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O
Manual dos Inquisidores, 1996
5 artigos
por
-
Diogo Mainardi
- Eduardo Alves
- José Alexandre Ramos
- LN
- Manuel Barata
Diogo Mainardi
António Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores
portugueses da atualidade. Leitura obrigatória, portanto. Brasileiros
precisam conhecer os escritores portugueses, portugueses precisam
conhecer os brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o
título de um de seus romances precedentes. Por menos que se goste de
Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é necessário lê-lo, é necessário
resenhá-lo, mesmo quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura
demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.
Rigor, de fato, é o termo adequado para definir O Manual dos
Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas), lançado em Portugal
em 1996. Com um rigor inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos
anos de vida de um potente ministro da ditadura Salazar, colhendo
depoimentos de todas as pessoas que o circundam. O filho, no dia de seu
divórcio, recorda a quinta em que moravam e a ruína financeira de sua
família, logo depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a
respeito das violências sexuais que sofreu por parte do ministro, e a
fúria que ele manifestou ao tomar conhecimento da queda da ditadura,
quando enxotou a coronhadas todos os empregados da quinta, acusando-os
de ser comunistas. A filha ilegítima do ministro com a cozinheira,
criada por uma viúva cujo marido morreu devorado por um crocodilo em
Angola, lembra o momento em que foi apresentada pela primeira vez ao pai
e ao irmão. A cozinheira relata a chegada à quinta de Marcelo Caetano,
escolhido como sucessor de Salazar, apesar da hostilidade do ministro e
de seus amigos militares, que viviam planejando golpes para derrubá-lo.
O próprio ministro, agora internado numa casa de repouso, senil e
incontinente, revive o levante de Angola em 1961, e o terror que sentiu
naquela circunstância.
Herança da ditadura
— Em meio a tantos fragmentos de história, o que falta ao romance é uma
trama propriamente dita. Há o episódio da jovem Milá, contratada para
interpretar o papel da antiga mulher do ministro, Isabel, que o
abandonara pelo amante, muitos anos antes. Milá é paga pelo ministro
para vestir-se como Isabel, comportar-se como Isabel, responder ao nome
Isabel. Mas esse é apenas um detalhe meio patético do livro. O ponto
central de O Manual dos Inquisidores, na verdade, é seu pano de
fundo político e histórico: a passagem das quatro décadas de ditadura à
chamada Revolução dos Cravos, de 1974. Lobo Antunes apresenta o
totalitarismo salazarista de modo perfeitamente convencional,
caracterizando-o como um regime arcaizante, que imobilizou Portugal em
suas velhas estruturas do começo do século. Nenhuma novidade em relação
ao que já sabemos. Por outro lado, ele tenta mostrar a herança da
ditadura por meio dos personagens que transitam de uma época para a
outra, como o filho do ministro, esmagado pela figura autoritária do
pai.
É possível que O Manual dos Inquisidores, descrito dessa maneira,
pareça pouco atraente. Trata-se de uma injustiça do resenhista. Lobo
Antunes é um autor corajoso que sempre se aventura em arriscadas
experiências narrativas. E o faz na nossa língua, usando-a bem melhor do
que todos nós. Ou seja, é fundamental, mesmo quando erra. Leitura
obrigatória.
por Diogo Mainardi
em
Abril.com
08.07.1998
topo
Eduardo Alves
Por entre uma salada russa feita de
ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples
sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor
para constarem como personagens de monta num livro histórico e
intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do
ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António
Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de
palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na
consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa
agora a erguer-se do chão.
O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto
porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se
transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma
outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e
sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o
estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A
crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a
alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a
maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo
os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a
polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre
mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas
semelhanças com a realidade.
por Eduardo Alves
em
urbi et orbi
Novembro de 2004
topo
José
Alexandre Ramos
O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois
O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo,
agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga
a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de
partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir
cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita
até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para
ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa
e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde
muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não
lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –,
onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo:
para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente
da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos
claramente definidos, iniciar-se na leitura de Lobo Antunes deverá ser
gradual, começando do princípio, para que se habitue a incarnar os
livros um a um para poder digerir os mais ricos e complexos sem grande
dificuldade, principalmente a partir de Que Farei Quando Tudo Arde?.
Essa iniciação pode ser feita com O Manual dos Inquisidores,
cujo tema do antes e pós 25 de Abril, recorrente mais ou menos na
maioria dos livros publicados até 2000, entusiasmará o leitor curioso
para saber de nós portugueses durante todo esse período e para além
dele.
Porém, desengane-se quem poderá pensar que se trata apenas de um romance
de carácter político ou social, e desengane-se também quem procura aqui
indícios de um romance histórico. O Manual dos Inquisidores, na
continuidade dos anteriores, retrata personagens que nos são próximas,
não tanto pelo que viveram na transição do regime político, mas pela sua
condição humana: a vaidade, o poder, a frustração, a resignação, a
fraqueza, a desilusão, a sua soberania e o desamparo, a ascensão e a
degradação. Ingredientes que misturados num caldo de factores
psicológicos e morais nos dá a matéria de que somos feitos, nós os
portugueses: com muita facilidade nos podemos ver retratados, nos
reconhecemos nas personagens que vão surgindo gradualmente, como que se
apresentando umas às outras. Um jogo de espelhos, de que muito fala o
autor nas suas entrevistas.
Se quiséssemos resumir o livro à história que tem por trás como argumento,
diríamos que é um livro sobre um influente ministro do antigo regime,
traído pela sua mulher e que após algum tempo se resigna, abusando do
seu poder, tendo casos com as empregadas da sua quinta em Palmela,
quinta onde recebia Salazar para orientações de como governar o país e
que acaba num lar de idosos, na sua fase de decadência, depois de se ter
isolado durante o período da revolução na sua quinta lutando contra a
ameaça comunista, colocando todos os seus empregados na rua. Tem dois
filhos: João, fruto do seu casamento, que cresce desamparado e medíocre,
e Paula, nascida da aventura com a cozinheira e que é dada aos cuidados
de uma viúva. Mas é tão pouco para dizer do que este livro trata, porque
cada personagem, isto é, cada voz que vem falar, traz consigo outras
histórias paralelas, uma vez que abordam, em constantes analepses,
vivências passadas e presentes, entrelaçando-se com o que disse a
personagem anterior e o que dirá a personagem que a seguir vem falar. As
vozes mais presentes, no entanto, são do ministro Francisco, da sua
Governanta Titina, do filho João e da filha Paula, e também da sua
amante Milá. Todas estas personagens trazem consigo outras vozes que
enriquecem não uma trama mas a vivência humana e o estado psicológico
destas pessoas que atravessaram um momento conturbado da nossa história
recente. Nota a salientar é que estas vozes, estas vivências e
finalmente estas pessoas pretendem ser a voz de uma facção da sociedade
desse momento histórico. Como disse o autor, o livro “é visto sempre
pelas pessoas que estão todas de um lado só”, ou seja o “retrato daquilo
que se chama direita visto pela própria direita” não havendo qualquer
“personagem revolucionária”, mesmo incluindo as personagens que são mais
pobres, os subordinados do ministro, a viúva que toma conta da filha
bastarda, a mãe da amante, etc.
O humor, não sendo uma característica exclusiva deste livro uma vez que
está presente em praticamente toda a obra de Lobo Antunes, faz com que
O Manual dos Inquisidores tenha uma faceta alegre, algumas vezes
assumindo a caricatura para desanuviar possíveis tensões na narrativa.
Não há vilões e heróis: comovemo-nos com a ternura do ministro carente
do amor da sua mulher, vivemos a angústia do filho na sua solidão, do
seu grito mudo, da sua frustração por ser manipulado, sorrimos com a
ambição medíocre da filha depois de tomar consciência de quem é o pai,
condoemo-nos do amor silencioso da governanta pelo seu patrão, rimos das
atitudes mesquinhas das personagens face às circunstâncias. São todas
estas personagens pessoas, de osso carne sangue e nervos, capazes de
ternura e atrocidade, de amor e violência, de piedade e indiferença para
com os outros.
É um livro rico em fabulações, imagens e metáforas de toda a ordem que
faz a delícia do leitor que só tem a ganhar com a sua leitura. Porque
aprende. Definitivamente aprendemos a conhecermo-nos ao lermos António
Lobo Antunes. Somos nós que lá estamos, antes e depois deste livro.
José Alexandre Ramos
25.04.2008
topo
LN
Foi o primeiro livro do António Lobo
Antunes que li, e achei o universo do escritor fascinante.
O que me pareceu mais marcante, o que
melhor caracteriza a escrita do autor, são as suas descrições muito
violentas dos factos e das situações, descrições cruéis que incomodam o
leitor, e que nos levam a interrogarmo-nos e a tentar entender estes
personagens.
O Livro é composto por uma sequência
de relatos e testemunhos dos diferentes personagens que intervêm na
"história" principal que gira em torno da vida do Ministro de Salazar
(Francisco) e de todos os personagens que passam pela vida da família, a
mulher (Isabel), o filho(João), a governanta, a cozinheira, a filha , o
caseiro, o motorista. Estes diferentes relatos dos acontecimentos vistos
por a cada um dos personagens, torna a visão dos acontecimentos pelo
leitor múltipla e revela muito sobre as características de cada
personagem. Este permanente confronto de visões diferenciadas dadas
pelos personagens permite uma visão geral dos acontecimentos e da
situação social e politica que é o cenário que atravessa todo o livro.
A história passa-se ao longo de todo
o período de ditadura com descrições impressionantes da violência da
Policia Politica (PIDE), e da morte do general Humberto Delgado. Mas
também do período pós revolução de abril com as mudanças e consequências
que tiveram na vida das personagens.
Outra das grandes características do Lobo Antunes é o seu
fantástico sentido de humor, e que percorre todo o livro utilizando uma
grande ironia, fazendo caricaturas das personagens. É uma grande visão
da sociedade portuguesa, uma imagem muito profunda da segunda metade do
século vinte português. Penso que o que a obra de ALA representa hoje,
será muito semelhante ao que representa a obra de Eça de Queiroz para o
final do século XIX, é um grande observador da realidade, um grande
cronista de costumes, e que sintetiza muito bem em algumas personagens
certos "tipos" sociais marcantes do nosso tempo.
citado de
Leitura Partilhada
15.04.2008
topo
Manuel
Barata
O Manual dos Inquisidores
ou as misérias do estado novo
O MANUAL DOS INQUISIDORES, de António Lobo
Antunes, é um romance que surpreende pela quantidade inusitada de
narradores. Constituído por vinte e nove capítulos, a que o autor ora
chama “comentário”(14) ora “relato” (15), sendo cada comentador e cada
relator um narrador. As reincidências ocorrem nos chamados relatos: João
(3), Titina (3), Paula (3), Milá (3) e Francisco (3). No tocante a
comentários, não há reincidências. Os relatores antes enumerados são o
filho (de Francisco e Isabel, a legítima), a governanta, a filha (de
Francisco e da cozinheira), a amante de Francisco e o próprio Dr.
Francisco. Toda a narrativa gira, por conseguinte, à volta deste Dr.
Francisco, um prócere do chamado salazarismo e das pessoas que lhe estão
mais próximas A inclusão de Titina no grupo dos relatores, compreende-se
pelo facto de ela ser muito mais que uma mera governanta. D. Albertina
é, com efeito, aquela que preenche o lugar deixado vago por Isabel,
prodigalizando afecto ao filho e ao pai. Nomeadamente àquele, que ela
considera seu filho. A inclusão de D. Albertina na categoria dos
relatores, explica a exclusão de Isabel.
As narrativas com vários narradores não constituem novidade. Já nos
finais do séc. XVIII, Choderlos de Laclos, nas suas celebérrimas Les
Liaisons Dangereuses (1781), embora usando o género epistolar, construiu
uma longa narrativa, na qual os autores de cartas também são muitos, mas
sobressaindo largamente os protagonistas, Valmont e Marteuil. Em GENTE
FELIZ COM LÁGRIMAS, João de Melo, autor coetâneo de António Lobo
Antunes, institui uma quantidade notável de narradores, para nos dar,
igualmente, uma extensa e bela obra de ficção narrativa. Estes são,
todavia, apenas dois exemplos que me ocorrem enquanto escrevo.
Esta polifonia extremada, que é indubitavelmente importante sob o ponto
de vista técnico-narrativo, que os universitários tanto apreciam, é-o
ainda mais no que concerne à matéria narrada e a uma relação que se me
afigura óbvia: história/História. Neste romance do autor de A MORTE DE
CARLOS GARDEL são narradas, em simultâneo, duas histórias: a do Dr.
Francisco, que fora director-geral da Pide e depois ministro do Dr.
Salazar, que há-de ficar a ser ministro toda a vida, como se ser ou ter
sido ministro de Salazar fosse um cargo ou título para o resto da vida;
a do país, governado por Salazar, primeiro, e por Marcelo Caetano,
depois, onde pontificavam aventesmas como esta personagem desta ficção antunesiana
Ainda relativamente ao mais alto cargo que terá desempenhado, a questão
não é completamente esclarecida. A mãe de Sofia, numa daquelas inúmeras
analepses, fala, com ironia, do tempo em que teria sido secretário de
Estado; porém, os empregados do próprio e os funcionários do Estado com
os quais se relaciona, nomeadamente o major, tratam-no sempre por
ministro. Esta ambiguidade remete-nos para a forma anormal como o poder
de Estado era exercido, onde tudo gravitava à volta do Príncipe e do seu
círculo de amigos, sendo pouco relevante o cargo. No reino do puro
arbítrio, este Dr. Francisco mandava espancar, metia e tirava pessoas da
prisão e podia enviar para Cabo Verde, quem lhe aprouvesse.
Numa narrativa com tantas vozes e personagens, convém desde já deixar
esclarecido
que todos os relatores são personagens principais. Seguindo a ordem do
texto: João, Titina, Paula, Milá e o próprio Dr. Francisco. Esta
personagem, sempre presente ao longo dos relatos e comentários, é a
primeira das principais e aquela à volta da qual se estrutura toda a
intriga. Isabel também poderia ser incluída neste grupo de personagens;
porém, o autor tê-la-á excluído pelas razões já aduzidas. Abandonou
Francisco e o filho, trocando-os por Pedro, este, que, mais tarde, há-de
ser o responsável pela destruição do casamento de João e pelo
desaparecimento da quinta de Palmela. O comportamento adúltero de
Isabel, que nunca quis responder à pergunta sacramental deste romance de
António Lobo Antunes “Tu gostas de mim não gostas Isabel?”, há-de ter
repercussões na vida de Francisco e das mulheres da quinta (a cozinheira
e Odete), de Paula e de Milá, nomeadamente. Em suma, Isabel, para quem
gostar ou não gostar não tinha qualquer significado, é a grande
responsável pelo comportamento animalesco e louco de Francisco, que
nunca conseguiu ultrapassar, num tempo de pensamento único e de
princípios muito rígidos, o facto de a mulher o ter traído. É curioso
notar também como aquilo que era importante para Francisco, não fazia
qualquer sentido para Isabel: gostar.
HISTÓRIA(S)
De uma forma linear, a história deste romance de Lobo Antunes
poder-se-ia resumir assim, como se se tratasse de um conto popular. Era
uma vez um ministro e amigo de um Príncipe muito importante, que casou
com uma senhora chamada Isabel. Levou-a para a sua quinta de Palmela,
onde tinha governanta, cozinheira, caseiro, tractorista e outros
trabalhadores. Cedo, a dita senhora se fartou da vida da quinta e do
senhor da quinta, que começa a enganar com um tratante de nome Pedro,
homem poderoso devido aos seus negócios. Do casamento do ministro com D.
Isabel nascera entretanto um menino, de nome João, que é criado sem os
cuidados da mãe e do pai.
A vida do casal, que nunca conhecera momentos de paixão, foi-se
deteriorando, deteriorando, até que D. Isabel decidiu sair da quinta,
abandonando o marido e o filho de tenra idade. Este cresceu com os
cuidados e o afecto da governanta da casa, que se chamava Albertina. O
pobre marido enganado pede a intervenção do chefe da polícia secreta do
Príncipe, mas é aconselhado a não levantar ondas, porque o amante da
senhora era homem de muito poder económico e financeiro e não podia ser
molestado. Contrariado, o ministro acata a decisão do Príncipe, que lhe
é transmitida pelo chefe da polícia secreta.
Daqui em diante assiste-se à degradação moral continuada do senhor da
quinta de Palmela, que exerce o seu poder de uma forma despótica,
nomeadamente no que concerne à sexualidade, onde predomina a mais pura
das animalidades. Convém não esquecer que é o veterinário que assiste
aos partos. Da relação do senhor da Quinta com a cozinheira nasce Paula,
que é criada em Alcácer do Sal, longe dos progenitores, porque as
aparências assim o exigiam.
O grotesco Dr. Francisco, no entanto, nunca esquece Isabel. E arranja
mesmo uma namorada, a quem põe casa como se dizia então, e tenta que
esta seja um duplo de Isabel. Através deste “arranjinho”, demonstra-se
não só a arbitrariedade do poder, mas também o modo como se utilizavam
abusivamente os meios do Estado, para que uma eminência do regime
montasse o seu teatro. Milá chega a vestir roupas de Isabel e acompanha
o Ministro a um encontro com Salazar, no forte de S. Julião.
Abreviando: o tempo passa e acontece o 25 de Abril. O universo de
Francisco vai ruir como um baralho de cartas. Envelhece e é internado
num lar, onde acaba por morrer. O casamento de João desfaz-se e a Quinta
dá lugar a uma urbanização muito lucrativa para Pedro, o amante de
Isabel. Paula ainda tenta ser herdeira de coisa nenhuma e João junta-se
com uma empregada do Lar onde está internada D. Titina. Um fim muito
triste, como diria, a rematar, o contador popular.
A QUINTA
A quinta é, por sinédoque, Portugal. O Dr. Francisco é o seu dono e nela
exerce um poder despótico, que só foi desafiado por Pedro e Isabel.
Naquele microcosmo, o proprietário é a Lei e o Direito. É amigo de
Salazar e faz na sua propriedade o mesmo que o amigo faz ou permite que
se faça no país. Traído pela mulher e impossibilitado de se vingar por
razões de Estado, abusa sexualmente das mulheres da quinta, nomeadamente
de Odete, a filha do caseiro, que é pouco mais do que uma criança.
“Quietinha rapariga” há-de repetir Francisco inúmeras vezes, nos
estábulos da quinta e contra as manjedouras. É assim como que um direito
de pernada, mas com cheiro a urina e excrementos.
NOTAS FINAIS
A curiosidade maior deste romance do autor de Cus de Judas residirá, em
minha opinião, no magistral tratamento do tempo, ou seja, no uso das
anacronias, um incessante vaivém entre o presente da narrativa e a
memória de cada narrador, que baralham qualquer leitor menos preparado.
As personagens, medíocres pela natureza das coisas, tendo sobrevivido ao
grande naufrágio, com um pé no passado e outro no presente, apresentam
marcas de profundos traumatismos, que as impossibilitam de compreender o
presente. Dir-se-ia que o universo diegético é tão louco e perverso como
perverso e louco foi o regime de Oliveira Salazar, que Lobo Antunes
caricatura com imensa mestria.
Numa nota final, direi que algumas das personagens são totalmente
inverosímeis, nomeadamente Titina que, apesar de ser governanta de um
político amigo e ajudante do ditador de Santa Comba, não tinha que ser
entendida em botânica. Num país de hortênsias, uma criada a falar de
hidrângeas, francamente!
POST SCRIPTUM – Esta abordagem, necessariamente incompleta, fica a
dever-se a questões extraordinárias da minha vida pessoal. Queria-a mais
elaborada e minuciosa, porque considero O MANUAL DOS INQUISIDORES o
melhor romance do autor. Porém, como não tenho mais tempo disponível
para esta obra, deixo aqui o resultado despretensioso da minha leitura.
por Manuel Barata
em
Musica Maestro
12.01.2006
topo
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