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Os Cus de Judas,
1979
6 artigos
por
-
Ágata
- Célia A. N.
Passoni
- Gonçalo Mira
- Sergio Del
Molino
- Ricardo Turnes
- Wisner Fraga
Ágata
Este livro, de primeira publicação portuguesa em 1979, faz 28 anos que
viaja pelo mundo e por coincidência chegou às minhas mãos graças à
iniciativa dos Ayuntamientos, o intercâmbio de livros. Isto de
poder aceder a um livro sem que gastemos dinheiro é muito bom,
designadamente as famosas trocas de livros que se promovem em várias
cidades do mundo como Santiago do Chile, Bogotá, Madrid ou Barcelona.
O
meu conhecimento sobre a obra de Antunes é muito escasso, apenas por
algumas resenhas literárias da Babelia, uma ou outra entrevista,
frases soltas de alguns amigos e pouco mais. Por isso mesmo e com a
certeza de que jamais poderei ler tudo o quanto desejaria, encaro a
leitura de autores para mim desconhecidos com a paixão própria dos
adolescentes, aguentando o afã de terminar e lançar ao vento as minhas
muito pessoais considerações com o intuito de que outros leitores, mais
experimentados ou conhecedores de determinada obra partilhem comigo e
com os nossos bloggers as suas leituras.
Assim com esse tremor nas mãos empenhei-me a ler “Os Cus de Judas”.
Neste livro, Antunes narra-nos a experiência do seu protagonista durante
a guerra de Angola, fala dos efeitos da violência que o homem tem de
suportar, e como esta se converte num factor determinante da identidade
individual e colectiva dos seres humanos, factor esse que quem convive
com a guerra não consegue analisar com a devida distância, ainda que,
por entre as frinchas da consciência vai colocando perguntas
incontestáveis: como serão os seres humanos formados na guerra?, serão
capazes, de amar?, se sobrevivem, serão capazes de seguir a vida sem
rancores e vinganças?, ou estarão condenados a repetir a violência para
sempre? Educarão os seus filhos para continuarem o seu legado sangrento?
Como pode viver alguém em guerra desprovido de afectos, de carinhos, de
ternuras quotidianas? Assassinar um homem melhora a sociedade?
Num documentário sobre a guerra na Sierra Leona, um dos refugiados
contava como os guerrilheiros o haviam obrigado a matar o seu próprio
filho a golpes de morteiro na presença da mãe; este testemunho de um
feito hediondo, sádico, acaba por ser eufemizado perante a contundência
das palavras suaves e comedidas do homem que o protagonizou quando
termina a sua intervenção dizendo “quando dois elefantes lutam entre si,
sofrem as ervas e as plantas pequenas que jamais voltarão a crescer”.
Este é o destino da natureza humana submetida à pressão da violência, a
desesperança do homem calejado pelas balas.
Não obstante, voltando ao protagonista, recapitulando o seu processo de
assimilação perante a crueldade dos seus companheiros de batalha, logram
sair, como raios de esperança, experiências humanas que contradizem a
maldade engendrada pela violência tal como: “as mulheres negras,
Sofia, permanecem silenciosas enquanto parem, silenciosas e serenas nas
esteiras à medida que a cabeça de um filho rompe devagar no intervalo
das coxas, ganha forma, se solta, um ombro se desembaraça da prega de
útero que o prende, o tronco desliza para fora da vagina como o pénis a
seguir ao coito, num único movimento implacável e liso, sem dor, apenas
a doce separação de duas vidas…”
Os cus de Judas não é apenas Angola, são todos os países em guerra, é o
país onde vivem diariamente todos os homens, mulheres e crianças que
tiveram a desgraça de haver nascido em zonas de conflito, nem mais nem
menos que nos confins do mundo.
por Ágata
em
Cae la Noche
28.05.2007
[traduzido do espanhol por José Alexandre
Ramos]
topo
Célia A. N. Passoni
Os Cus de Judas
(1) Para esse
estudo foi utilizada a edição portuguesa da obra Os Cus de Judas, Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1997, 19ª edição. A língua utilizada é o português de
Portugal, portanto, diverso da língua escrita no Brasil.
1. O autor
António Lobo Antunes é
considerado um dos mais instigantes escritores portugueses do século XX. Nascido
em Lisboa em 1942, licenciou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria,
decorrendo daí sua tendência de analisar, sob o prisma da Psicologia, a criação
artística, o que o levou a escrever trabalhos sobre grandes escritores como
Bocage, Antero de Quental, Lewis Carroil, entre outros.
Como romancista, vem
publicando desde 1979. Seus três primeiros livros - Memórias de Elefante
(1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980)
constituem uma trilogia autobiográfica, sendo considerada sua obra-prima Os
Cus de Judas. Escreveu, entre outros, quinze romances, entre os quais:
Exortação aos Crocodilos, Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados, Tratado das
Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas, O Manual dos Inquisidores e
Não
Entres tão Depressa nessa Noite Escura.
O modernismo de Lobo
Antunes volta-se contra as tradições e os valores da literatura de Portugal,
cujos autores, na maioria das vezes, utilizam um estilo retórico, rebuscado e
excessivamente metafórico. A irreverência desse escritor contra as instituições
e a forma mordaz com que tece considerações acerca das atitudes dos homens e das
instituições tornam-no, sobretudo, despojado da herança cultural e literária de
sua terra.
2. Estilo
Em Lobo Antunes, o
domínio lingüístico torna-se complexo, inovador e, por isso, extremamente
moderno. Ao se utilizar de uma linguagem lenta e minuciosa, em que investiga
cuidadosamente o fluxo do pensamento, provoca o leitor com textos criativos que
rompem com os padrões da linguagem linear, da rigidez gramatical e com as
tradicionais formas de introduzir personagens, ações, falas, seqüências,
descrever paisagens, etc. Nesse sentido, coloca o leitor em contato com um
estilo radical e inusitado, de contornos maleáveis prestes a acompanhar o
encadear de seus pensamentos, ora confusos — embaralhados nas mais intrincadas e
conflitantes informações — ora transbordados em confissões atropeladas em que
ele amarga uma incomunicabilidade e uma solidão doída, impossibilitado de se
abrir, extravasar-se para o outro, incapaz de exercer o diálogo, daí permitindo
a antevisão de um subjetivo convulso e problemático no qual se depara com o
incompreensível do mundo, principalmente o da guerra, advindo daí suas
convulsões.
(...) Éramos
peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na
busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação,
nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e
estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os
rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil
olhos ferozes da PIDE, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a
louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e
jogados por fim na violência paranóica da guerra, ao som de marchas guerreiras e
dos discursos heróicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo
corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os
peixes, morríamos nos cus de Judas uns após outros, tocava-se um fio de
tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás!, o enfermeiro sentado
na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma
coisa amarela e gorda e repugnante quente nas mãos, o apontador de metralhadora
de garganta furada continuava a disparar, chegava-se sem vontade de combater
ninguém, tolhido de medo, e depois das primeiras baixas saía-se para a mata por
raiva na ânsia de vingar a perna do Ferreira e o corpo mole e de repente sem
ossos do Macaco, os prisioneiros eram velhos ou mulheres esqueléticos menos
lestos a fugir, côncavos de fome, o MPLA deixava mensagens nos trilhos a
dizer Deserta mas para onde se só havia areia em volta, Deserta, os tipos
passavam da Zâmbia para o interior detendo-se de quando em quando para dinamitar
as pontes dos rios, um dia depois de um ataque encontrei uma insígnia metálica
do Movimento na pista de aviação fiquei a olhá-la como o Lourenço mirava as
tripas que se lhe escapavam da barriga, o cabo mostrou-me uma carta caída num
arbusto I love to show you my entire body, explicava uma inglesa a
um angolano que na véspera nos metralhara oculto no escuro, leves armas
checoslovacas de som agudo e rápido, médicos suecos trabalhavam no Chalala Nengo
a poucos quilômetros de nós, o Chalala Nengo que os T6 bombardeavam de
napaim
e resistiam, Uma destas manhãs os
meus amigos acordam bem dispostos chegam lá num rufo e destroem aquilo tudo
encorajava o coronel optimista de camuflado engomado vindo de Luanda para nos
estimular com boas palavras conselhos e ameaças, Vai tu à frente meu cara de
caralho respondia o tenente indignado por entre dentes, Se querem rodar ir para
um sítio melhor têm de nos mostrar resultados que se vejam minas turras trotil,
o comandante encolhia os ombros em tiques de aflição pequeno ridículo quase
tocante de embaraço indicava no mapa a extensão da zona que nos cabia, gaguejava
Meu coronel Meu coronel Meu coronel, do Mondego ao Algarve para quinhentos
homens mal alimentados, peixe quase podre carne em mau estado ossos de frango,
gastos de paludismo e de cansaço, a beber a água que pingava gota a gota,
lamacenta, dos filtros, acabava-se a cerveja acabava-se o tabaco acabavam-se os
fósforos, não havia sequer fósforos no Luso para nós...
Lobo Antunes cria
algumas cenas em que afloram certo erotismo cru e pouco poético; reforçando a
posição interiorizada assumida pelo narrador
De tempos a tempos,
mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como
quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no
elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço
já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro
soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar
no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete,
raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que
imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de
bâton torna
incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de
clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado:
apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um
traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri
sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que
cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.
...outras, joga com
limpidez o seu desprezo pelos outros e por Portugal; um Portugal que, de certa
forma, é o espelho/reflexo do próprio narrador, na medida em que ambos se
identificam no fracasso e na sensação de pequenez.
Entenda-me: sou
homem de um país estreito e velho, de uma cidade afogada de casas que se
multiplicam e reflectem umas às outras nas frontarias de azulejo e nos ovais dos
lagos, e a ilusão de espaço que aqui conheço, porque o céu é feito de pombos
próximos, consiste numa magra fatia de rio que os gumes de duas esquinas
apertam, e o braço de um navegador de bronze atravessa obliquamente num ímpeto
heróico. Nasci e cresci num acanhado universo de croché, croché de tia-avó e
croché manuelino, filigranaram-me a cabeça na infância, habituaram-me à pequenez
do
bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lusíadas
e ensinaram-me desde
sempre a acenar com o lenço em lugar de partir.
...outras, ainda, em
que refaz de forma a revisitar sarcasticamente seu passado, apoiando-se em uma
ironia mórbida e o desprezo pela tacanhez de espírito de seus conterrâneos.
Sempre apoiei que
se erguesse em qualquer praça adequada do País um monumento ao escarro,
escarro-busto, escarro-marechal, escarro-poeta, escarro-homem de Estado,
escarro-equestre, algo que contribua, no futuro, para a perfeita definição do
perfeito português: gabava-se de fornicar e escarrava. Quanto à filosofia, minha
cara amiga, basta-nos o artigo de fundo do jornal, tão rico de idéias como o
deserto do Gobi de esquimós. De modo que, de cérebro exaurido por raciocínios
complicados, tomamos ampolas bebíveis às refeições a fim de conseguir pensar.
Com isso, constrói uma
literatura até então pouco conhecida do leitor português.
3. Reminiscências
Nos romances de
caráter autobiográfico, Lobo Antunes parte de um revolver da consciência,
procurando entremear passado remoto, passado recente e presente numa
investigação cautelosa e minuciosa da memória, através da qual registra suas
experiências quer em terras portuguesas, como médico, clinicando em um instituto
de psiquiatria, quer no exército, trabalhando em terras estrangeiras, após ser
convocado pelas forças colonialistas para combater pelo domínio das terras de
Angola, então possessão portuguesa na África.
Em alguns de seus
livros, a memória capta tanto o passado antigo, a formação do homem, como o
passado recente, a deformação do homem. As experiências vividas
constituem-se-lhe fragmentos, estilhaços recolhidos segundo a importância que
lhes atribui a memória, daí a falta de linearidade, e o aparente caos em que se
transforma sua narrativa. Seus romances seguem como uma gangorra, em um ir e vir
constante, repleto de retomadas, e o leitor vai acompanhando as divagações de
uma mente quase doentia, neurotizada e insatisfeita, no que se costuma chamar
captação do fluxo da consciência ou
stream of consciousness.
Costuma-se denominar
stream of consciousness ou fluxo de consciência a fatos relatados,
sentidos ou memorados pela percepção da mente humana. Trata-se de um processo
mental que se assemelha a um monólogo interior, sem pontuações, em que o
narrador geralmente coloca desordenadamente os acontecimentos psicológicos que
de uma forma ou de outra exercem alguma pressão no momento da narração.
4. Tempo e espaço
da narrativa
Os estilhaços que
recompõem os contornos da memória nos romances de Lobo Antunes recolhem
informações vividas em espaços de tempo variados, mas contados em breves
períodos, de chofre, de um só fôlego. No caso de Os Cus de Judas, o “ato
de contar” tem as ações transcorrendo em uma só noite. Se o tempo é breve no
presente da narrativa — entre a mesa de um bar, algumas boas doses de uísque, um
convite e o anseio para vencer a solidão - o tempo recolhido pela memória é
elástico, é um tempo que se volta para a infância remota, as recordações da
família, um tempo em que ele se alista nas fileiras da força colonialista
portuguesa, um tempo em que ele parte e, finalmente, um tempo em que ele
sobrevive na África, numa luta que lhe parece vazia de sentido.
Com vinte e três
capítulos curtos, seqüenciados de A a Z, sem interrupções na ordem do alfabeto,
desenrolam-se ações em dois planos temporais: um cronológico, período de tempo
de uma noite, que vai do encontro do narrador com uma mulher em um bar até o
amanhecer deles, depois de uma noite de sexo, sem amor. O tempo cronológico
constitui-se no tempo da fala, no tempo de um enorme monólogo em que o narrador
expõe a uma mulher não nomeada suas angústias e a mediocridade da vida que o
cerca; outro passado, um tempo elástico reconstituído a partir de fragmentos
soltos, recolhidos dos escombros das memórias constituem uma coleção de
insucessos que o levam a sentir-se um ser espúrio, um pária, um fracassado.
Convém lembrar que a
sensação de fracasso que domina o narrador está intimamente associada aos
insucessos dos tempos em que ele exercia funções no exército português de
combate às guerrilhas africanas.
Passamos vinte e
sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses de angústia e de morte
juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dos Quiocos e nos
girassóis do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, o mesmo medo, e
separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas, um vago
abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da bagagem, pela
porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.
Durante uma única
noite, o narrador tece o enredo da obra, elaborando um relato em que confunde as
ações de guerra, a política desenvolvida pelo seu país quanto às colônias na
África e as posições assumidas por ele (país) e ele (narrador) após o término do
conflito, o passado, o casamento, enfim, misturam-se os fatos todos da vida que
afloram pelas doses excessivas de álcool e de solidão.
5. Algumas
informações históricas
Para melhor conhecer
os pontos de vista que o narrador assumirá no transcorrer da narrativa de Os
Cus de Judas, é necessário fazer uma breve explanação sobre a situação
histórica da relação entre Portugal e Angola, bem como a relação entre o
colonizador que luta para manter seu império ultramarino e o colonizado em sua
luta pela independência.
O interesse de
Portugal pelas terras angolanas esteve ligado, desde o início da colonização,
com a exploração da mão-de-obra escrava para abastecer o mercado brasileiro. A
partir do século XVIII teve de disputar com os ingleses, os franceses e os
holandeses o rendoso comércio de escravos. Com as tendências abolicionistas, o
tráfico de escravos passou a ser feito quase que totalmente pelos portugueses e
de forma clandestina. Em 1836, a Coroa portuguesa proibiu qualquer comércio
negreiro, fato esse que, associado aos movimentos de libertação dos escravos,
veio a diminuir sobremaneira a intensidade do tráfico.
O fato de o Brasil ter
se tornado independente levou a Coroa portuguesa a voltar seus olhos para as
colônias da África. Somente então começaram a promover melhorias nos seus
territórios africanos, construindo estradas e incentivando a criação de núcleos
urbanos brancos. A população de portugueses em Angola começou a crescer somente
a partir do século XX. Entre 1930 e 1960, o governo salazarista teve a
preocupação de mudar a nomenclatura de “colônia” para “província ultramarina”,
com a finalidade de evitar o desgaste que a associação “metrópole-colônia”
possuía.
A manutenção do
colonialismo português em Angola despertou acirrados confrontos, a partir do
final da década de 1950, com o desenvolvimento do nacionalismo político no
continente africano. Surgem em Angola vários movimentos que reivindicam a
independência política de Portugal. Em 1956, forma-se o MPLA (Movimento Popular
de Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; em 1962, a FNLA (Frente
Nacional para a Libertação de Angola), chefiada por Holden Roberto e, em 1966, a
UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), dissidência da FNLA,
comandada por Jonas Savimbi, que contava com a participação de forças
sul-africanas. Na década de 1960, os grupos nacionalistas, tanto de tendências
socialistas como os não-socialistas, armam-se e começam a enfrentar com tática
de guerrilha as forças portuguesas que tinham sido enviadas por Salazar para
Angola. O Estado Novo (1933-1974), que instaurou a ditadura salazarista, buscou
o estabelecimento da ordem interna nas colônias ultramarinas e criou um sistema
de repressão a partir da formação de milícias como a PVDE (Polícia de Vigilância
e Defesa do Estado) e a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado).
Diante das pressões
tanto da ONU quanto dos grupos de libertação, Portugal, ao invés de ceder, opta
por intensificar sua repressão, procurando manter pela força seus domínios
além-mar. Em nome dessa soberania, inicia-se uma luta que é conhecida na
História como Guerra Colonial ou Guerra de Angola (1961-1975).
As forças portuguesas
eram compostas por um exército mal formado, que não conseguia adaptar-se ao
território africano, e, principalmente, sem o devido treinamento para enfrentar
a guerra de guerrilha. Os homens tinham dificuldade para movimentar-se,
utilizavam fardas inadequadas para o verão africano e, principalmente, não
possuíam armamento moderno: Portugal enfrentou não somente os guerrilheiros
acostumados com a adversidade das terras africanas, como emboscadas armadas pela
própria natureza, com florestas virgens e agressivas. Com armamento pesado,
fome, selva impenetrável, os portugueses passaram de atacantes a alvos fáceis
dos ataques surpresa e das minas terrestres que os guerrilheiros colocavam como
empecilhos para o avanço das tropas.
Com a Revolução dos
Cravos, que destituiu o regime salazarista (1974) e objetivando o fim das
hostilidades, Portugal passou a buscar entendimento com as colônias africanas.
Para isso, intensificou o contato com as três forças libertadoras e concordou
com a formação de um governo provisório. Os líderes angolanos assinaram o acordo
de Alvor (1975), que fixava a independência de suas terras para 11 de novembro
de 1975. No entanto, os líderes da FNLA e UNITA aliaram-se contra o presidente
Agostinho Neto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e, quando da
independência, o novo país já surgia imerso em grave crise, com dois governos,
um sediado em Luanda e outro em Huambo e os angolanos encontravam-se em plena
guerra civil. Contando com o apoio de tropas cubanas e abastecido de armas
soviéticas, o MPLA forçou a retirada das forças sul-africanas invasoras e obteve
a vitória militar sobre seus adversários internos. Em 1976, o governo de
Agostinho Neto foi reconhecido como legítimo pela ONU e por grande número de
países.
6. A literatura
neo-realista
A trajetória da prosa
portuguesa do século XX está inicialmente ligada ao movimento que se costumou
chamar de presencismo, uma geração que procurou equilibrar o passado
poético que tradicionalmente marcou a Literatura Portuguesa, com a produção
romanesca de tendências intuicionistas e/ou memorialistas, em busca do que
existe de mais profundo no ser, portanto, isenta de preocupações ideológicas ou
sociais.
No final da década de
1930, influenciados principalmente pelo que se fazia nos Estados Unidos e no
Brasil, os prosadores voltaram-se para uma literatura engajada, através da qual
procuravam denunciar as mazelas e a podridão de uma sociedade que enfrentava (e
enfrenta) problemas concretos. O gosto neo-realista é pelo documento vazado em
relatos secos, diretos na ânsia de registrar a verdade por meio da propagação de
uma doutrina de ideais políticos, numa arte comprometida, a serviço de uma
causa. A literatura passa a ser vista como uma possível forma de intervir no
real, transformando-se em uma arma de combate e uma forma de propor rumos novos
para o destino da sociedade.
Durante a ditadura
salazarista, a literatura foi censurada e, dos subterrâneos, passou a
metaforizar a realidade de forma a poder expor os pontos de vista pessoais
associados a uma nova forma de narrar, mais elíptica e utilizando-se de recursos
como o discurso indireto livre e o fluxo da consciência, a multifacetação do
narrador, da ambiguidade e da possibilidade de penetração na consciência de
personagens. Supera-se assim o neo-realismo tradicional, para se poder conhecer
melhor as diferentes faces da sociedade, agora também voltadas para o meio
burguês, e o indivíduo. Por meio de uma análise mais profunda de seus circuitos
psicológicos, passa-se a analisar o ser humano como um ser complexo e total,
tanto indivíduo psicológico como homem inserido em seu contexto social.
7. Um narrador
estilhaçado
Em Os Cus de Judas,
Lobo Antunes faz uma narrativa em que presta depoimento da situação
vivenciada por ele durante os anos em que esteve em Angola, entre 1971 e 1973,
exercendo a função de clínico de um batalhão operacional, primeiramente nas por
ele denominadas “terras do fim do mundo”, situadas no leste e, depois, na Baixa
do Cassanje, junto à fronteira do Congo.
O narrador, em
primeira pessoa, apresenta-se ao longo da narrativa como um médico que procura
exorcizar seu passado, registrando sua dura experiência na Guerra de Angola.
Como enviado das forças de defesa da Metrópole, potencialmente defensor da
política portuguesa para a África, ele testemunha as cruezas de uma guerra,
cujos sofrimentos e desvarios o marcaram profundamente e o enchem de angústia
pela sensação de absurdo da situação: ele, o narrador, um homem culto,
conhecedor de História, de Artes e de Ciências, cuja experiência de vida, até a
ida para a guerra, era exclusivamente metropolitana e burguesa
Poderíamos
envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos
os vértices de um triângulo eqüilátero doméstico protegido pela sombra tutelar
do
abat-jour de folhos e de uma natureza-morta de perdizes e maçãs, melancólica
como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador
um antídoto açucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos
friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bálsamo Menopausol,
pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos
domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis,
unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras
postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitado de costas no colchão
ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da
ciática, lembrar-me-ia do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz
de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era
limitado pelo perfil de cordilheiras dos Andes de um electrocardiograma
ameaçador, a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas
madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a
lição de Matemática.
...passa alguns anos
vivendo em um espaço totalmente desconhecido, engajado em uma luta que se lhe
torna particularmente indiferente: afinal, matar e/ou morrer transformam-se no
cotidiano vivenciado por ele na África. No retorno a Portugal, a experiência dos
anos de guerra continua a amargurá-lo porque deixa profundas marcas no seu
presente, marcas que se tornam sua fraqueza e das quais ele não consegue se
desvencilhar.
O narrador confessa-se
um homem solitário, mergulhado no consolo da bebida servida nas mesas de um bar,
em busca de um conforto, de uma companhia para ouvi-lo, para com ele enfrentar a
noite, e assim solucionar suas fraquezas físicas e psicológicas. Ele apenas
conversa, desabafa por meio de uma fala longa, sem pausas, sem ordem, feita de
retalhos justapostos e alineares. No entanto, não há desabafos eficazes para o
mal que o acompanha, sente-se cada vez mais inadaptado, encontra-se deslocado no
mundo que não parou apesar da guerra. E suas falas vêm marcadas pelo desespero
de não poder escapar da experiência do passado que o destruiu psicologicamente.
Quer um uísque?
Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje, depois da viagem de
circunavegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, a nossa única
possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmente uma
agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplidões
de Austerlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando as
sílabas difíceis da alegria: de forma que, se me dá licença, instalo-me no sofá
ao pé de si para ver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.
O Leste? Ainda lá
estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna,
a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo,
rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra
vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel
eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da
PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que
bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo. Quem veio aqui não
consegue voltar o mesmo, explicava eu ao capitão de óculos moles e dedos
membranosos colocando delicadamente no tabuleiro, em gestos de ourives, as peças
de xadrez, cada um de nós, os vivos, tem várias pernas a menos, vários braços a
menos, vários metros de intestino a menos, quando se amputou a coxa gangrenada
ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram o retrato com
ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos em bichos, percebe, bichos cruéis
e estúpidos ensinados a matar, não sobrava um centímetro de parede nas casernas
sem uma gravura de mulher nua, masturbávamo-nos e disparávamos, o
mundo-que-o-português-criou são estes luchazes côncavos de fome que nos não
entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amibíase, a miséria, à
chegada ao Luso veio um
jeep avisar-nos que
o general não consentia que dormíssemos na cidade, que expuséssemos na messe as
nossas chagas evidentes. Nós não somos cães raivosos, berrava o tenente de
cabeça perdida para o enviado do comando de Zona, diga a esse caralho do catano
que nós não somos cães raivosos, um alferes ameaçava baixinho destruir a messe
com as bazookas Fodemos aquela porra toda meu tenente, não sobeja um
cabrão sequer para nos enconar o juízo, Um ano no cu de Judas não nos dá direito
a dormir uma noite numa cama argumentava em sentido o oficial de operações, o
tenente espalmou um murro enorme no capot do jeep Diga ao nosso
general que vá levar na anilha, Nós não éramos cães raivosos quando chegamos
aqui disse eu ao tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães
raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da
falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões,
antes de uma berliet
valer mais do que um homem e antes de
um homem valer uma notícia de três linhas no jornal, Faleceu em combate na
província de Angola, não éramos cães raivosos mas éramos nada para o Estado de
sacristia que se cagava em nós e nos utilizava como ratos de laboratório e agora
pelo menos nos tem medo, tem tanto medo da nossa presença, da imprevisibilidade
das nossas reacções e do remorso que representamos que muda de passeio se nos
vê ao longe, evita-nos, foge de enfrentar um batalhão destroçado em nome de
cínicos ideais em que ninguém acredita, um batalhão destroçado para defender o
dinheiro das três ou quatro famílias que sustentam o regime, o tenente
gigantesco voltou-se para mim, tocou-me no braço e suplicou numa voz súbita de
menino Doutor arranje-me a tal doença antes que eu rebente aqui na estrada da
merda que tenho dentro.
Seu casamento mal
começado - ele se casara quatro meses antes de partir
...depois de breves
encontros de fim-de-semana em que fazíamos amor numa raiva de urgência,
inventando uma desesperada ternura em que se adivinhava a angústia da separação
próxima, e despedimo-nos sob a chuva, no cais, de olhos secos, presos um ao
outro num abraço de órfãos.
...estilhaça-se pela
distância - ela em Portugal, ele na África - e nem a notícia do nascimento de
uma filha pôde auxiliá-lo na recuperação de seu trauma. Um nascimento no meio de
mortes deveria ser um brado à vida, mas chega em meio ao ruído da guerra, à
interferência de códigos em um lugar distante, isolado e miserável:
Como na tarde de 22
de Junho de 71, no Chiúme, em que me chamaram ao rádio para me anunciar de Gago
Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha, rómio, alfa, papá, alfa,
rómio, índia, golf, alfa, paredes forradas de fotografias de mulheres nuas para
a masturbação da sesta, mamas enormes que começaram de súbito a avançar e a
recuar, segurei com força as costas da cadeira do cabo de transmissões e pensei
Vai-me dar qualquer merda e estou fodido.
Ao conversar com sua
interlocutora, revela o que de mais profundo atormenta sua consciência. No
entanto, a interlocutora não se apresenta como “aquela que responde” ou “aquela
que efetivamente o ouve”, “aquela que participa de uma experiência frustrante”,
apenas “está lá” e o leitor conhece-a por meio das falas do narrador, o que
transforma a narrativa em um imenso monólogo em que ele se volta quase
exclusivamente para si mesmo. Não há espaço para o outro, não há outras vozes e
os sons que o leitor ouve são aqueles que atormentam o narrador, estão nas
vivências passadas, reconstituídas aos tropeços e difíceis de serem superadas.
Do que eu gostava
mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do
professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses
vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e
botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as
que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se
dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua. Não
sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós
lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da
girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos
cães subiam de tempos a tempos latidos aflitos de caniche. Cheirava aos
corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitos pássaros inventados em
gaiolas de rede, avestruzes idênticas a professoras de ginástica solteiras,
pingüins trôpegos de joanetes de contínuo, catatuas de cabeça à banda como
apreciadores de quadros; no tanque dos hipopótamos inchava a lenta tranqüilidade
dos gordos, as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalhão, e os
crocodilos acomodavam-se sem custo ao seu destino terciário de lagartixas
patibulares.
(...)
Se fôssemos, por
exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro
neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodasse melhor ao seu silêncio, às
suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na
minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender numa
cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de
insectos que não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos
tão tristes como as noites de Lisboa, quando os neptunos dos lagos se despem do
lodo do seu musgo e passeiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas.
Na medida em que a
longa conversa vai se desenrolando, vão-se equilibrando aspectos de um passado
remoto que vêm à tona com imagens tomadas das recordações da infância: a casa
dos pais, a casa dos avós, o professor a deslizar no rinque de patinação, a
visita ao jardim zoológico. Do passado remoto surgem as únicas imagens menos
agressivas, levadas ao leitor por construções da memória e da linguagem que
contêm uma certa amargura saudosa, sem contudo ser despojada de uma ironia
irreverente. O olhar irônico recai principalmente no bizarro ou ridículo das
cenas que a memória seleciona no passado.
O espectro de
Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo
corporativo, salvando-nos da idéia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE
prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de
democracia, primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas
e marçanos, do faqueiro de cristofle. O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia,
de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por
inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos
de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente
exilado para o sótão, entre bidés velhos e cadeiras coxas, que uma fresta
poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas.
De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas,
para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me
possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais,
consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão
agitada e anônima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir,
impotente, à sua própria morte.
O passado só pode ser
reconstruído por uma seleção voluntária da memória e pela ordem de importância
que assume para quem narra. Ao revelar a passagem para a vida adulta, o narrador
enfrenta não só o trauma de se conhecer adulto, como a cobrança de uma sociedade
que o quer “Homem”, que o quer tomando decisões, que o quer participante e é
como ser participante que essa mesma sociedade lhe revela a experiência
sangrenta da guerra.
-
Felizmente que a tropa
há-de torná-lo um homem.
Esta profecia
vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras
postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas
de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso
pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para
expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados. Os
homens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira
comunhão, quando eu não entendia ainda que os seus conciliábulos sussurrados,
inacessíveis e vitais como as assembléias de deuses, se destinavam simplesmente
a discutir os méritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias
no intuito de afastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o
levantar dos pratos.
Uma travessia inumana
Mas afinal, para que
lhe serviu estar engajado na guerra? Ela se converteu em uma experiência
traumática que teve como resultado imediato a desumanização do protagonista, que
o transformou em um bicho (humano?) rancoroso. A guerra anulou a poesia que
porventura existia nas coisas, impregnou o mundo de prostituição, de corrupção:
os homens se vendem por qualquer bagatela, porque através da guerra sempre se
contempla o espectro da morte próxima. O que mantém o homem vivo é uma falsa
esperança de final e a consciência de fragilidade adquirida no confronto
sangrento com o outro. Mas, justamente porque o narrador não partilha totalmente
das opiniões da Metrópole, o universo da guerra não lhe diz respeito, lhe é
indiferente, ele não tem um motivo plausível para lutar, porque não luta imbuído
de uma ideologia, qualquer que seja ela. A única certeza que a guerra lhe traz
são as dúvidas.
Mas não podíamos
urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra: era a guerra que
urinava sobre nós os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava à estreiteza
da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando mulheres contra
o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar à noite, na cama, à
espera do ataque, pesados de resignação e de uísque, encolhidos nos lençóis, à
laia de fetos espavoridos, a escutar os dedos gasosos do vento nos eucaliptos,
idênticos a falanges muito leves roçando por um piano de folhas emudecidas.
Nessa dura travessia
da guerra, a comunicação torna-se cada vez mais escassa, mais frágil. Os laços
fraternais desaparecem, cada um pensa somente em si mesmo, isola-se na sua
amargura, no seu desespero e o silêncio separa os guerreiros, o diálogo
desaparece, não há comunicação entre os homens.
(...)
Abril de 71, a dez
mil quilômetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de
olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de
ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é,
disse eu, e acho que até hoje nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer
que fosse.
Nem mesmo o ato de
amor é capaz de redimi-lo. É necessário desnudar-se mais e mais, porque ele é um
indivíduo sem rumo, marcado pelas reminiscências da guerra, pelo mundo
agonizante de que fez parte, cujos espectros retornam a todos os momentos e o
fazem sofrer e refletir. Não há escape, não há atos heróicos, não há sonhos e
dormir se torna um ato quase impossível.
No momento em que
os seus joelhos se afastarem docemente, os cotovelos me apertarem as costelas, e
o seu púbis ruivo descerrar as pétalas carnudas numa húmida entrega de valvas
quentes e macias, penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento
num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na
madeira dura dos degraus, porque o tipo de Mangando e todos os tipos de Mangando
e Marimbanguengo e Cessa e Mussuma e Ninda e Chiúme se erguerão no interior de
mim nos seus caixões de chumbo, envoltos em ligaduras sangrentas que esvoaçam,
exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o
grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da
guerra de Lisboa, os que nos quartel do Carmo se cagavam e choravam
vergonhosamente, tontos de pânico, no dia da sua miserável derrota, perante o
mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuoso canto, como o Tejo, as
árvores magras do Largo.
(...)
Não era o rancho que
estava em causa, percebe, todos comíamos o mesmo alimento turvo, quase podre,
que as crianças da sanzala, munidas de latas ferrugentas, desejavam com grandes
órbitas côncavas de fome penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, a
cabronice da guerra, os calendários imóveis em intermináveis dias, fundos como
os tristes e suaves sorrisos das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos
camaradas assassinados que rondavam as casernas à noite conversando conosco na
pálida voz amarela dos defuntos, fitando-nos com as pupilas magoadas e
acusadoras dos esqueléticos cães vadios do quartel. Os soldados acreditavam em
mim, viam-me trabalhar na enfermaria os seus corpos esquartejados pelas minas,
viam-me à beira dos beliches se tiritavam de paludismo nos lençóis desfeitos, de
modo que, sabe como é, me cuidavam um deles, pronto a encabeçar a sua zanga e o
seu protesto, assistiram à minha entrada na caserna onde um homem se trancara
brandindo uma catana e ameaçando matar toda a gente e a si próprio, e viram-me
sair com ele, momentos depois, a soluçar no meu ombro abandonos de bebé
disforme, os soldados julgavam-me capaz de os acompanhar e de lutar por eles, de
me unir ao seu ingênuo ódio contra os senhores de Lisboa que disparavam sobre
nós as balas envenenadas dos seus discursos patrióticos, e assistiram enojados à
minha passividade imóvel, aos meus braços pendentes, à minha ausência de
combatividade e de coragem, à minha pobre conformação de prisioneiro.
Espere mais um
pouco, deixe-me abraçá-la devagar, sentir o latir de suas veias no meu ventre, o
crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele e canta
(...)
A noite está se
findando e o narrador não conseguiu a paz que tanto almejava. Sua busca é
contínua e clara, mas ele continua insatisfeito e não satisfez sua companheira.
A esperança de um retorno, de uma continuidade no relacionamento fracassa, tanto
quanto fracassou com sua esposa, com a guerra, com a profissão. Enfim, o homem
não obtém êxito em suas buscas mais simples, não se realiza nem no sexo, no
prazer mais primário do homem. Tampouco é incapaz de realizar a mulher que o
acompanhou e que o esquecerá com a mesma facilidade com que se esquecem dos
encontros casuais. A solidão volta a dominá-lo. Não há esperança. Só existe uma
certeza: da reconstituição do inferno resta a imagem sem unidade, incapaz de
unir passado e presente.
Gostou? Assim,
assim? Desculpe, não estou em forma hoje, sinto-me azelha, alheado, não domino o
meu corpo, o uísque inquina-me o hálito de um relento de urina, a dolorosa
consciência das minhas insuficiências preocupa-me. Durante muitos anos pensei em
inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectos desdobráveis pelo
correio, e que em quinze dias nos transformam em Hércules eficazes, bem
penteados, bem barbeados, nodosos de músculos, cercados por uma nuvem admirativa
de raparigas maravilhadas:
EM SUA CASA, SEM
APARELHOS, COM DEZ MINUTOS DE EXERCÍCIO APENAS, TORNE-SE UM
HOMEM. (...).
Consinta-me que
tente outra vez, dê outra oportunidade à minha aflição sem esperança, porque
desisti de a seduzir, de a fazer render-se às minhas proezas ou ao meu encanto,
de a conceber a procurar o meu nome na lista dos telefones, para me pedir, no
sábado, para jantar consigo, e ficar fitando-me, esquecida do rosbife e do
tempo, num maravilhamento de descoberta.
A trajetória desse
herói problemático de Os Cus de Judas coincide com os destroços em que
mergulhou o país. Os grandes momentos de Portugal tornam-se esquecidos nas
lições de História. Protagonista e país se identificam no fracasso, pessoal para
aquele que viveu a guerra e recolheu os farrapos, e histórico para aquele que
não obteve êxito em sua investida política além-mar. Como sempre, o fracasso é
propulsor de crises e inadaptações.
Em entrevista
concedida ao autor de A Voz Itinerante2, Lobo Antunes afirma:
Essa visão heróica
dos portugueses eu nunca tive. Em minha família, os portugueses não foram
apresentados como pessoas que desbravaram o mundo. Sempre via meu pai lendo as
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, do Antero. Aquela que me foi
apresentada desde a infância foi muito mais a decadência do que a grandeza. Os
livros de história sempre me fizeram muita confusão com o gesto heróico dos
portugueses. (...)
Quanto ao uísque, é uma tragédia,
porque até nem gosto de uísque. Mas isso de concreto tinha a ver com aquela
personagem que fala no livro, que é um homem detestável, sob certos aspectos. O
tipo usa de uma série de estratagemas para seduzir a mulher: a guerra, a vida e
depois é uma catástrofe na cama...
(2) Álvaro
Cardoso Gomes, A Voz Itinerante, São Paulo, Edusp, 1993.
por Célia A. N. Passoni
citado
daqui
2003
topo
Gonçalo Mira
Segundo romance a ser publicado por
António Lobo Antunes, no mesmo ano de
Memória de Elefante (1979), Os
Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no
primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e
o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema
dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes
participou.
Logo aqui,
Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a
guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte.
Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma
maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal
da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem
autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar.
Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher
e a do passado do homem na guerra colonial.
Estilisticamente,
Os Cus de Judas difere muito
pouco de Memória de Elefante e
estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita
deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e
aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto,
acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se
pode classificar livros desta forma.
Neste romance há uma guerra que não faz
sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os
traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância
dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente
aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser
útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca
causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que,
quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um
pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes
parece sabê-lo muito bem.
Os Cus de
Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa
contemporânea.
por Gonçalo Mira
em
Orgia Literária
13.06.2006
topo
Sergio del Molino
En El Culo Del Mundo

edição Siruela, En
el culo del mundo
Nunca acreditei naquilo de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”,
muitíssimo menos na variante “diz-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Nem
sequer “diz-me o que escreves e dir-te-ei quem és”. Oxalá as pessoas
fossem tão simples. Oxalá, aplicando essas premissas, pudéssemos
desenvolver os parâmetros necessários com a menor margem de erro que nos
permitissem etiquetar alguém apenas com um golpe de vista. A intuição, a
exploração das contradições, em definitivo, o processo de descobrir uma
pessoa seria reduzida a uma simples fórmula. É o que procuram os portais
de internet de contactos e agências matrimoniais: afinidades eleitas
mediante combinações matemáticas. Oxalá fosse tão simples julgar e
conhecer, mas, por sorte, as pessoas sempre acabam por surpreender-nos,
terão sempre uma parte que elas mesmas desconhecem, sempre terão uma
nova cara a mostrar-nos. Por isso não me etiquetem com leviandade quando
confesso o meu pecado: gosto de António Lobo Antunes.
Sim, é denso, arcaico em certas ocasiões, como um velho e artrítico
deus. Cinzento e metafísico e com uma tendência barroca que com
frequentemente enfeita o ritmo da narração. Mas gosto dele, desfruto-o,
estremece-me. E isso não me classifica em nenhum lote intelectual,
porque também gosto de muitos autores que se situam no extremo oposto,
do contundente e cómico estilo desnudado. Creio que, salvas as
distâncias, o bom leitor é como um bom gourmet ou um bom
apreciador de cerveja (outro dia falarei da minha paixão pela cerveja):
gostam dos extremos, provar novos territórios e decidir por uma leitura
adequada ao momento e ao estado de espírito. Qualquer escritor pode ser
sublime ou indiferente segundo a disposição que tenha o leitor, como uma
boa cerveja fumada norueguesa pode saber a água de esfrega se bebida em
pleno verão espanhol. Cada livro tem o seu leitor e o seu momento. Estou
convencido disso. Só os clássicos aguentam firmes as releituras sob
condições distintas e distantes.
Dizia que gosto de António Lobo Antunes, e não sou uma alma desgraçada
pela melancolia. Lobo Antunes é uma descoberta tardia. Não havia lido
nada seu até cerca de um ano, mas pouco a pouco, e graças às
maravilhosas edições da Siruela, me vou embebendo cronologicamente dos
livros do português, de que gosto mais do que os artigos semanais que
publica na Bebelia. Comecei com Os Cus de Judas, um romance que tem
tantos anos como eu e que se publicou num Portugal em pleno rescaldo
revolucionário, desorientado e desarmado, empenhado em olhar para a
frente e despir-se do seu passado salazarista como de roupa emprestada.
Algo parecido ocorria do outro lado da fronteira, mas penso que os
portugueses souberam sair das suas trevas melhor que os espanhóis, com
mais dignidade e menos medo pela besta parda escondida.
O trauma de Portugal chama-se Angola. É o seu Vietname, como Marrocos
foi para a Espanha dos anos 20. Angola é os cus de judas, confins do
mundo. E há muito de Joseph Conrad nesta aproximação a África. É
inevitável: para os ocidentais, O Coração das Trevas é o filtro
pelo qual vemos, consciente ou inconscientemente, a nossa própria
barbárie. Nesse conto narrado por um destemido aventureiro a bordo de um
barco amarrado no rio Tamisa, Conrad inaugurou, sem intenção, a
literatura da culpabilidade em que os europeus foram dando forma à nossa
condição de colonizadores, conquistadores e saqueadores, e nos fomos
rodeando dos nossos próprios fantasmas, olhando-os nos olhos sem saber
muito bem que fazer com eles. Edward W. Said estudou isso muito bem em
Cultura e Imperialismo. O romance de Lobo encaixa-se, mas nessa
relação com a nossa própria má consciência. Por certo, Caché, o
filme de Michael Haneke, também incursa por esses delicados assuntos,
acariciando a maldita relação entre França e Argélia.
Um veterano da guerra de Angola, só e derrotado, alter ego evidente do
escritor e assombrado pelos seus próprios demónios. Ele é o eixo de
Os Cus de Judas. Construído em três planos temporais distintos, é
uma exploração audaz, inquietante e infinitamente triste sobre a
solidão, o esquecimento e as decisões que o arrependimento não remedeia.
Um grande livro muito adequado para nós, europeus que ouvimos o grito
das culturas que sempre submetemos sem que nunca nos preocupássemos em
entender. Uma obra sem moral, como a própria vida.
por Sergio del Molino
em
El Blog de Sergio del Molino
11.02.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre
Ramos]
topo
Ricardo Turnes
Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo
da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível
autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as
fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois
centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem,
a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segredados.
Um bombardeamento ideológico, quase como uma lavagem ao cérebro. Pega-se no
livro (neste, no anterior), algumas páginas volvidas e estamos mentalmente
esgotados, enjoados e enojadas pelo realismo cru da abordagem. O
bombardeamento é implacável, constante, não nos deixa - não há espaços para -
descansar, e pousar o livro não chega. Serve-se de palavras duras, agressivas,
de frases excessivamente longas, sórdidas, carregadas de adjectivos e
referências culturais dispersas, construídas de forma a nos empurrarem a
atenção para o fundo de um labiríntico poço de funcionalismos metafóricos.
Bem-vindos ao início do inferno da escrita de Lobo Antunes. Se ainda por lá
não passaram, façam o favor.
Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, às
vezes, na messe dos oficiais decorada com o mau gosto impessoal da sala de
espera de um dentista de Moscavide (flores de plástico, oleografias imprecisas
cujos arabescos monótonos se confundem com o papel de parede, cadeiras hirtas
semelhantes a quadrúpedes desirmanados pastando num acaso sem simetria as
franjas gastas dos tapetes), a majores em reboliço abandonavam os copos de
uísque, de cubos de gelo substituídos por dados de póquer, para, erectos como
soldados de chumbo barrigudos, saudarem a entrada de uma senhora que qualquer
coronel subitamente urbano comboiava, deixando atrás de si, perceptível na
tremura dos galões, um rasto cochichado de cio de caserna, que se
cristalizaria em esquemas explicativos no mármore venoso dos urinóis,
destinado à alfabetização dos faxinas.
Um homem, o narrador, alguém que se confunde com o próprio autor do livro a
ponto de acreditarmos que são a mesma pessoa, fala para uma mulher enquanto a
tenta seduzir. O tema do monólogo é a guerra colonial, a sua participação como
médico de campanha em Angola, 1971, as recordações, os efeitos devastadores
que permanecem para a posteridade, para sempre, na memória de quem esteve no
Ultramar - uma fusão que não separa o passado do presente, como que a dizer:
somos ainda aquilo que um dia fomos obrigados a ser. Os capítulos são as
letras do alfabeto, e o fio condutor leva-nos por todos os recantos da
recordação: eis aqui a vergonha na sua totalidade, contada em todas as letras,
para que não haja dúvidas, para que nada fique esquecido. Para Lobo Antunes, a
experiência da guerra significa uma espécie renascimento: os homens que
regressaram vivos voltaram a nascer pelo útero de uma puta chamada Pátria.
Terão, de futuro, de reaprender a viver em conformidade com toda uma nova
percepção da realidade.
Porque camandro não se fala nisto? Começo a
pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não
existiram nunca e lhe estou contanto uma espécie de romance de mau gosto
impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de
conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de
ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul
pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de
uma nádega, um perfil de bruços nos colchão, os nossos corpos confundidos num
torpor sem mistério.
O personagem é o mesmo de "Memória de Elefante", a época abordada também, a
perspectiva é que mudou o objecto focado: a família, a esposa e filhas, que
eram o centro do mundo no primeiro livro, vêm-se substituída pelas explosões
de minas e morteiros, pelo sangue escuro e vísceras dos soldados
desafortunados, pelos cheiros da terra, do vómito, do esperma, e da fruta de
África, pela carne ferida, decepada e amputada, pelo sexo exposto ao abuso da
violação, pelas prostitutas de cabarés rascas das cidades decrépitas de
Angola, pela Pide e pelo Estado Novo, pelos crimes de guerra e pelas vítimas
do medo, por uma vivência de absurdo completo em que nada parece fazer sentido
e de onde não há como escapar - só pela morte ou loucura.
Não sucede o mesmo consigo? Nunca teve
vontade de se vomitar a si própria?
...
Não, a sério, a felicidade, esse estado
difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem
azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim,
que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de
uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como
a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e
afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam
solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me
posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta.
…
Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e
a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos
militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções
espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira
pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos
sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel
enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia
destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é,
quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo
desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que
me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o
carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos
para o norte pela picada que a chuva destruíra.
Aos poucos e poucos, como se imagens de objectos de que nos aproximamos no
meio de um nevoeiro espesso e pesado, começamos a vislumbrar detalhes daquilo
que mais tarde, em futuros romances, viria a ser uma das marcas de referência
no estilo de António Lobo Antunes: parágrafos intermináveis onde não há um
ponto final senão ao fim de algumas páginas. Por enquanto, e porque é apenas
de uma segunda obra de que se trata, e na primeira ainda não havia destas
coisas, essa abordagem estilística radical é utilizada muito ao de leve,
dir-se-ia que experimentalmente, timidamente, as palavras ainda aparecem
ordenadas segundo um sentido perceptível, e encontramos apenas alguns destes
trechos escondidos no meio de tudo o resto (leia-se, o resto do romance),
sendo que neste caso tudo o resto, mesmo assim, já se nos apresenta como
estando nos limites das regras gramaticais da escrita de português. É um passo
em frente utilizando a formatação da palavra.
Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto
que me escute, me escute com a mesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os
apelos do rádio da coluna debaixo de fogo, a voz do cabo de transmissões que
chamava, que pedia, voz perdida de náufrago esquecendo-se da segurança do
código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes com meia dúzia de
voluntários e a sair o arame a derrapar na areia ao encontro da emboscada,
escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto na
desesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num
cobertor e coloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor
esquisito bambeava-me as pernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta,
cá fora os soldados olhavam para mim sem dizer nada, Desta vez não há milagre
meus chuchus, pensei eu, fitando-os, Está a dormir a sesta, expliquei-lhes,
está a dormir a sesta e não quero que o acordem porque ele não quer acordar, e
depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos de tenda, nunca os
eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nessa tarde, grandes,
negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetia
Caralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do
nosso país amordaçado para morrer em Ninda, do nosso triste país de terra e
mar para morrer em Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro
com o meu sotaque educado de Lisboa, o capitão apeou-se na Mercedes num
cansaço infinito, segurava a arma à laia de uma cana de pesca inútil, o povo
da sanzala espreitava receoso lá de baixo, escute-me como eu escutava o rápido
latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meu sangue intacto nas têmporas,
pelos buracos da varanda via o capitão a passear de um lado para o outro
apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falando sozinho, cada
um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar com ninguém, o meu
sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo do morto
crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a
mata em busca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para
Gago Coutinho como quem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete,
morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África, baixas
insignificantes e adeus até ao meu regresso, o furriel arrumou os instrumentos
cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as
sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorro, espécie de
vivenda pequenina para férias dos reformados melancólicos mordomos idosos,
governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamos
os dois aqui sentados como eu e ele nesses tempo, Abril de 71, a dez mil
quilómetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos
azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de
ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é,
disse eu, e acho que até agora nunca tive um diálogo tão comprido com quem
quer que fosse.
Adore-se ou deteste-se, e porque, tal como a guerra, é um livro feito de
excessos e absurdos, quem o lê não o esquece tão depressa. Revelava-se e
afirmava-se um Autor maior, nesse ano de 1979.
por Ricardo Turnes
em
Orgia Literária
23.08.2007
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Whisner Fraga
Provavelmente a culpa seja minha. Culpa
não, é muito forte. Inabilidade. Procurei por António Lobo Antunes aqui no
Leia livro e nada.
Ele deve estar por aí, eu é que não me dou bem com esses mecanismos de busca,
vivem me traindo. Alguém já deve ter feito algum comentário sobre o romancista
português, mas, vá lá, não tem importância. Sempre há algo a dizer sobre um
grande escritor.
A literatura de Antunes é sobretudo a da desilusão. Médico psiquiatra, é dono
de uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas, idas e vindas, que deixa o
leitor desatento meio perdido. E é um exímio artesão, arquiteta metáforas como
ninguém.
António Lobo Antunes é um best seller. Hoje consegue o pão de cada dia por
meio de suas palavras, o que causa inveja. Isso, evidentemente, sem fazer
muitas concessões, o que dá ainda mais nos nervos de outros escritores e
intelectuais. A crítica não é muito boazinha com ele.
Um de seus primeiros livros, "Os cus de Judas", foi o escolhido para ser alvo
desta resenha. Porque foi até bem vendido no Brasil, muita gente conhece. Em
1971, Lobo Antunes embarca para a Angola, onde presenciará um cenário de
guerra. É daí que nasce Os cus de Judas. O romance aborda a independência
angolana, as injustiças, a violência, a condição humana em um conflito em que
não há regras e a vida nada representa.
O narrador do romance está em Portugal e relembra, de uma maneira crua e sem
rodeios, o que passou em Angola. As marcas de injustiças que transformaram o
protagonista do livro em um ser desesperançado.
Vai um trecho da obra para que vocês tenham idéia do que estou falando:
“Às terças e sextas-feiras, uma cabo-verdiana que nunca vi, e com quem
comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário da
cozinha, repõe os objectos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da
solidão, a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de
pensos, e pendura no arame da varanda a minha monótona roupa de homem que
nenhum soutien alegra de sugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres
encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem
descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no
elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que
conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao
primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o
amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à
custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando
números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a
falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no
lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que
certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos
de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã
seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem
real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a
melancolia inventa.”
Estão diante de um texto grandioso, nada fácil, mas vale a aventura, o
esforço, a luta. A recompensa é um prazer estético indizível e único.
por Wisner Fraga
em
Leia Livro
(Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo)
31.10.2006
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