ANTÓNIO LOBO ANTUNES







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Uma voz que diz... o mal
Numa já longa e espantosa carreira literária, que tem o seu início, como todos sabemos, em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, António Lobo Antunes tem vindo a convidar os seus leitores a entrar em mundos ficcionais cada vez mais densos e complexos. Se por um lado, cada novo romance seu se inscreve indubitavelmente num contínuo narrativo, por outro lado constitui-se igualmente como uma novidade em relação a tudo o que já tínhamos dele lido. Quero com isto dizer que estamos perante uma obra de tal forma rica e complexa, que se torna difícil definir ou periodizar. Em vez de balizas temporais, ocorre-me, para a caracterizar, uma metáfora musical, muito a jeito, aliás, do universo romanesco antuniano (para além de inúmeras letras de cantigas pontuarem os textos, dos títulos com conotações musicais, o autor em várias entrevistas tem-se referido à estrutura sinfónica dos seus romances): diria que a obra de Lobo Antunes é uma longa composição onde o tema, ou seja, a ideia melódica, me matiza de variações, o que me leva a concluir que estamos perante uma obra que se inscreve simultaneamente sob o signo da continuidade e da inovação.
Com efeito, as balizas periodológicas, dentro das quais os críticos ou estudiosos intentam «arrumar» os romances de Lobo Antunes, vão mudando consoante os parâmetros de análise que elegermos. Senão vejamos: parece consensual que os três primeiros romances formam um todo coeso de pendor mais autobiográfico; no entanto, do ponto de vista temático, Os Cus de Judas e O Conhecimento do Inferno encontram prolongamento discursivo em As Naus, Fado Alexandrino e, obviamente, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, livros onde se problematiza os horrores da guerra. Mas, de um outro ponto de vista, podemos afirmar que O Meu Nome É Legião, o seu novo romance, retoma e desenvolve aspectos já enunciados em O Conhecimento do Inferno, de 1980. Não será por acaso que, nesta brevíssima apresentação, um título regressa incessantemente: O Conhecimento do Inferno. Ao invés, a reiteração resulta antes da importância fulcral que este romance ocupa na produção romanesca de Lobo Antunes, importância para a qual o autor já tinha chamado a atenção, quando disse, numa entrevista ao Público, em 2003: «Muitas das coisas que faço agora estão em botão no Conhecimento do Inferno». E, de facto, assim é: O Meu Nome É Legião regressa à questão fulcral da representação da violência, à volta da qual o entrecho do terceiro livro de Lobo Antunes se constrói, apresentando-se ambos como uma reflexão sobre o mal.
Se em 1980 o autor problematizou a infinita dor dos homens que viveram a violência absurda da guerra e a violência desumana do internamento no hospital psiquiátrico, neste romance o leitor é confrontado com um outro tipo de realidade, marcada pela violência urbana vivida nas sociedades contemporâneas e apreendida no seu estado mais absoluto de crueldade. A variação reside, pois, no modo particular e inovador de dar conta das falas das personagens. Ao longo das perto de quatro centenas de páginas, distribuídas por 19 capítulos, que compõem o romance, assistimos a um jogo peculiar de intensificação e diluição das vozes narrativas, por meio da utilização ou da ausência de travessões a antecederem as falas, alteração que se produz em cada três capítulos, à excepção dos últimos seis, onde se respeita o uso normativo do travessão. Esta técnica discursiva cria um curioso efeito de diluição e, por vezes, de indefinição, no maga textual, das várias vozes narrativas, que surgem como se fossem conduzidas por uma voz interior, que reafirma ocasionalmente a sua presença, como na seguinte expressão: «Já garanti ser uma voz que dita umas ocasiões tão depressa que não a acompanho e outras silêncio horas a fio e eu de bico no papel».
A questão da voz é particularmente importante neste romance: múltiplas vozes povoam o silêncio da comunicação, outras há, como anteriormente referi, que conduzem a narrativa. Mas uma fundamental abre a narrativa e dá título ao romance: é a voz do mal corporizado no homem interpelado por Jesus, que orgulhosamente afirma «o meu nome é legião, referindo-se às inúmeras formas e designações que o mal toma.
O Meu Nome É Legião conta a história de um grupo de oito jovens: «Um branco, um preto e seis mestiços [..]/ de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos», organizados em bando que se dedica a actividades criminosas, sobretudo roubos. O Ruço, O Gordo, O Capitão, o Miúdo, o Galã, o Cão, o Hiena e o Guerrilheiro moram no Bairro 1º de Maio (nome fictício, sob o qual podemos adivinhar e reconhecer outros, esses bem reais, que são assunto de notícia na nossa comunicação social), nos subúrbios de Lisboa, amplamente descrito, uma vez que se constitui como ponto de ancoragem dos jovens delinquentes, que aí regressam após realizarem os inúmeros e violentos assaltos.
As suas viagens permitem-nos construir uma cartografia da grande área metropolitana de Lisboa: do Bairro 1º de Maio a Sintra, de Sintra a Lisboa, do Bairro a Lisboa, do Bairro à primeira área de serviço na auto-estrada do Norte, regressando até Santarém, passando depois perto de Alenquer, de Benfica até Amadora e Brandoa. As deambulações dos jovens por esses espaços, que vão sendo descritos pelos vários narradores que alternadamente tomam a palavra, num exercício de verbalização sempre difícil e doloroso, permitem pôr a nu os contrastes, a heterogeneidade e até o antagonismo de espaços que, do ponto de vista físico, se tocam mas que um fosso social separa.
Este romance constrói-se, mais uma vez, sobre a figura do inquérito, neste caso pelo viés de relatórios policiais e transcrições de depoimentos e testemunhas, sempre entrecortados e preenchidos pelos pensamentos das personagens. A narrativa inicia-se com o texto do polícia a quem foi atribuída a investigação, Gusmão, um polícia já em fim de carreira, que ninguém respeita no serviço, cuja existência era caracterizada por um enorme sentimento de solidão e abandono, até ao momento em que, a mando do seu chefe, vai viver para o Bairro sob disfarce, de modo a obter informações mais precisas das actividades quotidianas e criminosas dos jovens. O relatório circunstanciado das ocorrências presenciadas é, por isso, incessantemente interrompido para dar lugar à expressão dos seus sentimentos mais íntimos ou recriminatórios das práticas da instituição a que pertence.
O texto, que lentamente se constrói, em simultâneo com a nossa leitura, dá conta, de uma forma fragmentada e penosa, das actividades do bando, mas também da sua solidão, da indiferença da filha, do carinho e companheirismo do padrasto em contraste com a impaciência da mãe. A missão, que agora lhe confiam, leva-o a alterar as suas práticas costumeiras, uma vez que vai viver para o Bairro, para casa de uma mestiça. Embora tenha relutância em reconhecê-lo, devido a convicções racistas muito arreigadas, paulatinamente vai olhando para a mulher com quem vive de modo diferente, transformando-se a repulsa inicial em carinho e desejo de protecção. Nunca o confessando, nem mesmo em pensamento, sente afeição pela mulher de quem recusa pronunciar o nome, insiste em chamar-lhe preta, por isso é ele que vai abrir a porta aos colegas aquando da investida policial contra o bairro, permitindo-lhe, deste modo, a fuga.
Ao relatório do polícia seguem-se os depoimentos das várias testemunhas, ou seja, das personagens que com eles conviveram: a prostituta branca, amante do Gordo; o padrasto; a mãe e o avô do Miúdo; a irmã do Hiena; o branco companheiro da irmã do Hiena; as mestiça que vive com o polícia; o denunciante, dono de um armazém onde guardava e comercializava as mercadorias roubadas; um dos polícias que participou no assalto ao Bairro. Só no final do romance, nos capítulos 15 e 19, a narrativa é entregue pela primeira vez aos jovens, que em discurso directo apresentam uma outra versão dos acontecimentos, dando conta de outras dores, as que forma por eles sofridas: sabemos dos maus-tratos familiares, da ausência da mãe, da falta de afectos, dos actos violentos praticados a mando dos familiares, dos abusos sexuais ocorridos na instituição a que foram confiados pelas pessoas que deveriam protegê-los (um médico com a conivência e apoio de um vigilante).
O sofrimento do abuso sexual narrado nos dois capítulos referidos traz-nos à memória histórias actuais bem reais: reconhecemos as práticas de pedofilia praticadas por pessoas influentes em instituições para jovens, as viagens até uma casa em Évora, a tentativa de protecção inglória do mestre da carpintaria. Estes jovens, apesar da violência condenável dos actos praticados, carregam histórias irremediavelmente marcadas pelas mesmas misérias, dores e ausências, e que por esse motivo se confundem numa amálgama de sentimentos e dores indizíveis, circunstância que do ponto de vista textual se consubstancia numa indefinição das vozes narrativas, apenas rotuladas no relatório do polícia.
Num capítulo de uma grande beleza de escrita, Hiena (cuja morte foi anteriormente narrada pela irmã), o mais jovem do bando, toma a palavra, pelo recurso da analepse, e mostra-nos que não há verdades absolutas, que o bem e o mal, o medo e a valentia, coexistem em cada homem.
O Meu Nome É Legião narra-nos um universo povoado de seres dilacerados e estilhaçados, que vivem um conflito interior travado entre as várias facetas das suas personalidades, em luta contra os fantasmas e as obsessões que teimam em surgir e põem a nu fragilidades inconfessáveis e sofrimentos inomináveis.
Agripina Carriço Vieira em Jornal de Letras, edição nº 965 26.09.2007
Ruben A. escreveu sobre Picasso em “Páginas IV”, ”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes (em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).
por almaro 08.12.2007
António Lobo Antunes - O Maestro sacode a batuta
António Lobo Antunes não será um incondicional de Pessoa. Foi, porém, ao autor de Chuva Oblíqua que roubei o título, «O maestro sacode a batuta,/ E lânguida e triste a música rompe...//», início de um poema longo que termina assim: «E a música cessa como um muro que desaba,/ A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,/ E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,/ Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,/ E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,/ Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...».
«o cuidado com que o meu pai lidava com a
roupa era dos poucos aspectos, bela frase, que a minha mãe apreciava
nele mas deixemos se não se importam a minha família de lado)», pág.
34; «lembro-me que há meses, em janeiro ou fevereiro
Na ânsia de chegar ao osso, acrescenta-se
em vez de se subtrair («entre a dor e o nada, prefiro a dor», escrevia
Faulkner). Recorrendo às técnicas habituais – o policial, o
polifónico, o descontínuo, o elegíaco (nas palavras de Maria Alzira
Seixo, uma das responsáveis pela edição ne varietur das obras de
António Lobo Antunes) – O Meu Nome É Legião arrasta consigo
uma história, no caso uma história onde a delinquência juvenil aliada à
miséria mais profunda dos bairros degradados compõe um retrato que,
sendo do Portugal de agora, é menos um libelo social do que um
mergulho nos temas que são queridos desde sempre a Lobo Antunes: a
infância (e eis de novo o poema de Pessoa), o desamor,
desenraizamento, solidão extrema.
Nessa obsessão compulsiva, próxima do
delírio, o estilista transfigura-se em maestro e cria frases sublimes:
«se ao trancar uma cancela trancássemos a vida inteira mais o vestido
da comunhão e os castigos do Altíssimo e nos tornássemos por exemplo
uma folha a diminuir na água até nem as nervuras sobrarem», pág. 95,
ou «Quando eu era pequeno uma velha do Bairro pegava-me às vezes ao
colo. Menino dizia ela. Menino. Depois faleceu e é bem feita. Por
acaso conheço o lugar onde a sepultaram na colina. Cavei às escondidas
e encontrei um sapato e uns ossos. Como não ouvi menino nenhum pus lá
aquilo outra vez. Experimentei dizer menino aos sapatos e aos ossos e
não serviu de nada. Se me entregassem uma escavadora acabava com a
colina. Se calhar quase tantos ossos como mãos e desses tantos ossos
quais seriam os dela. (...)», pág. 358. Não será, porém, a beleza, antes a «palavra justa» que o move. Nessa busca vem Lobo Antunes construindo uma obra na qual, apesar da crueza das temáticas e da claustrofobia instalada, a compaixão pelas personagens se imprime na sua capacidade para as compreender a todas no desespero comum aos deserdados, que somos todos – aqui: polícias, filhos, putas ou criminosos –, «possessos de vários demónios» que cabe ao escritor dar a ver mas não julgar. À maneira de Tolstoi, porventura, o maior de sempre.
Agradece-se a Manuel Azevedo as sugestões, inspirações e paciência
Ana Cristina Leonardo 05.10.2007
Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.
Não se pense porém que o escritor, sempre
lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até
meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações.
Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia --
para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que
faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de
anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a
responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".
Daniel Benevides citado de UOL Entretenimento 27.07.2009
edição Mondadori, 2009, Espanha, tradução de Mario Merlino
Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.
É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma mestiça, e um delinquente, que tomam a palavra cada um à sua vez. O texto começa quando o polícia escreve um relatório da sua última missão. "Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00." (pág. 11). Uma folha depois começa o polícia a incluir observações menos profissionais. Acrescenta o facto de que apenas um dos oitos delinquente é branco. Os restantes eram "semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado" (pág. 12), e, a seguir, procede colocando em questão a política nacional de imigração. Um par de páginas depois dá um salto maior, às suas lembranças, e acaba misturando os detalhes objectivos do relatório, as malfeitorias que cometem os miúdos, com memórias da vida pessoal, iniciando com um episódio onde estão o seu padrasto e a mãe.
O resto do romance supõe uma descida a esse inferno de desejos impuros que bem podiam denominar-se Legião, viagem narrativa que nos deixa com a triste convicção de que acaba por ser impossível alcançar o ideal humano que deveria reger a sociedade. Sobra tudo quando a história fala do progresso do homem. Talvez as páginas mais impressionantes do romance sejam as que se dedicam a contar a vida e o destino de uma mulher mestiça (págs. 159-207). Desfilam pelo texto a vaidade da juventude, a injustiça do destino, ou as falsas promessas da sedução.
Porém, o melhor do texto acaba nesse fluir
de uma consciência que compõe a história narrada, onde os feitos do
argumento não surgem ordenados mas justapostos. Forma que provoca um
dramatismo mais profundo que a narrativa linear. O romance oferece a
emoção do grito de Munch ou do conto "O homem morto" de Horacio Quiroga.
Por exemplo, no episódio onde cai morto o irmão (pags. 206-207)
misturam-se com o ruído de um balde que cai na rua, a visão do irmão em
criança correndo atrás dos escaravelhos, o ruído metálico da caçadeira
de canos serrados a chocar com o pavimento quando cai abatido pelos
polícias, e muito mais. Lobo Antunes regista, como gosta de fazer, o
momento na sua plenitude sensorial através da palavra. Germán Gullón citado de El Cultural 05.06.2009 [traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
Há uns quantos livros mas, sobretudo, uns
quantos autores que, na minha opinião têm de ser lidos com a disposição
certa, no momento certo, com tempo para deles podermos tirar o máximo
proveito.
Maria Celeste Pereira 24.08.2009
Logo à noite, lá para as nove e meia, [dia 7 Dezembro 2007] António Lobo Antunes vai estar em Beja, na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, para falar sobre o seu último livro, O Meu Nome é Legião, e também para o autografar. Se ele tiver paciência e vagar, lá estarei para engrossar a fila com o exemplar que me remeteram da Dom Quixote e que eu li com o mesmo frenesi ou alucinação com que li os restantes volumes da sua obra (dezanove, com este). O livro que hoje quero ver riscado pela lapiseira de Lobo Antunes até pode não ser a sua grande obra-prima (o que dizer, por exemplo, de As Naus ou de Fado Alexandrino?), mas é certamente um dos mais inesperados.
O Meu Nome é Legião é surpreendente porque o autor, ao contrário do que costuma ser habitual nos seus romances, fabrica agora os personagens na agenda informativa do dia, recorta-os das páginas do "Correio da Manhã", decalca-os do violento alinhamento dos noticiários da TVI, descobre-os na batalha que diariamente está travada nos bairros degradados da periferia. O narrador é um polícia à beira da reforma, 63 anos, cuja missão é reconstituir o percurso e as atrocidades que um bando de jovens delinquentes do Bairro 1º de Maio acabou de cometer.
Roubo de automóvel. Assalto violento a estação de serviço com disparos e vítimas. Incursão impetuosa numa loja de telemóveis. Carjacking com sucessivas violações à ocupante na presença do companheiro. Regresso às ruas escuras e contorcidas do bairro. São estas algumas das etapas do calvário que o velho investigador terá que percorre e, antes de tudo, que anotar no seu pormenorizado relatório.
Aliás, o livro, numa leitura muito superficial e imediata, é a descrição policial, é o relato exaustivo, dos passos e dos actos praticados pelo gang da favela lisboeta. Na aparência, e apenas aí, trata-se de um romance policial na voz de uma só pessoa, que, afastadas as infindáveis distâncias, faz lembrar a narrativa amanuense que está por detrás de Balada da Praia dos Cães, livro simbólico de José Cardoso Pires, cuja publicação ocorreu há precisamente 25 anos.
Mas como tudo o que brota da imaginação de Lobo Antunes, O Meu Nome é Legião também não é um exercício assim tão simples e linear como o estávamos a pintar. É um facto que o romance parte dessa possibilidade narrativa que é o relatório policial desenvolvido por um agente minucioso. No entanto, o relato depressa começa a ser interceptado por estilhaços da memória do polícia. Depressa o investigador começa a dialogar consigo próprio, esboroando toda a sua existência, desfazendo-se como se fora um daqueles bolinhos de açúcar a que chamam "areias".
E é neste cruzamento quase inverosímil entre a exposição escrita de uma investigação criminal e as recordações fraccionadas do redactor que o leitor mergulha abruptamente naquilo a que podemos chamar de vórtice Lobo Antunes. Um poço infindável onde a mente chega a ser mais material que a própria matéria e onde a introspecção é apenas uma artimanha para manter vivos os protagonistas da história: "visita-me a suspeita de existir qualquer coisa em mim, no aspecto, na maneira de exprimir-me, que afasta as pessoas" (p. 26).
António Lobo Antunes – este livro é a décima nona prova disso – está muito para lá da algazarra menor que é o panorama literário português da actualidade. No campo da ficção, na triste altura em que Agustina e Saramago deixaram de produzir, Lobo Antunes acaba por ser o último romancista que nos resta. No país dos poetas, esta noite vou querer ouvir um que não é, sendo-o tão profundamente.
Paulo Barriga artigo publicado no Diário do Alentejo 07.12.2007
a propósito do lançamento em simultâneo no Brasil (Junho 2009) dos livros Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião.
Certa vez, em uma entrevista, Nabokov achou curiosa a consideração negativa de uma crítica francesa de que todos seus livros eram semelhantes. O que poderia ser taxativo de falta de versatilidade de sua paleta cromática se revelou óbvio para Nabokov. Com humor, respondeu: "A originalidade só tem a si própria para copiar".
Essa provocação, divertidíssima, é falsa em princípio, uma vez que a originalidade é uma impressão superestimada - livros nascem de livros. No entanto, trocando originalidade por obsessão, chega-se mais próximo do motor matricial do grande escritor e da sua evidente "pobreza" - ele se debruça sempre sobre o mesmo sentimento, e sua paleta não possui mais que três ou quatro cores. Verticaliza um mesmo estado de espírito, e dele retira, ainda que sua bibliografia seja vasta, o "mesmo" livro até que a morte o separe do papel.
Esse é o caso de António Lobo Antunes. O lançamento simultâneo de Explicação dos Pássaros e O Meu Nome é Legião, separados em suas datas originais de publicação por mais de duas décadas, são o termômetro ideal para diagnosticar esse sintoma: o tema de Antunes é sempre o de uma personagem doente tentando articular narrativamente um mundo desfeito pela violência. A doença pode ser concreta ou espiritual, tanto quanto o agente demolidor.
O que interessa a Lobo Antunes é esse fosso aberto entre a personagem deslocada de sua normalidade por algum acontecimento drástico e o mundo que se transforma radicalmente quando visto desse outro lugar traumatizado. Percorrer distâncias; limar a inadequação; encontrar o rosto perdido no espelho; tornar em momentos, espaços cerrados. A massa verbal de Lobo Antunes se erige sobre gestos simples expandidos em seus sentidos pela doença e violência.
edição brasileira Alfaguara
Publicado em 1981, Explicação dos Pássaros é um rompimento com a trilogia sobre a guerra colonial em Angola com que se sagrou no mapa literário português. Não há mais as lembranças fantasmais dos cadáveres, a geografia sensual de Luanda crivada de violência, a incapacidade do ex-combatente em retornar ao mundo cotidiano anterior. Explicação avança sobre as agruras da vida conjugal. Rui, o narrador, amarga uma recente separação dolorosa e tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova mulher com quem se casou por um desejo de preencher sua solidão.
Ao contrário da imensa maioria dos romances de Antunes, essa é uma narrativa de personagens em movimento: Rui monologa enquanto avança com seu carro por cidades costeiras de Portugal. Está sensibilizado com a doença da mãe e evoca sua infância e sua vida enquanto reúne forças para pedir divórcio da esposa que não ama. O livro é um grande ritual de adeuses, e o desconforto crescente de Rui aponta apenas para um final possível. E trágico.
Como em outros livros de Antunes, a trama é pífia. As coisas não acontecem; o que acontece é o pensamento das personagens. Possuem uma fluência delirante, e há uma inegável vocação poética em Antunes. Em certos momentos, no entanto, as imagens aberrantes não ajudam muito a visualizar a narrativa. É como se a profusão de metáforas nublasse o enredo.
Ainda seriam necessários alguns romances para Antunes encontrar uma forma narrativa que adéqüe sua sensibilidade poética a uma plasticidade necessária para sua íntegra legibilidade. Antes de A Ordem Natural das Coisas (1992), muitos de seus romances flertavam com o hermetismo. É de se perguntar: de quê adianta um universo ficcional denso se o leitor não encontra nele um espaço mínimo para contemplá-lo?
edição brasileira Alfaguara
O Meu Nome é Legião, nesse sentido, é um animal diferente. Destilado e preciso, proporciona uma intensa experiência de leitura. É o Capitães de Areia do século XXI. Como o grande romance de Jorge Amado, mergulha no mundo da marginalidade de um grupo de delinqüentes juvenis. As dessemelhanças surgem no enfoque. Amado faz quadros gerais, e suas personagens são maiores que o mundo: redondas, inteiras. Lobo Antunes é todo fragmento: retalhos de vozes, lapsos de imagens, frases interrompidas. E seus miúdos não são heróis. Como uma praga, eles espraiam terror e violência enquanto deambulam pelas ruas de Lisboa.
Organizando a narrativa está a voz de Gusmão, policial marcado por um terrível sentimento de solidão, doente de tédio, e que é designado para investigar os delitos. O romance abre com o relatório de Gusmão, e ao longo de sua massa verbal o retoma, como se ele fosse o motivo sobre o qual a litania de vozes, cada uma marcadamente distinta, irá se amalgamar uma e outra vez.
Legião é um romance invulgar: Antunes demonstra as deformações que os fossos sociais infligem no pensamento desses seres excluídos. Longe está a utopia de Amado, sua fé nos homens. Se Capitães é a elegia aos jovens que não tiveram condições sociais de se tornarem adultos nobres, Legião é uma ópera punk e violenta. Delírio de vozes; violência gratuita; masoquismo e humilhação; racismo e xenofobia; lei e punição. O problema não tem solução visível e a legião apenas cresce a cada dia. E tanto o leitor como Rui, cúmplices nesse mergulho, experimentam um mundo sem controle do qual não arrancam soluções.
Vinicius Jatobá artigo citado de Terra Magazine 02.07.2009
envie o seu artigo sobre O Meu Nome É Legião para alawebpage@gmail.com
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propriedade e edição:
José Alexandre Ramos
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