ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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Livro de Crónicas, 1998

 

3 artigos por

 

- Anabela Filipe

- Carlos Gaio

- Paulo Afonso Ramos

 

 

 

 

 

 


Anabela Filipe

 

Livro de Crónicas

 

Sobre o Lobo Antunes já tudo foi dito. Ele escreve bem, é genial. É bom, tem feitio difícil. Fez isto e aquilo. Curou loucuras. Enlouqueceu. Escreveu isto, aquilo e mais aquilo. Devia, ou nem por isso, ter ganho o Nobel. Tem temas recorrentes. É original. Recentemente lançou “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura” em que mais uma vez escreve no feminino e me fez acreditar que entre aquelas palavras eu sei que ele sabe aquilo que ele sabe que eu sei! Mas não foi a primeira vez que isto aconteceu, tudo começou há muitos anos com “A Ordem Natural das Coisas”... que alterou a ordem natural dos meus pensamentos e me deixou até hoje com muito mais dúvidas. Tudo isto porque ele é brilhante a observar. Exímio. Neste livro de pequenas crónicas ficamos abismados com o que consegue ver: reconhecemos estereótipos em “ Os meus Domingos”, vemos descritas com um humor refinado pequenas e grandes angústias, criticas subtis que atravessam todos os estratos sociais em Portugal nas últimas décadas. Muitas ficção, outras recordações, como “Retrato do Artista Enquanto Jovem” ou “As Pessoas Crescidas”... a diversidade aliada à brevidade arremessam sempre palavras com emoção e não escapa nem mesmo o leitor mais distraído.

 


Anabela Filipe

em www.to-bias.com

Abril de 2001

 

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Carlos Gaio

 

Os heterónimos

 

Há livros que marcam de forma indelével o percurso de uma pessoa. E há livros que são sobre pessoas, as suas angústias, dúvidas, inquietações, alegrias, manias mas, principalmente sobre o seu quotidiano, o mais banal dia-a-dia é aqui transformado em obra prima.

E há livros que começaram por não o ser. Como é o caso. “ Livro de Crónicas” é o resultado de uma compilação da crónicas publicadas ao longo de uma boa meia dúzia de anos na revista dominical do jornal “O Público”.

Com um tom irónico e nostálgico, com fortes contornos confessionais e melancólicos, Lobo Antunes, consegue contar pedaços da sua vida, num registo de uma visualidade cinematográfica, sem nunca esquecer um bem delineado e inteligente sentido de humor.

São pedaços quotidianos contados na primeira pessoa, como folhas que vão caindo no chão. Mas, se em alguns casos sabemos que é o autor em viagens na sua memória, na maioria são personagens com vida própria que ganham ali voz presente.

O grande trunfo de Lobo Antunes nestas crónicas para além da simplicidade da sua escrita é, sem dúvida a profundidade como consegue descrever na primeira pessoa sentimentos, situações e personalidades de uma forma tão cativante. Com certeza que esta vertente de criar personagens com dilemas tão simples como profundos e complexos vem-lhe dos dias atrás do seu papel de psiquiatra.

Desde o homem que tinha uma aversão visceral a semáforos, até ao episódio do avô autor que era surdo; passando pelos domingos a fato de treino roxo e verde passados num centro comercial; sem nunca esquecer o memorável relato do amante que tem de vestir gabardina e chapéu à detective para se encontrar, num café à beira de um cemitério, com a sua amada, que por acaso é casada e tem duas pestezinhas.

Este livro é, sobretudo, um mapa de vivências, sobre a natureza humana, as relações interpessoais a memória, e os novos tipos sociais. Talvez seja o formato de pequenos testemunhos que confere a esta obra uma fluidez que a torna agradável e de fácil leitura, garanto-vos este é um livro para reincidir vezes sem conta.


carlosLgaio

em Livra.pt

03.03.2002

 

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Paulo Afonso Ramos

 

António Lobo Antunes

 

Mais um domingo com todos os que já perdi. Um sol abrasador que me impede de sair de casa. A idade teima em restringir-me os desejos e, nas limitações do meu corpo, rendo-me, sem que antes tenha lutado para modificar o que quer que seja.
 

Pego no livro – Livro de Crónicas – de António Lobo Antunes, e começo uma nova etapa, talvez para esquecer a minha realidade ou para deliciar-me nos prazeres de uma escrita atenta e tão real que me adormece o desejo.
 

Desfolho cada página com uma ansiedade crescente para que depressa possa chegar ao fim de cada crónica que escreve. Quero receber cada mensagem ali deixada e satisfazer a minha curiosidade em cada final. Deixo-me ir nas palavras do autor e até consigo ver as imagens que desenha com as palavras. Sinto as suas metáforas como se tivessem vida.
 

Não paro. Nem a surpresa cabe em mim, quando leio os passos dados pelo autor pelos mesmos sítios pisados por mim. Sinto-o omnipresente. Sinto que pertence à vida que vivi e que percorreu os mesmos lugares públicos que percorri e, na semelhança, até descubro que gostamos do mesmo filme que, na época, era cabeça de cartaz.
 

O meu domingo é mais sorridente assim. O sol já não importa se queima ou sorri e o meu corpo já não me impede de viajar aos lugares mais desejados pelo meu pensamento abstracto ou lúdico.
 

De tudo, sobra-me a vontade de escrever, de escrever como o senhor António, de ter a coragem de escrever muitas frases entre outros, algumas com a fragrância da verdade rejeitada e outras com a dureza dos tempos que já esquecemos. Mas não! A minha consciência pede-me calma, ilumina-me a realidade e diz-me que não será, de todo, possível escrever como o senhor António. Ele é, de facto, alguém que domina as palavras e que brinca com as personagens do seu eu. É, portanto, alguém de outra esfera superior. Resigno-me à minha realidade, mesmo antes de o tentar. Que importa afinal, se o prazer da sua escrita me seduz em cada leitura que faço? Que interessa, se cada crónica sua é um alimento que preciso? Não importa. Nada mesmo, porque basta-me que cada leitura tenha sido acompanhada por um soberbo prazer. Sobra-me ainda a vontade de escrever, a minha maneira, com as minhas palavras e os meus sentimentos retirados de mais um domingo igual a tantos outros que já perdi.
 

Um dia talvez conheça o senhor António e os meus olhos brilhem pedindo um aperto de mão e umas palmadinhas nas costas. Talvez seja o momento maior de um domingo qualquer por acontecer. Por ora, deixo-me extasiado entre os sonhos desejados e a realidade que aquele Livro de Crónicas me empresta. Resta-me agradecer-lhe e esperar por um domingo qualquer. Obrigado senhor António.


Paulo Afonso Ramos

em Poesia de Paulo Afonso Ramos

08.09.2008

 

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