o mais recente Ontem não te vi em Babilônia), Lobo Antunes traz espírito crítico que não poupa nem a si próprio. Recentemente lançado no Brasil, com mais de 25 anos de atraso, Conhecimento do inferno, porém, passou relativamente ileso à revisão criteriosa do autor, tido como “mal entendido” à época da primeira publicação. Curiosamente, os dois volumes que o antecedem numa trilogia (Memória de Elefante e Os cus de Judas) ganharam, respectivamente, defeitos de “livro de principiante” e “primário”.

 

Exageros à parte, vale lembrar que o primeiro título (com citação em Conhecimento do inferno, ao lado de Paul Simon, Gal Costa e António Lobo Antunes[!]) já trazia o alter ego do psiquiatra atolado numa narrativa com tempo comprimido. Num único dia, a lentidão retinha observações em torno do casamento falho e da separação das duas filhas. A desilusão pessoal chegava a retrair o aspirante a escritor, empacado na produção de um romance. Organizado em capítulos (de A a Z), Os cus de Judas depurava a decisiva experiência involuntária de haver integrado a Guerra de Angola, nos anos 1970, fato explorado ainda por O esplendor de Portugal.

 

Enclausurado num universo aturdido pela eterna convivência com mortos no conflito, em Conhecimento do inferno, Lobo Antunes prorroga a tensão bélica, lembrando inclusive das “galinhas de África, magras e pernaltas, de que as patas hesitam um segundo antes de tocar o chão como se um perigo qualquer as ameaçasse”. Amálgamas sacramentados na literatura dele, as seqüelas da pressão do regime salazarista e o processo de independência de Angola (antiga possessão portuguesa) engordam a convulsiva retórica do livro.

 

Na publicação auto-referente, o escritor é objetivo nos alvos de ataque: mira tanto a infra-estrutura quanto a petulância médica instalada nos manicômios. Ele descreve a chegada ao Hospital Miguel Bombarda (onde, de fato, clinicou) como ponto de partida para “a longa travessia do inferno”. Compactuando com a “máquina trituradora de uma medicina persecutória da fantasia e do sonho…”, desmoraliza a sensação de autoridade impregnada nos colegas médicos. Desequilibrando conceitos de loucura, propõe até a inversão de papéis, tendo a impressão de que eram os doentes “quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras”.

 

Coerente com alumbramentos da demência externa, o autor encoraja devastador ataque sobre princípios lógicos. Nada vem muito alinhavado por uma fluência necessariamente lúcida. Ciente da conquista do “sentido prático da vida, que fica no fundo do automatismo da inutilidade…”, o português se debate na aceitação do “enxoval de uma ciência inútil (a psiquiatria)” integrado por “pastilhas, ampolas, conceitos e interpretações”.

 

Isolado numa batalha um tanto quixotesca – mas com o respaldo de que “a solidão é o azedume da dignidade” –, o escritor lança mão de severidade, demonstrando que “os manicômios não passam de hortas de repolhos humanos…”. Conhecimento do inferno traz imagens potentes de médicos que enxotam pacientes ou se rendem a alegorias canibalísticas envolvendo os doentes. Para o psiquiatra que abandonou o celibato a favor da literatura, “os psicanalistas continuam teimosamente agarrados ao antiquíssimo microscópio de Freud, que lhes permite observar um centímetro quadrado de epiderme enquanto o resto do corpo, longe deles, respira, palpita, pulsa, se sacode, protesta e movimenta”.

 

Estilhaços de ironia

 

Fragmentadas, feito espasmos, as descrições do livro sofrem interferência concomitante de eventos paralelos, que afloram via lembranças, devaneios ou por meio de elaboradas análises das circunstâncias recém-presenciadas. Sempre espirituoso, o texto é caudaloso em ironia, com disparates da altura de “nunca conheci nenhuma flor de plástico que se comovesse diante de um cadáver”.

 

O deboche avança sobre a propalada perfeição de casamentos, na trama. A sensação de liberdade, por exemplo, se contrapõe à figura do narrador que se confessa “esporeado por uma mulher autoritária, apavorado com o sábado depois do jantar em que ela me devorará, na cama, com as gigantescas mandíbulas da vagina, obrigando-me a suar sobre a geléia do seu corpo a ginástica do desânimo conformado”. Cada vez mais próximo do destino final – a Praia das Maçãs –, o autor que perfaz trajeto nas estradas ao sul de Portugal segue apedrejando a instituição matrimonial, fabulando em torno dos casais estáveis vistos num balneário do percurso: “Os roupões pendurados lado a lado nos grampos da porta, debaixo do preço da diária encaixilhada como um retrato de família, prolongam uma ilusão de vida a dois que as dentaduras, pousadas sem vergonha na mesa de cabeceira, desmentem cruelmente com os seus risos de plástico”.

 

Um tanto desnorteado, o leitor pode vir a estranhar o enriquecedor recurso do escritor de promover ciranda aleatória entre narradores, sem exata delimitação. Chegando às vias de ser confundido até com um paciente, Lobo Antunes – repleto “de maldade e de terror”, qualidades intrínsecas dos comparsas de guerra – estimula o leitor, a cada página, pela tendência aos fluxos de monólogos ensimesmados, uma vez que os personagens se revezam na descrença da capacidade do diálogo. Daí vem o espanto com o desfecho comedido na ternura, mas que sepulta todo o desgaste do escritor com o manicômio. Por incrível que pareça, o autor ganha a provisória companhia de crianças e animais que, na sua visão, “se afastam do asilo como se afastam da morte empurrados por um misterioso receio, a recusa da agonia, da putrefação, dos sentimentos fúnebres e mórbidos que os habitam”.


Ricardo Daehn

em Correio-Web (Brasil)

2007

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Vinicius Jatoba

Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exactos para a compulsiva sequência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e nocturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado ‘Conhecimento do Inferno’, um de seus primeiros livros, e ‘Eu Hei-de Amar uma Pedra’, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a ideia exacta de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, [...], alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afecto, seja ele entre parentes, seja no matrimónio. O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura. Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário ‘A Ordem Natural das Coisas’, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a ‘Tratado das Paixões da Alma’. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busca da eficácia. A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajectória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acumulo inflacionado de imagens e adjectivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas ‘Exortação aos Crocodilos’ e ‘Manual dos Inquisidores’ conseguem mais com estratégias indirectas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didáctico.

Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajectória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores. Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto de seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela óptica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranquila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.


Vinicius Jatoba

em Outra Babel

10.11.2006

 

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