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Eu
Hei-de Amar Uma Pedra, 2004
7 artigos
por
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Belém Barbosa
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Bruno Carriço
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Gonçalo Mira
-
Jorge Mayer
-
Leando Oliveira
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Rafael Conte
- República do
Livro
Belém Barbosa
«o passado continua a acontecer
em simultâneo com o presente»
Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas
- quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e
desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por
rejeição, por abandono.
Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado
uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50
anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se
reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de
saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.
O escritor deixou-se seduzir e, pela
primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe
que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em
troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A
envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a
impossibilidade deste amor.
Quanto à forma, mantém-se o apurado
rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em
que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens
desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos
vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no
passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se
conseguem libertar.
por Belém Barbosa
Abril 2005
em Nova
Cultura
topo
Bruno Carriço
Eu hei-de escrever assim (quem dera)
Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma
pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste
autor, mas duvido que seja a última!
Quando comecei o livro, estranhei bastante a
escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são
abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro).
Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural
e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.
Folha a folha, fui descobrindo autênticas
preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de
gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas
passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que
mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois
pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o
blog (e
convosco, por consequência).
Começo por perguntar: como descreveriam um negativo
de fotografia?
Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes
atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não
pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição
que flutuavam...".
Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como
estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...
Relógios de estações de comboio/metro são outra
coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as
horas. É natural.
A atenção de Lobo Antunes é que é outra!
"...disseste nove menos vinte no instante
em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço
fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos
ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."
Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor,
Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.
"...e o relógio do metropolitano prestes às nove
menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para
o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele,
anulava-o..."
Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro
dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena
tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética
observação. Até à altura em que li esta passagem!
E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando
estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma
clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)
O título desta entrada é uma ambição, nunca uma
obsessão!
por Bruno Carriço
Fragmagens
15.04.2005
topo
Gonçalo Mira
Este ano
celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis
nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de
celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez
Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance,
intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.
É uma boa
sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei
o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca
acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás
belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer.
Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos,
saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente
atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a
infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como
é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens
fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na
perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos.
Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a
obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no
nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café, iguais àqueles com
que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha
humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível
internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.
Quando comprei
o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me
oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes,
escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas
sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia
também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas
sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro
escritor.
Este romance,
"Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma
senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos
sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve
filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e
começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais
do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente
que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a
tempo.
Para quando o
Nobel deste senhor?
por Gonçalo Mira
www.ruadebaixo.com
2003
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Jorge Mayer
Leer a Lobo
Ler Lobo
Antunes foi para mim uma experiência perturbadora.
Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante
como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de
Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre
mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de
uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada
pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será
mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.
Leitor cego por uma curiosidade
que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos
parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a
primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por
mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que
não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que
o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal
credora da minha mais terna indignação.
Mas de que se valeu este livro -
pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de
mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco,
que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de
respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso.
Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe
valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo
o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.
Quem é o Lobo? António Lobo
Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado
das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas ou Não Entres
Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo
que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação
deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a
propósito de Viagem Ao Fim da Noite.
Os livros de Lobo são o registo de uma paciência
de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de
José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar
As Meninas
de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde
num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez
buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para
libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos
organismos e os géneros?
O leitor não encontrará nos livros de Lobo a
hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário,
deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de
prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve
de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que
representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos.
Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia,
no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações
e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as
aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita
como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e
que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos
de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de
política, etc.".
Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso
é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse
um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do
livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu
respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como
um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam
medos como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se
confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços
estilhaçados de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem
poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo
leitor - antes de se ver reflectido.
Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum
com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para
comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte
de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do
horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo
despertar - porque não nascer? - da intempérie.
por Jorge Mayer
em
Kaputt.it
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
topo
Leandro Oliveira
O Amor no Livro de António Lobo
Antunes
O amor idealizado é um
tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica
trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas
inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como
António Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao
lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de
um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita
no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a
literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da
impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que
pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no
passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto
montado a partir de estilhaços da memória.
António Lobo Antunes é
um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos
prêmios literários acumulados, mas principalmente por uma obra que
apresenta uma produção consistente, que se recusa a propor facilidades
ao leitor. Numa de suas crônicas, reunida em seu Segundo Livro de
Crónicas e ironicamente intitulada Receita para me lerem, o escritor diz
que suas obras são compostas "apenas por largos círculos concêntricos
que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos
aparentemente para melhor respirarmos." Tal sufocamento, apesar do
hermetismo que inicialmente se apresenta ao leitor, produz o que o autor
diz ser um "contágio por uma doença" que faz o leitor "convalescer após
a última página".
As obras do escritor se
caracterizam por essa tentativa de contagiar o leitor, sendo
bem-sucedido em maior ou menor grau, equilibrando suas expectativas e as
expectativas de um leitor mais exigente. Na sua primeira fase, a
trilogia Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno,
os livros são quase uma catarse, com o tema da guerra na África sendo
atravessado pela linguagem (Lobo Antunes serviu como médico militar na
guerra de Angola durante quase três anos), dum modo que chama a atenção
do leitor mas cujo 'contágio' parece ainda reticente. Daí, em Boa Tarde
às Coisas Aqui em Baixo, há ainda uma preocupação em exibir seu domínio
da linguagem e o resultado é um livro excessivamente hermético, onde o
leitor quer se deixar 'contagiar', mas muitas vezes é afastado. Sendo
assim, é possível dizer que Eu Hei-de Amar uma Pedra é mais bem-sucedido
em atingir esse objetivo, um livro que conseguiu equilibrar sua maneira
de evocar o passado à bela linguagem, apresentando dificuldades, mas não
de maneira gratuita, resultando no reconhecimento do leitor e produzindo
enfim seu 'contágio'.
Na primeira parte, o narrador introduz o leitor na história através da
descrição de fotografias, onde cada detalhe serve para fazer com que o
passado venha à tona e seja invadido por vozes que tentam recompô-lo.
Uma voz masculina apresenta ao leitor sua infância, sua participação
como soldado em Guiné-Bissau, seu casamento, suas filhas e um amor da
juventude interrompido pela internação da mulher num sanatório em
Coimbra. No entanto, resumir a história somente a esses fatos pode dar
uma idéia errônea do romance, já que é na linguagem utilizada que a
recordação do passado se transforma em algo tão sublime. À medida que a
leitura avança, o leitor percebe que há uma circularidade em sua
narrativa. Como rodas dentadas de um relógio, onde cada dente representa
um personagem, a narrativa dá voltas, apresentando em cada volta
estilhaços da história, que aproximam alguns personagens, mas que no
momento seguinte são afastados por um novo estilhaço. Lobo Antunes
consegue fazer com que primeiro sintamos a beleza da linguagem para
depois compreendermos o significado da narrativa. Ou seja, enquanto os
autores ruins procuram esconder sua incapacidade de cuidar da linguagem
através de uma história que chama atenção do leitor, o escritor faz
justamente o contrário: realça o domínio que tem da linguagem bela e
poética, fazendo com que a história sempre permaneça em segundo plano.
Um recurso ousado que somente os grandes escritores podem se dar ao luxo
de utilizar.
Um outro recurso que
contribui para embaralhar o entendimento do leitor sobre a história é o
de mudar o ponto de vista narrativo em meio aos acontecimentos narrados.
Por exemplo, em determinado trecho a narração é feita por um personagem
masculino e subitamente percebemos que uma mulher assume o relato,
fazendo com que o leitor pare e reordene a compreensão que tinha da
história até ali, tentando discernir que fatos se referem a um
personagem e que fatos se referem ao outro.
No entanto, a maior
dificuldade desse romance surge quando uma voz de narrador consciente
aparece misturando tudo e colocando em xeque todo o entendimento que
possuíamos. Apesar de tudo ser ficção, geralmente, quando nos são
apresentados personagens, cada um possuindo um passado e com um ponto de
vista, construímos em nosso imaginário aquele mundo descrito. Mas daí
vem o narrador consciente de seu papel e diz: "Não se empolgue, isso é
apenas uma história de ficção que procura dominar suas emoções!" Por
exemplo, na página 127 do romance, a voz masculina solta a frase:
"(ou sou eu que imagino ou é o António Lobo Antunes julgando que devo
imaginar a fim de que o romance melhore)"
Há, portanto, um
narrador que se reconhece como um narrador de ficção. Avançando,
novamente encontramos a figura tecendo comentários sobre detalhes da
história contada até ali:
"ia dizer abanando a cabeça mas não caio num lugar-comum tão grosseiro, a
queixar-se em silêncio, de cabeça bem firme, da ingratidão da filha, não
da Alemanha
(que teimosia)
que desgaste para mim obrigarem-me a repetir que na Bélgica, que esforço
idiota, e não em Bruxelas nem em Bruges
(tão pouco caio nessa)
em Gand, que isso contaram ao alfaiate
(com a história de lhe terem contado resolvo a questão)"
Passamos então a conhecer não somente os detalhes da história, mas
também os embates que o narrador passa a encontrar para narrá-la da
melhor forma. A circularidade, portanto, que víamos na história passa a
penetrar até mesmo no conceito que possuíamos do texto que estava sendo
lido. Antes era um texto de ficção, agora passa a ser uma ficção sobre o
que é escrever um texto de ficção, inserindo mais uma camada de dúvidas
e questões literárias. Tantas questões e tantos recursos fazem com que o
leitor passe pelas mais de quinhentas páginas do livro sem perder o
interesse, pelo contrário, ao chegar à última página a vontade é de
recomeçar a leitura para apanhar os detalhes que não foram percebidos.
Sensações que se misturam, assim como a história, resultando num livro
delicado e complexo, leve, porém, marcante. Para o leitor que ainda não
conhece a obra, o convite para se contagiar está dado.
por Leandro Oliveira
em Odisséia 2005
30.07.2007
topo
Rafael Conte
Amor e morte em Lobo
Antunes
No romance do autor português confluem duas histórias: a
relação com sua mulher e a fascinante história de uma doente mental de quem
tratou como psiquiatra. Narrativa, poesia e ensaio, na sua obra mais
autobiográfica.
António Lobo Antunes - talvez o escritor mais
importante e original do romance de hoje a nível mundial, recentemente
premiado com o União Latina e o Jerusalém 2005 - persiste e assina de novo o
seu último livro, o décimo sétimo ou décimo oitavo segundo creio,
imperturbável a todas as mudanças que sucedem à sua volta, dedicado até à
exasperação numa escrita que o "abduz" (não encontro outra palavra) por
inteiro.
António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) é um escritor
muito complexo, de acesso difícil mas que fascina os seus leitores quando o são
de verdade, pois acabam arrebatados pelo poder da sua escrita, que os arrasta
para além da sua compreensão lógica "normal". Uma escrita "poética", que vem de
um pré enamoramento da poesia que escreveu na sua juventude mas que destruiu por
completo; porém este pressuposto do poético é o que preside sempre em toda a sua
narrativa. Ao mesmo tempo, a sua experiência africana - foi médico militar
durante quase três anos na guerra de Angola, uma das suas grandes experiências
vitais, que surge em vários romances seus - fê-lo experimentar um novo conceito do
tempo: em África aprendeu a simultaneidade do tempo (pois o passado só vive no
presente e o futuro desconhece-se) que nos seus livros se entrecruza com a
multiplicidade dos cenários, das vozes e das personagens, o que converte a sua
prosa em algo muito complexo para quem procura ler romances "normais", com
argumentos seguidos na sua cronologia e discurso narrativo, segundo o que é
habitual no mercado do nosso consumo literário.
O seu discurso é no fundo "poético" e pratica a
simultaneidade contínua de tempos, vozes e cenários em que o leitor pensa que
existe um discurso intelectual que o nutre totalmente e o sustenta, como se o
ensaístico se filtrasse assim mesmo no narrativo. O que não é, poesia, ensaio e
narrativa são os três pilares que sustentam à sua vez esta obra singular, sem
que possamos separá-los do enredo. Daí que os seus livros tenham de ser lidos
com a máxima atenção, e não perder qualquer detalhe, incluindo as entrelinhas
que acompanham o discurso, pois tudo quer dizer algo. Um exemplo: ao iniciar o
novo livro, há uma dedicatória digamos que "negativa" que se afirma na sua
ausência: "Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está." Com
ela se manifesta um dos vectores principais do romance, na formação das relações
difíceis (pouco dedicadas, raramente carinhosas, mas sempre irrepreensíveis) do
autor com os seus próprios pais, com quem teve sempre uma falta de comunicação,
repleta de reticências (diziam que não o liam, ou não o entendiam), mas sempre
tão irrecusáveis que a sua ausência futura não as interromperá mais.
Como no título se diz também que o narrador (o poeta
que nos fala, por quem os outros nos falam, as vozes à sua vez narradoras que
surgem em cada situação ou cenário, buscando-se a si mesmas através delas - e
deles) "há-de amar uma pedra" (verso de um antigo cancioneiro português) que
conclui: "Beijar o teu coração". Assim temos o segundo vector para entender o
romance, pois trata-se, como acontece quase sempre com este escritor, de uma
história de amor implacável, e que venha a terminar com a morte. É outro
elemento autobiográfico no romance (os detalhes autobiográficos abundam nos seus
últimos livros, muito mais que nos primeiros [...] ainda que elementos da sua
própria experiência abundem em toda a obra desde o princípio, daquela Memória
de Elefante - 1979 - que era a sua própria) e que não é mais do que a
evocação do seu amor com a sua primeira mulher e mãe das suas duas filhas mais
velhas, com quem se casou muito jovem, compartilhou os primeiros segredos e
aventuras da juventude, do sexo à aventura africana, e de quem se separou
inopinadamente depois da "revolução dos cravos" (revolução de que estava
certo, mesmo sem ter participado) com a explosão de liberdades que Portugal
conheceu entretanto. O matrimónio desfez-se, ainda que o casal se desse
razoavelmente bem, mas mais tarde sua esposa ficou fatalmente doente que o
marido, médico sempre, ficou do lado dela, regressando ao seio familiar. Com
esta segunda linha narrativa - a do amor destruído pela morte - completa-se a
história da incomunicação paterno-filial inicial, mas ainda falta a história
central, surgida da doença mental de uma paciente já idosa (de quem se diz
reiteradamente que a sua idade pôs de acordo os seus anos e o seu corpo) e de
quem tratou no seu exercício da medicina.
Para ordenar este caos aparente, Lobo Antunes divide
o livro em quatro partes que facilitam os leitores precipitados, ainda que
depois, em cada uma das partes, faça as suas devidas correspondências (ou
interferências). A primeira, intitulada As fotografias, baseia-se em
imagens da sua própria existência, que começa com uma foto da sua mãe tirada num
dos seus aniversários - como digo, este é um livro claramente autobiográfico - e
logo se complica, debulhando a sua vida ao longo de mais dez fotografias. Mas
logo vêm "as consultas" (cinco) e "as visitas" (três) que se referem às
consultas médicas com a doente encontrada no hospital lisboeta onde tratou a
citada paciente, primeiro como profissional e depois prolongando o seu trabalho
sobre um tema cuja personagem o fascinou. Por último, sete "relatos" completam a
história deste livro no fundo inesgotável, baseado em três pilares
incontestáveis - a relação com seus pais, o amor pela sua primeira esposa
falecida e a paciente inexaurível que o importuna até a um final que talvez não
venha a chegar. Três relações difíceis e de certo modo impossíveis, que se
entrecruzam no interior da existência de um narrador infatigável, e que
reaparece em ocasiões com o seu apelido inicial (o "pimpolho" que cresce) e até
com o seu nome próprio ou para fechar um livro numa verdade inesgotável. É o
mesmo livro de sempre? Talvez, mas as histórias seguem encavalitadas como
sempre, tropeçaremos na mesma pedra em que se convertem os sucessivos rostos
cegos dos amantes - e a imagem de Magritte do frontispício que nos mostra cegos
é perfeita - que estão condenados a não ver-se, a converterem-se na pedra que
têm que beijar por meio da autodestruição e frente à morte, porque trata-se de
uma história condenada a repetir-se até ao final, pois é essa a sua esperança, a
última a morrer, e menos mal, mas continuar amando a pedra e beijando o coração,
haja coragem.
por Rafael Conte
14.05.2005
El Pais
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)
topo
República do Livro
Alfaguara
[Brasil]
lança novo romance de António Lobo Antunes, vencedor do Prêmio Camões 2007.

Um homem examina antigas fotografias de família e se recorda do tempo passado.
De quando era criança, de um primo de partida para os Estados Unidos, de um
fotógrafo no estúdio a ajustá-lo no colo da mãe, do farmacêutico pesando-o
numa balança. Recorda-se, aos poucos, do que ocorreu desde então.
Mas há outras lembranças mais profundas e dolorosas: um amor impossível,
interrompido na juventude e restabelecido décadas mais tarde, quando o casal
se reencontra casualmente na rua. Ele, já na faixa dos 50 anos, havia se
casado, tido duas filhas, mas não se esquecera daquela mulher. Os dois, então,
voltam a se encontrar clandestinamente numa pensão de baixa reputação em
Lisboa.
Em Eu Hei-de Amar uma Pedra, António Lobo
Antunes apresenta um texto radical e inovador, como poucas vezes se viu na
literatura contemporânea. Numa história em que passado e presente se fundem,
acontecimentos paralelos à vida do protagonista são narrados por personagens
que giram em torno dele: suas duas filhas, sua mulher, a amante e um médico.
Juntas, essas narrativas compõem uma visão multifacetada e rica dos
acontecimentos, na qual passado e presente se fundem num constante fluxo de
pensamento.
Na ocasião do lançamento de Eu Hei-de Amar
uma Pedra, em 2004, Lobo Antunes falou ao jornal português Diário de Notícias
sobre o tema que permeia este romance: o amor.
Ele explicou que, embora o título Eu Hei-de Amar uma Pedra venha de uma
cantiga popular, diz respeito também às impossibilidades do amor. "Não sei
russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o
gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem
antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstratos são
perigosos", revela.
Sobre a fotografia, ponto de partida deste
seu romance, Lobo Antunes diz que vive com ela numa relação conturbada.
"Conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas
pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem
estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a
sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que
as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na
capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me
fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento".
citado de
República do Livro
autor não identificado
não datado (2007?)
topo
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