ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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O Meu Nome É Legião, 2007

 

4 artigos por

 

- Agripina Vieira

- Almaro

- Ana Cristina Leonardo

- Paulo Barriga

 

 

 

 


Agripina Vieira       

 

Uma voz que diz... o mal

 

Numa já longa e espantosa carreira literária, que tem o seu início, como todos sabemos, em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, António Lobo Antunes tem vindo a convidar os seus leitores a entrar em mundos ficcionais cada vez mais densos e complexos. Se por um lado, cada novo romance seu se inscreve indubitavelmente num contínuo narrativo, por outro lado constitui-se igualmente como uma novidade em relação a tudo o que já tínhamos dele lido. Quero com isto dizer que estamos perante uma obra de tal forma rica e complexa, que se torna difícil  definir ou periodizar. Em vez de balizas temporais, ocorre-me, para a caracterizar, uma metáfora musical, muito a jeito, aliás, do universo romanesco antuniano (para além de inúmeras letras de cantigas pontuarem os textos, dos títulos com conotações musicais, o autor em várias entrevistas tem-se referido à estrutura sinfónica dos seus romances): diria que a obra de Lobo Antunes é uma longa composição onde o tema, ou seja, a ideia melódica, me matiza de variações, o que me leva a concluir que estamos perante uma obra que se inscreve simultaneamente sob o signo da continuidade e da inovação.

 

Com efeito, as balizas periodológicas, dentro das quais os críticos ou estudiosos intentam «arrumar» os romances de Lobo Antunes, vão mudando consoante os parâmetros de análise que elegermos. Senão vejamos: parece consensual que os três primeiros romances formam um todo coeso de pendor mais autobiográfico; no entanto, do ponto de vista temático, Os Cus de Judas e O Conhecimento do Inferno encontram prolongamento discursivo em As Naus, Fado Alexandrino e, obviamente, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, livros onde se problematiza os horrores da guerra. Mas, de um outro ponto de vista, podemos afirmar que O Meu Nome É Legião, o seu novo romance, retoma e desenvolve aspectos já enunciados em O Conhecimento do Inferno, de 1980. Não será por acaso que, nesta brevíssima apresentação, um título regressa incessantemente: O Conhecimento do Inferno. Ao invés, a reiteração resulta antes da importância fulcral que este romance ocupa na produção romanesca de Lobo Antunes, importância para a qual o autor já tinha chamado a atenção, quando disse, numa entrevista ao Público, em 2003: «Muitas das coisas que faço agora estão em botão no Conhecimento do Inferno». E, de facto, assim é: O Meu Nome É Legião regressa à questão fulcral da representação da violência, à volta da qual o entrecho do terceiro livro de Lobo Antunes se constrói, apresentando-se ambos como uma reflexão sobre o mal.

 

Se em 1980 o autor problematizou a infinita dor dos homens que viveram a violência absurda da guerra e a violência desumana do internamento no hospital psiquiátrico, neste romance o leitor é confrontado com um outro tipo de realidade, marcada pela violência urbana vivida nas sociedades contemporâneas e apreendida no seu estado mais absoluto de crueldade. A variação reside, pois, no modo particular e inovador de dar conta das falas das personagens. Ao longo das perto de quatro centenas de páginas, distribuídas por 19 capítulos, que compõem o romance, assistimos a um jogo peculiar de intensificação e diluição das vozes narrativas, por meio da utilização ou da ausência de travessões a antecederem as falas, alteração que se produz em cada três capítulos, à excepção dos últimos seis, onde se respeita o uso normativo do travessão. Esta técnica discursiva cria um curioso efeito de diluição e, por vezes, de indefinição, no maga textual, das várias vozes narrativas, que surgem como se fossem conduzidas por uma voz interior, que reafirma ocasionalmente a sua presença, como na seguinte expressão: «Já garanti ser uma voz que dita umas ocasiões tão depressa que não a acompanho e outras silêncio horas a fio e eu de bico no papel».

 

A questão da voz é particularmente importante neste romance: múltiplas vozes povoam o silêncio da comunicação, outras há, como anteriormente referi, que conduzem a narrativa. Mas uma fundamental abre a narrativa e dá título ao romance: é a voz do mal corporizado no homem interpelado por Jesus, que orgulhosamente afirma «o meu nome é legião, referindo-se às inúmeras formas e designações que o mal toma.

 

O Meu Nome É Legião conta a história de um grupo de oito jovens: «Um branco, um preto e seis mestiços [..]/ de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos», organizados em bando que se dedica a actividades criminosas, sobretudo roubos. O Ruço, O Gordo, O Capitão, o Miúdo, o Galã, o Cão, o Hiena e o Guerrilheiro moram no Bairro 1º de Maio (nome fictício, sob o qual podemos adivinhar e reconhecer outros, esses bem reais, que são assunto de notícia na nossa comunicação social), nos subúrbios de Lisboa, amplamente descrito, uma vez que se constitui como ponto de ancoragem dos jovens delinquentes, que aí regressam após realizarem os inúmeros e violentos assaltos.

 

As suas viagens permitem-nos construir uma cartografia da grande área metropolitana de Lisboa: do Bairro 1º de Maio a Sintra, de Sintra a Lisboa, do Bairro a Lisboa, do Bairro à primeira área de serviço na auto-estrada do Norte, regressando até Santarém, passando depois perto de Alenquer, de Benfica até Amadora e Brandoa. As deambulações dos jovens por esses espaços, que vão sendo descritos pelos vários narradores que alternadamente tomam a palavra, num exercício de verbalização sempre difícil e doloroso, permitem pôr a nu os contrastes, a heterogeneidade e até o antagonismo de espaços que, do ponto de vista físico, se tocam mas que um fosso social separa.

 

Este romance constrói-se, mais uma vez, sobre a figura do inquérito, neste caso pelo viés de relatórios policiais e transcrições de depoimentos e testemunhas, sempre entrecortados e preenchidos pelos pensamentos das personagens. A narrativa inicia-se com o texto do polícia a quem foi atribuída a investigação, Gusmão, um polícia já em fim de carreira, que ninguém respeita no serviço, cuja existência era caracterizada por um enorme sentimento de solidão e abandono, até ao momento em que, a mando do seu chefe, vai viver para o Bairro sob disfarce, de modo a obter informações mais precisas das actividades quotidianas e criminosas dos jovens. O relatório circunstanciado das ocorrências presenciadas é, por isso, incessantemente interrompido para dar lugar à expressão dos seus sentimentos mais íntimos ou recriminatórios das práticas da instituição a que pertence.

 

O texto, que lentamente se constrói, em simultâneo com a nossa leitura, dá conta, de uma forma fragmentada e penosa, das actividades do bando, mas também da sua solidão, da indiferença da filha, do carinho e companheirismo do padrasto em contraste com a impaciência da mãe. A missão, que agora lhe confiam, leva-o a alterar as suas práticas costumeiras, uma vez que vai viver para o Bairro,  para casa de uma mestiça. Embora tenha relutância em reconhecê-lo, devido a convicções racistas muito arreigadas, paulatinamente vai olhando para a mulher com quem vive de modo diferente, transformando-se a repulsa inicial em carinho e desejo de protecção. Nunca o confessando, nem mesmo em pensamento, sente afeição pela mulher de quem recusa pronunciar o nome, insiste em chamar-lhe preta, por isso é ele que vai abrir a porta aos colegas aquando da investida policial contra o bairro, permitindo-lhe, deste modo, a fuga.

 

Ao relatório do polícia seguem-se os depoimentos das várias testemunhas, ou seja, das personagens que com eles conviveram: a prostituta branca, amante do Gordo; o padrasto; a mãe e o avô do Miúdo; a irmã do Hiena; o branco companheiro da irmã do Hiena; as mestiça que vive com o polícia; o denunciante, dono de um armazém onde guardava e comercializava as mercadorias roubadas; um dos polícias que participou no assalto ao Bairro. Só no final do romance, nos capítulos 15 e 19, a narrativa é entregue pela primeira vez aos jovens, que em discurso directo apresentam uma outra versão dos acontecimentos, dando conta de outras dores, as que forma por eles sofridas: sabemos dos maus-tratos familiares, da ausência da mãe, da falta de afectos, dos actos violentos praticados a mando dos familiares, dos abusos sexuais ocorridos na instituição a que foram confiados pelas pessoas que deveriam protegê-los (um médico com a conivência e apoio de um vigilante).

 

O sofrimento do abuso sexual narrado nos dois capítulos referidos traz-nos à memória histórias actuais bem reais: reconhecemos as práticas de pedofilia praticadas por pessoas influentes em instituições para jovens, as viagens até uma casa em Évora, a tentativa de protecção inglória do mestre da carpintaria. Estes jovens, apesar da violência condenável dos actos praticados, carregam histórias irremediavelmente marcadas pelas mesmas misérias, dores e ausências, e que por esse motivo se confundem numa amálgama de sentimentos e dores indizíveis, circunstância que do ponto de vista textual se consubstancia numa indefinição das vozes narrativas, apenas rotuladas no relatório do polícia.

 

Num capítulo de uma grande beleza de escrita, Hiena (cuja morte foi anteriormente narrada pela irmã), o mais jovem do bando, toma a palavra, pelo recurso da analepse, e mostra-nos que não há verdades absolutas, que o bem e o mal, o medo e a valentia, coexistem em cada homem.

 

O Meu Nome É Legião narra-nos um universo povoado de seres dilacerados e estilhaçados, que vivem um conflito interior travado entre as várias facetas das suas personalidades, em luta contra os fantasmas e as obsessões que teimam em surgir e põem a nu fragilidades inconfessáveis e sofrimentos inomináveis.

 

 

Agripina Carriço Vieira

em Jornal de Letras, edição nº 965

26.09.2007

 

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almaro       

 

Ruben A. escreveu sobre Picasso em “Páginas IV”, ”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes (em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).


O meu nome é Legião são vários contos, vários relatos com a morte, umas vezes na terceira pessoa, algumas na primeira. É um livro negro (a primeira edição chega ao requinte de ter capa negra, cor que se adequa aos relatos sem esperança, deste livro de guetos e de becos sem saída).


Ao ler as histórias (todas elas com cenário de fundo o cerco pela policia ao Bairro rodeado de Figueiras bravas) recordei um álbum de fotografias de Eduardo Gageiro que durante muitos anos pousou como objecto na mesa de centro da sala de meus pais, Retratos a preto e branco, de uma miséria suja de bairros disformes e sem luz, onde uma criança espreitava por detrás de um muro, como quem se esconde de um labirinto, ou as vestes negras de um povo que chora a sua sorte, entre as cheias de 69, ou o arrastar sofrido de um povo crente, a rastejar milagres, junto do divino. Assim é também ”O meu nome é legião”, retratos a preto e branco de uma miséria que persiste e insiste em renascer de geração em geração seja ela negra, branca ou mestiça.


Lobo Antunes sublinha que este novo romance é sobre o Amor. Repetindo Ruben A.: “a Eliot e Picasso falta-lhes amor, são vertebrados demais.” Ao ler lobo Antunes sinto o mesmo, só que neste caso sinto o Amor escondido em cada palavra que se escapa da narrativa e onde o autor se deixa ver e fala sobre ele. É o melhor que o estilo antuniano tem, a escrita ao som de um monólogo onde o autor fala. Ler Lobo Antunes é ouvi-lo! Ser contemporâneo de Lobo Antunes é um privilégio. Ouvir as suas entrevistas é a melhor maneira de entrar no seu universo escrito. Quando leio lobo Antunes oiço-o ao fundo nas suas deambulações, é esse o seu ritmo de escrita. Quase me atrevo a sugerir à editora que passe a vender as novas edições com um suporte áudio das entrevistas do autor. Para as gerações futuras será certamente a melhor forma de entenderem o fabuloso universo escrito de Lobo Antunes.

 

 

por almaro

em O Desenho do Horizonte

08.12.2007

 

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Ana Cristina Leonardo       

 

António Lobo Antunes - O Maestro sacode a batuta

 

António Lobo Antunes não será um incondicional de Pessoa. Foi, porém, ao autor de Chuva Oblíqua que roubei o título, «O maestro sacode a batuta,/ E lânguida e triste a música rompe...//», início de um poema longo que termina assim: «E a música cessa como um muro que desaba,/ A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,/ E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,/ Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,/ E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,/ Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...».


Em tempos, o escritor disse numa entrevista: «no fundo, o que eu gostava era de escrever poesia se tivesse talento para isso». Atente-se, agora, nesta passagem do seu último romance: «(não sou a minha filha nem nunca tive bonecos, a emoção da morte enganou-me, tive uma ambulância sem rodas com a qual brincava de barriga no chão conforme eu de barriga no chão à mercê dos tais bichos da lua, ginetos mochos ratos toupeiras a aguardar que a mulher do penúltimo quarto do lado nascente ou o suspeito atravessem o apeadeiro e marchem ao meu encontro desprevenidos de mim, escutando as borbulhas de aquário quando o copo se enche ou os prédios de Ermesinde a ruírem no silêncio e tão fácil matá-los apesar da minha falta de pontaria e dos dedos que vacilam, vejo-me grego para segurar numa chávena sem entornar o líquido, tenho de levá-la à boca com o pires por baixo e mesmo assim)», pág. 47.


Para tornar mais fácil acharem-se as analogias entre os versos de Pessoa e o excerto de O Meu Nome É Legião, recorro a J-M G Le Clézio: «Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions, ou les obsessions. Cela ne les interesse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier». As palavras, portanto, matéria-prima da ficção, trabalhadas em primeiro lugar não como veículo de sentido mas como signos encantatórios pelos quais o escritor, maestro de batuta em riste, se deixa levar para nos convocar depois. Cavalgando-as: «Faço tudo como quem desejasse cantar,/ colocado nas palavras./ Respirando o casco das palavras./ Sua esteira embatente./ Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas./ Colocado no ranger doloroso dos remos,/ Dos lemes das palavras.», Herberto Helder, Poemacto


Nesta ânsia de fazer corpo com as palavras, António Lobo Antunes tem vindo a complexizar-se e a ganhar fama de ser difícil de ler. É difícil de ler. A dificuldade, porém, nomeadamente em O Meu Nome É Legião, reside tão-só na exigência de atenção que a sua escrita reclama. Com uma estrutura narrativa na qual a necessidade (a ordem que possibilita a leitura) rodopia de mãos dadas com o caos, a seu propósito vem sempre à baila o «fluxo de consciência», essa técnica que pela intercepção de espaços e tempos distintos fez a glória de Joyce e continuou a ser glosada por autores tão emblemáticos como Faulkner, Salinger ou Updike. Lobo Antunes tenta ir mais longe, criando uma simultaneidade de registos e de planos que o empurra em vertigem para o barroco, no sentido em que Borges o definiu: um «estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades».


Já não se trata de mera alternância de vozes (aliás, todas as vozes aqui tendem à mesma «música triste»), torrentes confessionais ou jogos de espelhos e perspectiva. É como se o texto, enxuto das limitações bidimensionais pela não linearidade do tempo narrativo, buscasse mais, desesperado por se estilhaçar em pedaços, My Favourite Things subvertido pelo génio de John Coltrane.


E é, então, ainda seguindo Borges, que descobrimos um elemento de paródia, muitas vezes não notado:
«não assinalou as matrículas, pinheiros bravos, carvalhos
(não sou forte em botânica e estava aqui a pensar se arrisco castanheiros ou não, não arrisco, como descrever um castanheiro em condições?), pág. 18;
 

«o cuidado com que o meu pai lidava com a roupa era dos poucos aspectos, bela frase, que a minha mãe apreciava nele mas deixemos se não se importam a minha família de lado)», pág. 34; «lembro-me que há meses, em janeiro ou fevereiro
(para quê essa conversa, sabes perfeitamente que janeiro, o mês do teu aniversário e aquele em que a tua mãe, não te disperses, larga a tua mãe, continua)», pág. 40.
 

Na ânsia de chegar ao osso, acrescenta-se em vez de se subtrair («entre a dor e o nada, prefiro a dor», escrevia Faulkner). Recorrendo às técnicas habituais – o policial, o polifónico, o descontínuo, o elegíaco (nas palavras de Maria Alzira Seixo, uma das responsáveis pela edição ne varietur das obras de António Lobo Antunes) – O Meu Nome É Legião arrasta consigo uma história, no caso uma história onde a deliquência juvenil aliada à miséria mais profunda dos bairros degradados compõe um retrato que, sendo do Portugal de agora, é menos um libelo social do que um mergulho nos temas que são queridos desde sempre a Lobo Antunes: a infância (e eis de novo o poema de Pessoa), o desamor, desenraizamento, solidão extrema.
 

Nessa obsessão compulsiva, próxima do delírio, o estilista transfigura-se em maestro e cria frases sublimes: «se ao trancar uma cancela trancássemos a vida inteira mais o vestido da comunhão e os castigos do Altíssimo e nos tornássemos por exemplo uma folha a diminuir na água até nem as nervuras sobrarem», pág. 95, ou «Quando eu era pequeno uma velha do Bairro pegáva-me às vezes ao colo. Menino dizia ela. Menino. Depois faleceu e é bem feita. Por acaso conheço o lugar onde a sepultaram na colina. Cavei às escondidas e encontrei um sapato e uns ossos. Como não ouvi menino nenhum pus lá aquilo outra vez. Experimentei dizer menino aos sapatos e aos ossos e não serviu de nada. Se me entregassem uma escavadora acabava com a colina. Se calhar quase tantos ossos como mãos e desses tantos ossos quais seriam os dela. (...)», pág. 358.
 

Não será, porém, a beleza, antes a «palavra justa» que o move. Nessa busca vem Lobo Antunes construindo uma obra na qual, apesar da crueza das temáticas e da claustrofobia instalada, a compaixão pelas personagens se imprime na sua capacidade para as compreender a todas no desespero comum aos deserdados, que somos todos – aqui: polícias, filhos, putas ou criminosos –, «possessos de vários demónios» que cabe ao escritor dar a ver mas não julgar. À maneira de Tolstoi, porventura, o maior de sempre.

 

Agradece-se a Manuel Azevedo as sugestões, inspirações e paciência

 

Ana Cristina Leonardo

em Meditação na Pastelaria

05.10.2007

 

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Paulo Barriga       

 

Logo à noite, lá para as nove e meia, [dia 7 Dezembro 2007] António Lobo Antunes vai estar em Beja, na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, para falar sobre o seu último livro, O Meu Nome é Legião, e também para o autografar. Se ele tiver paciência e vagar, lá estarei para engrossar a fila com o exemplar que me remeteram da Dom Quixote e que eu li com o mesmo frenesi ou alucinação com que li os restantes volumes da sua obra (dezanove, com este). O livro que hoje quero ver riscado pela lapiseira de Lobo Antunes até pode não ser a sua grande obra-prima (o que dizer, por exemplo, de As Naus ou de Fado Alexandrino?), mas é certamente um dos mais inesperados.

 

O Meu Nome é Legião é surpreendente porque o autor, ao contrário do que costuma ser habitual nos seus romances, fabrica agora os personagens na agenda informativa do dia, recorta-os das páginas do "Correio da Manhã", decalca-os do violento alinhamento dos noticiários da TVI, descobre-os na batalha que diariamente está travada nos bairros degradados da periferia. O narrador é um polícia à beira da reforma, 63 anos, cuja missão é reconstituir o percurso e as atrocidades que um bando de jovens delinquentes do Bairro 1º de Maio acabou de cometer.

 

Roubo de automóvel. Assalto violento a estação de serviço com disparos e vítimas. Incursão impetuosa numa loja de telemóveis. Carjacking com sucessivas violações à ocupante na presença do companheiro. Regresso às ruas escuras e contorcidas do bairro. São estas algumas das etapas do calvário que o velho investigador terá que percorre e, antes de tudo, que anotar no seu pormenorizado relatório.

 

Aliás, o livro, numa leitura muito superficial e imediata, é a descrição policial, é o relato exaustivo, dos passos e dos actos praticados pelo gang da favela lisboeta. Na aparência, e apenas aí, trata-se de um romance policial na voz de uma só pessoa, que, afastadas as infindáveis distâncias, faz lembrar a narrativa amanuense que está por detrás de Balada da Praia dos Cães, livro simbólico de José Cardoso Pires, cuja publicação ocorreu há precisamente 25 anos.

 

Mas como tudo o que brota da imaginação de Lobo Antunes, O Meu Nome é Legião também não é um exercício assim tão simples e linear como o estávamos a pintar. É um facto que o romance parte dessa possibilidade narrativa que é o relatório policial desenvolvido por um agente minucioso. No entanto, o relato depressa começa a ser interceptado por estilhaços da memória do polícia. Depressa o investigador começa a dialogar consigo próprio, esboroando toda a sua existência, desfazendo-se como se fora um daqueles bolinhos de açúcar a que chamam "areias".

 

E é neste cruzamento quase inverosímil entre a exposição escrita de uma investigação criminal e as recordações fraccionadas do redactor que o leitor mergulha abruptamente naquilo a que podemos chamar de vórtice Lobo Antunes. Um poço infindável onde a mente chega a ser mais material que a própria matéria e onde a introspecção é apenas uma artimanha para manter vivos os protagonistas da história: "visita-me a suspeita de existir qualquer coisa em mim, no aspecto, na maneira de exprimir-me, que afasta as pessoas" (p. 26).

 

António Lobo Antunes – este livro é a décima nona prova disso – está muito para lá da algazarra menor que é o panorama literário português da actualidade. No campo da ficção, na triste altura em que Agustina e Saramago deixaram de produzir, Lobo Antunes acaba por ser o último romancista que nos resta. No país dos poetas, esta noite vou querer ouvir um que não é, sendo-o tão profundamente.

 

 

Paulo Barriga

artigo publicado no Diário do Alentejo

07.12.2007

 

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