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D'este
viver aqui neste papel descritpo - Cartas da Guerra, 2005
organizado por Maria José Lobo
Antunes e Joana Lobo Antunes
7 artigos
por
-
Jordi Joan Baños
-
Maria de Lourdes Soares
- Manuel Barata
- Manuel
Gomes
-
Norberto do Vale Cardoso
-
Rogério Santos
- Sara Belo Luís
Jordi Joan Baños
Cartas de amor e guerra
Como a corda em casa do
enforcado, a guerra de Angola é o trauma omnipresente em toda a obra de
António Lobo Antunes. Agora por fim, aparece em português - em breve em várias
outras línguas - um livro em que aquele sangrento epílogo colonial constitui a
coluna vertebral da sua escrita. Ainda que desta vez não se trate de um
romance, mas da recuperação das centenas de cartas que um médico recém-casado
enviou a sua esposa grávida, ao longo de 1971 e 1972.
António Lobo Antunes é um
"estajonovista" da literatura, um perfeccionista da frase e um homem de rotinas.
Um escritor fechado no seu mundo que se gaba de vender centenas de milhares de
volumosos romances "sem contar alguma história". O estúdio de seu primo, onde se
"esconde" para escrever desde há dois anos, está no mesmo edifício onde há três
décadas deu uma consulta, muito perto daquele que foi o seu anterior refúgio de
escritor: o hospital Miguel Bombarda. No dito estúdio, em cuja entrada se
destaca um coqueiro de plástico de três metros, o romancista aceita conceder a
La Vanguardia a sua até agora única entrevista sobre D'este viver aqui
neste papel descripto. Uma compilação da iniciativa das suas duas filhas -
os direitos de autor estão no seu nome - que o apresentam como uma homenagem ao
amor dos seus pais e, particularmente, da sua mãe, Maria José, já falecida.
"O que sinto perante aquelas
cartas é muita ambivalência", confessa. "Surpreende-me ser a mesma pessoa. Agora
reli algumas, poucas. Nunca pensei publica-las e não sei se têm valor literário,
porque onde jogo a vida é nos livros que agora escrevo. Mas quem sabe sirva para
que as pessoas compreendam o horror da guerra e a destruição de uma geração. Na
apresentação do livro foi muito comovedor ver chorar aqueles homens que estavam
morrendo e matando durante muito tempo, fazendo uma guerra praticamente sem
recursos. A alguns já não os via há trinta anos e foi como se viesse vindo a
estar com eles um pouco todos os dias. Como sabe, nunca falei da guerra, nem
sequer com os meus camaradas, e nunca escrevi sobre ela. É demasiado horrendo.
Ao voltar a Portugal surpreendeu-me a ausência de culpabilidade".
Nas suas cartas, Antunes também
critica a arrogância dos colonos portugueses, aos que em teoria se defendia:
"Não merecem a terra extraordinária em que vivem", escreve, antes de apelidá-los
de "vendedores de carros". "A quem pertence a um país cansado vão bem estes
verdes, estes sons, esta exuberância animal. Seria possível construir um Brasil
aqui, uma mestiçagem, se não fosse já demasiado tarde", conclui.
Porém quem espera encontrar uma
visão profunda sobre a guerra, ficará decepcionado, uma vez que as cartas
representam muito mais uma forma de escape para o então jovem médico militar. "É
certo, havia uma auto censura porque havia um risco, as cartas eram
interceptadas. Ainda que, na realidade, que nos poderiam fazer, quando já
vivíamos em Angola, o pior sítio?". Sem esquecer a censura do regime: "Jorge
Amado estava proibido, por exemplo, e Fellini era censurado Em seu lugar
mandavam-nos filmes de Joselito, como Manolito, pão e vinho".
Por isso escreve: "um dia serei
mais claro. A maior parte das coisas não as posso contar, e as minhas opiniões
sobre esta guerra não devem ser escritas. Isto é tudo muito diferente de como se
pensa". Até ao dia de hoje não mudou de atitude.
Repentinamente, entre muita
lamechice de recém-casado, irrompe a brutalidade da guerra. "Ontem amputei dois
dedos". Ou uma bomba fizera voar a perna de um soldado, que na sua aflição
repete uma e outra vez: "Quando meu pai souber, mata-se". Porém, e apesar do seu
trabalho médico, a mentalidade do Lobo Antunes de então "amigo íntimo do chefe
da Pide (polícia secreta)" pode parecer inquietante: "Logo vou passear no T6 (os
aviões de guerra que por aqui há) para lhe tomar o gosto. Vão bombardear
Chalala-Nango com napalm e não quero perder uma coisa dessas. Lembra-me muitas
vezes as fotografias que mostram a população vietnamita em aldeias devastadas".
Do "chefe da Pide, meu amigo íntimo", hoje reconhece: A guerra mudou-me muito,
também a minha visão das coisas". E já então escrevia: "Não voltarei a ser a
pessoa que fui, nunca mais. Começo a compreender que não se pode viver sem uma
consciência política da vida. Meu instinto conservador e comodista evoluiu
muito".
O romancista opina que com a
experiência bélica "desaparece a vaidade" e se conquista "a humildade". Ainda
que as suas palavras, pelo menos as de então o contradigam: "Creio sinceramente
estar em posse de uma obra prima. Vamos ser ricos, bonitos, inteligentes e
célebres. Tenho em mãos o melhor e mais revolucionário romance que nunca li.
Valeu a pena que acreditasses em mim, porque, finalmente, me tornei um escritor
de uma elegância corrosiva inigualável. Às vezes penso se não serei uma
reencarnação de Victor Hugo".
A Antunes causa-lhe apreensão
que o livro "seja lido pelos motivos errados" ou, dito de outra maneira, por
voyeurismo. Não é em vão, o livro reproduz sem disfarce suas confissões íntimas:
"Quero possuir-te com uma fúria de cavador cavalgando uma marquesa. Quero que
tenhas um olhar desdenhoso e lento, um riso extravagante, um desprezo de
monossílabos". Ou, mais adiante, "vão ser 35 dias de coitos ininterruptos", ou
"quero violar-te com a fúria de um ocupante alemão". Mas aquele livro que
acreditava ser genial, que iria chamar-se Dilúvio ou Voo, nunca saiu do chão.
As cartas dão a imagem de uma
guerra suis generis própria de Gila, na que um batalhão alega ter sofrido dois
mortos e 126 baixas. Ou na que os portugueses acabam por se dar conta de que a
alegre despedida ao ritmo do merengue com que obsequiam os nativos cada vez que
saem de patrulha é na realidade um sinal para os guerrilheiros. Ainda que Lobo
não se deixe dobrar: "O risco é mínimo porque estes tipos nunca acertam",
escreve.
Em 1972, depois de muito
suplicar, recebe a visita da sua esposa e da primeira das suas duas filhas,
recém nascida. Sua mulher, Maria José, a única branca entre milhares de negros,
adoece e tem de ser internada. Mais tarde regressam a Portugal, e para António
será ainda mais duro aguentar os últimos meses, até cumprir os dois anos de
serviço. Os seus aerogramas deixam de ser diários. "Vou-me afundando numa apatia
total. Não faço nada, nada me apetece. Chego a pensar que sairei daqui para um
hospital psiquiátrico, como paciente". Sairia como escritor.
(...)
por Jordi Joan Baños
La Vanguardia (citado deste
site)
31.12.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)
topo
Maria de Lourdes Soares
Até ao fim do mundo
D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas
da guerra,
o mais recente livro de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942), reúne
cartas enviadas pelo autor à sua mulher, entre 1971 e 1973, quando ele
combateu no Leste de Angola, na fase final da guerra colonial portuguesa.
Assinam o prefácio as organizadoras do volume, Maria José Lobo
Antunes e Joana Lobo Antunes, filhas do casal. O projeto do livro,
extremamente cuidadoso, além dos aerogramas, inclui fotografias e
algumas notas, que “fazem algumas contextualizações da época e explicam
parte das referências feitas nas cartas”, assim com um glossário, “que
trata da linguagem relativa à África, à guerra e a alguma gíria usada
nas cartas” (ANTUNES, 2005: 12).
A leitura deste livro provoca ao mesmo tempo
comoção e reflexão. Comove e faz refletir já a partir do contraste entre
a emanação de felicidade da fotografia da capa – um jovem casal de
noivos - e os presságios de desgraça, evidenciados no subtítulo. A
comoção desta foto amplia-se na foto em página dupla, referente ao
aerograma de 17.5.71 (ANTUNES, 2005: 164-165), ante a beleza e
desprevenida alegria das faces dos nubentes, vivendo a ilusão de um
futuro que logo se quebrará. Punge pela maravilhada inocência do que
está no começo, pela promessa de felicidade, pura potencialidade de ser
– o casamento, a profissão, a literatura, os sonhos... -, e que
irremediavelmente será atingida pelas “malhas que o império tece”, como
diria Fernando Pessoa (PESSOA, 1977: 146). Toca-nos porque essa é também
a nossa história, de alguma forma contemporâneos e de alguma maneira
atingidos pelo monstro da guerra e pelo espectro da morte.
Os quase trezentos aerogramas do médico alferes à
amada Maria José (dois dos quais dedicados à filha recém-nascida,
batizada, por decisão de Lobo Antunes, com o nome da esposa) constituem
“uma espécie de diário do amor ausente [aerograma de 12.11.71]”
(ANTUNES, 2005: 294), um amor suspenso, em pleno vigor da juventude,
adiado por contingências históricas, por uma guerra absurda e inútil
como soem ser todas as guerras. Ele parte deixando para trás um
casamento recém-iniciado, a esposa grávida, impedido de acompanhar a
gestação, o nascimento e os primeiros meses de vida da filha. “Porque
não nos deixam ser felizes? Porque nos tiram assim alguns dos melhores
anos da nossa vida? [aerograma de 15.6.71]” (ANTUNES, 2005: 198).
O material epistolográfico constitui um longo e
obsessivo discurso da ausência. Nas palavras de Roland Barthes, “devo
infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito
extraordinária; o outro está ausente como referente, presente como
alocutário” (BARTHES, 1986: 29). Escrita compulsiva, praticamente
diária, a tentar enunciar o amor por toda a parte, ocupando todo o
espaço disponível no papel, inclusive as margens, e a suplicar
angustiadamente pela pronta resposta. Ainda com Roland Barthes, esta é a
dialética particular da carta de amor: “como desejo, a carta de amor
espera sua resposta; ela impõe implicitamente ao outro de responder, sem
o que a imagem dele se altera, se torna outra” (BARTHES, 1986: 33).
O autor dessas cartas de amor em tempo de guerra
do Ultramar revela-se, portanto, um remetente apaixonado e, como tal,
hiperbólico no envio de beijos e na enumeração das qualidades da amada,
objeto de singulares epítetos e comparações, de que serve de exemplo o
início desta longa carta-poema: “Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor
minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via
Láctea minha filha minha mãe minha esposa (...) [aerograma de 17. 4.7] ”
(ANTUNES, 2005: 131).
Quanto mais proclama a desmedida e quase
insuportável dor da ausência, mais grita a dor da guerra, dor nem sempre
descrita, quase abafada, controlada, por várias razões (para não afligir
a esposa grávida, por não ser permitido tocar nesse assunto em
aerogramas...). A saudade e o desespero crescentes tornam-se
materialmente visíveis na grafia alterada do aerograma de 5.4.72, que
apresenta letras imensas e algumas expressões em maiúsculas: “Tudo visto
e pesado, prós e contras, VEM, VEM JÁ. Estou farto de viver sem ti.
Espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível.
Espero-te com todo amor do mundo. António” (ANTUNES, 2005: 396).
O livro põe-nos diante das fronteiras do
literário: (Auto)biografia? Romance epistolar? Memórias do
Ultramar? Contribui para o seu caráter híbrido o material nele incluído:
algumas fotografias referidas nas cartas (registros do “viver aqui neste
papel descripto” do remetente, em flagrantes de campanha, e também da
destinatária, mantendo-se sempre esplendorosamente bela durante a
gravidez e após o parto) e reproduções da cartilha de alfabetização do
MPLA [aerograma de 1.3. 71] (ANTUNES, 2005: 70-71), que agregam à
dimensão estética outras dimensões, notadamente as de cunho histórico e
sócio-cultural.
O título do livro remete à literatura, mais
precisamente a um trecho de uma carta de um dos poetas ligados ao grupo
de Fernando Pessoa, Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921), que
viveu muitos anos internado para tratamento psiquiátrico em Hospitais do
Porto e de Lisboa. Ângelo de Lima sempre foi muito apreciado por Lobo
Antunes, segundo informam as organizadoras do livro, e o seu caso
clínico por ele estudado, de que resultou o premiado trabalho: “Loucura
e criação artística: Ângelo de Lima, poeta de Orpheu”. O titulo deste
volume de cartas anteriormente havia sido escolhido por Lobo Antunes e
recusado pela editora para dar nome ao que viria a ser o seu primeiro
romance: Memória de elefante (1979): “o título original de
Memória de Elefante era a frase final da autobiografia de Ângelo de
Lima, deixo de viver aqui, neste papel onde escrevo, mas o editor
disse que era muito comercial, que era muito grande” (ANTUNES, 1982).
Nessa primeira escolha, portanto, já se desenhavam e entrelaçavam as
duas linhas que marcariam a trajetória do autor: a sua paixão pela
literatura e o seu imenso interesse pela psiquiatria.
Literatura, aliás, é um dos mais fortes temas que
atravessam as missivas de António Lobo Antunes, tendo a destinatária
como interlocutora privilegiada e leitora primeira de excertos de seus
escritos, que incluíam também algumas tentativas poéticas. Assim,
tomamos conhecimento de suas leituras, dos autores amados e detestados
e, sobretudo, da sua postura sempre exigente face à literatura,
inclusive diante dos próprios escritos (a ponto de pedir à mulher para
deitar ao lixo alguns textos que deixara em Portugal ou de ele mesmo
destruir inúmeras páginas escritas em Angola). E surpreendemo-nos a
acompanhar o nascimento de um escritor, um Lobo Antunes ainda
desconhecido, às voltas com a escrita do seu primeiro título, oscilando
entre a euforia de quem conseguiu escrever páginas perfeitas e a
convicção de que tudo precisa ser revisto ou destruído.
Há uma expressão obsessivamente reiterada em
D’este viver aqui neste papel descripto, afirmando o amor “até ao
fim do mundo”, figura análoga a “eu-te-amo”, que se refere ao
“repetido proferimento do grito de amor”, na acepção de Roland Barthes:
“eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido, mas se
prende a uma situação-limite: ‘aquela em que o sujeito está suspenso
numa ligação especular com o outro’. É uma holofrase” (BARTHES, 1986:
97-98). Esta expressão nos remete a um dos elementos presentes no mais
apaixonante dos mitos portugueses: o dos amores de D. Pedro e Inês de
Castro, episódio amoroso cantado por Camões e por muitos outros poetas,
ficcionistas e pintores ao longo dos séculos. Segundo conhecidas
interpretações da epígrafe dos túmulos de Pedro e Inês («A:E AFIN DO
MUNDO»), a inscrição pode significar “Até ao fim do mundo”, e consigna o
amor eterno jurado pelos célebres amantes. Por esta razão, um dos
cognomes de D. Pedro é “O-Até-ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado” (Note-se,
aliás, que os seus demais cognomes – Pedro-o-cru e Pedro-o-justiceiro –
de certo modo também estão relacionados ao seu “desvario” pela linda
Inês).
Parte dessa expressão – “fim do mundo” - aparece
também na correspondência de Lobo Antunes enviada à amada, mas bem menos
vezes e com outro sentido, não ligado às eternas juras de amor, mas ao
sentido corrente em Portugal de lugar inóspito, distante da terra natal,
desprovido de tudo: “Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior
zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora
apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o
lado” [aerograma de 27.1.71] (ANTUNES, 2005: 29). Em suma, um lugar
situado nos “cus de Judas”, expressão que dá título ao segundo romance
de Lobo Antunes (1979), palco onde se desenrola o “gigantesco,
inacreditável absurdo da guerra”, conforme o narrador deste livro, um
ex-miliciano recém-retornado ao seu país (ANTUNES, 1984: 44). Segundo
depoimento do autor, “Curiosamente a Memória de Elefante é que
era o título do livro Os Cus de Judas. Os Cus de Judas
foram arranjados depois, na altura da obra sair. A expressão quer dizer
traidores, para negros” (ANTUNES, 1982).
E é este sentido de traição, de dupla traição, de
irreparável traição do destino (um dos possíveis nomes dos senhores da
guerra), que a expressão parece sublinhar. Roubou aos amantes os
melhores anos. Manchou-lhes a promessa de felicidade. Secou no escritor
estreante o pendor para a poesia. Abortou sonhos. Mutilou corpos e
almas. Deixou em todos envolvidos, de aquém e de além mar, marcas
indeléveis, feridas difíceis de cicatrizar. No campo devastado dos
amores e da guerra, entre ruínas e destroços, algo, porém, insiste em
fulgir ainda, uma declaração de amor, entoada em forma de pungente
canção do exílio, no aerograma de 13.4.71: “Estar aqui traz-me
constantemente à memória, não sei porquê, paisagens como aquela estrada
entre Santarém e Alpiarça, com os plátanos fechando-se por cima das
cabeças, o jardim público de Montemor, a Golegã deserta a qualquer hora
e de portas fechadas, o Tejo assoreado reduzido a imensos bancos de
areia. Eu gosto desesperadamente do meu país e da minha amada língua
portuguesa, a mais bela de todas. Quero ser enterrado aí, onde quer que
morra, sob o ‘vento que muxe coma unha vaca’ ”[1]
(ANTUNES, 2005: 126). Consola um pouco pensar que, apesar de todos os
pesares, este persistente afeto do soldado-escritor por sua língua e
pelo seu “pequeno e triste país de viúvas a descer para o mar [aerograma
de 13.4.71]” (ANTUNES, 2005: 126) nada nem ninguém conseguiu minar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES,
António Lobo. Memória de elefante. Lisboa: Vega, 1979.
––––––.
Os cus de judas. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1984.
––––––.
Entrevista com António Lobo Antunes. Jornal de letras, artes e idéias,
Ano I, nº 23, Janeiro de 1982.
––––––.
D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra.
Organização e prefácio Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes.
Lisboa: Dom Quixote, 2005.
BARTHES,
Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 6ª ed. Tradução de
Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.
PESSOA,
Fernando. Obra poética. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1977.
[1]
António Lobo Antunes atribui o verso citado à poeta galega Rosalia de
Castro [Santiago de Compostela, 1837 – Padrón, 1885]. Na realidade,
porém, de acordo com a nota das organizadoras, “a citação é de Garcia
Lorca, conforme vem correctamente identificada mais à frente” (ANTUNES,
2005: 126).
por Maria de Lourdes Soares
em
CiFEFiL (Círculo
Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos - Brasil)
12.02.2006
topo
Manuel Barata
D'este viver aqui neste
papel descripto - ensaio
1. As chamadas “cartas de guerra” de António
Lobo Antunes, reunidas no volume "D’este viver aqui neste papel descripto", são, também, um poderoso documento sobre a guerra colonial.
Embora dirigidas a sua mulher, o autor constrói ao longo dos dois anos de
comissão, isto é, entre 7 Janeiro de 1971 e 30 de Janeiro de 1973, através
de múltiplas notações, um libelo acusatório contra as abjectas condições a
que os homens estavam sujeitos, nos aquartelamentos das zonas de guerra.
2. Porém, o conteúdo destas cartas
não se esgota nos valiosos apontamentos sobre a guerra e na profunda relação
amorosa com Maria José e ainda com a outra Maria José, a quem, até ao
nascimento, chamará muitas vezes o “cafeco”, que significa criança em
quimbundo. Através das cartas apreendemos também o mundo de relações do
autor e da extrema atenção que presta a todos aqueles com quem se
relacionava e com quem se continua a relacionar através da escrita de
aerogramas. Todos os familiares lhe conhecem o gosto pela leitura e muitos
enviam-lhe livros e revistas. De resto, é até curioso notar que António
sugere a Maria José que sugira livros que gostaria de ler, mas que não está
disposto a comprar, porque é absolutamente proibido gastar dinheiro. Esta
sua natureza poupadinha vai ser motivo de um tópico. Também merecerão
destaque neste trabalho testemunhos extraordinários que relevam do ponto de
vista da antropologia e ainda impressões sobre arte e literatura.
3. Estamos, pois, em presença de uma
obra ímpar, que, apesar dos mil milhões de beijos enviados por António a
Maria José, a destinatária, extravasa vastamente a temática amor. Dir-se-ia
até, que, expurgadas das fórmulas mais ou menos canónicas dos começos e dos
impagáveis modos de terminar, estas cartas são, obviamente, muito mais do
que simples cartas de amor. Decidir se este é ou não o primeiro grande
romance do autor de memória de elefante, é tarefa que não assumimos neste
pequeno e despretensioso estudo.
4. No entanto, não temos nenhum
problema em afirmar peremptoriamente, que, doravante, estas cartas terão de
ser lidas e relidas, por todos os que vierem a debruçar-se sobre os catorze
anos da Guerra Colonial. Pois esta determinou toda a vida portuguesa, quer
no rectângulo europeu, onde se procedia à incorporação, treino e mobilização
de homens, quer nas chamadas Províncias Ultramarinas, onde se situavam os
múltiplos teatros de operações. E marca ainda hoje, volvidos mais de trinta
anos, de forma indelével, gerações de portuguesa.
5. Embora sejam o testemunho
subjectivo de um indivíduo, jovem médico e aspirante a escritor, as cartas
possuem a força das confissões espontâneas. A visão do autor é dada
silenciosamente, na puridade dos seus aposentos, como notas de um
quotidiano, que, apesar da distância, quer partilhar com a mulher amada.
Assim, cremos que estas cartas, primordialmente (?) amorosas, são mais
objectivas do que os relatórios militares e as notícias necrológicas,
sabendo nós que uns e outros eram vigiados e censurados. Acresce a tudo
isto, que, também nós, ainda que em teatros operacionais e época diferentes,
cumprimos serviço militar obrigatório, na menina dos olhos dos
colonialistas, isto é, em Angola. Não sabendo as surpresas que o tempo ainda
nos pode reservar, António Lobo Antunes terá sido, até ao momento presente e
através das suas cartas, aquele que, de 1961 a 1975, melhor verbalizou a
vivência da Guerra Colonial.
6. “Porque é que vieram
interromper-nos tão brutalmente?” A pergunta é formulada na carta de 1.6.71,
escrita no Chiúme, Leste de Angola, quando o então alferes miliciano Lobo
Antunes, cumpria o serviço Militar obrigatório. É dirigida a Maria José, sua
mulher, ainda estudante e grávida de Maria José, a primogénita do casal. O
autor estava no fim do mês quinto da sua estada em Angola e Chiúme era já o
seu terceiro teatro de operações. Passara anteriormente por Gago Coutinho,
onde, apesar de tudo, tinha uma certa vida de relação. No Ninda, conhecera
Ernesto Melo Antunes a quem tece rasgados elogios e do qual será amigo para
sempre. Chiúme é o buraco dos buracos, o lugar onde a DO chega com menos
regularidade e há o célebre P., na messe, que não é, propriamente, um modelo
de higiene. É no Chiúme, finalmente, que o autor faz referência explícita,
reproduzindo de cor os dois versos finais, à Canção X de Camões. E
finalmente, porque essa célebre composição de Camões já andava pressentida
há muito, nestas cartas.
7. A pergunta em epígrafe, que admite
várias interpretações, podia ter sido formulada por dezenas de milhar de
jovens soldados que, num dado momento das suas vidas, viam as suas vidas
interrompidas. As interrupções eram múltiplas: as luas-de-mel, os cursos, a
aprendizagem de profissões, os namoros, muitos e muitos projectos futuros,
no limite, a própria vida. Era tudo tão violento, nomeadamente, para quem já
tinha alguma instrução escolar e política. O povoléu, ignaro e obediente,
psiquicamente treinado para combater pela Pátria, batia-se, quase sempre,
até aos limites da insensatez. Quantas narrativas de actos de grande bravura
terão ficado por contar?
7.1. Passados apenas quinze dias e já
o jovem alferes, médico de formação, notava que iria “pagar um preço muito
caro pela possibilidade de voltar a viver” em Portugal (carta de 31.1.71.).
As notações sobre a guerra são agora frequentes. Mais tarde há-de, já
calejado e aparentemente mais conformado, poupar Maria José aos relatos
horripilantes de mortos, amputados, feridos e desaparecidos. À exaltação
inicial, vai opor-se um homem mais ponderado e quiçá mais conformado.
“Escrevo-te de manhã, no gabinete da enfermaria, enquanto espero três
evacuados” (carta de 10.2.71); porém, e também para terminar este subtópico,
aqui ficam mais palavras de Lobo Antunes: “ Dos feridos gravíssimos de ontem
– três sujeitos cheios de balas – não há notícias, mas espero que se salvem.
Entretanto o morto – o guia – foi abandonado na mata às feras”( carta de
11.2.71).
7.2. A guerra não era apenas
operações e mais operações militares e mortos e feridos e evacuados. Daí, a
pertinência da observação que segue: “ É incrível a guerra que aqui fazemos,
sozinhos e sem meios, contra um inimigo cada vez mais numeroso e bem
preparado” (carta de 11.2.71). E onde muitos outros meteram o bedelho, passe
o plebeísmo, como nota o futuro autor de As Naus: /.../ o nosso exército
prolifera e vive no meio de uma confusão e de uma desordem indescritíveis” e
mais à frente: “Chegam hoje os pilotos(17) nos seus pássaros gigantes, e não
sei de onde é que estes franceses vêm e por que diabo colaboram nisto”
(carta de 15.2.71).
7.3. E apesar da guerra ser uma
actividade colectiva, onde acontecem os actos mais bárbaros e as
solidariedades mais grandiosas, António sabe que ele e os restantes
camaradas de armas, nomeadamente os mais esclarecidos, combatem fora da sua
terra e em defesa de uma causa iníqua. Combatem pelos execráveis passadores
de angolares por escudos, pelos novos-ricos que vão às festas em Luanda e
que tudo fazem para que as suas crias masculinas não conheçam os tenebrosos
teatros de operações. Não espanta, pois, esta constatação: “Cada um vive
quase somente para si próprio e para as cartas que recebe, preocupado com a
própria sobrevivência e mais nada” (carta de 17.3.71). Esta guerra,
decididamente, era sentida como algo que era imposto e cujo absurdo as
elites iam interiorizando. Não admira, assim, que, no pós-25 de Abril, a
situação nunca mais se tivesse estabilizado. Todos os sobreviventes queriam
voltar ao verdadeiro solo pátrio e ao seio das suas famílias. Cá, no
rectângulo europeu, ficou célebre a palavra de ordem: NEM MAIS UM SOLDADO
PARA AS COLÓNIAS!
7.4. Não eram, contudo, os tempos da
incorporação e da mobilização, que marcavam o início das angústias
familiares. A guerra começava a ser tema obrigatório para os rapazes e
respectivas famílias, por altura dos quinze/dezasseis anos. Apesar de tudo,
António Lobo Antunes terá iniciado o serviço militar já depois dos vinte e
cinco anos, facto que lhe permitiu uma abordagem mais adulta e pontuada por
uma imensa discrição. Porém, não deixam de ser dignas de registo as
seguintes palavras de António:” O meu instinto conservador e comodista tem
evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não
posso continuar a viver como o tenho feito até aqui” (carta de 15.5.71). É
curioso notar que o futuro escritor, que se referia aos guerrilheiros por
terroristas e que até mantinha uma relação amigável com o responsável da Pide, em Gago Coutinho, há-de deixar cair aquela denominação e esta amizade
no esquecimento.
7.5. António Lobo Antunes é filho de
uma futura grande família do reino. O pai é médico especialista e de
nomeada. O irmão mais velho segue, segundo cremos, as peugadas do pai.
António já é médico. E os restantes membros do clã hão-de desempenhar papéis
noutras áreas, a saber: advocacia, música e diplomacia, nomeadamente. O
nosso mancebo, compreensível mas tardiamente mancebo, vai transmitir,
através das suas cartas – as cartas a Maria José -, a sua visão da guerra
colonial e das actividades correlativas. A primeira grande nota de uma
situação burlesca é dada ainda durante a viagem, na carta de 14.1.71, onde o
futuro escritor descreve o ambiente das refeições, no paquete: “ Ao jantar e
ao almoço, uma velha oxigenada, com duplo queixo e chinelos, toca piano com
uma dificuldade míope, e ao lanche (chá e bolos), servido por uma nuvem de
criados, a orquestra «Vera Cruz», qual deles com a melhor pinta de chulo
lisboeta, magrinhos, brilhantinados, de olhar maroto, esfolam música de
cabaré de putas.” Tendo em conta o puritanismo da sociedade portuguesa do
início da década de setenta do século passado, imagine o putativo leitor a
cara daquela panóplia de tias e avós, se lessem aquela prosa enérgica e
realista de António.
7.6. A guerra é uma fonte de medos
por excelência: os actores têm medo de morrer, de ficar estropiados, de ser
preteridos no amor, de ser esquecidos por amigos, familiares e até pela
mulher amada. Não espanta, assim, que o futuro autor de Cus de Judas , logo
na primeira carta, a de 7.1.71, em tom imperativo, mas com patética
sinceridade, escreva: “Lembra-te de mim”. De resto, esta fórmula vai ser
repetida assim ou modificada em dezenas e dezenas de cartas: “lembra-te de
mim, sempre/../”, “ /.../ tem paciência e lembra-te, de quando em quando, de
mim”, “/.../ lembra-te de mim, tem saudades minhas e gosta um bocadinho do
teu marido desterrado”, “Minha noiva linda, nunca te esqueças de mim”.
António teme até – e o seu temor é tão humano!...-, que os outros o
esqueçam. Daí esta tão comovente confissão nobreana: /.../ espero que
continuem a pensar no António coitado/.../” Nobre, o espantoso poeta do SÓ,
há-de ser referido explicitamente em duas das cartas e está presente,
implicitamente, em muitas outras. Este António, tal como o poeta, é aquele
que está longe da sua terra, das coisas e dos seres que lhe são queridos e
que vive, também ele, só e corroído pela saudade, já muito longe da sua
“torre de leite”. “92 dias separam-nos. Todas as manhãs desconto um. Vivo
desta aritmética da saudade/.../”, escreve na carta de 28.6.71.
8. “Porque é que vieram
interromper-nos tão brutalmente?” António casara em Agosto de 1970 e
embarcou para Angola em 6 de Janeiro de 1971. O casal, apesar dos meses
entretanto decorridos e de Maria José já se encontrar grávida, vivia ainda
uma prolongada lua-de-mel. Era um dos efeitos da guerra. Vivia-se o dia
presente como se do último se tratasse. A guerra conferia a tudo, e ao amor
também, um carácter de urgência. Deixo aqui um verso de Ramos Rosa: “Não
posso adiar o amor para outro século”.
8.1. As cartas escritas por António
são apaixonadíssimas. Aqui se transcrevem algumas das fórmulas iniciais,
que, de certo modo, atestam essa mesma paixão: “Meu querido amor”, com
noventa e quatro ocorrências; “Minha jóia querida”, repetida em quarenta e
cinco missivas”; “Minha querida jóia”, surge quarenta e uma vez; para “Meu
amor querido”, contamos vinte e seis; e “Meu amor” é utilizada em quinze
cartas. Porém, o trabalho de joalheiro vai mais longe, utilizando ainda as
fórmulas seguintes: “Minha jóia”, “Minha jóia adorada”, “Minha querida jóia
linda”, “Minha amada jóia”, “Minha jóia preciosa e querida”, “Minha jóia
zangada”, etc.
Ainda no âmbito destes começos,
note-se o emprego de “Minha linda senhora” e também “Minha alma amada”, que,
ainda que este amor se alimente de carne, remete para códigos amorosos
antigos que o autor conhece bem e que não utilizará por acaso. Nomeadamente
a fórmula “Minha alma amada”, que configura uma identidade espiritual plena
entre os dois amantes. Maria José é o primeiro leitor de António e este
confere grande importância à sua opinião. Devido à separação, Melo Antunes
também há-de ler excertos, em primeira-mão, e dar alguns conselhos ao jovem
escritor.
Como todos os casais, mesmo à
distância, os “amuos” também acontecem, ainda que para António sejam sol de
pouca dura. Diz o que tem a dizer, directa e incisivamente, e retoma a
relação com a ternura de sempre. É nestes momentos que inicia as cartas com
expressões diferentes das habituais: “Maria José”, “Sr.ª D. Maria José” e
“Minha Senhora”´. O ciúme também não está completamente ausente, quando,
numa das cartas, diz que se vive bem, em sua casa, na sua ausência. Outros
exemplos poderiam ser dados.
8.2. Os finais das cerca de trezentas
cartas são memoráveis e muitos deles constituem verdadeiros hinos ao amor.
Outros, por sua vez, tocam-nos pelo insólito e pelo imenso humor de António.
É justo que se diga, neste preciso momento, que os finais das cartas são
profundamente caóticos. Há sempre uns milhões de beijos para acrescentar, um
“lembra-te de mim”, mais beijos, um “GTS”, etc., que nos dão conta da
profunda solidão em que vive este homem e da falta física que lhe faz a
mulher amada.
8.3. Nós sabemos, de saber de
experiência feito, quanto doíam as carências afectivas. Sabemos, com saber
de experiência feito, com se iludia essa dor. Sabemos, com saber de
experiência feito, a quanta sordidez nos obrigou a guerra. Houve outros Antónios, mas deve ser aqui transcrito este testemunho: “ As minhas saudades
tuas são imensas. É tão triste esta longuíssima separação” (carta de
10.5.71) e diz-lhe imediatamente: “Com nenhuma mulher dormirei senão
contigo, a mãe do Toino – ou da Zézinha. Milhões de beijos /.../” (carta de
10.5.71). E no entanto, este homem morre de desejo: “Coloco o meu pénis na
forquilha do teu corpo” (carta de 20.1.71) e remata esta carta com ” Milhões
e milhões de saudades apaixonadas, de beijos, de festas, de carícias e de
abraços/.../”.
Dias depois, com os sentidos já na
ordem, se é que pode falar assim, escreve: “ o teu Van Gogh (tinha tido um
problema numa orelha) adora-te, minha gazelinha adorada, meu diamante
querido, minha pérola e minha estrela” (carta de 21.1.71); todavia, o seu
amor nunca deixa de ser superlativo: “Gosto tanto tanto tanto de ti” (carta
de 27.1.71). Alguns dias depois, o desejo voltava: “Eu queria tanto voltar a
ver-te! Deves estar, com certeza, cada vez mais bonita. E gorda. E
barriguda. Apetece-me tanto deitar-me em cima de ti e penetrar-te” (carta de
1.2.71). Passados alguns meses, já próximo do primeiro reencontro, escreve:
“Hoje tenho andado com uma terrível vontade sexual. Prepara-te para coitos
homéricos” (carta de 13.7.71) e num dos aerogramas seguintes reitera:” Gosto
tudo de ti, meu amor querido. E prepara-te para tetraquotidianos combates
singulares” (carta de 20.7.71).
Mais palavras para quê?
9. A escrita é a obsessão das
obsessões de António Lobo Antunes, que também é, como havemos de ver mais
tarde, um grande devorador de livros. Não dissemos grande leitor,
propositadamente, ainda que do seu currículo conste uma plêiade de autores
de narrativas, que começa com Homero, no séc.VIII a.C. e chega aos seus
contemporâneos, estrangeiros e nacionais. Há neste homem um dado relevante:
é detentor de uma memória prodigiosa, uma memória onde tudo se inscreve e
nada se apaga. Tem, na verdade, uma memória de elefante.
9.1. Antes de avançarmos neste ponto
que denominamos a obsessão das obsessões, queremos aqui realçar o facto de
Lobo Antunes ter deixado manuscritos em Portugal, os quais manda destruir a
Maria José, na carta de 27.3.71. E diz mesmo que ficaria muito zangado, se,
porventura, encontrasse as suas “historietas miseráveis”, quando viesse a
Portugal. Mas quem tem acompanhado a vida do autor, sabe que escreveu desde
sempre. Pelo menos, é essa a ideia que deixa passar em todas as entrevistas,
quando perguntado sobre o assunto. E as cartas reiteram definitivamente essa
ideia, e, outra ainda, a da escrita como trabalho oficinal. Atente-se nas
próprias palavras do autor acerca do Voo: “ O problema tem sido reduzir a
minha prosa a uma simplicidade bem legível. Cortar o pescoço à eloquência”, Chiúme, 7.6.71. Eloquente!
9.2. A escrita é o oxigénio de Lobo
Antunes. Parece predestinado para escrever livros e daí que, no interior da
própria família, o olhem diferentemente. As palavras do próprio autor: “No
fundo agrada-me que assim seja, sempre gostei muito do amor, sobretudo do
que eles têm por mim, que, não sei se já reparaste, é diferente do que
sentem pelos meus irmãos, porque eles têm a sensação de que possuo qualquer
coisa de irresponsável e imprevisível e de que farei um dia algo de heróico
e de louco e de sublime, que eles não sabem bem o que será mas que os mantém
em suspense”, carta de 12.4.71. E curiosamente, esta é uma das poucas
missivas em que não fala da “história” ou histórias, tanto faz.
9.3. A inscrição da sua escrita,
nesta grande narrativa epistolar, é iniciada com uma intenção: ”Qualquer dia
recomeço a escrever (carta de 29.1.71)” e dois dias depois
avisa:”/.../começo, de novo, a pensar no livro/.../”. Na carta de 7.2.71,
escreve: “ Começo a assentar e a serenar. Comecei, talvez por isso, e a
escrever um novo Dilúvio /.../ “Na missiva de 11.2.7, assegura: “ A história
cá se vai fazendo com o pouco tempo que para ela tenho, com facilidade e sem
muletas.”; para asseverar, cinco dias depois: “ A minha história lá avança
entretanto, e parece-me genial...". A 24 de Fevereiro, afirma: “/.../ Tenho
avançado o Dilúvio contra ventos e marés, e espero tê-lo pronto e genial
antes das férias.” Apesar do tom optimista em que se expressa; nota-se já,
todavia, que algo não vai inteiramente bem com este livro, que trazia
iniciado de Lisboa e que há-de abandonar.
9.4. Na carta de 13.3.71, António,
eufórico, revela a Maria José: “Ontem passou-me uma coisa pela cabeça e
comecei a escrever uma história completamente nova, com uma facilidade
incrível. É uma coisa que me tem entusiasmado para lá de todas as palavras,
e que excede, mesmo, tudo quanto me julgava capaz de fazer”. E não se cansa
de tecer elogios ao seu novo projecto, que conta ainda apenas com dez
páginas, mas que será um romance “assombroso” e o mais “revolucionário” de
todos os que já lera. E assevera que não está “a ser pedante, nem aldrabão,
nem exagerado”. É o dia triunfal de Lobo Antunes que, de resto, já era um
velho conhecido de Fernando António e conhecia a génese dos heterónimos.
9.5. É verdadeiramente impressionante
a quantidade de autores que, aos vinte e oito anos de idade, António já
tinha lido e sobre os quais se permite emitir juízos de valor. Conhece os
autores sul-americanos fundamentais, que se expressam em português e
espanhol. E, apesar da “sua tenra idade” e da ausência de obra publicada,
olha-os de cima para baixo (é assim que quero dizer). Gabriel Garcia
Marquez, e, sobretudo, Cem Anos de Solidão, Carlos Fuentes e Cortázar, são
dos raros autores, do subcontinente, que se salvam da mira sempre muito
crítica do futuro autor de A Morte de Carlos Gardel.
9.6. Os franceses, que conhece
abundantemente, passam sem grandes críticas. La Chute de Camus é uma coisa
bem escrita. A Peste, lida aos dezasseis anos, era uma coisa extraordinária;
mas aos vinte e oito, já era maçadora. De resto, parece não apreciar muito a
literatura solar de Camus. Nem uma só referência a O Estrangeiro. André Gide,
o esteta, é referido várias vezes, mas sem adjectivos. Copia-lhe o método do
caderninho. Acusa Balzac “pela cristalização do romance”. Conhece o
antiquíssimo Cyrano de Bergerac. Mostra grande interesse pela Shafo de
Alphonse Daudet e lê Samuel Beckett. Quem exerce, no entanto, um grande
fascínio sobre o jovem escritor é Céline, que chega a considerar o maior,
ainda que determinados juízos de valor reflictam muito o estado de alma do
momento em que são formulados.
Ainda uma pequena nota referente à
língua francesa. António revela um grande conhecimento da língua – e não
será desapropriado dizê-lo – um certo gozo em utilizar expressões da língua
de Victor Hugo, ora para valorizar a beleza de Maria José, ora para dizer
quanto detestava aquela situação que lhe roubava dois anos da sua vida. Aqui
fica o registo de algumas expressões francesas:”tristesse”, “três hasardeux”,
“à la longue”, “soyons heureux”, “à en mourir”, “environement”, “refaire une
beauté”, “je m’en fiche”, je deteste ça”, etc.
9.7. Quanto aos espanhóis da
península, Lobo Antunes não dá conta dos seus conhecimentos. Trata
familiarmente Don Miguel de Unamuno, atribui um verso de Lorca a Rosalía de
Castro e faz uma referência elogiosa a Jorge Semprún, que lhe foi revelado
por Melo Antunes.
9.8. Ainda no que concerne a autores
estrangeiros da sua predilecção, para além dos sul-americanos já
anteriormente referidos, avultam Joyce e Faulkner. Do primeiro diz: “ /.../
o melhor do mundo é James Joyce” (carta de 7.7.71) e quer o seu retrato, na
“nossa casinha”, em lugar de destaque. Em relação a Faulkner, diz que
gostaria de ter escrito todos os seus livros. E na mesma carta (Carta de
23.2.72), numa condusão propositadamente torrencial e incoerente e por
metonímia, refere Hemingway e Stendhal e Flaubert e e Thomas Mann, etc. e
depois lembra-se de Tolstoi, “que é o maior de todos”. Outros autores são
citados: Franz Kafka, Gunther Grass, Truman Capote, etc. E talvez seja justo
dizer, neste ponto, que, apesar das nossas omissões, a carta de 23.2.72,
escrita na Marimba, fixa a árvore genealógica de António Lobo Antunes.
9.9. Era espectável que António Lobo
Antunes nos desse mais notícias de autores portugueses. Afirma,
curiosamente, que os três maiores escritores portugueses são Camões, Pessoa
e Bocage. Deste último lamenta o facto de não o conhecer tão bem como devia.
E de andar associado ao anedotário.
Lê ensaios de Jorge de Sena, contos
de Almada, romances de Namora e descasca em O’Neill. Acerca da obra deste
último, As andorinhas não têm restaurante, diz tratar-se de uma série de
prosas sem categoria nenhuma, /.../ Qualquer coisa de fotonovela e nem um
cheiro daquela atmosfera russa indefinível/.../, que eu tanto gosto de
respirar” (carta de 27.2.71).
Acha que Soeiro Pereira Gomes seguiu
demasiado Os Capitães da Areia de Jorge Amado, na Engrenagem; contudo, tece
rasgados elogios ao neo-realismo, por ter dado voz ao país real. De Redol lê
A Barca dos Sete Lemos e não faz quaisquer comentários.
Não é natural, em nossa humílima
opinião, que o futuro autor do Esplendor de Portugal, se tenha esquecido dos
grandes novelistas portugueses de oitocentos: Garrett, Camilo e Eça. E ainda
de nomes do séc. XX como José Cardoso Pires e Agustina Bessa Luís.
É estranho, não é?
10. António Lobo Antunes revela uma
grande sensibilidade pelas questões de natureza antropológica. Ao longo das
cartas são abundantes os seus testemunhos, quer no que toca ao modo de
organização das populações, à volta dos chefes tribais; quer no que concerne
às suas crenças e práticas ancestrais. Não sendo um documento insubstituível
ou sequer de referência, as cartas revelam aquele que numa delas se despede
como “marido, pai e escritor”, como um homem de grande sensibilidade e de
cultura.
10.1. Os merengues, que também servem
para avisar os guerrilheiros ( para Lobo Antunes ainda são terroristas) da
saída das tropas, “são fabulosos de ritmo e de beleza selvagem. Ao centro,
um grupo de homens percute os tambores, e a malta dança de roda, velhos e
novos, mulheres com filhos às costas, etc., mexendo-se com uma espantosa
facilidade e um ritmo extraordinário, cantando ao mesmo tempo uma melopeia
estranhíssima” (carta de 15.2.71).
Ainda que desde sempre “o tricotar
subterrâneo” da escrita o tenha absorvido, António é por formação um homem
de ciência, mas nem por isso deixa de assistir a certas cerimónias
autóctones: “Hoje, domingo, passei a manhã, numa cerimónia curiosa, a
assistir è esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro
dela” e mais à frente: “três homens tocavam tambor e a malta dançava e
cantava à volta/.../” (carta de 7.3.71).
Porém, nem todas as práticas eram
benfazejas: “Ontem, em consequência de uma feitiçaria, amarraram uma velha a
um quimbo e queimaram-na viva no Ninda, rito ainda frequente nestas
paragens”(carta de 24.3.71).
10.2. A sexualidade é um daqueles
temas que nunca lhe poderia passar ao lado. E a sua condição de médico,
permitia-lhe um conhecimento provavelmente vedado a outros: “/.../ os casos
impotência masculina são frequentíssimos, e todos os dias oiço tristes
queixas de machos desiludidos, exibindo pénis formidáveis e inúteis” (carta
de 12.3.71).
Constata que “ Não existe
homossexualidade, a não ser numas vagas ligações helénicas entre velhos e
miúdos, que se desfazem com a puberdade destes. O beijo é ignorado, as
carícias também, e a fornicação faz-se de lado, numa imobilidade de
preguiça, durante horas, sem se tocarem, numa indiferença absoluta” (carta
de 2.4.71).
A desfloração de uma garota nativa
por um coxo grotesco, é assim descrita:” Um coxo/.../ foi-se a uma garota de
uns nove anos e, como eles dizem, «tirou-lhe o cabaço»: em vez de oito anos
de prisão maior celular., a malta teve uma alegria enorme. Seguem-se oito
dias de batuque”.
11. Luanda e os luandenses brancos
não mereceram a simpatia do futuro grande escritor. A capital de Angola
perpassa pelos olhos do artista como “uma espécie de Areeiro de província,
com o mesmo pretensioso gosto suburbano/.../” e os seus habitantes brancos
“/.../têm o mesmo indefinível aspecto de vendedores de automóveis/.../” dos
da Metrópole. As mulheres são “/.../ tipo locutoras de rádio, demasiado bem
vestidas para serem inteiramente honestas.”Nesta carta, a de 16.1.71,
fala-nos ainda do Grafanil, que era o grande entreposto humano e mercantil
que alimentava toda a guerra, naquele imenso território. Estas eram apenas
as primeiras impressões.
Na carta de 21.3.71, Luanda volta a
estar sob a mira do artista. Sente-se irritado com a vida da capital, onde
nada falta e a fazer fé nas revistas, que publicam as fotografias, há
“bailes” e “festas” e “eleições de misses”, enquanto lá longe, nos
perímetros dos aquartelamentos, os militares sofrem por todos aqueles que se
divertem e os olham com desdém. Mas apesar de não querer pormenorizar por
razões óbvias, não deixa de afirmar: “/.../ os brancos locais, sobretudo os
das cidades, são de um tipo novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente
insuportável.” Em suma, são gente “execrável”, que não merece as
potencialidades de Angola e aponta-os como ”os descendentes dos degredados”.
12. As notações meteorológicas de
Lobo Antunes, para além de fidedignas, dão-nos também “uma visão de
artista”. Na curta estada em Luanda e na companhia de outros militares,
visita a ilha, mas percebe-se que não gosta do que vê e descobre que “O céu
nunca é azul mas maciço, grosso, espesso, triste (carta de 17.1.71). Luanda
é apenas uma escala a caminho do Leste. Já em Gago Coutinho, vejamos como o
autor descreve as grandes chuvadas: “/.../ têm caído aqui chuvadas
gigantescas; em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas,
/.../ as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa
cadência de Apocalipse” (carta de 31.1.71).
A estação das chuvas vai cessar.
Aproxima-se o tempo do cacimbo. As palavras do autor: “O calor tem sido,
nestes últimos dias, diabólico, e o céu permanece imperturbável. É o início
do cacimbo, mas as noites frias ainda não começaram” (carta de 12.3.71).
Está-se, com efeito, num período de transição. Precava-se o leitor, que a
coisa vem em crescendo: “ontem à noite desabou aqui uma tempestade imensa, a
maior a que até agora assisti, com relâmpagos a caírem por todos os lados,
numa sucessão ininterrupta, e os trovões a rebolarem num ruído enorme /.../
“ Mas ainda não era tudo. As trovoadas em Angola, às quais também
assistimos, eram fenómenos excepcionais. De novo as palavras do autor das
cartas: “Tudo tremia e oscilava. Os raios eram tantos que parecia dia /.../,
as casas saíam do escuro numa claridade ofuscante, e o som da água era
verdadeiramente ensurdecedor”(carta de 8.8.71). Poderíamos transcrever
outros excertos, igualmente realistas e belos, porque as notações de ordem
climatérica são abundantes, nestas que também serão, com toda a certeza,
comoventes cartas de amor. Cada leitor que tenha passado por Angola, pela
imensidão do espaço e da noite, na época das chuvas, sabe que a forma de
dizer é a de um artista da palavra, mas a matéria substantiva já está ali
toda.
13. Há um só aspecto nestas cartas –
e por que não dizer uma linha de força -, que nos chocou do princípio ao
fim: a relação de António com o dinheiro e as restantes coisas materiais.
Sabemos que era casado e que contraíra determinadas responsabilidades, mas
também sabemos que a sua família vivia muito acima da média das famílias
daqueles soldados - e até muitos graduados - , que nada tinham e que por
isso mesmo viam na tropa uma forma de fugir a quotidianos ainda mais pobres.
E que o seu vencimento de alferes e os dinheiros recebidos do exercício da
sua profissão junto das comunidades locais, formavam uma massa monetária
verdadeiramente invejável.
António conta os tostões um a um e
sabe a totalidade do dinheiro que já enviou, que irá receber, aquele com que
fica e ainda amealha, para depois comprar um carrinho e outras coisas.
Compra arte indígena, feita por encomenda, mas confessa depois que tinha
gasto uma ridicularia de angolares.
Ainda neste capítulo, e porque também
revela uma personalidade, destaque-se o envio de uísques e outras bebidas
por diversos portadores. António não bebe, mas sabe que o material é bom e
que a compra é um bom negócio.
por Manuel Barata
em
Cantinho da Poesia
12.01.2006
topo
Manuel
Gomes
Deste viver aqui neste papel
descripto
Ao permitir a publicação
destas cartas, Lobo Antunes abre-nos, descaradamente, a porta à sua
privacidade. Muitas vezes, ao longo do livro, o leitor sente-se um intruso na
intimidade do autor. É impressionante a forma como o grande escritor exprime
de forma honesta e comovente os seus sentimentos mais íntimos, uma intensa
vida interior que só a solidão proporciona. O amor e a saudade são os temas
gerais das cartas.
O subtítulo do livro (“Cartas da guerra”) é, de certa forma, enganador. A
guerra é sentida como um monstro estúpido e absurdo, do qual se evita falar.
Por dois motivos: porque era vedado ao soldado transmitir informações
relevantes e porque, para Lobo Antunes, falar da guerra era algo doloroso. É
como se as cartas funcionassem como uma forma de escapar ao monstro e não para
dar notícia dele. São desabafos íntimos e, acima de tudo, uma imensa
manifestação de amor.
Um dos aspectos mais surpreendentes das cartas é a manifestação dos gostos
literários do autor. Surpreendente a forma como revela um certo criticismo em
relação a escritores muito conceituados, como se o auto-conceito de Lobo
Antunes como escritor superasse todas as estrelas da literatura universal. Mas
não; trata-se apenas de momentos de euforia que, em breve, são substituídos
por fases de depressão em que se considera o mais fracassado dos escritores.
Ao longo das cartas, vai-nos dando conta, a par e passo, da escrita da sua
primeira grande obra: ”Memória de Elefante”. Aqui reside um dos maiores
motivos de interesse destas cartas: o relato do sofrimento do escritor, dos
seus momentos de euforia e de crises de inspiração. Interessante também a
forma como se esforça por recusar influências, se bem que nunca esconda a sua
admiração por escritores como Faulkner, Céline ou Garcia Marquez.
Intimamente, Lobo Antunes vagueia entre uma modéstia exagerada, deprimida, e
um convencimento entusiasmado. Talvez essas oscilações sejam o reflexo do
momento depressivo que vivia. Mas são também, sem dúvida, traços
característicos da genialidade do grande escritor; um escritor que sonhou com
o Nobel e que, cada vez mais, o merece.
Mas para lá da genialidade do escritor, da sinceridade das suas confissões, da
bravura do soldado/médico, sobressai a grandeza do homem: um homem bom,
delicado, sensível, altruísta, generoso – um homem comoventemente bom.
por Manuel Gomes
em
Citador
01.12.2005
topo
Norberto do Vale Cardoso
Algodões e agonias nas
Cartas da Guerra de António Lobo Antunes
Artigo publicado na revista
Diacrítica, Série Ciências da Literatura, nº 21- 3, de 2007,
responsabilidade do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do
Minho.
Norberto do Vale Cardoso fez o
mestrado com a tese "Autognose e (des)Memória: guerra colonial em Lobo
Antunes, Assis Pacheco e Manuel Alegre", estando neste momento a
preparar o doutoramento sobre a guerra em Lobo Antunes na Universidade
do Minho.
O artigo, de 21 páginas, encontra-se
disponível em formato pdf:
clique aqui
para ler.
Norberto do Vale Cardoso
e-mail enviado em 14.06.2008
topo
Rogério Santos
O livro de António Lobo Antunes
D'este viver aqui neste papel descripto
é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os
aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a
mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à
distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola
durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.
O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas
contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a
monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do
conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro
temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É
como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas
vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos
experiência.
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está
lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da
fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com "minha jóia
querida" e acabem com "gosto tudo de ti". Outra linha constante é a referência
à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde
reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117):
"Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver
se consigo que fique boa". A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): "Entretanto lá
vou empurrando a história para a frente". No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia:
"Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda".
O atraso de correspondência era outra constante da vida do seu dia a dia:
"Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada
sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118) . Muitas vezes, considera que
o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde.
Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma
demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de
Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em
especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava
os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de
internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a
instantes].
O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias.
Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: "Há muito que não
falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas
tenho pensado muito nela" (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara
a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança
a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a
acontecer .
Um tema marginal, mas que retoma com alguma regularidade é o da compra de
bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito
por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas,
a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho
pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de
29 de Março de 1971, p. 109. Quimbo em umbundo, a língua da região,
significa casa). Já a 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma
alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles
preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a
Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.
Retenho ainda da leitura do livro: 1) o conhecimento que ele adquiriu com o
capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão
(certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das
Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista oposicional à linha do
regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma
posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a
radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto,
emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez
com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica); 2) a
tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer
favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial); 3) a leitura
das bibliotecas (fracas) dos outros colegas quando os seus livros já tinham
sido lidos; 4) os boatos (ficar na frente de combate todo o tempo da comissão
e não rodar para um sítio mais calmo; uma segunda comissão); 5) as mortes de
soldados, a que se acresce o facto de, como médico, acompanhar todos esses
casos de modo directo.
por Rogério Santos
em
Indústrias Culturais
16.12.2005
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Sara
Belo Luís
Romance em aerogramas
Com o delicioso mau-feitio que
se lhe conhece, António Lobo Antunes dirá porventura que as cartas recolhidas
em D'este viver aqui neste papel descripto não terão grande
importância. Serão - como as crónicas - material «menor», quando comparadas
com os romances, género no qual ele tem vindo a trabalhar ardilosamente. O
autor que me desculpe, mas (se de facto assim for) não tem razão. Porque estas
cartas de amor - como todas as cartas de amor que da vero o são - nunca
se reduzirão a formas mais ou menos rebuscadas de dizer o amor.
As cartas que, de 1971 a 1973,
António Lobo Antunes escreveu de Angola à sua primeira mulher são muitas coisas
mais para além dos diminutivos carinhosos (os quais ele, aliás, também usa) e
das declarações de amor incondicional. São cartas de um oficial que preferiu a
guerra ao exílio parisiense. São cartas de um médico branco que dá assistência a
uma população negra. São cartas de um homem de 28 anos que vive longe da mulher
que ama. São cartas de um pai que não está presente no nascimento da sua
primeira filha. São cartas de um filho que confessa que se sente desconfortável
com o registo das missivas da mãe. São cartas de um escritor que acredita no seu
valor e que não desiste de o querer ser. São cartas de leitor que devora
romances para saber como é que os outros o estão a fazer. São cartas de um homem
solitário no meio de uma terra que não lhe pertence.
São cartas, aqui se escreveu. A
classificação do género epistolar será, porém, demasiado redutora para falar
deste livro. Porque nele se mantém o fio condutor de uma narrativa romanesca.
Apesar de existirem algumas lacunas (umas voluntárias e atribuíveis ao autor;
outras, atribuíveis à censura militar que fez «desaparecer» algumas das cartas),
D'este viver aqui neste papel descripto conduz o leitor num romance com
um enredo, muitos episódios, meia dúzia de personagens e até algum suspense.
O que é senão isso as conversas acerca da casa, das garrafas de bebidas
alcoólicas e do dinheiro necessário para comprar um Fiat? O que é senão isso o
dilema do remetente no toca à vinda de férias a Lisboa («devo morrer antes
disso»)? O que é senão isso a ponderação do casal se todos (pai, mãe e filha
mais velha) se deverão juntar em Angola?
Da guerra propriamente dita
tem-se, a partir D'este viver aqui neste papel descripto, uma perspectiva
loboantuniana. Apesar de não esconder as suas discordâncias ideológicas
(e, neste campo, são inesquecíveis os manuais de alfabetização do MPLA), Lobo
Antunes não se demora longamente em considerações de carácter político. Nem tal
seria de esperar uma vez que se sabia que algumas cartas eram lidas: «Percebes o
que eu quero dizer, não percebes?». A guerra - e, sobretudo, o absurdo da guerra
- revela-se muitas vezes pela descrição (sucinta) das acções militares, do seu
trabalho como médico e, sobretudo, pelo seu quotidiano aparentemente banal. Como
seria natural, Lobo Antunes não se estende nos pormenores violentos das
amputações, da cólera, das minas e das saídas para o mato. Tudo isso - no qual
depois o escritor se baseou para escrever Os Cus de Judas - fica dito em
poucas linhas para proteger a destinatária das cartas de preocupações inúteis.
O que, do ponto de vista
literário, impressiona no romance D'este viver aqui neste papel descripto
é a elegância de uma prosa escrita ao correr da pena no espaço reduzido dos
aerogramas editados pelo Movimento Nacional Feminino e transportados
gratuitamente pela TAP para a Metrópole. Maria José e Joana Lobo Antunes, as
filhas de António Lobo Antunes e responsáveis pela organização do volume, dizem
no prefácio que apenas corrigiram as gralhas e actualizaram a ortografia.
Aquelas cartas estão como se fossem massacradas como agora sabemos que são
massacrados os romances de António Lobo Antunes. Escritos e reescritos, lidos e
relidos, riscados e emendados numa obsessão como um ostinato rigore que o
autor não esconde. O que se estranha é que nenhuma daquelas cartas parece
possuir uma hesitação sobre uma só palavra, uma frase rasurada ou sequer
castigada. Ao autor, toda aquela torrente como que lhe é - usemos o adjectivo,
correndo os imensos riscos que ele contém - como que instintiva.
Lobo Antunes expõe-se nestas missivas que ele nunca
pensou que, algum dia, pudessem vir a ser lidas por mais do que uma pessoa. É o
escritor que vacila perante o seu próprio talento (umas vezes) e o escritor que
ousa achar-se genial (outras vezes). É o marido que está seguro de que é amado
(umas vezes) e o marido que, à distância, tem dúvidas sobre a correspondência do
seu amor (outras vezes). É por esta razão que D'este viver aqui neste papel
descripto contém, mais do que tudo, um homem lá dentro. Um homem que no
Portugal dos '70 não tem vergonha de chamar «pratinho de arroz doce» à sua
mulher. Um homem sem pachorra para ler as Matchs que as suas tias zelosamente
lhe enviam. E um homem muito mais frágil do que aquele que se vê nas entrevistas
a fazer afirmações seguríssimas. Que, diga-se em abono da verdade, apenas
desconcertam os mais desprevenidos.
por Sara Belo Luís
citado do Jornal de Letras
Novembro 2005
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