ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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Ontem Não Te Vi Em Babilónia, 2006

 

5 artigos por

 

- Almaro

- Ente Lectual

- Eunice Cabral

- Isabel Lucas

- Manuel Gomes

 

 

 


almaro

 

Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase ( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.

 

“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua última fase, (que segundo o próprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.

 

Na verdade não é um romance, ou melhor, não é um romance na sua forma tradicional de contar uma história e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia” gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso (caída, morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente. As personagens têm o ritmo, a insónia permite e repetem-se numa lengalenga que nos envolve (vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêem com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas. O livro nasce já com morte anunciada (que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).

 

(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso?)

 

desabafa a personagem…

 

Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã (aliás, o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma (como fantasmas das páginas).

 

-Não se vai embora você?

impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome

- António

ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina

(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)

e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço

-António

 

O António (o Antunes, o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “(continua a escrever)“ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo, a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga, ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorrir e a pensar no silêncio (grande sacana, a gozar comigo!)

 

Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o

(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)

deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

 

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:

 

Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos

- Vou tirar o silêncio dali

e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer

(como descrevê-lo?)

 

por almaro

em O Desenho do Horizonte

23.11.2006

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Ente Lectual

 

Um ensaio a duas partes sobre um livro que escrevi e me recuso a ler

 

1ª parte - o que não diria

 

“Perante uma obra destas, difícil delinear um início, esboçar uma continuação, entabular em duas linhas que sejam um diálogo entre personagens. Impossíveis resumos” - um dos mais velhos e vis truques de quem tenta resumir ou criticar um pedaço de arte, de literatura. Tudo mentira, não fosse o caso da sua indubitável aplicabilidade neste caso concreto.


(Ah, os casos concretos, outro truque da cartilha...)


Saltando aquela parte em que o crítico critica os outros menos sagazes críticos, contar-te-ei de um livro que um dia escrevi. Ontem não te vi em Babilónia.


Se, leitor, procuras uma obra de agradável, de cabeceira ou canto da secretária, lenitiva ou narcotizante, própria para insónias e descargos de consciência, tardes ou noites bem passadas de pés para a lareira, gato no colo, fá-lo noutro lado. Esta não é uma história agradável. Não é uma história. (Ponto). É triste, mas verdade.


Poder-lhe-ia dar um ar intrigante, uma trama que se move, narradores e personagens, aspectos cativantes. Poder-te-ia falar de Ana Emília, habitante de Lisboa, viúva, trespassada pelo suicídio da filha, recorrentemente visitada por um antigo agente da PIDE. Poder-te-ia falar das alusões subtis a espaços geográficos concretos como Évora, Lisboa ou aquele quarto que associo ao da minha avó


(também tu, se um dia escreveres este livro, o associarás a um remoto lugar que nebulosamente conheces)


à situação política de um Portugal de cicatrizes ainda mal fechadas, de uma guerra lá longe, de ideias revolucionárias, de uma - crítica de costumes’, retratos de personagens que em todas as ruas encontramos.


Explicar-te-ia também, fosse esta uma crítica séria e lavada que este livro é composto por cinco capítulos – cinco horas da noite. Da meia-noite às 5 da manhã, quatro narradores se vão revezando, fazendo turnos ao longo dos quais uma meada se desfia: o resultado, diria, de uma insónia impossível e um sono improvável.


Mencionaria ainda, já vestido o chapéu de apreciador de recursos estilísticos, uma a uma, as aliterações, personificações, passando por metáforas, comparações, oxímoros, hipálages. Das metáforas geniais através das quais se torna desnecessário nomear Aborto, Democracia, Comunismo, etc. E mesmo da ironia, não aquela que conheces do teu Eça, a ironia de um velho combatente, vagamente médico e erudito, que te controla há mais de trezentas páginas. Que te ridiculariza, a ti e à tua linguagem de origens jornalística.


Usaria uma das expressões da moda: sobre ‘a polifonia desta obra’, ‘riqueza dos personagens’ e outras que se não me escarrapacharam na lembradura (para usar uma também na moda, lá para freixo d’espada à cinta).


Tudo o que nunca diria sobre ontem não te vi em Babilónia.


1. (“Na telha que falta não há céu”)


Só o título forneceria matéria-prima para numerosas prelecções de carácter literário ou extra-literário, muita tinta correria, mãos e gargantas a trabalharem energeticamente, botões de punho, gravatas coloridas, na análise de cada um dos elementos e aventação de cada uma das possíveis interpretações resultantes da sua combinação. Não o faço, o título desta obra é o fim e não o início, é a conclusão, constringência com a qual se deparam tantos quantos construíram o texto, o livro se preferirem, num esforço quase épico. Bom, comecemos antes por um princípio.


Só me recordo de um ‘fio condutor’ da trama (caso tal coisa exista): a noite — o céu que não existe para lá da telha que falta; uma insónia prolongada em cima de um colchão e uma barriga que voltada para cima e uns olhos que abertos nada vêem e, por sobre a noite, a noite interminável. Cinco horas, cinco vidas que vão passando, confrontando um pretenso actor principal, mero espectador — o leitor. O fio condutor é a vigília insone, viagem impertinente, desautorizada, através de pretéritos sem dono.


“O céu faz economia de estrelas”, diz o narrador de Machado de Assis num dos seus contos, também neste Ontem de Lobo Antunes, não se lobriga uma estrela para amostra, apenas azul mortiço e indecifrável, cúmplice com um silêncio tortuoso, que ninguém se atreve a quebrar, que ninguém consegue interromper.


Há, nesta obra, uma intromissão constante do leitor no dever do escritor, vice-versa, em que ambos se servem da inépcia narrativa de uns, a dificuldade em ler correctamente de outros – e é assim que se desfia uma meada perdida que conduz a um novelo, a um tumor. A um temor. É esta a história do livro, a minha ou a tua história, uma história como qualquer outra, contada numa hipócrita 1ª pessoa, não a história passada — amontoado de traumas e infortúnios que deixaram, mais que pegadas, cadáveres nas enseadas do que somos, lambidos pelo salgado do mar —, não a história do que foi, a história do que é: desta sonolência que prende como que com tenazes e força o passado a uma continuidade pelo presente dentro.


2. (A história do hoje, antes de se tornar ontem quando já é amanhã.)


Menti.
Em ontem não te vi em Babilónia há de facto um ontem: há de facto a luta interior com espectros antigos, imagens que ora deslizam em slide, ora se perpetuam num sffumato vagaroso e sofrido e impelem o personagem a pedir auxílio, a desejar que sido não tivesse. Outra constante: o desejo de anular o passado, ou, pelo menos, anular a sua vinda esporádica ao presente, o que vai dar no mesmo.


(Maria Emília, exemplo, a páginas tantas confessa ’A quantidade de episódios que gostava de deitar fora’, essa mesmo que adiante revela uma cicatriz, antes úlcera?, provocado por ‘Nunca ter beijado o meu pai’).


Caso tenha utilizado o substantivo personagens, peço permissão para o substituir. Por pessoas. Personagem alguma neste livro, pois que é escrito por mim que o leio, pois que é erguido a força de lágrimas, suor, intermitências e cobardias, tão humanas quanto eu, quanto as formas que avultam nos 4 sujeitos noctívagos.


3. A fragilidade sujeitos vestidos de personagens


(“Se soubesses quanto dói a chuva…”)


Tudo nas pessoas disfarçadas de personagens é indubitavelmente humano, titubeante, frágil e diáfano — a Maria Emília basta a recordação das alturas em que o mar tão sereno, basta o mar em Agosto e emociona-se logo; ao antigo oficial da PIDE, que insiste em visitar o cemitério dos choupos, onde jazem vivos os caprichos da memória inclinada à celebração de alegrias idas, que aborrecem, que magoam, resta o lamento de não ter tido alguém em quem confiar. Noutros casos, o leitor-escritor penetra na intimidade


(que outra prova maior da veracidade dos ‘personagens’ senão terem intimidade?)


e depara-se com a belicosidade interior de Alice, o 3º sujeito, por oposição ao “corpo em paz para quem visse de fora”, na qual a amargura pela não existência de Deus, cuja prova, diz, é o céu desabitado.


4. Explicação do título


Como referido, o título desta obra não será nunca um início, antes uma verdade que vem crescendo de encontro ao leitor, como indicação no fundo da estrada que aumenta progressivamente as suas dimensões, e que chega sem concessões ou fugas fáceis. Ontem não te vi em Babilónia significa para um leitor atento, (em Lobo Antunes não existe outro tipo de leitor) mais do que um curioso artefacto que comprova uma coloquialidade surpreendente em tempos tão distantes, a injunção de uma ausência.


Injunção de ausência? Ora bolas. Explicando melhor: é a prova material de que o difícil confronto com cada uma das muitas páginas reporta, remonta e remete a uma ou várias ausências. A chave para a compreensão dos personagens que são pessoas é a falta, a supressão natural ou forçada de alguém, alguma coisa e a sua reacção perante esse silêncio e essa noite. Perante esse ontem onde não o ou a vimos. Não (te) ter visto ontem em Babilónia, acrescento, implica ainda um outro factor ou característica da ausência: ela ser prolongada, de segunda geração, por assim não dizer, por se referir a um pretérito anterior à “imediatidade” do ontem.


A Babilónia de Antunes, a do leitor, é portanto mais distante do que um ontem. É, talvez, um anteontem?

 

por Ente Lectual

em Orgia Literária

07.09.2007

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Eunice Cabral

 

Terrenos baldios

Os leitores de António Lobo Antunes já perceberam que, sobretudo desde Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), o universo ficcional do autor se tornou denso, apesar da aparente simplicidade no registo da linguagem oral, e impenetrável a uma só leitura. Nessa medida, o último romance publicado do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, confirma esta última tendência da sua ficção. Um dos trabalhos da interpretação deste romance consiste em perceber o mundo em que o romance como texto literário projecta para fora de si mesmo pelo movimento de autonomia típico da arte. Esta declaração acaba por se juntar àquela noção, bem característica do percurso da literatura do século XX (período no qual ainda nos situamos), que afirma que a obra de arte, de facto, pertence a uma entidade suprapessoal (à própria obra do autor entendida como um macrotexto dotado de autonomia, à crítica, à teoria) e não apenas a uma assinatura, a um nome claramente identificado como sendo o do seu autor. Em suma, não há autor mas textos, assim como não há só texto mas interpretação como parte integrante do mesmo. Apesar de esta ser uma afirmação característica daquele pensamento estético que, aos olhos de muitos dos leitores desta obra, pode parecer «linguagem especializada» de estudioso da literatura ou de crítico, é de notar que o próprio António Lobo Antunes a verbalizou recentemente, de forma semelhante, no tom de desprendimento usado frequentemente por todo o criador de arte: não é verdade que este escritor, numa entrevista dada em Abril de 2006 a Ana Sousa Dias para a RTP 2, disse que sentia que os seus livros eram cada vez menos dele, autor, e que eram escritos por uma mão - a sua, visivelmente - que ia escrevendo um texto que poderia ser considerado de outros? Esta espécie de impessoalidade é uma das realizações efectivas de Ontem Não Te Vi Em Babilónia, revelando-se na atenção ao silêncio, às perturbações da linguagem, à intransmissibilidade da experiência humana.

As falas, neste romance, resistem a um discurso comum e maioritário; dizem, insistentemente, a diferença, sem que esta chegue a ser ou a construir uma ou várias identidades reconhecíveis como tais. Trata-se de uma impessoalidade que vem muito depois de um período (o início da carreira literária deste autor) em que os romances eram fortemente autobiográficos, tingidos por uma «exibição» muito bem conseguida (porque articulada de modo original) de referências constantes à cultura, não apenas portuguesa mas ocidental (escritores, obras literárias, pintores, filmes, actores, figuras icónicas, etc.) e, ainda, de dados de uma contextualização socio-histórica perturbante e, por essa razão, vulneravelmente formulados, trazidos para a literatura portuguesa em primeira mão, actualizando-a, nesse sentido, de forma feliz. A figura central do narrador-protagonista era a de alguém que se encontrava no lado errado da realidade portuguesa, depois da avalanche dos vários desastres que assolaram as masculinidade portuguesa: o retorno da guerra colonial (entretanto, descrita em toda a sua crueza), o divórcio, a estranheza da terra de origem, a deriva por bares e por espaços tornados irreconhecíveis, a noite inabitável, o dia cinzento repartido entre o emprego e áreas em reconstrução difícil de vida, ainda informes, a desolação da pertença a uma geração perdia, o amor transformado em indiferença e em impossibilidade, a ausência de referências e de pontos de apoio num tempo de marcos desgastados.

De facto, uma das razões da notoriedade desta ficção é a capacidade de inovação na verbalização frontal de um mal estar, muito português, ao qual os romances antunianos têm vindo, ao longo de quase três décadas, a dar corpo e fala. Também já conhecíamos a veia burlesca e satírica, medonhamente lúcida dos primeiros romances do autor, que se expande em realizações memoráveis nas obras da década de 90 de Novecentos, em que uma parte da sua pessoa real se jogava ficcionalmente, com muito arrojo, reescrevendo, de modo oblíquo, algumas facetas autobiográficas anteriores. Outros são romances que regressam ao passado português, partindo de um ponto de vista profundamente desencantado mas simultaneamente irónico e paródico. Entretanto, para além da capacidade de inovação constante, não há nenhuma outra semelhança entre o último romance de António Lobo Antunes e, por exemplo, o primeiro, Memória de Elefante (1979). Nesse sentido, este último romance situa-se nos antípodas dos três primeiros publicados nos quais o protagonista, médico perdido no labirinto da vida moderna, dada com justeza como demasiado complexa, formulando a angústia portuguesa desses anos nos termos da constatação espantada e inconformada: «Se calhar é isto a vida.» A deriva individualizada do único narrador revela-se um trajecto  que ambiciona mais do que aquele tempo presente pôde dar e é dito num registo de solidão e de desgraça que se expande nas citações urbanas, modernas e culturalizadas de todo o romance: o amigo é Max Brod, o narrador é Franz Kafka, uma doente mental é Charlotte Brönte.

Nenhum dos tópicos, nenhuma das imagens, apresentados neste último romance, tem sequer uma remota parecença com o que costumamos chamar «cultura». O que é narrado - não por um único narrador, mas vários, sem hierarquia entre si - decorre das vísceras das personagens, numa noite assombrada pelas «verdades»nunca confessadas no que têm de mais cru e vil. As vozes deste último romance respondem que já estamos «perdidos» desde sempre e que é isto mesmo a vida. A única esperança vem do título, que é uma frase enigmática, aliás, sem a mínima relação com o texto do romance: quem diz «ontem não te vi» é alguém que esperava ter visto outra pessoa; teve a expectativa de avistar outra, num determinado lugar. E, ainda por cima, confessa confiantemente essa expectativa, que se malogrou, à outra («ontem não te vi em Babilónia»). Ora, todo o discurso do romance nega qualquer saída positiva, ao inscrever uma incomunicabilidade irremediável: encontramo-nos miseravelmente sós, às voltas com partes de descrições da realidade e de nós mesmos, sem ninguém à nossa espera. Neste último romance, o discurso é o do inferno português, a vida interna sombria e anónima, os seus crimes afectivos, desamorosos, as suas ausências em relação aos outros e a si mesmo. Para contar este inferno, o romance não usa nenhuma referência culturalizada que pudesse servir de caução a tanto sofrimento; apenas surgem, aqui ou ali, referências de passagem ao contexto político passado, cheio de fealdade e de horror (a prisão dos opositores ao regime salazarista, o forte de Peniche, o comunismo percebido como um «crime» por um dos protagonistas). A realidade narrada é feita numa tonalidade viscosa, apresentada em frases e palavras ditas sem premeditação ou consciência da sua significação ou mesmo do seu alvo, pairando num registo fantasmagórico à procura, por vezes, de ecos de uma unidade perdida. A desagregação é uma característica constante no «dizer» de todos os narradores que «entram em cena», fazendo «jorrar» discursivamente a suas vidas, ao sabor de uma noite de insónia e de torpor, entre o estado semi-acordado e o adormecimento, sem que o alívio do sono alguma vez chegue.

Se o leitor desejar tréguas ou uma nesga de esperança, terá que imaginar outras paisagens a partir do título, passando por todos estes terrenos baldios e aceitando, desde já, que esta falta de vínculo entre o romance propriamente dito e o seu «nome» é significativo. De facto, uma das razões de ser da arte é a resistência à comunicação, à mediação que submerge todos os fenómenos na homologação e no nivelamento, é a afirmação intransigente da autonomia da proposta artística. Neste caso, os romances de António Lobo Antunes resistem de um modo ostensivo à tendência dos circuitos da comunicação, a da dissolução dos conteúdos, pela afirmação de um outro tipo de discurso fundado na palavra que institui um mundo do «desinteresse interessado», o estético. A última proposta literária do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, resiste a um mundo completamente integrado e homogéneo em que os conteúdos se apresentam como uma mera execução de um programa pré-estabelecido pela representação da identidade e não da diferença. A diferença - encontrada no trabalho de escuta de que é feito, também, o texto literário - faz-se pela discordância, pelo conflito e pela aspiração ao que é árduo e difícil. Face e contra a arte como mercadoria (variável segundo os circuitos pelos quais vai existindo), este romance estabelece uma determinada relação com a sua leitura, a que se dispões a admitir os vazios de significação, o inexprimível. Simples sinal de distinção provocado pela dificuldade real da leitura? Não parece ser assim. O que define uma relação diz respeito ao que não é da ordem da necessidade, ao que não se encontra determinado de fora. Desfazer, deslocar o sentido parecem ser propósitos mais eficazes da obra artística, e que produzem uma experiência que tem efeito no leitor: obra literária e a vida são começo, devir, caminho ainda não trilhado no desconhecido. Desta dificuldade e deste tempo preenchido pela leitura (necessariamente longo), decorrerá, por isso mesmo, um melhor conhecimento do que no humano existe de maninho, de baldio, de selvagem. E a esperança, que este romance cria no leitor que se dispõe a escutar este texto - talvez acabando por se situar na improbabilidade definida pela última frase do romance: «porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro» -, só virá depois do reconhecimento da estranheza do inferno de uma noite habitada por várias vozes narrativas. Qualquer esperança só se vislumbra, sempre, depois do inferno.

A estrutura externa do romance é constituída por seis partes correspondentes à duração de uma noite, desde a meia-noite às cinco horas da manhã, o tempo presente aglutinador de falas de personagens que vão dizendo o seu mundo entre consciência e inconsciência. Nem esta noite se fez para dormir, nem para amar; fez-se para exprimir o ódio, o ressentimento, a desistência, a dor que entorpece qualquer vislumbre de sentimento positivo, numa espécie de duplicação deslocada e extemporânea da existência intra-uterina, pertence ao domínio da mucosidade, de prematuração de que a vida humana é também feita pelo inacabamento de que dá provas constantes. As vozes narrativas procuram, parecendo já desesperar, um sentido de vida que escapa logo que se põe em marcha; daí a necessidade da recorrência, da repetição dos nomes próprios, das designações de parentesco (pai, mãe, filha, avó), de palavras e de frases como gritos de um socorro que nunca virá. As personagens estão ligadas entre si quer por laços familiares, quer por proximidades criadas pela actividade profissional mas nada as vincula umas às outras excepto um isolamento a que nada nem ninguém consegue pôr cobro. Uma doméstica de nome Ana Emília, um ex-polícia da pide, a sua mulher, enfermeira num hospital de província chamada Alice, a irmã daquele são os narradores principais de existências que germinam na maior das sombras, a ausência de esperança. As personagens femininas são as que se aventuram mais ousadamente no domínio do que se convencionou chamar "amor": no presente nocturno, este é recordado através de cenas obsidiantes e recorrentes, sempre portadoras da inércia e da rasura de humanidade. Da falta de «amor», resta, por exemplo, uma mulher baixa, gorda, grisalha, que dá de comer às galinhas, batendo numa lata, a chamá-las ou, então, surge uma das personagens masculinas para quem o «amor» é um rosto desconhecido, projectado no estore, o único ser por quem é capaz de soluçar de amor.

O suicídio de uma rapariga de quinze anos que diz que vai ao quintal enquanto espera que a chamem para jantar, que lança um fio de estendal de roupa numa macieira, que sobe a um escadote que derruba em seguida enforcando-se e que deixa como mensagem final uma boneca sentada na relva é o acontecimento central do romance. Apesar de quase todos os narradores (excepto dois) recordarem pormenores desta cena (são ao todo oito os narradores, relacionando-se entre si), é uma ocorrência inexplicável, que aparece e desaparece nos discursos que a vão rememorando distorcidamente como um conjunto de gestos cristalizados, intensos nas suas trevas enigmáticas, no seu poder negativamente simbólico: é boneca que gira em vez da rapariga, é a mãe da rapariga que a imagina , ainda viva, a regressar do quintal, sentar-se à mesa e jantar; é o pai (cuja paternidade é apenas hipotética) que se lembra do desconforto sentido ao comprar aquela boneca e de a ter oferecido sem convicção. O quintal torna-se, entretanto, o lugar da casa do qual alguns saem, à socapa, sem serem vistos, assumindo-se, não como visitas, mas como gatunos de intimidades. O suicídio é o episódio basilar desta comunidade de participantes involuntários de um serviço fúnebre no qual nenhum conhece o seu lugar ou a extensão da sua contribuição. Este acontecimento traumático cria correspondências nas configurações das várias consciências das personagens do romance, sendo que cada uma delas apresenta dados divergentes do que aconteceu. É, por esta razão, uma ocorrência que desarticula, que amontoa, que desarruma factos, que dá a ver a insensatez do que se empreende na vida, que desune e que «mata» silenciosamente quem a pensa e quem a recorda. Um suicídio é uma transgressão em relação ao mundo humano: é um acto que representa a quebra de um compromisso que a vida estabelece com cada pessoa: continuar a viver, aconteça o que acontecer. O suicida, considerando que «não foi tido nem achado» na celebração desse contrato, rompe com o pacto fundador; ao perpetuar-se na memória do que lhe eram próximos, confere à vida, depois do seu desaparecimento da face da terra, um halo sobrenatural e fantasmagórico que o existir efectivamente tem mas do qual nos esquecemos, um e outro dia. A intensidade emocional que o suicídio lança à sua volta, desagregando a comunidade familiar, fá-la viver uma «travessia do deserto», que é, neste romance, esta noite em que cada personagem se diz, se explica através de um registo de violência. De facto, o que é narrado é da ordem da ferida por sarar, dos acontecimentos percebidos como corpos estranhos, sem que haja a possibilidade de os integrar, elaborando-os. A impessoalidade, referida no início, expões o desespero, não oferecendo soluções de superação: resta a luz indecisa, contudo persistente, do título do romance.


por Eunice Cabral

artigo citado do Jornal de Letras, nº 941

Outubro de 2006

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Isabel Lucas

 

Cabeças que não dormem

 

O novo livro de Lobo Antunes passa-se numa noite de insónia. Uma torrente de memórias não filtradas de gente ao adormecer.

"Chamo-me António Lobo Antunes, nasci em São Sebastião da Pedreira e ando a escrever um livro." É um dos momentos em que a realidade irrompe pela ficção e acentua a ideia de delírio. É António Lobo Antunes o autor, narrador e personagem no seu último romance Ontem não te vi em Babilónia, o 18º desde a estreia em 1979 com Memória de Elefante. Um Lobo Antunes triplo que dura o tempo desta frase, ainda que o autor se vá sugerindo noutras ao longo das 479 páginas desta ficção que dura uma noite.

É uma frase entre parêntesis que aparece no texto ao fim da noite. Ou seja, um aparte próximo do fim do livro. É o fim de uma noite de insónia que vai longa e começou com quatro personagens a tentar adormecer à mesma hora em lugares diferentes. Lisboa, Évora, Estremoz, Portalegre... Estão sozinhas com as suas memórias e inquietações numa vigília que se vai tornando mais delirante, por vezes quase demencial, à medida que a madrugada avança.

Da meia-noite às cinco da manhã uma mulher que perdeu uma filha, outra mulher que nunca teve filhos, um ex-polícia do antigamente e um ainda mais antigo proprietário rural vão desfiando as suas vidas numa catadupa de lembranças que não passam por qualquer filtro. E o único fio condutor dessa narrativa - que são, afinal, várias, fragmentadas -, é feito das imagens e das vozes (a dos que já morrerem e a dos vivos) que surgem como flashes na desordem da insónia. A memória na sua cadência onde todos os tempos se misturam para contar o tempo de um país. "(o que é a memória santo Deus, zonas até então ocultas à mostra com que intenção, que motivo...)", interroga-se alguém, e outra vez os parêntesis, numa interrogação que não espera resposta porque esta história, estas vidas também se contam com silêncios e no desfilar do dito e não dito se apreendem as relações entre os vários insones.

O livro está dividido em horas que, por sua vez se dividem por personagens, em sub capítulos. Além dos dois homens e das duas mulheres, surgem pontualmente outras personagens, na sua falta de sono, todas se contam na primeira pessoa. Por exemplo Ana Emília, a que perdeu a filha, e que à uma da manhã se pergunta "serei a única pessoa com nome neste livro?", sem saber de Alice, a quem o sono também não chega numa cama longe dali. E é a mesma Ana Emília quem fala dessa fronteira sono/vigília, um tempo que transforma as coisas: "quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoante os móveis deixam de ser móveis e perderam o nome". Ela que depois dirá: "é possível que por estar acordada há muitas horas suponha coisas que não há..." É neste tempo entre o sono e o sonho que decorre o livro.

António Lobo Antunes terminara o romance quando se deslocou a Jerusalém para receber um dos mais prestigiados prémios literários a que foi dado o nome dessa cidade. Foi em Fevereiro de 2005. Ainda não havia título para o livro, o mesmo livro que o António Lobo Antunes nascido em São Sebastião da Pedreira escreveu andar "a escrever", incluindo-se a si nessa escrita. O título ocorreu-lhe justamente em Jerusalém, ao ler uma frase em escrita cuneiforme gravada numa placa de argila com a data de 3000 a. C. A frase era "Ontem não te vi em Babilónia".

[...]


por Isabel Lucas

artigo citado do suplemento 6ª, do Diário de Notícias

20.10.2006

 

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Manuel Gomes

 

Este livro, às vezes, é como que um bailado de pensamentos, ondulando suavemente entre as páginas, percorrendo linhas e dançando perante os nossos olhos; saltitantes, esvoaçando para dentro dos nosso próprio cérebro, pensamentos que se misturam (os nossos e os dos outros, das personagens e do autor) num livro que se faz e refaz a cada instante, num imenso puzzle a construir por quem lê porque o autor, esse, já fez a sua parte. Um livro onde nunca nada está acabado; nem as frases, nem as ideias, nem a descrição, que narração não importa.


Outras vezes, este livro é o turbilhão das dores e angustias, esse somatório desordenado a que alguns chamam sofrimento. Bocados de humanidade. Tempestades de dor, é o que é! Emaranhados confusos de sonhos e pesadelos, cores impetuosas de um quadro surrealista, talvez de Dali, manchadas de sangue e de lágrimas, luzes perdidas no escuro onde se pode ler a vida. Vida entre sonhos, fantasmas, ilusões, fantoches, trapos de bonecas, muros e grilhões de Peniche, onde a maré afoga o sonho.


Dois, quatro, oito, dezasseis (não interessa) personagens evoluem numa única noite de insónia e vão passando, à vez, pelo palco da vida, das letras que deciframos. Muitos narradores, uma única noite de insónia. Insónia de cada um, uma noite/vida que é de todos (personagens, autor, leitor – sim, o leitor a tomar parte no banquete da insónia) emaranhados numa única solidão, num contar de tempo que pouco importa, duas quatro, oito, dezasseis vidas perdidas; duas, quatro, seis, oito, horas tanto faz, vidas rasgadas por sonhos/pesadelos, lutas, derrotas, um tempo que não interessa, um país que quase morreu ou quase viveu (riscar o que não interessa).
 

Memórias sombrias, cinzentas, lentas, tortuosamente lentas de um cárcere chamado alma, ou vida, ou passado, também não interessa, o que interessa sim é a esperança – isso, a esperança, isso de que o livro não fala, isso de que o António se esqueceu…… pois……Foi de propósito, não foi, António? Porque isso não existe……
 

Existe a morte.
 

E a pior de todas elas: a morte na vida; uma morte, uma vida, dezasseis vidas, uma noite – o escuro.
Uma frase final: linha 13 parágrafo talvez terceiro, página 479: “porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro”; uma verdade (ou mentira, tanto faz, o leitor é que sabe); talvez verdade na medida em que no escuro se lê o pensamento e é disso que é feito este livro inteiro – 479 páginas de dor, desalento, sofrimento sem redenção, personagens que não heróis, enredo não estória, tramas confusos como pensamentos que se misturam e um leitor que não sabe a quantas anda porque assim é a vida e, muito mais, assim é quem pensa, quem sente as dores de viver.
 

479 páginas apenas mas que continuam. Talvez na página 1, num ciclo de gerações que não acabam na noite, que sobrevivem na insónia e se multiplicam na aurora. Porque a insónia é eterna.


Uma prisão, uma macieira, um quarto de não dormir, pouco importa quem escreve, pouco importa onde (algures a montante da morte), Babilónia, Lisboa, Évora, Peniche, riscar o que não interessa, algures onde tu não estás, onde talvez nunca ninguém tenha estado, nalgum sítio perdido a que alguém possa um dia ter chamado felicidade, que é uma espécie de luz dos planetas extintos.
 

O que fica, afinal?
 

Talvez o génio.
 

A arte de embalar o leitor no pesadelo.
 

António Lobo Antunes e nós à espera da página 480.

 

 

por Manuel Gomes

em Citador

16.08.2007

 

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