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Não Entres Tão
Depressa Nessa Noite Escura, 2000
2 artigos
por
-
Gonçalo
Figueiredo Augusto
- Rosemary Gonçalo
Afonso
Gonçalo Figueiredo
Augusto
1.
Li este romance,
desculpem, vivi este romance entre agosto e outubro. Arrependo-me de não o ter
lido, redesculpem, de não o ter vivido mais cedo, de não ter conhecido mais
cedo a Maria Clara, as fantasias dela, as invenções, a inocência na forma de
diário, a inveja da irmã
«A sua filha Ana Maria
parece uma estrangeira»
«A Maria Clara é o homem da
casa»
lamento não ter conhecido
mais cedo a velha com a boininha ridícula que apostava a fortuna da família no
casino, lamento não ter entrado mais cedo na casa do Estoril com as fotografias
do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas prateleiras, os
pretos e os árabes a invadirem os corredores da casa, a Adelaide a escoltar a
«Menina»
(a filha da menina
«Senhora»
a mãe da senhora
«Menina»).
Creio que deveria ter
entrado mais cedo na casa do Estoril, no diário da Maria Clara, no andar da
Leopoldina em Alcoitão, no percurso das camionetas do Murtal, na clínica onde o
coração do Luís Filipe desenhava adeuses no ecrã da máquina, no lago onde um
menino de barro para a água, tenho pena de só ter conhecido a Maria Clara muito
tempo depois das outras pessoas a conhecerem. Gostei da Maria Clara, gostei
muito do romance (ou poema, como o António lhe chamou). Recordo o final do
último capítulo, ficou escrito na minha mente: «Há momentos na vida em que
necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no
vidro.» Fechei o livro mas o romance (ou o poema) permaneceu na minha cabeça
(ainda lá está), tenho muita pena por não ter lido, desculpem, por não ter
vivido o romance (o poema, bolas) há mais tempo. Espero que vão a correr a uma
livraria para conhecerem a Maria Clara, vale a pena conhecê-la, vale a pena
viver este livro. O título é uma tradução livre de um verso do Dylan Thomas: Do
not go gentle into that good night. Traduções à parte, experimentem olhar pela
janela do vosso quarto (pelas janelas dentro de vós) e procurem a Maria Clara.
Vale a pena conhecê-la. Ela é o homem da casa.
2.
Tinha planeado escrever algo mais simples sobre este livro,
mas o livro é demasiado bom para ficar diminuído à minha preguiça.
Não Entres Tão Depressa
Nessa Noite Escura foi publicado em Outubro de 2000 e eu envergonho-me
de só o ter lido 4 anos depois. A narrativa é esmagadora e ao mesmo tempo é
indizível. Há uma personagem central, Maria Clara, com a qual atravessamos os
35 capítulos do livro, divido em 7 partes – os 7 dias da criação. Maria Clara
é uma rapariga ingénua que nada sabe sobre a vida: inveja a irmã Ana Maria,
lamenta a distância do pai Luís Filipe, observa a família despedaçada em que
se insere, inventa-lhe um passado, inventa-lhe vários passados na tentativa de
descobrir os segredos da família guardados num sótão escuro e coberto de pó.
Com Maria Clara somos convidados a entrar na casa do Estoril com as
fotografias do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas
prateleiras e a partilhar as suas fantasias, as suas invenções, a inocência na
forma de diário.
Com Maria Clara vamos conhecer a avó com a boininha ridícula que apostava a
fortuna da família no casino, a empregada Adelaide que a escoltava para todo o
lado, os pretos e os árabes que invadiam os corredores da casa, o distante pai
Luís Filipe que agoniza na clínica onde o seu coração desenha adeuses no ecrã
da máquina.
Com Maria Clara vamos conhecer Leopoldina e o andar em Alcoitão, as camionetas
do Murtal, os últimos dias do avô cego.
E no meio de tudo Maria Clara descobre o seu corpo, as suas formas, fica
estática diante do espelho a observar-se. Maria Clara descobre-se e nós
descobrimo-nos também, assistindo ao desmoronar de uma família onde se
desconhecem uns aos outros. No final, nas últimas linhas do último capítulo,
uma Maria Clara adulta e infeliz confessa-nos: «Há momentos na vida em que
necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no
vidro.»
Não Entres Tão Depressa
Nessa Noite Escura não é com certeza um livro fácil de ler para quem
não conhece a escrita de Lobo Antunes – o título é uma tradução livre de um
verso de Dylan Thomas: Do not go gentle into
that good night – mas fica um conselho: abram a alma entrem no livro
com o espanto de quem se olha a um espelho e percebe já não ser o mesmo.
1. por Gonçalo Figueiredo Augusto
04.12.2004
As Good As It
Gets
2. por Gonçalo Figueiredo Augusto
20.06.2006
Conhecimento do Inferno
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Rosemary Gonçalo
Afonso
Instantâneos na noite
escura de António Lobo Antunes
Não entres tão depressa nessa noite escura
é o 14º romance de António Lobo Antunes. Dividida em 35 capítulos e sete
seqüências, ordenadas conforme os dias da criação do mundo, a narrativa reúne
um conjunto de vozes que se cruzam, entrecortadas por fragmentos de diálogos,
monólogos incompletos e frases inacabadas, reveladores de uma instigante
viagem através da memória.
A doença do pai das irmãs Ana Maria e Maria Clara desencadeia as reflexões que
evidenciam a insatisfação pessoal das personagens e o sentimento de fracasso
que as domina.
As formas de expressão escolhidas pelo autor são as visitas ao psicólogo e o
diário de Maria Clara, dona da voz mais freqüente que se percebe na polifonia
de vozes que percorrem a narrativa. Sem nenhuma ordem aparente na seqüência
cronológica dos acontecimentos, a memória impõe-se como o único fio condutor
da estória.
Uma vez que a cronologia e a veracidade dos fatos são pouco importantes,
percebemos que tornar críveis as personagens não é uma prioridade, e sim
mostrar as experiências que as marcaram mais profundamente. Esse aspecto da
narrativa mostra que o enredo é o que menos interessa ao autor, reiterando o
que afirmou durante uma entrevista para o jornal "Folha de São Paulo": Para
mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os
quadros. Ou ainda, citando Clarice Lispector: As palavras são apenas anzóis,
para apanhar o que está nas entrelinhas.[1]
Embora o valor da intriga seja minimizado, não podemos ignorar que as
situações descritas nos revelam, sutilmente, um retrato da sociedade
portuguesa daquele período, cobrindo um espaço desde os primeiros anos após a
Revolução de 25 de abril de 1974 e o fim dos anos 90, quando alguns benefícios
da integração à Comunidade Européia passaram a fazer parte do dia-a-dia dos
portugueses.
São esses dois aspectos: a viagem pela memória e os instantâneos da realidade
exterior, que pretendemos destacar no presente trabalho.
A viagem pela memória é sugerida desde o capítulo inicial, que começa com
lembranças, preenchidas pela imaginação: O meu pai nunca me deixou entrar
aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em
baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no
rebordo do lago[2].
Mais do que saudades da infância, de um tempo em que os problemas parecem tão
distantes, a frase revela que a repressão foi um aspecto marcante na educação
de Maria Clara. Embora o uso do imperativo seja freqüente entre os
portugueses, mesmo em situações de total descontração - e o romance deixa
transparecer essa característica pela repetição das frases: Cala-te![3] ou
Calem-se[4] -, é significativa a intensidade com que as frases imperativas
povoam a memória da personagem: Pede desculpa ao teu avô Maria Clara.[5]
Precisamos ter uma conversa menina.[6] Vá para casa Clarinha.[7].
Em sua interpretação filosófica do pensamento de Freud, Marcuse nos lembra
que, de acordo com a teoria deste
a história do homem é a história da sua repressão. A cultura coage tanto a sua
existência social como a biológica, não só partes do ser humano, mas também a
sua própria estrutura instintiva. Contudo, essa coação é a própria precondição
do progresso. Se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os
instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e
preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que
conjugam.[8]
Submetida à repressão constante, a natureza do homem é inevitavelmente
transformada, assim como os seus "valores", para garantir o bem-estar da
sociedade.
Ao nascer, os instintos do homem conduzem-no à busca da concretização imediata
de todas as suas necessidades, ou seja, à busca do prazer. Ao controlar esses
instintos, para satisfazer às exigências da sociedade, o homem transforma o
princípio de prazer, sugerido por Freud, em princípio de realidade. (...) O
indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor
gratificação de suas necessidades é impossível.[9]
Essa "compreensão traumática" nem sempre é consciente. O conjunto de regras
impostas pelas diferentes instituições presentes na sociedade - família,
escola e igreja, entre outras - impedem a realização imediata das necessidades
individuais, mas não eliminam essas necessidades. Para viver em sociedade, o
indivíduo concorda apenas em adiar a realização dos seus desejos, ou em fazer
concessões, transformando-os. Quando o cotidiano não satisfaz aos seus anseios
ele sente-se burlado, perdido. E, sobretudo, muito só.
A insatisfação com o momento presente, a solidão e o ensimesmamento são as
afinidades que se percebem entre personagens do romance. Os fragmentos de
diálogos mostram que apenas assuntos superficiais e pequenos problemas
imediatos são discutidos entre os familiares. As personagens não conseguem
expor abertamente as suas angústias: se eu pudesse conversar com alguém e
podendo conversar com alguém se conseguisse falar[10]. A dificuldade de
comunicação faz com que se sintam aprisionadas.
No último capítulo, Maria Clara, sufocada pela rotina, é assaltada pelo
impulso de fugir, literalmente.
Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me
parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o
almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la
Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as
cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de
que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também.
Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães,
correndo em círculos na noite[11].
Nada ingênua, Maria Clara não se vai embora. Sabe que não pode fugir de si
mesma tão facilmente: "o diário a persegue". Precisa empreender a viagem
interior, enfrentar os seus "fantasmas", percorrer "os atalhos entre o que
deixamos e o que esperamos encontrar", mencionados na nossa epígrafe. Tentar
descobrir quando foi que se afastou da menina que "brincava às fadas com a
irmã no rebordo do lago".
Não é por acaso que a epígrafe do romance foi retirada de um tratado de
psicologia. Embora já não exerça com freqüência a profissão de psiquiatra, o
autor não o é impunemente. Ele próprio afirma, em entrevista ao Jornal de
Letras:
[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do
que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas
iluminarem-se umas às outras e a concomitância do passado, do presente e do
futuro.[12]
Respeitando as técnicas de psicoterapia, a narrativa dá livre curso aos
corredores da memória e é a fantasia que domina. Como afirma Marcuse:
A libertação psicanalítica da memória faz explodir a racionalidade do
indivíduo reprimido. À medida que a cognição cede lugar à recognição, as
imagens e impulsos proibidos da infância começam a contar a verdade que a
razão nega. A regressão assume uma função progressiva. O passado redescoberto
produz e apresenta padrões críticos que são tabus para o presente. Além disso,
a restauração da memória é acompanhada pela recuperação do conteúdo cognitivo
da fantasia.[13]
As personagens são construídas e desconstruídas freqüentemente, modificadas
pelo conteúdo cognitivo da fantasia durante o exercício de restauração da
memória. Talvez seja tudo fruto da imaginação de Maria Clara, mesmo as vozes
que não lhe pertencem, como é sugerido no penúltimo capítulo em frases como:
Deixei de me inquietar porque afinal está tudo como sempre foi, a moradia
intacta, o meu pai conosco,[14] ou ainda, na cave, no sótão, atrás do
guarda-fato, mas qual guarda-fato, no compartimento com porta para a escada,
mas qual escada[15].
Os fatos são questionáveis, mas deixam perceber os tabus que assombraram Maria
Clara, e que assombram a sociedade, entre eles: as dúvidas sobre a sexualidade
(duas frases a perseguem): - A Maria Clara é o homem da casa.[16] e (amor
entre mulheres normalidade ou doença: o ponto de vista dos[17]; o envolvimento
de familiares com atividades ilegais (o pai é traficante de armas): -Quais
armas? / um baú de facturas no sótão, morteiros, bazucas, revólveres, minas, a
minha mãe se eu lhe contasse / (descanse pai, não conto)[18]; e os sentimentos
pouco nobres (como a inveja): (...) a expressão da Ana ao zangar-se comigo, um
grito de raiva a aumentar-lhe a boca, a beleza que me fazia sofrer e eu
odiava, o cabelo loiro e o meu quase preto[19]
Tentar descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa própria vida, eis
uma proposta antiga do autor. Em seu livro Memória de Elefante um personagem
angustiado avalia o seu passado, buscando respostas para a pergunta que o
persegue e que deixa tão evidente a sua sensação de fracasso: Quando é que eu
me fodi?[20].
Em Não entres tão depressa nessa noite escura o autor consegue se superar e
vai muito além de sugerir essa busca, indica caminhos: a viagem interior;
nunca desvinculada da avaliação dos acontecimentos externos ou dos hábitos de
comportamento que se verificam na sociedade que nos cerca. Uma grande
interrogação, porém, permanece: o meio será causa ou consequência das nossas
crises existenciais?
Na busca de respostas para o seu próprio conflito interior o autor expõe o seu
país: também Portugal está em causa no romance.
Um Eça de Queiróz contemporâneo, assim consideramos Lobo Antunes. Retratar a
sociedade portuguesa é sua outra proposta, sem alegorias, confirmando o que
declarou ao jornal "Folha de São Paulo" durante uma entrevista: "não sou Deus,
não invento nada"[21].
Vive imaginando as suas personagens e até sonha com elas. O contacto com a
sociedade dá-se através de uma janela virada para o Tejo, numa casa que tem
pouco mais do que o indispensável. Aquele é o ponto de observação do
'psiquiatra social'. E o que observa ele? Um mundo doente, demente, vazio,
desesperado, apático, sem sinais de esperança — uma catástrofe. Mas de tanto
olhar através do vidro de uma janela, acabou por colher o seu reflexo. António
Lobo Antunes transformou-se numa personagem do microcosmos lusitano, digna de
um dos seus romances.[22]
Menos acusador do que em obras anteriores, mas igualmente crítico, Lobo
Antunes aguarda o "salto qualitativo" que nem a Revolução de 25 de abril de
1974 nem a adesão à Comunidade Européia, em 1986, proporcionaram aos
portugueses. Talvez, em nenhuma de suas obras anteriores tenha sido tão
benevolente com os seus compatriotas. Retrata-os com uma surpreendente
sensibilidade e mostra um notável cuidado com a linguagem, tornando viável a
categoria de poema que ele mesmo atribui ao romance. Criar uma certa confusão
na categoria aponta, com certeza, para a crise de gêneros que se percebe nos
romances contemporâneos, mas também nos prepara para passagens
indiscutivelmente poéticas, como a seguinte:
não pedia auxílio, não chamava ninguém, limitava-me a escutar o Tejo e os
ramos em torno do Casino inventando uma brisa que não existe em julho e uma
desordem de morcegos que o rio despedira há séculos para as faldas da
serra[23]
A realidade exterior e os momentos históricos vividos pelo país são
reproduzidos exaustivamente. Passamos a destacar alguns desses instantâneos:
Ao extinguir os abusos praticados pelo Estado Novo (regime ditatorial imposto
por Salazar) a Revolução foi traumática para uma parte da população, que viu
os seus privilégios cerceados e sua estabilidade econômica abalada. A
decadência obrigou-os a alterar sensivelmente o seu estilo de vida para
sobreviver com as novas limitações financeiras. Como nos lembra Joaquim
Vieira: A elite dirigente do antigo regime, a sua oligarquia económica e a
classe média alta são, na realidade, as vítimas da revolução.[24]
Exemplificando esse aspecto, lembramos o envolvimento do pai de Maria Clara
com o tráfico de armas, apesar dos riscos envolvidos, para manter o padrão de
vida a que a família estava habituada. A ausência do dinheiro proporcionado
por esse comércio seria, seguramente, o fim de uma série de luxos até então
rotineiros:
Nesta casa esvaziada de tudo excepto de reposteiros que envelhecem e
lembranças de grandeza, a minha mulher obrigada a vender pratos, tremós, a
mandar embora o chofer, a descuidar os canteiros, o jardim transformado num
matagal de ervas ruins açucaradas pelas cordas que sobram (...) o escritório
aberto a livrá-las do relento dos árabes e pretos incrustado nos estofos, nos
móveis, o dinheiro deles a permitir à minha mulher que o chofer e os
canteiros, que a modista, que as compras, [25]
A revolução proporcionou mudanças rápidas mas, apesar do ideal de liberdade,
não conseguiu eliminar os inúmeros preconceitos de uma sociedade altamente
estratificada, como o era (e ainda é) a sociedade portuguesa. Tanto os
preconceitos raciais como os de classe social são evidenciados no decorrer da
narrativa; a própria história do pai de Maria Clara, possivelmente de origem
humilde, deve ser esquecida: o teu pai não tem família quando nos conhecemos
já não tinha família.[26] e eu danada com as generosidades do meu pai (...) os
cuidados dele com os pobres, nunca diante de nós, às ocultas, como se
pertencesse à mesma raça e era óbvio que não pertencia apesar das peúgas de
risquinhas e do modo de pegar nos talheres.[27]
A estratificação social foi mantida pelo antigo regime com tanta naturalidade,
que fazia lembrar o período da monarquia. Essa prática acentuou preconceitos
que não serão facilmente ultrapassados:
(...)
não sei defini-lo mas farejo-o à légua
que vocês, sem dar por isso, nos pegam, é a
miséria que cheira, não são os corpos nem a roupa,
a miséria que cheira como a vida cheira, qualquer coisa desagradável que
carregam convosco[28]
Outra consequência da agitação que se verificou logo a seguir ao 25 de abril
foi a invasão de propriedades. Como nos lembra Joaquim Vieira, em suas
Crónicas do séc XX.
Descobre-se a ocupação como uma eficaz arma de contestação à posse ou
orientação tradicionais do que é ocupado. Ocupam-se palacetes, quintas,
terras, matas, fábricas e outras empresas, residências, restaurantes, escolas,
clubes, órgãos de informação, câmaras municipais, juntas de freguesia, casas
do povo, ministérios e até hospitais. A ocupação torna-se uma actividade
rotineira em 1975, quase sempre com o beneplácito e proteção dos
militares.[29]
No romance, essa situação é também lembrada:
Os motoristas, os carregadores, os operários
A baterem a sola no chão como se enxotassem um bicho
- Vá-se embora senhora
Donos da gente como sempre que os pobres
Quando foi da revolução ocuparam-nos as casas[30]
Perdidos num emaranhado de crises, as personagens nos dão conta da realidade
que se alterara. Sejam elas frutos da imaginação de Maria Clara ou não,
mostram a dificuldade de adaptação de uma grande parte da população à nova
realidade do país. Destacamos a avó, que saía todos os dias às ocultas, a
seguir ao almoço, de boininha ridícula no cocoruto, a bolsa de retrós e as
suas jóias falsas, para jogar na roleta do Casino.[31] ; a empregada Adelaide,
sombra protetora da patroa a quem chamava de menina e que tinha como tesouro
uma moldura quebrada com elas duas novíssimas, ou que a empregada jurava serem
as duas, dissolvidas numa mancha castanha[32]; e ainda o avô, que uma tarde
trancou-se no cubículo que prolongava o escritório e quis matar-se com a
pistola descarregada[33]
Entre aqueles que já eram adultos em 1974, os mais velhos no século atual,
ainda é possível detectar a atitude de fuga da realidade por parte dos
privilegiados do antigo regime; e a subserviência dos menos favorecidos,
resultante da dependência e idolatria que desenvolveram pelos seus patrões no
passado.
Não entres tão depressa nessa noite escura nos revela a narrativa
contemporânea com todos os seus impasses: a fragmentação, o desaparecimento da
trama e dos personagens (que são desconstruídos), a ausência do narrador, a
contestação política (mostrando os valores decadentes, a crise dos valores
burgueses e a crítica ao lado social). Aponta ainda para a crise dos valores
estéticos ao chamar o romance de poema.
Espelho da sociedade portuguesa, o romance é uma tentativa do autor de
encontrar a si mesmo através da arte. A viagem interior que sugere seria o
exercício indispensável para tentarmos compreender as nossas próprias
angústias.
Na circularidade que a narrativa oferece, proporcionando o diálogo com o
passado na busca de um sentido para o momento presente, voltamos à epígrafe
escolhida por Lobo Antunes para abrir o seu trabalho e fechamos com ela o
nosso:
Los locos van libres por las salas y pasillos o
por las habitaciones de los hombres, sin que
ello inspire el menor recelo de evasión o
desorden. Incluso algunos de ellos,
pertenecientes a familias distinguidas,
acompañan a las visitas, hacen los honores de
la casa. Guardan las más suaves formas de
cortesía y buena educación.[34]
1] ELEK MACHADO, Cassiano. "Fado' ensaia
todo Lobo Antunes, diz crítica. Jornal Folha de São Paulo, 03 ago. 2002, p.
E12.
[2] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura. 5 ed. Lisboa:
Publicações Dom Quixote, 2000, p.15.
[3] Idem, p.517 e 519. [4] Idem, p.45. [5] Idem, p.60. [6] Idem, p.113. [7]
Idem, p.525.
[8] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização — uma interpretação filosófica do
pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores,1968, p.33.
[9] MARCUSE, Herbert. Op.cit., p.34.
[10] LOBO ANTUNES. Op. cit., p. 388. [11] Idem, p. 551.
[12] LOBO ANTUNES. " A constância do esforço criativo". Jornal de letras,
artes e idéias. Ano XVI/n.677. Lisboa: 25 set. — 8 out, 1996, p.14.
[13] MARCUSE.T. Op cit., p. 39.
[14] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 527. [15]
Idem, p. 527. [16] Idem, p. 30. [17] Idem, p. 237. [18] Idem, p. 45. [19]
Idem, p. 47.
[20] LOBO ANTUNES, António. Memória de Elefante. Lisboa: Publicações Dom
Quixote, 1991, p.25.
[21] ELEK MACHADO. Op. cit., p. E13.
[22] HALPERN, Manuel. "Personagem de Romance". Jornal de Letras, artes e
idéias. Ano XX / nº783. Lisboa. 04-17 out. 2000.
[23] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.196.
[24] VIEIRA, Joaquim. Portugal séc. XX — crónica em imagens 1970-1980. Lisboa:
Círculo de Leitores, 2000, p. 163.
[25] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 207.
[26] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 42. [27]
Idem, p. 264. [28] Idem, p. 143.
[29] VIEIRA. Op. cit., p. 164.
[30] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.237. [31]
Idem, p.17. [32] Idem, p.21. [33] Idem, p.24. [34] Idem, p.09.
por Profª Rosemary Gonçalo Afonso
em
Universidade Unigranrio
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