ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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 :: Explicação dos Pássaros (1981)                                                  << voltar ao menu livros

 

     

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Sandra Guerreiro Dias

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Taize Odelli

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Vinicius Jatobá

Sandra Guerreiro Dias

 

Dos pássaros

 

Ao anoitecer, a cidade adensa-se e os pássaros quase enlouquecem. Ao mesmo tempo, Rui S. pensa e é no pensamento de si e dos outros que existe enquanto limite da narrativa que por sua vez se dissolve na delirante articulação entre presente e passado, sujeito e contexto, alienação e libertação. Em Explicação dos Pássaros, a opção pela aparente desconexão diegética é, no entanto, inevitável, pela premência da simulação profunda do objecto e dos seus contextos.

 

Por fragmentação do discurso entender-se-á, em António Lobo Antunes, o silêncio da continuidade narrativa que se manifesta por intermédio da ausência de nexos discursivos longitudinais. Esta falaciosa vacuidade esgota-se, no entanto, numa inquietante coerência experimentada através de um encaixe paradoxalmente sequencial entre diferentes planos temporais, personagens, fórmulas, registos e outras variantes que constituem o universo no qual se movimenta a personagem principal. Ou o rodopio da insistência obsessiva na descrição dos pormenores, da lucidez desarmante e da coloquialidade poética, da simultaneidade entre as vozes do narrador e da personagem principal, da família, das mulheres, da sociedade, da cidade e dos pássaros, espécie de alter-ego no qual Rui S. se supera e se explica a si próprio e através dos outros:

 

A maior parte dos pássaros, explicou o pai, (…) vivem muito pouco tempo se não morrem logo à nascença, há os que emigram no Inverno para países mais quentes, os que não conseguem executar a viagem e se ficam no caminho, os que os machos e as corujas devoram se os pilham atrasados ao entardecer, retardatários, a tentar escapar à noite a caminho da mata. (pp. 72-73)

 

À fictícia desordem enunciativa acumulam-se depois as rupturas inegociáveis, os conflitos, que impõem, argumentam, fundamentam e intensificam o caos do percurso em causa, e que farão de Rui S., esse pássaro «retardatário a tentar escapar à noite». Entre os muitos conflitos, conta-se o decisivo e insuportável confronto ideológico com o pai, figura tutelar que ditará claramente a despersonalização do sujeito relativamente a si e à sociedade, a deliberada submissão aos afectos e à manipulação feminina, através sobretudo das mulheres com que se envolve, Tucha e Marília, e a impiedosa deriva decorrente da inevitável dissolução do seu projecto de vida enquanto ser social que se auto-anula:

 

Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lulas. Pensou Não me apetece sair mais daqui, mover o mindinho sequer, sentir a pressa de vaivém do sangue nos meus membros, o galope aflito das veias. (p.125)

 

Todos estes conflitos não serão, no entanto, mais do que enraizadas sequelas de uma desintegração accionada por uma sociedade em busca de si mesma, e da qual Rui S. faz parte. A apenas insinuada mas intentada análise que da cidade e do contexto do romance vai sendo feita assume-se, neste âmbito, enquanto esforço de reflexão crítica acerca do que foi a sociedade portuguesa do pós-Abril:

 

Aveiro vogaria eternamente na neblina à laia de um navio desgovernado, com as suas travessas desconexas, as suas sucursais de banco, as suas pastelarias remotas e os seus largos vazios, (…). Lá está o carro imóvel contra um plátano e como que preso ao tronco por uma arreata invisível, o relógio de uma igreja qualquer soou uma incrível infinidade de badaladas compassadas e lentas, o som alargava-se, medieval, em círculos concêntricos na atmosfera saturada. (p.137)

 

Dispersas mas catalisadoras da narrativa, as descrições, ora da cidade de Lisboa, ora de Aveiro, produzem, além disso, um abrandamento do fulgor narrativo que se traduzirá num esboço desta mesma sociedade enquanto argumento e origem da desagregação dos intervenientes:

 

Campo de Ourique habita-me irremediavelmente os ossos, acho que não seria capaz de morar longe destes quarteirões mornos e sem graça, desta triste prisão de fachadas desigualmente idênticas, construídas na pasta sem grandeza de um cenário de melancolias resignadas. (p.29)

 

Este devir quase paralelo das sucessivas rupturas explicará e antecipará esse acto final de libertação que é o suicídio da personagem principal. Afinal, apesar da desagregação sistemática, remanesce uma lógica possível que se detém para além das expectativas e que é a da fragmentação do sujeito, pelo que a morte de Rui S. mais não será que a manifestação última desse exercício de coerência que a personagem ensaia desesperadamente ao longo de todo o romance. Além disso, a opção pela morte do artista em palco, através da alegórica encenação de um improvável número de circo, contém em si a denúncia de toda uma sociedade que assiste imperturbável ao seu auto-aniquilamento:

 

Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável assistência, eis-nos prestes a alcançar o momento culminante do nosso espectáculo de hoje - urrou ele dando cambalhotas veementes ao redor da pista. - O Grande Circo Monumental Garibaldi oferece-vos ao vivo o número único, não televisionado, do suicídio do seu principal artista. (p.210)

 

Mais do que o suicídio em si e do que dele é possível deduzir relativamente à personagem central do romance, a morte como espectáculo grotesco, assistido e aplaudido pelos próprios familiares e amigos da vítima, afirmar-se-á afinal como encenação violenta, não da renúncia de Rui S., mas da complexa melancolia e social. Para isso, interagem, por um lado, as figuras absurdas do circo, a sociedade e os seus duvidosos mecanismos de dissuasão, e a letárgica família, e por outro, os pássaros, o cego e Rui S., subsistindo apenas o ruído e o silêncio, ambos impenetráveis, ou a valsa silenciosa que se sobrepõe à algazarra do circo, enquanto Rui S. se suicida e se liberta, emancipando-se pela imaginação de si, por si:

 

Estou a adormecer, pensou ele, distinguia ainda, à medida que mergulhava num lago de lodo, cheio de silhuetas conhecidas, a testa franzida, aflita, do pai, cheguei-me a ti, puxei-te pelo ombro, Palavra de honra que a família acabou, palavra de honra que a Lapa acabou, nunca mais entramos sequer o portão daquela casa, e na claridade imprecisa de Lisboa, na claridade nevoenta de Aveiro, os teus olhos afiguraram-se-me tão tragicamente ocos de expressão como as órbitas de gesso dos defuntos. (p.140)

 

Da imaginação pode dizer-se ainda que se processa aqui enquanto acto instável de destruição e construção relativamente aos objectos evocados - a infância, os diálogos sem retorno sempre introduzidos pela fórmula imperativa “pensa:…”, repetida até à exaustão, e os pássaros -, espécie de metáfora da sua existência indecifrável. Dela e dos pássaros, a explicação possível será somente a sempre provável incerteza.

 

António Lobo Antunes (1981), Explicação dos Pássaros. Lisboa: Dom Quixote. 257 pp. [ISBN: 972-20-2712-3]

 

Sandra Guerreiro Dias

em Os Livros Ardem Mal

29.03.2008

 

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Taize Odelli

 

 

Um homem relativamente jovem está em crise. Pretende se separar da segunda esposa, sua mãe está internada com poucos dias de vida, e o resto de sua família o despreza. Ele escolheu caminhos opostos aos da família, e nada do que era esperado dele se concretizou. Em Explicação dos Pássaros Rui S. compartilha seus últimos dias de vida, carregados de lembranças e previsões para seu futuro. O quarto romance do português António Lobo Antunes, em nova edição pelo selo Alfaguara, da Objetiva, narra de forma densa uma história onde o destino não pode ser alterado.

Narrador e personagem se confundem. Em longas frases, a palavra passa de um para outro constantemente, onde os pensamentos de Rui são o material principal da narrativa. Os parágrafos são igualmente longos, e não há linha que separe o que é passado, presente ou futuro. O leitor deve constatar isso sozinho, auxiliado apenas por poucas palavras que possam situá-lo. É uma leitura truncada, difícil para aqueles acostumados com aspas, travessões e referências. Entretanto, o livro não foge à regra da maioria: com o tempo se acostuma, e logo a leitura flui normalmente.

Além da questão estética da narrativa, a gramática também atrapalhou no início. Aqueles que não são familiarizados com expressões e termos portugueses podem se perder facilmente entre as linhas. Ler na frente do computador pode se mostrar eficiente nessa hora. Mas é um desafio que vale a pena.

Rui S. vê a própria vida como um circo, cujo espetáculo é feito pelas pessoas à sua volta, e ele, protagonista, a atração final. Através dessa imagem criada pela personagem é possível entender a real frustração pela qual passa. Ele cria falas para os outros, afirmando o quão fracassado ele é, constatação do próprio Rui. Suas emoções transgridem a linha do tempo, e o que lhe passa atualmente nos é representado através de suas lembranças. Esse estilo dá à narrativa um ritmo frenético de mudança de tempo.

Explicação dos Pássaros é um livro que exige muito do leitor. Ele é um desafio, que ao final deixa uma sensação de triunfo enquanto Rui S. definha. Obra prima de António Lobo Antunes, que merece toda a atenção que ela necessita.

 

 

Taize Odelli

em diHITT

22.12.2009

 

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Vinicius Jatobá

 

a propósito do lançamento em simultâneo no Brasil (Junho 2009) dos livros Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião.       

 

Certa vez, em uma entrevista, Nabokov achou curiosa a consideração negativa de uma crítica francesa de que todos seus livros eram semelhantes. O que poderia ser taxativo de falta de versatilidade de sua paleta cromática se revelou óbvio para Nabokov. Com humor, respondeu: "A originalidade só tem a si própria para copiar".

 

Essa provocação, divertidíssima, é falsa em princípio, uma vez que a originalidade é uma impressão superestimada - livros nascem de livros. No entanto, trocando originalidade por obsessão, chega-se mais próximo do motor matricial do grande escritor e da sua evidente "pobreza" - ele se debruça sempre sobre o mesmo sentimento, e sua paleta não possui mais que três ou quatro cores. Verticaliza um mesmo estado de espírito, e dele retira, ainda que sua bibliografia seja vasta, o "mesmo" livro até que a morte o separe do papel.

 

Esse é o caso de António Lobo Antunes. O lançamento simultâneo de Explicação dos Pássaros e O Meu Nome é Legião, separados em suas datas originais de publicação por mais de duas décadas, são o termômetro ideal para diagnosticar esse sintoma: o tema de Antunes é sempre o de uma personagem doente tentando articular narrativamente um mundo desfeito pela violência. A doença pode ser concreta ou espiritual, tanto quanto o agente demolidor.

 

O que interessa a Lobo Antunes é esse fosso aberto entre a personagem deslocada de sua normalidade por algum acontecimento drástico e o mundo que se transforma radicalmente quando visto desse outro lugar traumatizado. Percorrer distâncias; limar a inadequação; encontrar o rosto perdido no espelho; tornar em momentos, espaços cerrados. A massa verbal de Lobo Antunes se erige sobre gestos simples expandidos em seus sentidos pela doença e violência.

 

edição brasileira Alfaguara

 

Publicado em 1981, Explicação dos Pássaros é um rompimento com a trilogia sobre a guerra colonial em Angola com que se sagrou no mapa literário português. Não há mais as lembranças fantasmais dos cadáveres, a geografia sensual de Luanda crivada de violência, a incapacidade do ex-combatente em retornar ao mundo cotidiano anterior. Explicação avança sobre as agruras da vida conjugal. Rui, o narrador, amarga uma recente separação dolorosa e tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova mulher com quem se casou por um desejo de preencher sua solidão.

 

Ao contrário da imensa maioria dos romances de Antunes, essa é uma narrativa de personagens em movimento: Rui monologa enquanto avança com seu carro por cidades costeiras de Portugal. Está sensibilizado com a doença da mãe e evoca sua infância e sua vida enquanto reúne forças para pedir divórcio da esposa que não ama. O livro é um grande ritual de adeuses, e o desconforto crescente de Rui aponta apenas para um final possível. E trágico.

 

Como em outros livros de Antunes, a trama é pífia. As coisas não acontecem; o que acontece é o pensamento das personagens. Possuem uma fluência delirante, e há uma inegável vocação poética em Antunes. Em certos momentos, no entanto, as imagens aberrantes não ajudam muito a visualizar a narrativa. É como se a profusão de metáforas nublasse o enredo.

 

Ainda seriam necessários alguns romances para Antunes encontrar uma forma narrativa que adéqüe sua sensibilidade poética a uma plasticidade necessária para sua íntegra legibilidade. Antes de A Ordem Natural das Coisas (1992), muitos de seus romances flertavam com o hermetismo. É de se perguntar: de quê adianta um universo ficcional denso se o leitor não encontra nele um espaço mínimo para contemplá-lo?

 

edição brasileira Alfaguara

 

O Meu Nome é Legião, nesse sentido, é um animal diferente. Destilado e preciso, proporciona uma intensa experiência de leitura. É o Capitães de Areia do século XXI. Como o grande romance de Jorge Amado, mergulha no mundo da marginalidade de um grupo de delinqüentes juvenis. As dessemelhanças surgem no enfoque. Amado faz quadros gerais, e suas personagens são maiores que o mundo: redondas, inteiras. Lobo Antunes é todo fragmento: retalhos de vozes, lapsos de imagens, frases interrompidas. E seus miúdos não são heróis. Como uma praga, eles espraiam terror e violência enquanto deambulam pelas ruas de Lisboa.

 

Organizando a narrativa está a voz de Gusmão, policial marcado por um terrível sentimento de solidão, doente de tédio, e que é designado para investigar os delitos. O romance abre com o relatório de Gusmão, e ao longo de sua massa verbal o retoma, como se ele fosse o motivo sobre o qual a litania de vozes, cada uma marcadamente distinta, irá se amalgamar uma e outra vez.

 

Legião é um romance invulgar: Antunes demonstra as deformações que os fossos sociais infligem no pensamento desses seres excluídos. Longe está a utopia de Amado, sua fé nos homens. Se Capitães é a elegia aos jovens que não tiveram condições sociais de se tornarem adultos nobres, Legião é uma ópera punk e violenta. Delírio de vozes; violência gratuita; masoquismo e humilhação; racismo e xenofobia; lei e punição. O problema não tem solução visível e a legião apenas cresce a cada dia. E tanto o leitor como Rui, cúmplices nesse mergulho, experimentam um mundo sem controle do qual não arrancam soluções.

 

 

Vinicius Jatobá

artigo citado de Terra Magazine

02.07.2009

 

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