ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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Fado Alexandrino, 1983

 

3 artigos por

 

- Antônio Panciarelli

- Correio Braziliense

- Lourenço Bray

 

 

 

 

 


Antônio Panciarelli

 

Fado Alexandrino - um romance em versos dodecassílabos

 

Um dos mais complexos e fascinantes romances de Lobo Antunes é Fado Alexandrino (Rocco editores, 2002), escrito em 1983. É o seu quinto livro de prosa e se trata de uma obra romanesca, com estrutura de poema alexandrino, ou seja, com versos de doze sílabas, cujo texto compõe-se de três partes: antes da revolução, a revolução e depois da revolução. Cada uma delas está dividida em doze capítulos, que podem ser visualizados como uma métrica poética do verso dodecassílabo. Assim, cada uma das partes forma um grande poema; isto é, a história é contada em três grandes poemas. O romance tem ao todo 600 páginas, que representam 50 estrofes. 

 

As personagens de Fado Alexandrino não carregam o traço de herói, nem possuem o destino predefinido. São ambíguas, construídas durante a diegese em que a estratégia narrativa é encenar a perda ou a ausência de modelos organizadores de sentido linear. Através de fendas, as pequenas narrativas em estado de desordem montam e desarrumam a seqüência para o receptor. Essas pequenas narrativas é que compõem a grande fábula e, por isso, pode-se falar em narrativas por encaixe e alternância.

 

Tem-se, então, uma polifonia em que imperam o plurivocalismo, a pluridiscursividade, a interdiscursividade, a heteroglossia ou a hibridização, postulados que, apesar de se revestirem de nuanças distintivas, apontam quase sempre para o cruzamento dialógico de várias vozes, das diferentes personagens, decorrentes da adoção de diversos pontos de vista, contraditórios ou em confronto.

 

Lobo Antunes utiliza uma arquitetura polifônica com vozes que polemizam entre si, se completam ou respondem umas às outras. Impõe-se o intertextual sobre o textual - não se trata aqui de uma dimensão derivada de intertextualidade, mas sim de uma dimensão primeira de que o texto deriva. Podem-se observar, neste romance, os conceitos definidos pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin sobre polifonia e dialogismo.

 

Na escrita de Lobo Antunes, as personagens também emitem diferentes vozes não unificadas por uma única ideologia, filosofia ou personalidade. Há, durante a trajetória da narrativa de Fado Alexandrino, uma multiplicidade de vozes fragmentadas em seus discursos e contraditórias em seu desenvolvimento. A criação romanesca do autor privilegia essa multiplicidade e um entrecruzar de vozes em que o princípio da identidade dilui-se e o aqui e agora dificilmente instauram fronteiras.

 

As vozes viajam constantemente, atravessando a fronteira de tempo e espaço, mas deixando sempre uma trilha para que o receptor possa acompanhar o desenrolar da trama. O resultado disto é um processo que faz a narrativa avançar pelo entrecruzar, por vezes coerente, mas muitas vezes contraditório e mesmo paradoxal, dos vários discursos que representam o fluir de diversas consciências em torno de um acontecimento central que unifica a ação.

 

Octávio Paz, em Signos em rotação, afirma que o caráter singular do romance provém, em primeiro lugar, de sua linguagem. 1 É prosa? Se consideradas as epopéias, evidentemente sim. No entanto, se estas forem comparadas aos gêneros clássicos da prosa - o ensaio, o discurso, o tratado, a epístola ou a história -, percebe-se que não obedecem às mesmas leis.

 

O que torna Fado Alexandrino um romance inovador em termos de linguagem é uma descrição pormenorizadamente trabalhada que satura de informações a ilusão de real que o texto oferece, suprimindo banalidades ou recursos estilísticos desnecessários, mas construindo artesanalmente uma carga metafórica de analogias semânticas espessas. São exemplos disso trechos como “a caixa de sapatos esmagava os telhados”, ou “as órbitas vazadas das janelas fitam o sujeito”. 2 Tais características a tornam uma obra peculiar em que a objetividade narrativa do texto não impede, entretanto, que o autor utilize sinestesias e silepses em todo o romance.

 

O conjunto de idéias e representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens é o que comumente denomina-se ideologia.

 

A ideologia é constituída pela realidade e, ao mesmo tempo, constitui a realidade, já que não se caracteriza por ser um conjunto de idéias surgidas do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. A ideologia é, sim, fruto de uma série de decorrências resultantes de fatores sociais, econômicos, políticos e intelectuais, revelada pela análise do discurso no plano da semântica discursiva.

 

Existe ainda o que se convencionou chamar de “ideologia dominante”, aquela que é imposta persuasivamente sobre a classe dominada com o objetivo implícito de obter a legitimação de seu poder. Ao colonizar países africanos, Portugal impôs sua ideologia e seu conceito de sociedade européia aos povos colonizados.

 

A narrativa de Lobo Antunes está impregnada com esses conceitos e valores e, ao retratar Portugal entre 1972 e 1982, não se preocupou apenas em definir suas personagens como arquétipos que estariam de um lado ou de outro em um campo de batalha, mas sim em mostrar suas personagens lidando mais com o comezinho, com a luta diária pela sobrevivência e pela reintegração em uma sociedade que os definira como “os retornados”.  Há, entretanto, em todo o romance a preocupação em mostrar as marcas que a colonização portuguesa deixou na África.

 

Logo após o 25 de abril de 1974 e a descolonização feita atabalhoadamente nas colônias africanas, Portugal passou a viver com uma população que não deveria mais fazer parte da vida lisboeta. Não havia mais lugar para acolher os emigrantes que voltavam de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Essa população que era, literalmente, despejada no parque público de Monsanto recebeu da imprensa portuguesa a alcunha de “os retornados”.

 

Logo se originou no país uma comunidade de segunda classe - os emigrantes que perderam tudo na África e passaram a viver acampados nos jardins de Monsanto. Lobo Antunes não coloca as personagens de Fado Alexandrino nesse mega-acampamento, mas as distribui pela periferia da cidade, situando-as junto à classe média baixa. Ao colocar as personagens em bairros como Pixeleira, Cabo Ruivo, Intendente ou Anjos, o autor traça o retrato de um verdadeiro “cordão sanitário” que foi criado ao redor de Lisboa e da classe média que não precisou emigrar.

 

A temática central de Fado Alexandrino é a guerra colonial na África, contada por meio das reminiscências de um grupo de militares que combateram em Moçambique. Aborda o retorno a uma Lisboa desconhecida, que sofreu com a rápida e desorganizada urbanização, com a re-inserção no ambiente familiar na periferia da cidade e, sobretudo, com a dificuldade para sobreviver fora da caserna.

 

O título da obra também remete ao fado, palavra originária do latim fatu, que significa destino. Em Portugal, o fado está diretamente ligado a um ritmo musical originário dos cânticos dos mouros que permaneceram nos arredores de Lisboa, mesmo após a reconquista cristã. A dolência e a melancolia daqueles cantos, comuns ao fado, estão na base desse ritmo. No entanto, o significado que Lobo Antunes dá a essa palavra refere-se mais ao destino lusitano do que à canção.

 

 

Antônio Panciarelli

artigo citado de Sibila - Estado Crítico

não datado

 

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Correio Braziliense

 

Podres da humanidade

 

O português António Lobo Antunes segue o caminho dos grandes escritores do século 20. No longo romance Fado Alexandrino, ele relata à exaustão a realidade sombria da Lisboa pós-guerra.

 

Ao ver publicado o seu Finnegans Wake, em 1940, o escritor irlandês James Joyce garantiu ao mundo literário da época que aquele livro iria dar muito trabalho aos críticos pelos próximos 300 anos. Tinha razão: Finnegans Wake foi escrito numa linguagem mais cifrada e atordoante, praticamente intraduzível, do que a do seu Ulisses, que é de 1922, considerado por grande parte dos críticos um dos maiores monumentos da ficção do século 20. Para escrever o Finnegans, dizem que Joyce reuniu palavras de um arsenal de mais de 60 idiomas e com esse método procurou narrar a saga da Irlanda, suas lendas, a história da cultura popular de suas raízes e da agonia humana.
  
A verdade é que depois desses esforços ficou difícil inventar algo em literatura que não fizesse os doutores da academia torcer o nariz, afirmar que esse ou aquele texto já nascia velho. Mas a história da criação humana é rica e imprevisível e a sua literatura após Joyce foi ainda mais robustecida por pelo menos uma dúzia de obras de valor escritas por nomes como William Faulkner, Marcel Proust, Louis-Ferdinand Céline com o seu magnífico Viagem ao Fim da Noite, Thomas Mann e a sua incrível Montanha Mágica, Albert Camus, João Guimarães Rosa, Ernesto Sabato, Jorge Luis Borges.
  
O problema é que ao varar a primeira metade do século passado a cultura não só literária, universal, entrou em declínio e mesmo algumas das obras escritas nas décadas de 30 e 40 já refletiam os murmúrios de agonia de um homem atônito com o advento do século das máquinas, das descobertas científicas, da morte dos valores, um homem que ainda parecia escutar o grito angustiado de Nietzsche que afirmou a morte de Deus. De um lado o mundo parecia entender as transformações como um portal do inferno que se abria com as garras das duas grandes guerras; de outro, alguém ainda podia sussurrar que essa era a história da humanidade, portanto repleta de abandono, ódio, renascimentos, com as revoluções sociais e individuais procurando erguer a arquitetura do mundo pela retomada dos valores, de uma economia que escravizava populações inteiras na Europa e nas Áfricas ainda povoadas de colonizadores sanguinários. É neste universo em que se encaixa o Fado Alexandrino, de António Lobo Antunes, obra que dá prosseguimento ao seu projeto literário de traduzir na ficção a realidade sombria dos anos da guerra colonial.
 
Sim, o mundo do jeito que está feito é inadaptável ao homem, por isso preciso de um pouco de demência e de luar, tudo o que não seja daqui, vibrava a voz de um solitário Camus que a duras penas salvava-se do suicídio dia a dia e todos os dias procurava reconstruir o seu mundo interior com a energia da arte enquanto a Europa e a sua Argélia ardiam sobre as cinzas de uma guerra que se foi encerrada para os generais se estendia pelas ruas de Paris, Londres, Calcutá, Bangladesh, Berlim e o mundo inteiro bombardeados pela dor e pela brutalidade de seus ditadores. Nesse cenário de destruição foram erigidas grandes obras da literatura, das artes plásticas (Picasso, Matisse, Dalí) num esforço natural da criação humana que nas figuras míticas da Fênix e de Sísifo possui a qualidade de renascer da pedra ou do fogo. É também nesse cenário, mas outros tempos, onde ecoa a voz de Antunes que costuma resumir a vida numa luta diária contra a depressão com a ajuda da literatura: ‘‘Escrever, para mim, é fuga ou equilíbrio’’.
  
Com Viagem ao Fim da Noite, Céline descortinava para o meio literário do começo da década de 1950 um cenário de absoluta violência que a guerra impõe, um horizonte fechado, cerrado na escuridão do fim e da vertigem, de tonalidade escatológica (no sentido dos tratados que estudam os excrementos) com a brutalidade poética de sua palavra cortante pondo no esgoto das crenças qualquer tipo de esperança. Era médico e escritor como o português António Lobo Antunes, e como poeta da prosa moderna acabou se entregando, dividido entre o médico e o poeta: ‘‘A literatura não merece tanto sofrimento’’. Mas foi longe no que fez e deixou no universo cartesiano do chamado fluxo da consciência diversos herdeiros de um verbo pretensamente inquieto e soluçante como alguns representantes da nouvelle vague, no cinema, os escritores do nouveau roman, entre outros autores de tantas correntes literárias que buscavam e clamavam pelo novo mas que pouco ou quase nada de marcante deixaram para a idade contemporânea. Afinal, quem ainda consegue se interessar pelo novo romance francês do final do século passado, ou pelos epígonos de Joyce e Faulkner, pela poesia concreta da mais dura lavra da inspiração que não aconteceu ou pelos escritores norte-americanos pós-Salinger?
  
O português António Lobo Antunes se inscreve na melhor e na maioria das correntes literárias citadas, vem desenvolvendo sua obra a partir da experiência de médico militar, da leitura de grandes poetas e ficcionistas da era moderna, com a diferença de ser dono de um talento para a poesia capaz de causar a um só tempo repulsa e encantamento, se comparado a um Allan Robbe-Grillet, por exemplo, e outros identificados com a literatura engajada do pós-guerra.
  
Ao enfileirar-se, no entanto, ao lado de um Céline ou de um Marcel Proust na força das descrições mais alucinantes de ambientes e pessoas de uma Lisboa pós-Revolução dos Cravos, o autor de Fado Alexandrino vai às raias do exagero e chega a ser até cansativo. Trata-se de uma obra híbrida e a sensação ao final da leitura é que o livro de Lobo Antunes — com suas 607 páginas — poderia ser muito maior se fosse menos extenso. Com o seu anarquismo virulento, a sua prosa que beira o esgar da esquizofrenia criativa, em alguns momentos, seu desejo cruel de pintar uma Lisboa eternamente sob o manto pardo e podre das derrotas humanas e das crises sociais; uma cidade que ao longo dos últimos 30 anos se transformou num depósito de imigrantes e de ex-combates mutilados por dentro e por fora após o chamado Vietnã Português, as guerras coloniais que eclodiram nos anos 60 em países como Angola e Moçambique, o escritor de A Ordem Natural das Coisas parece a todo instante querer convidar o leitor para a desesperança e a revolta.
  
Os personagens principais são militares que resolvem se reunir num restaurante sujo e sombrio de Lisboa para resgatar os dias de guerra, a memória de uma sociedade que naufragou nas campanhas militares de Salazar, ditador sanguinário que a exemplo dos ditadores do mundo inteiro levou à ruína um povo que agonizou durante 14 anos debaixo da violência e do desperdício da guerra, que poderia ter renascido com a Revolução dos Cravos, mas que ainda luta para renascer. Aí entra o aspecto político da obra, a crítica aos ideais da revolução vistos por um anarquista convicto como Lobo, aliás o motivo que o afastou para sempre de seu conterrâneo e desafeto José Saramago, marxista de carteirinha, e, entre outros, um dos eixos do romance que não convence nem emociona o leitor.
  
Há momentos, porém, de extrema poesia na obra, sobretudo quando alguns personagens como o alferes e o soldado resolvem relembrar a fase antes e durante a guerra colonial. Enquanto se empanturram de sanduíches e azeitonas e se afogam em garrafas de uísque barato e do pior champagne da casa, mostram-se em muitos momentos como verdadeiros rebotalhos humanos, mas que embora embrutecidos pelo sangue e pelo nada da violência ainda conseguem contemplar suas próprias ilusões pelas janelas do bar sumindo no horizonte do Tejo como se fossem barquinhos de papel. ‘‘Não me apetece puto esta monótona existência de alforreca, o primeiro copo num bar, a seguir ao emprego, sentindo-me infeliz, sentindo-me culpado, sentindo-me sozinho (...), entre objetos de louça e postais dos anos vinte, o meu surdo, veemente desejo (...) de ganhar, meu capitão, a adolescência que não tive’’, urra o soldado bêbado de lembranças da mulher que o deixou e de uma cidade que cresceu e ficou feia, imunda e perigosa como a maioria das cidades do mundo.

Sim, a prosa de Lobo Antunes faz escorrer enxames de palavras que o escritor parece despejá-las não de um balde de sintonia com a criação, mas de uma torrente após uma tempestade de visões do presente e do passado. A feiúra dos personagens, a terra sempre em ruínas e sem a emoção de um cartão-postal do passado, o sangue e o vômito, um homicídio e a cumplicidade dos assassinos, a náusea do tenente-coronel em seus dias de escriturário, pós-revolução (Kafka?), o horror do alferes pelas putas de Lisboa, enfim tudo em Fado Alexandrino remete às cloacas da humanidade. Ninguém escapa da virulência, da morbidez e da poesia aterradora deste que, como Céline, mas diferente dele, tentou narrar o pavor da guerra empregando uma escrita aparentemente nova porque fora dos esquadros da gramática normativa e da sintaxe.
  
O próprio Lobo Antunes costuma dizer em entrevistas que não se preocupa com o fio da narrativa, mas cuida de erguer personagens. Aos 60 anos, sempre lembrado para o prêmio Nobel de Literatura, o psiquiatra António Lobo Antunes começou a se dedicar ao ofício da literatura a partir de 1985 e afastou-se da medicina. ‘‘Escrevo livros para corrigir os outros, e ainda tenho muitos para corrigir’’, afirmou a um jornal português. Lobo Antunes é autor de 15 romances, a maioria publicada no Brasil pela editora Rocco. Certa vez queimou a primeira versão deste Fado, mais de 700 páginas, e o que está publicado é um terço das primeiras versões.

 

autor desconhecido

artigo citado de Correio Braziliense

edição 07.07.2002

 

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Lourenço Bray

 

A melhor escrita resulta essencialmente de um desequilíbrio. É por isso verdade o velho cliché de que as pessoas quando estão “deprimidas” ou em estados considerados frágeis criam mais, estão num estado mais introspectivo e por isso mais próximas das questões básicas do quem sou eu, de onde vim e para onde vou. Porque precisam de pensar nisso. Se a vida fosse feita de praia, surf, peixinho fresco assado, bom vinho, fogueiras crepitantes onde um grupo de eternos jovens se reúne para tocar guitarra e fumar cigarros que não dão cancro no pulmão, de olhos postos nas faúlhas de fogo que espiralam em direcção ao firmamento, se fosse assim, a literatura morria.


O escritor reage ao que o rodeia, transformando as suas experiências em escrita. A experiência de vida, a par da leitura, é fundamental para a escrita. É muito difícil escrever algo com substância com menos de 30 anos porque não se viveu o suficiente, nem se leu o suficiente. O escritor quase nunca pode agir para se rodear daquilo que em princípio o estimulará a escrever textos melhores, isso é a vida que escolhe. A vida do Lobo Antunes estará marcada por experiências extremas, elas aparecem no Fado Alexandrino. Não há limites, Lobo Antunes escalpeliza as relações humanas como se lhes fizesse autópsias e sentimos que estamos perante um limite da arte: a perfeição. Não existe outro escritor que domine melhor a escrita e a palavra como Lobo Antunes. Se fizessem o equivalente no cinema seria algo do calibre de um Ingmar Bergman.


Mas quero evitar autopsiar eu o Fado Alexandrino até porque não tenho jeito para isso. O problema evidente que a obra de Lobo Antunes suscita a qualquer escritor é que se pode ler muito e ser culto mas que não se pode fugir de uma vida completamente banal, estéril e desinteressante. Pode-se transformar a literatura que se leu, e o cinema e tudo mais em textos, até em mais literatura, mas faltará sempre uma marca, uma voz única, uma espécie de assinatura de vida que distingue um grande escritor de um assim assim erudito que nunca consegue escrever uma só linha sincera.


É verdade que enfrentei estas 600 páginas do Fado Alexandrino com o incentivo extra do livro me ter sido oferecido pelo Lobo Antunes na futuramente mítica sessão de autógrafos da Feira do Livro.


Estava um pouco amuado com ele, comecei a ler o Esplendor de Portugal e desisti às 100 páginas, aborrecido de morte com “mais do mesmo”. O Lobo Antunes exige uma aprendizagem progressiva para a sua linguagem e universo muito particulares. Este Fado Alexandrino é um excelente ponto de partida. Fica-se viciado. Não conhecem viciados em Lobo Antunes? Aquelas pessoas que estão sempre a ler um livro de Lobo Antunes? (…)


 

Lourenço Bray

em O nascer do Sol

04.07.2006

 

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