ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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Exortação aos Crocodilos, 1999

 

5 artigos por

 

- Bruno Silva

- Dauro Veras

- Le Monde Diplomatique (autor desconhecido)

- Luciana Hidalgo

- NetSaber (autor desconhecido)

 

 

 

 

 


Bruno Silva

A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

 

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

 

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade ímpares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.

 

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.

 

 

Bruno Silva

em Shvoong

13.07.2006

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Dauro Veras

 

Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

 

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

 

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

 

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.

 

por Dauro Veras

Junho 2001

em Dveras em rede

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[autor desconhecido em] Le Monde Diplomatique (Brasil)

 

Um romance sobre a revolução portuguesa

 

Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.

 

Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os primeiros estragos do tempo em sua beleza congelada) e Simone (obesa, mas gostaria de se chamar Cintia) recitam, uma de cada vez, monólogos sobre seus pais, sua juventude perdida, seus maridos, seus amantes, suas preocupações, seus sonhos e lembranças, a morte que as oprime cada vez de mais perto. A própria morte e a morte dos outros, esses comunistas e democratas que seus homens decidiram exterminar acreditando fazer desaparecer a Revolução dos Cravos graças a sua miserável conspiração apoiada por militares espanhóis (Franco ainda estava vivo), pelo embaixador americano e por agentes secretos da África do Sul (Mandela ainda estava preso).

 

Sensível, mas empolgante como um thriller

 

Esta conjuração realmente existiu, agrupada em torno do general Spínola, e realmente custou a vida de comunistas, democratas e do primeiro ministro Sá Carneiro. A genialidade de Lobo Antunes é falar dela apenas indiretamente, através do envolvimento mais ou menos definido dessas quatro mulheres. Essa mistura de emoções íntimas, de delírios oníricos, de reflexões irônicas ou desiludidas e de cenas de massacres, de torturas e de atentados, coloca de uma forma inteiramente nova uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta: o mal. Nenhuma resposta é proposta, muito menos uma "compreensão" qualquer.

 

O romance é também um espantoso thriller. Pouco a pouco acreditamos entrever, por meio das lembranças das narradoras, em que trauma profundo se insere a anomia que lhes permite não apenas tolerar como participar de todos esses crimes. As quatro pertencem a uma outra época, à de um Portugal paralisado no passado, aterrorizado pela Igreja e seu inferno prometido às almas pecadoras, povoado de famílias de camponeses e comerciantes destruídas por incestos, tudo isso adormecido sob um regime político ditatorial. Tendo como exemplo os homens a sua volta, as quatro estão profundamente desajustadas à modernidade que acaba de irromper, ao mesmo tempo que os militares revolucionários voltam da África em um certo 25 de abril, o que, evidentemente não justifica nada.

 

Seja como for, não se sai ileso desta leitura: é próprio da arte impor-se ao mesmo tempo como fonte de admiração, reflexão e emoções intrincadamente emaranhadas.

 

 

artigo citado do site

Le monde diplomatique (Brasil)

Março de 2000

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Luciana Hidalgo

 

O estilo do Lobo

 

O escritor português António Lobo Antunes inventa uma escritura que se inscreve no papel como partitura. Inspirado na estrutura sinfônica da música, este autor cria um estilo musical e delirante, lírico e raivoso, poético e desesperado. O livro “Exortação aos crocodilos” insere-se na literatura de língua portuguesa com uma autenticidade estilística que assombra, provocando desconcertante estranheza. E somente ao longo de sua decifração percebe-se o quanto este código a princípio desconhecido não só tem coerência como é aturdido, belo — e extenuante. A leitura flui numa labiríntica sucessão de vozes e sons, combinadas harmonicamente como fragmentos de existências que ora se encaixam ora se estranham. Há consonância e dissonância, porque, basicamente, o tom é o do delírio, da alucinação, do sonho. A escrita como um surto, um êxtase sinfônico: eis a marca de Lobo Antunes, que ele leva à máxima depuração nesta obra, com técnica espantosa.


Estimado como um dos maiores nomes (entre os vivos) da literatura mundial, este ex-psiquiatra, que introjeta muito da desestrutura da loucura em sua literatura, é destas lendas que aos poucos tornam-se mitos ainda em vida, aqui e ali, nos mais de 20 países em que tem sido traduzido. Avesso a entrevistas, isolado do mundo em seu apartamento em Lisboa, não ao acaso Lobo Antunes cita Louis-Ferdinand Céline, o eterno maldito escritor francês, como o eleito. Em suas personalíssimas elaborações formais, os dois pouco se assemelham, mas trazem o estilo seco e polêmico, certa virulência, uma assumida infelicidade e toda a certeza da miséria humana. Na França, por exemplo, a imprensa chegou a coroá-lo, Lobo Antunes, como “o Céline português” — e nisto era só elogios.


Em “Exortação aos crocodilos”, o autor, que quando concede entrevistas entrevê todo o desencanto que justamente encanta a sua obra, dá voz a quatro mulheres, assombradas por reminiscências tristes e massacradas pelo mundo dos homens. A primeira, Mimi, é uma surda só capaz de ouvir o som das coisas, jamais das pessoas, e totalmente destituída de charme, mas escolhida por um milionário para o casamento. A segunda, Celina, tem a infância roubada por um marido velho que a desposa ainda jovem, e vinga-se traindo-o com seu sócio (justamente o marido de Mimi), para depois bolar crime mais cruel. A terceira, Fátima, é sobrinha de um bispo conspirador, e a quarta, Simone, jovem gorda e complexada, acredita ter encontrado a saída de emergência para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi. Entre traições e incestos, o que elas têm em comum são homens desagradáveis e violentos, engajados na tortura de comunistas e na realização de atentados de direita, movidos pela nostalgia do regime salazarista. Eis outra das marcas de Lobo Antunes, a renitente crítica política à pátria.


A leitura permite o ingresso na estrutura psíquica de cada uma das mulheres, como se fosse possível desfiar a tessitura do seu imaginário, sem nunca parar, pois o poço jamais tem fundo. O efeito é quase lisérgico, pois desenrolam-se pensamentos, emoções, nostalgias, urgências, pulsões de morte; a miséria humana em todo o seu dissabor. É como se o escritor levasse para a literatura cada frase, vírgula, exclamação que pontuam o pensamento, dada a dispersão da mente do homem, seu descontrole e verborragia inauditos. O que impressiona é que, apesar desta loquacidade do discurso da razão/emoção, o estilo de Lobo Antunes não é barroco, mas enxuto, discípulo que é, confesso, de João Cabral de Melo Neto e sua poesia calcada no substantivo. Ele derrama e resseca, acelera e recua. Dá voz às mulheres, deixa-as tagarelar (mentalmente), para depois dizer que o que busca é o silêncio, como se procurasse o grau zero da linguagem, uma linguagem não inflacionada por adjetivos, advérbios, desesperos.


Toda esta narrativa, que traz um pouco da esquizofrenia, do caos diante do que é realidade ou fantasia (pois no romance nem sempre é possível detectar esta fronteira), é respaldada por inovações. Exceto pelo primeiro parágrafo, os seguintes, de um mesmo capítulo, começam com letra minúscula, não terminam com ponto, têm parênteses abertos para abrigar uma ou outra voz, ou um sonho. Outra invenção é a frase, ou mesmo a palavra, interrompida. Este conceito da composição em fragmentos não-lineares é meio pós-moderno, mas há aí uma preocupação com o entendimento, nada havendo que não possua sentido, que não dê a senha para a compreensão da trama, enfim, um virtuosismo dos mais refinados, destinado aos aficionados do estilo.

 

por Luciana Hidalgo

10.11.2001

Jornal de Poesia

 

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[autor desconhecido em] NetSaber

 

Exortação aos Crocodilos

 

A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e, que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.


Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.


Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade impares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.
 

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.

 

 

artigo citado do site

NetSaber

não datado

 

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