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O
Arquipélago da Insónia, 2008
3 artigos
por
-
Ana
Cristina Leonardo
-
João Céu e Silva
- Tim James Booth
Ana Cristina Leonardo
Cercados pelo Vento
O vigésimo livro de António Lobo Antunes tem
como pano de fundo o Portugal rural.
De acordo com a famosa frase do ensaísta inglês
Walter Pater, «toda a arte aspira continuamente à condição de música». Esta
concepção da música como a «grande arte» parece ajustar-se cada vez mais à
escrita de António Lobo Antunes. [...] O Arquipélago da Insónia,
indiferente ao pretexto ficcional - ascensão e queda de uma família
latifundiária alentejana (?) -, surge habitado por uma polifonia de espectros,
soando como uma melodia riscada por frases e sons sincopados e crispados,
agentes devoradores da própria partitura do texto, que, ainda assim,
sobrevive.
No princípio, há uma casa: «De onde me virá a
impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?» Depois vão
saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por
perguntar-se o leitor, que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo):
um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («- Chega cá»), dois irmãos,
um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na
música»), uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor
(«sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer
conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de
feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao
seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que
julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas
para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado
narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial
como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do
qual se gosta mais à segunda leitura.
Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O
Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz
ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. E,
precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui
a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no
maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos
haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos.» Mas se, como n'
O Som e a Fúria, também n' O Arquipélago da Insónia há uma
família decadente e um «Idiota» a que se deseja dar voz, torna-se arriscado ir
mais longe nas comparações. Neste, as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o
ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real, e vivos e
mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas
sem futuro. As palavras, naturalmente, atropelam-se, interrompem-se,
rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes
também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava
ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: «(...) tu amas a
narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu
estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.» Neste caso,
claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um
exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o
crime mancham O Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da
música, a mais racional e sensual das artes.
E por mais este livro, mesmo se distinto da
condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo
Antunes o mesmo que Le Clézio disse dessa espécie de poema assinado por Henri
Michaux (publicado n' As Magias de Herberto Helder): «As linguagens
pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos
móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas.
As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa.
As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.»
por Ana Cristina Leonardo
Outubro 2008
Suplemento Actual do Expresso nº 1876
Meditação na Pastelaria
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João Céu e Silva
A insónia criativa de
Lobo Antunes em novo livro
Em muitas madrugadas recentes, António Lobo
Antunes toma um comprimido para dormir ou senão passaria essa parte do tempo,
em que deveria estar a dormir, a "corrigir o livro que está a escrever". Já
não se trata do volume O Arquipélago da Insónia, que está à venda a
partir de hoje, mas do próximo livro cuja primeira versão quer ver concluída
ainda este ano.
Mas se as suas noites não são de insónia, tal não
quer dizer que viva fora do seu arquipélago porque, mais do que nunca, o
escritor está a viver para os livros... Livros? É que, apesar de serem
catalogados como romances, Lobo Antunes afirma que não tem a certeza de estar a
escrever este género literário! Será mais uma outra coisa, que possui essa
característica, mas por se exigir a si próprio cumprir-se como escritor que faz
algo para além do seu tempo e que, como confessa, não o torne uma unanimidade
antes de um futuro, momento em que a revolução que pretende inscrever nas suas
obras só então possa ser realmente compreendida. Talvez, por isso, quando recebe
mais um dos muitos e importantes prémios literários - como tem acontecido -
receia que essa unanimidade seja mau prenúncio para o que pretende pôr na
estante da literatura.
O mais recente livro é o 20.º título que publica
se excluirmos os três volumes de Crónicas e as Cartas da Guerra
que as suas filhas recolheram e editaram. Desde Memória de Elefante que
António Lobo Antunes percorre uma vida literária que no próximo Verão irá
celebrar trinta anos. Pelo meio ficou um ciclo inicial de três obras que
expurgam as suas feridas da Guerra no Ultramar; um volume - Fado Alexandrino
- que o seu pai considerou definitivamente um romance; uma primeira trilogia de
romances psicanalíticos - desde o Tratado até Carlos Gardel -
sobre vida e pessoas triviais; uma segunda série de romances de grande fôlego
como O Manual os Inquisidores e O Esplendor de Portugal até que o
autor entrou numa retratação mais intimista da sociedade portuguesa (aquela que
vigora nas cidades), fixando algum do cosmopolitismo nacionalista e português
como cenário para o florescimento das personagens bastante vezes desprovidas de
nome e de caracterização. Pelo meio, ficaram as colectâneas de crónicas que
tanto seduzem os (proto) leitores de Lobo Antunes e, a ultimar a sua mais
recente fase, livros de uma maior e inesperada cumplicidade com o tempo em que
vive, como é o caso de O Meu Nome É Legião, onde pontuaram jovens
delinquentes de que a primeira notícia da sua existência poderia ter estado nas
páginas de crime dos jornais.
Em O Arquipélago da Insónia, o autor
regressa geograficamente a dois panoramas naturais que lhe dão prazer: o
bucólico interior de um Ribatejo cujo rio que o atravessa desagua na
Trafaria. É aqui, nestas duas localizações, que prende as personagens ao
correr de uma divisão em três partes e fá-lo em apenas metade do espaço que
habitualmente dedica à sua narrativa: 263 concisas páginas.
Para o leitor habitual de Lobo Antunes, esta
diminuição gráfica do que fica registado entre as duas capas poderá ser uma
surpresa mas, como diz o escritor - que tem o desejo de colocar nesta medida a
"vida toda" -, quer chegar à última palavra ("nunca") sem jamais se sentir fora
daquilo que é o resultado da experimentação literária por que tem lutado.
Em O Arquipélago da Insónia o autor faz um quase travelling
cinematográfico que se cola/sobrepõe a um exercício de estilo literário ainda
mais inovador do que tem entregue aos leitores na última fornada de títulos,
com uma ou outra excepção, que terá origem no mundo particular de um autista,
não se desobrigando o autor a utilizar todas as ferramentas necessárias à
análise histórica e social que fizeram o século XX.
por João Céu e Silva
09.10.2008
Diário de Notícias
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Tim James Booth
O Arquipélago da
Insónia
«- Somos dois
homens rapaz
a cerrar a tampa sobre mim e a afastar-se nas ervas para eu não
acordar.»
- António
Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia
Ao pousar o livro sobre a secretária ainda tremo
quando me lembro que este exemplar em particular me foi entregue em mãos pelo
autor, assinado e dedicado, no primeira (talvez única) oportunidade que tive
para o conhecer. Ainda me ressoam nos ouvidos as palavras curtas e, apesar
disso, tão longas que trocamos, o sorriso inesperado, o elogio sussurrado, a
minha voz a tremer, as minhas mãos a tremer, o livro a tremer quando lho
estendi, o livro seguro quando me devolveu, uns poucos minutos que vão ficar
para sempre na minha memória e umas palavras que vão para sempre ficar
escritas no meu livro, pela mão do génio Lobo Antunes, quem sabe próximo Nobel
da Literatura português, já que é eterno candidato. E um conselho, um conselho
que guardarei para sempre na sua voz sumida e pensada, “Nunca empreste
livros”, nunca os empresto caro doutor.
Isto para dizer que ler este livro não estava no
meu plano de leitura, como disse anteriormente, primeiro queria aprofundar o
início de carreira de Lobo Antunes, no entanto este Arquipélago pediu
independência da minha jurisdição e em boa hora o fez. Não sou, certamente, o
homem indicado para comentar a obra deste senhor se nem sequer um quarto
daquilo que escreveu, e estou a falar apenas da ficção, fui ainda capaz de
ler, por essa razão evitarei comparações, ainda que inevitáveis, com as obras
que antecederam este romance. Podia bem começar por aí, contestar a eterna
designação de romance que nada quer dizer e que dificilmente encaixa neste
livro, mas que encaixa porque o livro não entra em mais lado nenhum. Mas fujo
ao que interessa.
O Arquipélago da Insónia é a mais
recente obra de António Lobo Antunes. É uma visão plural da história de
três gerações de uma família disfuncional (como tantas nas histórias de
Lobo Antunes) dona de uma herdade algures no Ribatejo, desde o seu
crescimento pelo braço do Avô e do seu amigo de infância que se tornou
no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus
netos. Disfuncional não chega para descrever esta família, se existe um
avô com um filho que não respeita, “Idiota”, um filho casado com uma
ex-empregada da casa que era tomada pelo pai, como todas as outras, um
neto que é autista e filho do ajudante de feitor, outro que simplesmente
não quer ser, uma avó que tremia tanto como a chávena no pires e matava
coelhos com uma paulada no cachaço, uma mulher que morreu em criança e a
própria morte como prima da família. É isto o livro e nada mais, a
história de uma família sem história, igual a tantas outras e diferente
de todas, singular porque nasceu de uma mente singular e banal porque
vemos em todos os membros do clã facetas nossas. Aparentemente Lobo
Antunes aproxima-se cada vez mais do seu objectivo de encher os livros
de nada, este é um livro carregado dele, de palavras que não existem, e
que não precisam de existir para serem lidas, de história que não
existe, e não precisa para ser conhecida, de morte que existe, e não
precisava de existir para lá estar.
Durante dois terços do livro vemos a
família pelo olhar do autista. E está brilhantemente bem composto.
Ninguém sabe como funciona a mente de alguém assim, mas António Lobo
Antunes não estará muito longe de um pensamento verdadeiro. Uma
alucinante sucessão de tempos e datas e factos e histórias e imaginação
e palavras soltas e tudo o mais o que pode passar por uma mente
diferente. Talvez uma das mais intensas partes do livro será o último
capítulo da parte II, em que o personagem se revela demasiado frágil
para contar exactamente o que se passa, recorrendo inúmeras vezes a
factos sobre cegonhas para se acalmar, entrecortando o discurso
narrativo (como tantas vezes acontece ao longo do texto) com factos
inúteis sobre as aves, até que atinge o clímax final, que não é mais do
que um ponto temporário que se vai repetir ao longo de toda a terceira
parte por diversas vezes vistas por diversas pessoas.
Por este olhar vemos nós grande parte da
saga familiar e durante todo esse tempo o leitor não pode deixar de se
sentir ligeiramente perdido, sem saber muito bem o que está a acontecer,
e ao mesmo tempo, maravilhado. Mas claro, sendo Lobo Antunes, não podia
ser uma só visão a contar-nos a história e no terço final sucedem-se os
relatos diferentes das diferentes pessoas, e tudo, subitamente, começa a
ficar tão claro e tão repentinamente claro que ficamos embasbacados com
o génio do senhor que parecia escrever frases quase desconexas em tudo.
Como já noutros livros do autor
acontecia, o título, para mim, só faz sentido no fim. Mesmo nunca
usando as palavras “arquipélago” ou “insónia” durante o texto, não é
difícil chegar à conclusão de que todos são ilhas que vagueiam
solitárias, presas na localização e no sangue, mas solitárias e
acordadas pela noite, e pela morte, dentro. Lobo Antunes faz-nos um
espelho feito de retratos, os retratos que estavam na sala da casa onde
o autista via os parentes que rapidamente se transformavam em pessoas ao
seu lado, um espelho onde vemos o nosso contínuo desejo de permanecer
acordados. Eternamente acordados, perhaps?
Chego ao final desta recensão com um
sentimento de incapacidade indescritível. Queria dizer tanto mais sobre
este livro e nada mais me sai. Sinto-me pequeno, muito pequeno, perante
um dos maiores nomes da literatura mundial e um dos maiores mestres da
palavra portuguesa. Tal como me senti quando lhe apertei a mão há uma
semana e pouco. Tal como me vou sentir sempre que tentar falar sobre ele
ou a sua obra, ou sobre ambos, sendo ambos um, porque se confundem Lobo
Antunes e os livros que escreveu, talvez mais do que o próprio autor
desejaria.
É, sem dúvida, um livro inquieto de uma
mente genial. Poderia escrever pela noite dentro e mesmo assim não seria
capaz de reproduzir aquilo que o livro me disse sem, de facto, dizer
nada. A verdade é que para um homem encher um livro de silêncio é muito
fácil. O difícil é enchê-lo de silêncio cheio de palavras. Isso, António
Lobo Antunes consegue-o magistralmente.
por Tim James Booth
05.11.2008
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