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O
Esplendor de Portugal, 1997
5 artigos
por
-
Ängela Beatriz Faria
- Daniel Osiecki
- José Romero P.
Seguín
- Márcia
Valadares
- Mary Ellen Farias
dos Santos
Ängela Beatriz Faria
O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de
António Lobo Antunes: "o desencantamento do mundo e a desrazão"
Um povo que não reflecte sobre a própria
história arrisca-se a perder a identidade.
("A guerra distante" - Joaquim Vieira)
O conhecimento do mundo exterior, sem o conhecimento
de si mesmo, desertifica o mundo e não nos traz felicidade.
( Vestígios: escritos de filosofia e crítica social - Olgária Matos)
O esplendor de Portugal,
décimo segundo romance de António Lobo Antunes, publicado em Lisboa, em
1997, referencia o entrecruzamento da perspectiva história e da
configuração de subjetividades presentes nas epígrafes selecionadas por
nós.
O
título, sarcástico e instigante (bem ao gosto do autor), veio a ser
retirado de um dos versos da letra do Hino Nacional, da autoria de
Henrique Lopes de Mendonça, erigido como epígrafe do novo romance e
apresenta um diálogo intertextual com o Hino adotado pela República
("Contra os bretões, marchar, marchar!") e seu sentido antibritânico
incutido por causa do Ultimatum, como tão bem assinalou Carlos reis, no
ensaio crítico publicado no JL e intitulado "Um romance
repetitivo":
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal,
levantai hoje de novo
o esplendor de Portugal!
Dentre as brumas da memória
ó Pátria sente-se a voz
dos teus egrégios avós
que te há de levar à vitória.
Às armas, às armas,
sobre a terra e sobre o mar!
Às armas, às armas,
pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Este
texto fundador de uma nacionalidade, uma vez recontextualizado em um
período pós-colonial, leva o leitor a refletir sobre uma das questões
formuladas pelos romances portugueses contemporâneos e que diz respeito
ao vazio existencial, decorrente do colapso das grandes narrativas de
transformação social como o comunismo e o socialismo, que eram, de algum
modo, sistemas éticos transformados em projetos políticos. Finda a
utopia revolucionária político-social, instaurou-se uma antiutopia,
marcada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão".
É
exatamente isto que surge na plenitude criativa da escrita de Lobo
Antunes: "brumas" recentes da memória e da História serão desveladas
neste romance, que se configura como um diário (não canônico) de membros
de uma família, seu poder e decadência em África, em períodos que
antecedem a guerra colonial e após a independência das colônias. Neste
tempo assinalado historicamente e cuja aventura é partir ou ficar, o
leitor atento observará, segundo o ensaísta citado há pouco, a
"refutação das mitologias públicas e privadas, como a pátria e seu
esplendor, a família e seus rituais". O fulgor ou resplendor1,
a grandeza ou a suntuosidade característicos de um momento solar e
eufórico do Império português cederão lugar a um tempo pós-colonial e a
espaços degradados: Angola destroçada, referenciada em ruínas e ocupada
pelo FNLA, pela UNITA, tropas "fandangas" do Governo, sul-africanos,
mercenários russos, americanos, cubanos, belgas, franceses e ingleses;
os musseques e Luanda, a cidade inacabada e dos "defuntos"; Lisboa a
desprezar e rejeitar os colonos recém-chegados, "despaisados" e
desterritorializados na geografia do exílio (OEP, 256-7).
Esta
discursiva da pós-colonialidade, epopéia às avessas, inscreve uma
"simultaneidade de sentires, filamentos de memórias refletindo-se no
espelho quebrado da perda das identidades"2 ou da sua busca.
Assim, as vozes múltiplas que preenchem as páginas dos diários se
auto-definem e ao processo histórico, assinalando a sua condição de
marginalizadas pela sociedade: Carlos, filho bastardo e mestiço, à
espera inútil dos irmãos que expulsara de casa, em uma noite de Natal;
Rui, epiléptico e isolado da família em uma casa de saúde, por
transgredir regras de bom comportamento; Clarisse, fixada à imagem do
pai e considerada prostituta, cujo meio de sobrevivência consiste em
relacionar-se com vários homens, para manter o luxo a que se tinha
acostumado; Isilda, mãe dos três, colonizadora expulsa da própria
fazenda em África, ao ser inaugurada uma nova "ordem" social, sempre
acompanhada de uma empregada africana – Maria da Boa Morte –, errante
pelas picadas de Marimbanguengo, com "um pano do Congo amarrado à
cintura e matacanhas nos dedos" (OEP, 177), na sua "sina de
inventar um presente que deixou há anos de existir" (OEP, 87).
Nesta epopéia às avessas, prenhe de armadilhas, Isilda insiste em
recusar a realidade (julga que Maria da Boa Morte representa a própria
morte e ordena que levante do chão, em que jaz ensangüentada – OEP,
367) e, em sua fuga, empreende uma viagem em busca de salvação (e não
mais de riqueza, como no tempo da expansão ultramarina). Ela e sua
tripulação jamais alcançarão a Ilha dos Amores, ficarão no meio do
caminho, pois irão deparar-se com os soldados – adamastores bem
sucedidos que concretizam a ameaça. Encontram, em sua navegação
existencial e à deriva, o Cabo das Tormentas e não o da Boa Esperança.
Ao pressentirem a trágica morte que se aproximava, compreendem que
"estavam inchadas como os cadáveres da guerra à espera que o capim se
fechasse sobre elas depois da partida dos pássaros" (OEP, 329).
Ao
referir-se ao seu ofício de escrever, durante uma entrevista, Lobo
Antunes pronunciou-se:
[...] o que os
estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a
adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas
iluminarem-se uma às outras e a concomitância do passado, do presente e
do futuro. "A escrita é um delírio controlado" – já lá dizia Antero e
antes dele, Horácio: "Uma bela desordem, precedida de furor poético, eis
uma ode."3
Esta
singular escrita do autor torna-se capaz de revelar a crise da
subjetividade coerente, o ensimesmamento e a "escrita de si",
característica do período finissecular. Ao se pronunciarem,
autobiograficamente, através de monólogos interiores ou solilóquios, na
pseudo-escrita de um diário, as personagens iluminam-se umas as outras,
através do fluxo da consciência. Desejos, emoções e paixões surgem como
categorias políticas e, como afirma Olgária Matos,
É por não ser nunca
idêntica a si mesma, que a identidade se apresenta na grande metáfora da
viagem – deslocamento mo espaço e no tempo, referida mo território
interno do próprio viajante; nela arriscamos nossa própria
transformação.4
Na
configuração deste diário não ortodoxo (que não obedece a uma sucessão
cronológica e nem contém confissões de uma única personagem, mas sim de
várias), observa-se a fixação de memórias estilhaçadas e fragmentárias,
imagens repetitivas e vozes entrelaçadas, passíveis de superpor tempos e
espaços diferenciados. Há uma voz – a da Lena – única capaz de aludir a
uma precisa sucessão temporal. Há uma data central e redundante – o 24
de dezembro de 1995 – que concentra solidões individuais e personagens
interiorizados sobre si próprios. As evocações de Carlos, Rui e Clarisse
ocuparão, respectivamente, cinco capítulos cada, distribuídos
seqüencialmente pelas três partes que compõem o romance e ocorrerão do
dia do natal, data simbólica do nascimento do Deus-menino, considerado,
pela teologia cristã, "infinitamente perfeito, criador e regulador do
universo, causa necessária e fim último de tudo o que existe." Portanto,
não será gratuita, a inscrição irônica – FINIS LAUS DEO –, no
último capítulo do romance, também assinalado por esta data, e que nos
relata o assassinato da mãe, Isilda, esquecida pelos filhos, espoliada
da fazenda de arroz, girassol, algodão e milho. No entanto, no momento
da morte, em que é impossível "marchar contra os canhões" ou
metralhadoras "dos tropas do Governo de gravatas coloridas, óculos
escuros espelhados de armação metálica como se fosse de prata" (OEP,
395), torna-se capaz de vivenciar o simulacro ou o símile enganador da
harmonia desejada. Vejamos:
[...] mas não tinha
medo por ser dia, os tropas, mesmo o dos botins de verniz não iam
roubar-me nem levar-me com eles nem fazer-me mal, não havia um só quarto
às escuras em Malange, erguiam as metralhadoras, fixavam-me com a mira,
desapareciam atrás das armas, o modo como os músculos endureceram, o
modo como as bocas se cerraram e eu a trotar na areia na direcção dos
meus pais, de chapéu de palha a escorregar para a nuca, feliz, sem
precisar de perguntar-lhe se gostavam de mim. FINIS LAUS DEO (OEP,
395)
É
interessante observar que as outras datas aleatórias que surgem no
romance descrevem um percurso fragmentário (de 24 de julho de 1978 a 7
de setembro de 1995) e são preenchidas pela voz desta personagem
feminina que descreve o apogeu econômico do início da colonização em
África e sua derrocada gradativa, as relações entre as diferentes raças
e classes sociais, a violência, o desamor, a traição, a coerção e os
genocídios praticados.
Sua
enunciação discursiva é reiteradamente marcada por determinadas frases
significativas, como, "a casa está morta" (OEP, 92), "por que sou
mulher" (OEP, 108) e "Angola acabou para mim" (OEP, 237)
ou "A tua casa é do povo camarada" (OEP, 87). Além disso, esta
personagem, cujo ego reconstituído para uma satisfação narcísica busca
escapar da morte cruel, ao vivenciar o desalento tematiza a questão do
espelho e viaja dentro de sua própria interioridade:
Quando à noite me sento
ao toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci
ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos
deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas
nódoas na pele serão manchas da idade ou ácido do estanho a corroer o
vidro? Dantes, no tempo do meu pai...(OEP, 51)
Esta
freqüente intersecção de planos temporais, evidenciada no exemplo
citado, percorre toda a narrativa e permite aos personagens angustiados
e desamparados a ilusão de assumirem-se como demiurgos ou possíveis
deuses da criação, ao paralisarem o tempo e fixarem imagens ou sons
obsediantes, como por exemplo, a associação feita por Carlos entre o
bater do pêndulo do relógio e o do coração:
[...] quando eu não
tinha adormecido, não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de
ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém
morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da
esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a
existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu,
continuaríamos todos, para sempre, a existir. (OEP, 77)
Constata-se, no entanto, que no mundo pós-moderno e pós-colonial, o
desamparo virou desalento, pois os sujeitos da escrita vivem
permanentemente numa condição de risco e de perda dos referenciais que
funcionavam como interlocutores. Ao especularem sobre o próprio destino,
vêem-se refletidos no espelho do país e suas identidades surgem
estilhaçadas e tornam-se simulacros, em meio a fragmentos e ruínas reais
ou simbólicas.
Em O Esplendor
de Portugal,
Lobo Antunes define o labirinto crítico da situação política e econômica
da colonização portuguesa em África, através da voz de uma das
personagens evocadas pela filha:
O meu pai costumava
explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era
dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos
dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o
tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com
desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que
trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos
outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos ainda em
degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos,
escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que
tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar
no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que
macaqueavam casas européias e qualquer europeu desprezaria
considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica
repulsa e idêntico desdém... (OEP, 255)
No
entanto, o fim deste longo processo de desterritorialização colonial
suscita, como nos aponta Boaventura de Souza Santo, em Pela mão de
Alice: o social e o político na pós-modernidade, diferentes
movimentos de reterritorialização (o país retoma, depois de cinco
séculos, os limites de seu território). E, em decorrência disto,
invertem-se os papéis antes definidos, o que obriga os personagens,
expulsos de Angola, a sentirem-se excêntricos e marginalizados em sua
própria pátria.
Este
mesmo procedimento pode ser observado no romance As naus,
publicado em 1988, em que figuras emblemáticas da História-pátria
tiveram suas identidades de base redimensionadas e, carnavalizantemente,
minimizadas. Se antes eram pessoas autênticas em relação ao seu desejo,
de acordo com projetos existenciais definidos, agora apresentam-se
combalidas pela dor e pela solidão, brutalmente afetadas em seu
cotidiano expectante e vazio, impossibilitadas de viver como desejariam.
Todas essas subjetividades malogradas vivenciam a perda das certezas e
da estabilidade adquirida. Ao privilegiar o reflexivo, o desdobramento e
a consciência infeliz, os autores contemporâneos configuram a antiutopia,
capaz de deflagrar, segundo Baudrillard, a "contra-razão, a
desterritorialização, a indeterminação do sujeito e da linguagem, a
neutralização de todos os valores, da morte da cultura."5
Em
O esplendor de Portugal, isso evidencia-se, inclusive, através da
delação e da perda dos valores humanistas. Em uma das cenas mais
chocantes, Isilda indica, friamente, aos tropas do Governo, o amante e
chefe de polícia escondido dentro de um tronco de árvore, o que o leva a
ser sumariamente executado. Observa-se, no espaço romanesco, a impiedade
das personagens, que se ferem umas às outras sem o menor escrúpulo.
No
entanto, o que nos fascina nos romances de Lobo Antunes é que qualquer
registro trágico surge acompanhado de uma atitude carnavalizadora e
transgressora, fazendo com que o leitor desate a rir. Mas convém lembrar
que, dentro do contexto de O esplendor de Portugal, isto
transforma-se no grotesco, como atestam, particularmente, duas cenas: o
noivo bêbado estatelado no carpete a proteger-se do futuro sogro "que
lhe tocava com o bico do sapato, intrigado, a assegurar-se que o
embrulho de linho sujo respirava e vivia" e a dizer: "– Onde diabo
desencantaste este palhaço Isilda?" (OE, 57) e o menino Rui a destroçar
todos os brinquedos de corda encontrados em uma retrosaria ("ursos de
feltro, patos de plástico, pingüins, girafas, sapos"), a julgar que
troçavam dele, transtornado com um "panda que pestanejava vagidos
mecânicos" e dizia, sem parar, "My name is Jimmy", ao passo que a
vendedora, atônita, perguntava-se: "– O que é isto?", enquanto uma
"velhota de luxo carregado acompanhada do neto gordo e assustadiço de
calções", ordenava: "– Telefone à polícia menina Graciete que é um
doido". (OEP, 169)
O
humor, portanto, torna-se uma forma de auto-irrisão, método de
distanciamento e forma de compensação, o que nos possibilita afirmar o
primado do "freudiano princípio do prazer que tenta vingar-se de um
adverso princípio da realidade."6
Em
As naus, por exemplo, há relatos que configuram o riso
libertador e autocomplacente que se sobrepõe a um desgostoso e
desgastante real. O casal anônimo, que verbaliza a situação dos
retornados de África, após a descolonização, e que se considera "múmias
sem préstimo espantadas", torna-se capaz de carnavalizar a situação
opressora.
Na
ficção de Lobo Antunes, a energia criadora alia-se ao conhecimento
técnico das palavras, revelando uma maturidade de escrita absoluta,
capaz de comover o leitor, fazê-lo rir e sentir-se cada vez mais perto
da vida.
Esta
forma cultural portuguesa de estar no mundo revela que o esplendor de
Portugal, numa época de "desencantamento do mundo e de desrazão",
reside, magistralmente, no espaço da escrita.
Referências
bibliográficas
ANTUNES, António Lobo.
O esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
------. As naus.
Lisboa: Dom Quixote, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral.
Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
REIS, Carlos. António
Lobo Antunes. Um romance repetitivo. JL: Jornal de letras, artes e
ideias. Lisboa: 705. 22 out-4 nov., 1997.
SANTOS, Boaventura de
Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na
pós-modernidade. Porto: Ed. Afrontamento, 1994.
Notas
1. REIS, Carlos, António
Lobo Antunes – Um romance repetitivo. JL: Jornal de Letras, artes
e idéias. Ano XVII, nº 705, 22 de out. a 4 de nov., 1997. P. 24.
2. SILVA, Rodrigues da.
Do outro lado do céu... Ensaio publicado no JL, Ano XVI, nº 677, 25 de
set. a 8 de out., 1966 sobre O manual dos inquisidores, de
António Lobo Antunes.
3. LOBO ANTUNES, António.
A constância do esforço criativo. JL, Ano XVI. nº 677, 25 de set. a 8 de
out., 1996, p. 14.
4. MATOS, Olgária.
Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas
Athea, 1998. p. 151.
5. BAUDRILLARD, Jean.
América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,1986. p. 84
6.
TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português.
Lisboa: Editora Notícias, 1998. p. 213
por Ängela Beatriz Faria
(UFRJ)
recolhido do site da
Associação
Internacional de Lusitanistas
[não datado]
topo
Daniel Osiecki
A marca do Lobo:
estilhaços da pós-modernidade
Uma das marcas da modernidade é a
quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes
essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se
convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas,
que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um
significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que
permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na
chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.
Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e
Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa
forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando
dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador
único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental,
mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum
cai no senso comum.
Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa
hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos
narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto
Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José
Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada
característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da
forma clássica de romance e a imersão quase total num universo
fragmentado e polifônico.
Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário
e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante,
Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como
oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra
temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu
primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico
psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando
fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente
marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas
tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.
O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro
narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória
conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de
portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá
constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que
levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações
humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico.
Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações
extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um
oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.
Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse,
todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com
que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie
de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de
suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão
irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força
alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista
por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a
miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.
A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se
integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela
prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao
percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a
dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso
durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se
pela forte supressão de imagens.
A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da
linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é
forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos,
quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados
pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como
esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma
narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um
rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico.
A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as
marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em
especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e
metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um
protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.
Daniel Osiecki
em
Távola Redonda
04.04.2008
topo
José
Romero P. Seguín
Impressões sobre o romance "El
Resplandor de Portugal"
Ler o
romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal",
é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e
decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá
onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos
esquecidos.
Luanda e Lisboa, Lisboa e
Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e
decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as
personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas
como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde
começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido
o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas
atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal
miserável.
África ofereceu-lhes para
além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade
de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na
orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o
exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a
necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia
descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não
são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais
terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas
como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo,
simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de
sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para
recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os
mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.
Os povos derrotam-se
homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é
feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam
como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade
que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das
vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a
qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.
por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
topo
Márcia Valadares
Antunes, António Lobo. O Esplendor
de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
A obra do escritor português António
Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não
é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove
romances foram publicados até o momento.
Pouco a pouco, entretanto, vemos
surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país,
como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance, Os
cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros
indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.
Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a
guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações
narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua
vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam;
como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o
uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.
No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance
O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma
explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma
bastante complexa e com notável habilidade.
Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos
portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda
sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente
se viram frente ao violento processo de independência da colônia,
desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de
rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no
discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse
e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e
mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe
verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe
adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para
Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua
própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um
mestiço.
Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal
um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar
as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque
verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte,
singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser
relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da
guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua
condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.
Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da
ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O
esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão
lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”
O trecho que reproduziremos a seguir é um dos
melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do
disfemismo:
Devia ter desconfiado que Angola
acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da
nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos
degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a
mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se
estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada
pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das
pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que
a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais
novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas
de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as
cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das
vísceras...
Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em
O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam
versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto,
contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior,
acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de
detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de
forma raramente encontrada na literatura ocidental.
Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela
Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos
Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
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Mary Ellen Farias dos Santos
O real, o imaginário e as
lembranças

edição brasileira Rocco
A estética da capa de O
Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa.
No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto
é, o texto do escritor português António Lobo
Antunes.
Neste, o 13º
romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de
maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na
questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.
Com um "Q" de
Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante
veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de
portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.
O pai, por
azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua
mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência
do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o
primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente
mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.
Tudo (aparentemente) começa em 24 de dezembro de 1995, da seguinte maneira:
"Quando disse que tinha convidado os meus irmãos para passarem a noite de Natal
conosco / (estávamos a almoçar na cozinha e viam-se os guindastes e os barcos a
seguir aos últimos telhados da Ajuda) / a Lena encheu-me o prato de fumaça,
desapareceu na fumaça e enquanto desaparecia a voz embaciou os vidros antes de
se sumir também / - Já não vês os teus irmãos há quinze anos".
Um leitura
bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não
há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda
mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores
primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando
rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar
neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja
rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!
por Mary Ellen Farias dos Santos
Resenhando
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