
Alfredo Monte
Miasmas familiares em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no
mar

edição Alfaguara - Brasil
“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um
ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma
pedra)
Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o
trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira,
pela Alfaguara) tem um título que é emblemático da visão de mundo
que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de
um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar”
na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o
António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o
romance melhore”.
Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalinguística de
forma mais feliz e consequente no seu mais recente romance, QUE
CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser
pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os
narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada
instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação
também é problemática, pois, além de ser interpelado pelas suas
criaturas, afigura-se-nos que ele está numa corrida contra o tempo.
Ele já afirmou que após os 70 anos (e, nascido em 1942, portanto
está quase lá) ninguém produz nada que preste. Então pode-se ler o
seguinte nas págs. 108-109 do novo livro:
“o que pensará minha mãe nesta altura, aposto que não há há espaço
nela para pensar (…) e no entanto suponho que gorjeios, risinhos,
uma palavra feita pedido de esmola ao telefone
Por quê?
porque o mundo não se incomoda com a gente senhora (…)
Por quê?
numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja
quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é seu
testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu
último livro, o que amarele por aí quando não existires…”
Como se sabe, nesta última década, talvez premido pelo “prazo” que
decretou com suas declarações sempre um tanto dogmáticas, ele se
lançou a uma tarefa ciclópica, quase assustadora (parece até que ele
é um pactário, um Adrian Leverkühn), de lançar um após o outro uma
série de livros “totais”, de uma amplidão que não deixa margem a
dúvidas sobre quem é o maior nome da ficção em língua portuguesa dos
nossos dias. Assim tivemos depois de Eu hei-de amar uma pedra
(2004): Ontem não te vi em Babilónia (2006), Meu nome é
Legião (2007) e O arquipélago da insónia (2008).
E agora mais um tour-de-force. A Alfaguara tem optado por manter a
grafia de Portugal nas suas edições de Lobo Antunes, como outras
editoras que estão fazendo o mesmo com seus lançamentos de autores
lusitanos, entretanto não será essa a maior dificuldade do leitor
que não está acostumado à sua linguagem peculiar, seus parágrafos
que começam com letra minúscula (como se acompanhássemos um fluxo
que não começa nem acaba) e se interrompem, os inúmeros parênteses
que se abrem, as frases-refrões que surgem e ressurgem na boca dos
mais diversos narradores, os fatos que parecem muito concretos e
realistas e depois se tornam irreais e fantasmáticos… Na minha
opinião, a obra dele é tanto um projeto modernista, no sentido de
buscar a totalidade (como fizeram Joyce, Proust, Mann, Faulkner,
Guimarães Rosa, Hermann Broch), quanto um projeto pós-modernista, no
sentido de sombrear essa totalidade com seus escombros (o projeto
modernista de Musil, que ficou inacabado, gigantesco fragmento, os
autores pós-Beckett, que não acreditam mais em enredo, em
personagens, no próprio real…
Ainda assim, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?,
por incrível que pareça, é mais fácil de ler que os anteriores (em
O arquipélago da insónia, o efeito emaranhado era acentuado
pela perspectiva de um autista), com uma tessitura de fatos menos
intrincada: acompanhamos os últimos momentos de vida da matriarca da
decadente família Marques, e os depoimentos dos parentes mais
próximos (e uma empregada fiel, ainda que desprezada, Mercília),
especialmente dos filhos Francisco, Beatriz, Ana e João (há uma irmã
que morreu, Rita, e um outro sobre o qual ninguém fala): Francisco
está roubando dos outros herdeiros os restos que conseguiu salvar da
bancarrota; Beatriz é que nos dá a imagem de potência e plenitude
que justifica o título (e que é retomada e/ou posta em dúvida pelos
demais); Ana é viciada; e João é a vergonha da família, devido ao
homossexualismo (na verdade, ele seria mais um pedófilo, caçando
menininhos num parque) e ao fato de ter AIDS.
Por mais histórias do gênero que já tenham sido escritas, poucas
terão a visceralidade e radicalidade dessa investigação dos miasmas
familiares que compõem nossa individualidade, essa “estranha idéia”
que “viaja pela nossa carne”, como Drummond (autor muito importante
para Lobo Antunes) tão bem colocou.
A leitura às vezes é exasperante, sobretudo porque, assim como
Faulkner, nos vemos aprisionados numa visão de mundo em que o tempo
como sucessão é anulado: o passado e o presente estão ali juntos,
num círculo vicioso de impotência e paralisia. Não sou eu que o
digo, é o próprio autor, veja-se outro trecho de Eu hei-de amar
uma pedra, talvez sua obra maior: “pensando em como estas coisas
se pegam a um homem, teimam, ficam tal como o passado continua a
acontecer em simultâneo com o presente”. Mas mesmo quem recusar essa
visão fatalística não poderá negar: Lobo Antunes é um narrador
incomparável.
Alfredo Monte
Blog do Alfredo Monte
26.01.2010
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Ana
Cristina Leonardo
A book a day keeps the doctor away
Disse António Lobo Antunes, em entrevista ao “Diário de Notícias”
(14/02/2009), que este livro iria “dar um trabalhão à crítica”. E
depois precisou que “queria fazer um romance à maneira clássica, que
destruísse todos os romances feitos desse modo”.
Se era esse o objectivo de Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra
no Mar? o escritor falhou o alvo. Embora também possamos tomar as
declarações acima por conta de uma boutade. Sem mais. Eu, pelo
menos, prefiro entendê-las assim. E guardar apenas a parte do
“romance à maneira clássica”: porque esta é a narrativa mais
formalmente conservadora das últimas que António Lobo Antunes vem
produzindo.
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? – título que retoma
um verso de uma cantiga popular de Natal, conforme crónica publicada
na “Visão” de 25/01/2008 –, narra a história de uma família
ribatejana em processo de decadência acelerado: a mãe “vai morrer às
seis horas”. O pai, viciado no jogo, já faleceu, há uma criada
velha, Mercília, misto de Cassandra e Gata Borralheira carcomida
pelo reumático e pela vida madrasta, e há os filhos. Beatriz,
abandonada pelos homens e amada pelo pai; Rita, levada
prematuramente por um cancro; Ana, consumida pelo pó que injecta nas
veias; João, que gosta de rapazes e é o preferido da mãe; Francisco,
possuído pelo ódio e aguardando a vingança inscrita nos livros das
contas; e o bastardo, aquele cujo nome nunca se pronuncia e que não
se mostra às visitas.
Cada uma das personagens (incluindo os mortos e os quase mortos...)
fala em momentos distintos e sequenciais, cosidos entre si de acordo
com a estrutura de uma corrida de touros: “Antes da Corrida”,
“Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A
Faena”, “A Sorte Suprema”, “Depois da Corrida”. Por vezes
atropelam-se e o autor atropela-os a todos.
A morte, e o prenúncio de morte, atravessa o romance do princípio ao
fim, mas é sobretudo a memória que importa. Uma memória quase sempre
terrível que funda a identidade de cada uma das vozes, todas,
afinal, apenas uma, unidas pela impossibilidade de regressar à “paz
da infância” (se paz houve).
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? chega, porém, como
qualquer texto que se preze de possuir aquele “je ne sais quoi” que
o eleva ao literário, em camadas. Podemos lê-lo, por exemplo, como
um retrato realista de um Portugal marialva e decadente. Nesse
sentido, é bem o espelho de um Ribatejo amoral, prenhe de matriarcas
dominadoras, homens ausentes, pobres hereditários e corridas
anacrónicas, que se acrescenta à visão do Alentejo ensaiada em O
Arquipélago da Insónia. Podemos também, pondo de lado a geografia
(quanto mais particular, mais universal...), lê-lo como uma viagem
por paisagens interiores, espelho de infâncias de abandono, vidas
falhadas e crueldades em cadeia. Finalmente (entendendo-se aqui o
advérbio de modo retórico), como um exercício limite onde, apesar da
estrutura “clássica”, o autor se exibe, omnipresente, borrando
assumidamente a pintura de um romance à superfície polifónico e perspectivista (forma que Durrell levaria ao paroxismo n’
O Quarteto
de Alexandria), mas no qual, de facto, se visa mais a “unidade
essencial do mundo” do que a sua “pluralidade” (e arrisco que
António Lobo Antunes estará mais perto do "uno" do que do "plural").
E é aqui, no território desta terceira possibilidade de leitura, que
me parece que o escritor do extraordinário O Meu Nome É Legião mais
surge enfraquecido, acontecendo-lhe precisamente aquilo que critica
a Nabokov: estamos sempre a vê-lo a ele atrás do livro e não havia
necessidade.
Ana Cristina Leonardo
Expresso /
Meditação na Pastelaria
11.10.2009
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António Bettencourt
«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»
A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem
Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória
do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua
infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a
passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir
da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de
uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e
manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou
inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no
delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da
carência que dela decorre.
Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas
vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram,
muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou
objectos.
As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras
variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana
narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes
mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à
escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.
Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e
nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua
dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente
recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a
um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de
sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte
que se anuncia,
“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir
do escuro desaparecemos para sempre.”
António Bettencourt
Novas Oportunidades a Ler + Compensa
29.01.2010
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Carla Ribeiro
São irmãos e a mãe está às portas da morte. Esta é a história deles,
do passado e do presente, das memórias, das emoções, dos amores e dos
ódios. Pequenas e grandes coisas, rasgos de emotividade e crueldade,
silêncios e palavras. E, neste livro, cada um deles tem voz, desde o que
pretende roubar tudo aos irmãos, à que tem um rosto estranho e, por
isso, não tem ninguém.
Este foi o meu primeiro encontro com a escrita de António Lobo Antunes e
devo confessar que também uma das opiniões mais difíceis de transmitir
em palavras. A escrita do autor tem um estilo muito próprio, como se
divagasse pelos sentimentos e memórias das personagens, transcrevendo-as
à medida que surgem, por vezes aleatoriamente. O lado positivo deste
aspecto é a visão clara e quase palpável do que se passa na mente das
personagens. O negativo é que a história fica, a maior parte das vezes,
perdida entre as divagações e reflexões, tornando este livro numa obra
difícil de acompanhar.
Sabendo de antemão que a escrita deste autor é do género que desperta
ódios e paixões, foi-me, contudo, difícil estabelecer uma opinião clara.
Se, por um lado, a forma como a narrativa se desenrola, de forma
fragmentária e envolvida pelas múltiplas camadas dos pensamentos dos
protagonistas, torna difícil compreender em pleno o livro e acaba por se
tornar, por vezes, um exercício de esforço, existem, ao longo do texto,
vários momentos e metáforas de impacto, deixando a vaga sensação de que
estamos perante uma imagem que perturba na sua soberba construção.
O que dizer, pois, deste livro? Num balanço final, foi uma leitura que
apreciei, de que tirei momentos muito bons e que me deixou com
suficiente curiosidade para ler outras obras do autor. Não o
recomendaria, contudo, a todos os leitores, já que o seu estilo
particular é, como parece ser a opinião geral, tão capaz de conquistar
como de afastar de si o leitor.
Carla Ribeiro
As Leituras do Corvo
12.12.2009
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Filipa Melo
Arena de fantasmas
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo
primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária
publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete
partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um
curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A
estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de
varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos
partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro
(afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim
anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a
hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor
que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes,
afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os
leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do
caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintáticas,
monólogos entrecortados e discordantes, inserções parentéticas e
descontinuidades tipográficas, nós, os leitores fiéis, como um
cônjuge num matrimónio assimétrico e desgastado por reminiscências e
redundâncias, a desesperar pela surpresa da pontuação numa narrativa
linear, de algo que ainda justifique o esforço e a atenção
desmedidas. Uma personagem diz: «se me calar acabo». E outra, nas
últimas linhas do romance: «e mal as vozes se calarem levanto-me e
regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que
regresso.» O dia do romance é um chuvoso domingo de Páscoa, final do
jejum, e não haverá outro, como na Ressurreição.
Situe-se: Há uma quinta no Ribatejo, com gado, azinheiras e cavalos
e um empregado que é filho bastardo do patrão e de quem ninguém na
Família pode dizer o nome («Nasci assim sou sozinho»; podia dizer
como o escritor um dia, «sinto uma enorme orfandade porque a minha
origem não me interessa e as pessoas de que gosto pertencem a outra
classe que me olha com desconfiança»). Há a casa de Lisboa e, nela,
prevê-se que às seis da tarde, morrerá a Senhora Maria José Marques
(tem 66 anos, quase 67, como o autor enquanto termina o livro), aos
cuidados da criada velha, Mercília («um passo de lagosta e avental e
bengalas», «o nariz dos Marques», a pobre esperança de ternura para
todos). Enquanto se aguarda a morte da Mãe, falam todas as
personagens do livro, incluindo as já encerradas nos álbuns de
retratos (o Pai, jogou a fortuna na roleta do Casino; a filha Rita,
«sorria para a lua», morreu de cancro), mas sobretudo os filhos
vivos: Beatriz (a única colocada pelo pai na garupa do cavalo,
envergonhou a família, «num estacionamento frente ao mar contando as
ondas e as luzes dos barcos»), Francisco (nasceu «para ser cruel»,
«roeu os ossos da família», quer a carne que resta), Ana («tão
feia», «a filha que se droga», «o que sobra de nós quando não
existimos») e João («queria ser menina é verdade», resta-lhe «o
parque à noite e os rapazes à espera», «escolhendo o mais novo, o
mais pequeno, o mais parecido comigo», e «a doença a doença a
doença» - a Sida, não o cancro, que corrói tantos no livro).
Desta vez, Portugal é uma referência breve: «isto é um país de
cachorros, tudo ladra senhores». O tempo é o das memórias de cada
personagem (afinal, o do autor?), tempo perdido, o da infância, da
«gaveta dos mortos», do relógio (o escritor a revelar, numa crónica
de 2003: «Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô [doente de
cancro, suicidou-se com um tiro na cabeça]. É uma ferradura vertical
[…] No topo da ferradura uma cabeça de cavalo»). O tema mais
explícito serve de epicentro da obra desde o primeiro romance (Memória
de Elefante, 1979): a relação entre os pais e os filhos (já se
verá, será também a relação entre o autor e as suas personagens,
como a entre Deus, o Filho e os homens?). O livro, esclareceu o
escritor em crónica de 2008, nasceu do título, «que cavalos são
aqueles que fazem sombra no mar», verso de uma modinha de Natal do
século XIX, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar.
Procure-se nele a explicação dos pássaros para o voo ambiciosíssimo
deste romance.
A surpresa vem da presença manifesta do autor no texto, referido e
interpelado pelas personagens como «António Lobo Antunes» ou «o que
escreve». A criação, «o livro» como faena de confissões e memórias,
é obra a que o autor força as personagens («se tento parar numa
esperança de resposta o que faz o livro esporeia») até à revolta
final (continuam a falar as personagens: «sou uma pessoa, não uma
invenção nem uma marioneta, vocês que lerem isto respeitem-me»,
«chegando ao final deste capítulo evaporo-me», «que maçada de relato
me impingiram»). E uma delas diz: «Continua vivo que teima».
Confunde-se a voz autoral com a de cada personagem («este é um
romance de espectros, quem o escreve por mim», «as vozes do meu
medo»). E há momentos de striptease do processo de escrita: «como me
aborrece o que escrevo», «como me perturba o que escrevo», «se o
António Lobo Antunes batesse isto no computador carregava em teclas
ao acaso, não importa quais, até ao fim da página (…) com vontade de
encostar por seu turno a cara a mim [Mercília], tapar os ouvidos,
não continuar o livro», «não me apetece escrever o que falta», «(lá
estou com conversas a passear na página)», «se reescrevesse o
episódio […] mudava a prosa toda», «(comprovem se já mencionei a
quinta, mal acabo uma página roubam-na)».
Expliquem-se os cavalos, as sombras e o mar, simbólicos. Os cavalos
conotados com Eros, o desejo e a pulsão erótica, reprimida, castrada
na existência de todas as personagens. Cavalos a correr com o freio
nos dentes e sobre o mar, o símbolo da consciência profunda de si
mesmo, a infância de tudo, exposta, escancarada por todos no
«livro». E «que livro é este senhores onde perguntas sem fim»? O
filho e irmão bastardo, enquanto todos aguardam uma morte, entra por
fim na casa paterna. O romance é, como todos os outros do autor,
alimentado pela sua memória do eu, um longo monólogo interior
transferido para as personagens que ele não cala nunca, maior o medo
de um dia não as manipular. Ao contrário de Pessoa, que projecta
outros para fora de si, com biografia e existência próprias às quais
se submete, os outros de Lobo Antunes são todos introspectivos,
introversos, são reflexos-sombras que morrem sem ele. Não é o país
que se autopsia na página; é ele, autocomplacente, mas suicida, o
escritor-médico que envelhece escrevendo, autopsiando-se em vida, ne
varietur, com revisão filológica.
A última linha de O Esplendor de Portugal (1997) repete-se,
reafirma-se em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?:
«Finis Laus Deo» (chegamos ao fim, um louvor a Deus). E podia ser,
finis coronat opus (o fim coroa a obra), se como o poeta, Lobo
Antunes deixasse todos no seu «regresso a mim» (Pessoa). Mas este
homem, o escritor, escreve contra as sombras (o silêncio), contra a
morte. Assim: «podia terminar neste parágrafo e não termino,
prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto
mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem
se importam comigo, um senhor na mercearia em que mal se repara e se
perde em seguida sem fazer sombra em parte alguma / — Que senhor é
aquele que não faz sombra em parte alguma?»
Filipa Melo
em
Coração Duplo
28.01.2010
(crítica publicada na
revista Ler de Outubro 2009)
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H. G. Cancela
Comecemos pelo fim: a um dado nível, nada do que neste texto se
possa produzir enquanto discurso afecta, ou sequer toca, o discurso
do livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?1.
É-lhe exterior e posterior. Poderia, quando muito, condicionar
prospectiva ou retrospectivamente a experiência do leitor. Esta
exterioridade da análise face ao seu objecto é condição de
possibilidade da crítica, mas ao mesmo tempo marca os seus limites.
Quando se trata de António Lobo Antunes, entramos num nível
acrescido desta relação de exterioridade: pelo efeito cumulativo da
sedimentação, boa parte da sua obra já está, de facto, numa relação
de exterioridade face à crítica. Isto revela-se na postura do autor,
mas sobretudo no regime de constituição interior dos seus textos, os
quais parecem subtrair-se à possibilidade de crítica, através da
invalidação daquilo que seria condição de questionamento dos mesmos.
O intenso trabalho sobre a linguagem desenvolvido por Lobo Antunes
tende a subverter os critérios básicos de abordagem crítica do
romance.
Comecemos, pois, pelo fim: a constatação dos limites da crítica e a
constatação das condições de possibilidade da obra. Os seus limites,
precisamente:
«(…) é o silêncio no interior das ondas e as vozes que me
acompanham desde sempre e mal as vozes se calarem levanto-me e
regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que
regresso.»
2
O silêncio enunciado no final do romance é aqui condição da casa, ou
seja, das palavras. Este regresso a casa, ao espaço definido pelo
uso da língua, constitui a matriz do constante reenvio para o mesmo
dos últimos livros do autor. Apesar da espessura vivencial que
constrói os seus atormentados personagens (embora muitas vezes estes
se afigurem mais tipos do que pessoas - neste livro, temos o
latifundiário viciado em jogo, o pedófilo, a toxicodependente, a
criada, etc.), os romances mais recentes Lobo Antunes são em
primeiro lugar exercícios de estilo, ou, no mínimo, exercícios de
linguagem. Todas as obras maiores de literatura o são: a escrita
interroga a escrita no processo de se constituir como literatura.
Mas a reflexividade crítica da linguagem não pode, sob pena de não
se afirmar como experiência apreensível do exterior, abismar-se na
estrita auto-reflexividade. É em parte isso que acontece neste
livro, um livro que reflecte a degradação, comum a outras obras do
autor, das estritas condições de actualização dos textos. O que está
em causa não é o maior ou menor grau de dificuldade da escrita, mas
a possibilidade da transponibilidade das representações propostas
para a experiência subjectiva do leitor:
«e por conseguinte como se acaba um capítulo, estou no corredor a
caminho do quarto e a chuva mais forte, amanhã um tijolo a faltar na
chaminé e os toiros sob as azinheiras num cacho infeliz, podia
terminar este parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem
impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu
mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo (….)»
3
Fruto de um trabalho sobre a linguagem desenvolvido ao longo dos
anos, António Lobo Antunes tem-se vindo a aproximar perigosamente da
escrita automática. Ora, esta, sabemos, tende a reproduzir o
lugar-comum, mais do que a produzir a diferença. E é reprodução do
lugar-comum de uma fórmula de escrita que, ainda que extremamente
personalizada, encontramos num livro como Que cavalos São Aqueles
Que Fazem Sombra No Mar?. Podemos dizer que os traços
definidores desta escrita são genericamente a desconstrução da
estrutura narrativa, o perspectivismo intensamente subjectivizado,
um registo de consciência de matriz oralizante (fortemente marcado
pelo infinitivo), e a repetição.
A desconstrução da estrutura narrativa age nos livros posteriores a
O Esplendor de Portugal pela multiplicação, interpenetração
ou sobreposição de distintos momentos, assim como pela adopção de
modelos de desenvolvimento diegético em espiral (identificáveis
mesmo numa obra com esta, que tem como estrutura cronológica os
diferentes momentos de uma corrida de touros de tradição espanhola):
«aflita com a maldade da noite e no estacionamento sobre as ondas
um automóvel às escuras, ela a desejar que os cavalos fizessem
sombra no mar rasurando o passado e a senhora não
— Que é isto?
A exibir-lhe as nódoas da roupa, não consigo contar as coisas por
ordem dado que as misturo em mim, ao atravessarem certas zonas da
minha cabeça perco-as e ao recuperá-las alteram-se, devo ter
envelhecido e partes minhas defuntas que a vida gastou, ao escutar
(…)»
4
A desconstrução da estrutura narrativa age igualmente pela entrega
da condução da narrativa ao olhar participante dos protagonistas, um
olhar intensamente subjectivizado. Este perspectivismo não consiste
apenas na subordinação da narrativa àquilo que é susceptível de ser
percepcionado pelo narrador participante, trata-se, sim, de tentar
transpor para o texto a subjectividade do olhar. Subordinado à
própria subjectividade, o discurso é retalhado por omissões, falhas
de congruência lógica ou subversão das regras sintácticas.
Acumula-se, assim, uma dupla indefinição. Dado que a linguagem não é
aqui é um lugar de objectivação da percepção, mas espaço de
constituição da própria subjectividade, e dado que a leitura exige a
duplicação dessa subjectividade pela subjectividade do leitor, não
há verdadeiramente possibilidade de um olhar exterior. Aqui nasce a
sensação de sufoco que acompanha a leitura destes textos.
A poetização da prosa acrescenta um último nível de indeterminação,
pela introdução de elementos imagéticos que colocam a relação de
recepção no espaço indeterminado (e por isso, tão cheio de
potencialidades como exposto à irrelevância) da reconstrução
subjectiva de uma imagética surrealizante:
«com o seu
— Tu
repentino, deixe-me em sossego mãe e no canto do cérebro que
permanece alerta um divagar de sílabas, o que acontecerá aos seus
vestidos a escorregarem das cruzetas, aos seus frascos de perfume,
aos seus santinhos, o que me acontecerá a mim não mencionando
envelhecer, é claro, ou seja os degraus conquistados um a um e o
piano do coração aos trambolhões na escada rasgando cordas de veias
(…)»
5
A produção de um romance (como qualquer outra obra de arte) implica,
por parte do escritor, a definição de condicionamentos prévios da
experiência potencial do leitor, e exige, por parte deste, a
implícita aceitação desses condicionamentos. Isto deveria implicar o
que poderemos designar como uma relação de equidade no interior da
constituinte relação de assimetria entre o autor e os leitores. A
consciência desta assimetria deve impedir que a leitura seja
entendida como uma duplicação do acto de escrita ou como uma
reconstrução hermenêutica da obra. Naturalmente que a leitura é
parte de um processo de constituição da obra. Face a um texto, há
coisas que o autor sabe e o leitor desconhece e há coisas que o
leitor lê e o autor não pode antecipar, enquanto traduzem o
cruzamento da experiência proposta (o livro) com a experiência
subjectiva do leitor — uma experiência múltipla e não susceptível de
ser predefinida na sua diversidade. A experiência do leitor não é
antecipável, mas é exigível que o autor forneça de modo
efectivamente acessível as condições de actualização das obras.
Começámos pelo fim, regressemos ao princípio. Este é um livro em que
o autor se dá voz e espaço no interior da própria narrativa. A
ameaça do silêncio é, antes do mais, a ameaça que paira sobre
próprio autor:
«e que maçada ter de escrever este livro, dava de boa vontade o
meu lugar a outro, falem por mim, tomem, enquanto procuro
aperceber-me do silêncio porque tanto ruído na minha cabeça, passos
para onde e de quem e sobretudo o mecanismo da vida que não pára de
andar (…)»
6
Ou em outro momento:
«numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que
sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é o teu
testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu
último livro, o que amarelece por aí quando não existires (…)»
7
Mas há uma forma de silêncio que subsiste mesmo no interior da
aparência de palavra, de discurso, ou de literatura, é o silêncio da
impossibilidade do movimento mínimo de apreensão congruente da
palavra e do discurso do outro. É o silêncio que resulta de exigir
como condição de apreensão a duplicação da experiência do sujeito da
enunciação. Este é um silêncio que, de um modo reflexo, ameaça
tornar irrelevante aquele que fala, ameaça deixá-lo a falar sozinho.
Talvez António Lobo Antunes já esteja a falar sozinho, a escrever
para ninguém.
[1] António Lobo Antunes, Que
cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, Publicações Dom
Quixote, 2009.
[2] Idem, 375.
[3] Idem, 116.
[4] Idem, 157.
[5] Idem, 21.
[6] Idem, 192.
[7] Idem, 123.
H. G. Cancela
contra mundum
15.10.2009
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Helena Vasconcelos
Estocada final
Seria irónica (in)justiça poética que o ruído criado em torno da
personalidade do autor distraia o leitor do ritmo ardente das
palavras e da tragédia que estas convocam.
Uma terra quente de toiros e mantilhas, pó e moscas, perdizes e
abelhas, com cavalos entre roseiras e azinheiras, um espaço aberto e
solar, propício a desmandos e paixões, mas no qual se encravam casas
sombrias de longos corredores, portas fechadas e salas a abarrotar
de móveis e objectos que se impõem na escuridão, lugares onde se
encerram pessoas, as quais, por sua vez, vivem enclausuradas em si
próprias, vítimas voluntárias ou involuntárias da velhice, das
febres, da demência, da doença, da mentira, de vícios, de traições e
de segredos. Nesta cosmogonia caótica, as mulheres, os filhos(as), a
criadagem, os animais, todos os mundos - o animal, o vegetal e o
mineral - pertencem ao pai e senhor, um facto perfeitamente
entendido pelos empregados que "não se enganavam nos garraios,
recitavam de cor as famílias, as descendências, os laços...
(pág.16). Aqui, neste "Que Cavalos são Aqueles que Fazem Sombra no
Mar ?", como no resto da obra de Lobo Antunes, cada um ocupa o seu
lugar e tem direito a um quinhão do território geográfico, moral e
afectivo onde se desenrolam as comédias e os dramas que o autor
redesenha indefinidamente numa espiral vertiginosa cada vez mais
intricada. Mas desengane-se o leitor que procura apenas "mais um
Lobo Antunes", uma vez que este romance, passado entre Lisboa e o
Ribatejo, embora retome as histórias familiares e os lugares
habituais do escritor, tem, contudo, a particularidade de se centrar
num único tema, que é a Morte, criteriosa, insistente e cruel que se
atarda na sua aproximação, nos seus sinais, na sua chegada e nas
suas devastadoras consequências, e domina imperiosamente as
personagens que se debatem em vão contra as longas doenças, a penosa
velhice, a catastrófica perda de faculdades e o esvair das forças.
Não é por acaso que a narrativa é marcada por capítulos que remetem
para os momentos da tourada - "antes da corrida", "os tércios de
capote, de varas e de bandarilhas", "a faena", "a sorte suprema" e
"depois da corrida" - com a sua estocada final, violenta e
misericordiosa. O terror do toiro antes da lide, esse medo animal e
antiquíssimo, surge como leitmotiv. Tal como os estados
crepusculares que antecedem o fim - da vida, do dia, do amor -,
enfatizados por imagens recorrentes como "a tristeza da casa às três
da tarde", "a sombra que os cavalos fazem no mar", a escuridão dos
arbustos no Parque Eduardo VII, o porco pestes a ser rasgado de cima
abaixo, o cão a ser atropelado e um rol de cenas em que a violência,
a humilhação e o exercício do poder sobre os mais fracos (dos homens
sobre as mulheres, das mulheres sobre os homens, das mulheres sobre
as mulheres, dos homens sobre os homens, das mães e pais sobre os
filhos, dos filhos sobre os pais e irmãos, dos seres humanos sobre
os animais) completam ciclos de força, fecundidade e morte,
simbolizados pelo sentido ritual da tourada.
É este o universo de uma família, feita de pedaços desconexos, que
se entrega ao amor e ao ódio em igual proporção: o pai, um marialva
amante de mulheres, jogo e corridas que "desarruma o passado"; a
mãe, terrível Héstia, fria, sem amor, sem medo e sem remorso; os
filhos, Beatriz, abandonada por dois maridos, que toma conta da mãe,
Francisco, o mal amado e desprezado, de índole gananciosa e violenta
que se sente imbuído de um espírito justiceiro em relação aos
irmãos, os quais, segundo ele, delapidaram os bens paternos, Ana que
gasta o dinheiro em drogas e João que prefere despendê-lo em
rapazinhos. E há Marcília, a figura da eterna criada, sem irmãos nem
(aparentemente) família que priva estreitamente com todos e é dona
de todos os segredos, como uma pitonisa tão cruel quanto piedosa,
tão humilde quanto altiva, tão serva quanto senhora. Aqui, como na
vida, o mundo é feito de desordem e de abalos, e todas estas vozes,
que falam incessantemente com uma intensidade maníaca, parecem
acossadas por uma tal urgência de contar que é difícil não as
"colar" ao próprio autor. Tal como no conto tradicional em que uma
menina calça os proibidos sapatos vermelhos e é impelida a dançar
até à morte, também Lobo Antunes parece sofrer dessa compulsão,
desse desejo extenuante - no seu caso, o objecto mágico é a caneta -
que o obriga a escrever palavras atrás de palavras, qual oráculo em
tempo de catástrofe.
Funcionando como um todo auto-significante, este romance pode ser
abordado da mesma forma como se "lê" um tríptico de Bosh ou uma cena
de Brueghel, uma vez que Lobo Antunes constrói uma teia intrincada e
cerrada feita de pensamentos, palavras e olhares (perspectivas) de
um grupo de pessoas situadas num espaço que se alarga e contrai, num
movimento entre o passado e o presente, entre o imaginado e o real.
A construção da narrativa deve muito a Virgínia Woolf em "As Ondas",
com as diversas vozes solitárias e desesperadas a funcionarem em
polifonia, à medida que revelam factos e exploram os conceitos da
individualidade, do "eu" e da comunidade, formando, no entanto, a "gestalt"
de uma consciência colectiva escondida e silenciosa.
É ainda em Woolf, e em especial no conto "Uma Casa Assombrada", que
é possível detectar os antepassados destas personagens
fantasmagóricas, que passam de quarto em quarto empurradas pelo
vento, as mãos vazias, perante espelhos que não lhes devolvem
qualquer imagem. Lobo Antunes vai ainda buscar a Tchekov a obsessão
pelos detalhes e pela descrição de objectos - os lustres, os boiões
de compota, os números da roleta, o verniz das unhas, etc., etc., -
bem como a tendência para alternar acontecimentos triviais com
grandes temas - em mudanças bruscas de ritmo e de humor - no intuito
de criar a sua própria e muito particular "comédia humana".
A convivência de Lobo Antunes com a morte confere-lhe uma autoridade
hierática que ele exerce construindo um "panteão" feito de palavras
impregnadas por um sopro divino e com um tom profético a que não
deve ser alheia uma leitura atenta dos livros do Antigo Testamento,
em especial o Eclesiastes. O facto da edição ser ne varietur, por
ordem expressa do escritor, confere-lhe esse carácter de "texto
sagrado", não passível de ser tocado ou alterado. Seria uma irónica
(in)justiça poética que o ruído criado em torno da personalidade de
Lobo Antunes - para o qual o autor contribui com bastante afã -
abafe o verdadeiro sentido deste livro e distraia o leitor do
magnífico ritmo ardente das palavras e da tragédia que estas
convocam. É verdade que Lobo Antunes parece estar preso no seu
labirinto sem ver a utilidade do fio de Ariane, embrenhando-se cada
vez mais numa busca que desdenha a hipótese de uma saída. Aqui, o
desabafo final "Finis Laus Deo" parece querer traduzir um grande
alívio, o descarregar de um pesado fardo. Resta saber para onde se
dirigirá Lobo Antunes "quando tudo arde" depois de destruir todas as
pontes atrás de si.
por Helena Vasconcelos
suplemento
Ípsilon
(Público)
21.10.2009
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Helder Sousa
Este novo livro retrata uma família em decadência, proprietária de
uma quinta no Ribatejo onde se criam cavalos. Assim se pode resumir este
livro que segundo as palavras do autor “queria fazer um romance à
maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo”.
Se destrói ou não, parece-me um pouco prematuro dizer, mas podemos
afirmar ser um clássico, se tivermos em conta a sua obra literária. Logo
nas primeiras páginas podemos perceber que as personagens não nomeadas,
facto que ajuda a leitura e compreensão da narrativa. Temos a Beatriz, a
filha que engravida e vê-se obrigada a casar, o Francisco, o futuro
herdeiro da “fortuna” da família, o João, que vai ao encontro de
criancinhas no Parque Eduardo VII, a Ana, que se vê desaparecer ao sabor
das seringas, a Rita, que morre prematuramente de cancro, a mãe que se
encontra em situação terminal, o pai, viciado na roleta onde vai
apostando a sua fortuna incessantemente no número 17 e a empregada
Mercília, conhecedora dos segredos da família. Para o fim do livro é-nos
dado a conhecer um novo personagem, um filho bastardo que é escondido de
toda a gente cujo nome não chega a ser revelado.
Neste livro as vozes destas personagens vão surgindo ao longo dos
capítulos divididos em 7 partes: “Antes da Corrida”, “Tércio de Capote”,
“Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena”, “A Sorte
Suprema”, “Depois da Corrida”, cuja estrutura corresponde a uma corrida
de toiros. Por entre estas vozes surge de vez em quando o autor narrador
que se intromete pelo meio como que a mostrar-se presente, sugerindo não
ser ele que de facto escreve mas as vozes que o anjo lhe dita. Da mesma
forma que as próprias personagens a certa altura não sabem se são reais
ou meramente fantoches manuseados pelo autor narrador. Parece que cada
vez mais nos revela o seu processo de escrita, mostra-nos os erros, as
contradições, as suas anotações, expõem-nos as suas próprias dúvidas.
Não trata o leitor por estúpido e ao apresentar-se desta forma
mostra-nos a nós próprios, os nossos diálogos interiores com a
consciência, a dada altura nós somos as próprias personagens. Assim como
Beckett construía a partir do nada, do corpo vazio, a escrita de Lobo
Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer
nele. Deixa-nos um vazio cá dentro que nos impede de continuar a leitura
até conseguirmos nos encontrar de novo. Retrata-nos nos momentos de
solidão, de silêncio, do escuro, a vida no seu estado puro. Mente,
brinca e leva-nos ao sabor das palavras.
por Helder Sousa
em
Deixa para amanhã
16.10.2009
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José Alexandre Ramos
Folheando o ar com a boca sem encontrar a página em que se
respira - sobre
uma primeira leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No
Mar?, de António Lobo Antunes
Uma mulher enferma está a morrer e os seus quatro filhos estão com
ela nestes últimos momentos. É domingo de Páscoa, chove, tudo parece
começar às três horas da tarde – e o quão são tristes as casas a
essa hora –, ou é a corrida de toiros que principia a essa hora e
todos esperam a sorte suprema – não percebo nada de
corridas de toiros nem me interessam, só estou a seguir o que o
livro sugere – que, sendo a morte do toiro, é também a morte da mãe
do Francisco, sedento de afectos como todos os irmãos, e que (por
essa razão) vem reclamar para si o que sobeja de um património
arrasado pelo vício do jogo do pai (já falecido antes), obcecado com
a ideia do 17 nas roletas dos casinos; da mãe da Beatriz abandonada
pelo marido com quem casou por lhe ter dado a virgindade dentro de
um carro em frente ao mar que a persegue com os cavalos que lhe
fazem sombra; da mãe do João que vai procurar a infância perdida nos
rapazinhos que se prostituem entre a sombras dos arbustos de um
parque público; da mãe da Ana rebelde, a mais feia dos irmãos,
ressacando da sua dependência da droga que um homem lha vende num
baldio junto ao Tejo; e da Rita, a contemplativa, a sonhadora,
vítima prematura de um cancro e que está presente – como o pai – na
voz dos restantes. E a ajudar, Mercília, a criada ou governanta da
família, que vimos a saber que afinal é meia-irmã da que morre
agora, mas nunca reconhecida como tal (como um meio-irmão, filho
bastardo do pai, cuja existência se sente incómoda nas personagens e
que só é assumida no final do livro).
Podíamos dizer que o livro é isto, mas não é tão
simples assim, e tal não é novidade alguma quando estamos a abordar um livro
escrito por António Lobo Antunes. São personagens e ingredientes que dariam para
escrever qualquer livro ou um argumento de um filme se quiséssemos, mas o
resultado nunca seria o que este livro é. Que Cavalos São Aqueles Que Fazem
Sombra No Mar? tem uma estrutura semelhante a livros anteriores a Boa
Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, e seguindo o esquema das corridas de toiros:
antes da corrida, tércio de capote, tércio de varas, tércio de bandarilhas, a
faena, a sorte suprema e depois da corrida. Cada tércio bem como a faena e a
sorte suprema estão divididos em quatro capítulos, e o antes e depois da corrida
são como o prólogo e o epílogo. Em cada capítulo uma voz, a voz que depois se
multiplica à medida que os fantasmas assomam e com esses espectros conhecemos
outras tantas personagens que o livro contém – também nada de novo feito pela
mão deste escritor. Do modo como está divido, em que até parece que existe um
fio narrativo progredindo à medida que se aproxima a hora da morte da mãe (da
mesma forma que se vão completando as partes da corrida até à morte do toiro), é
um livro cuja leitura aparenta ser mais fácil seguir que os seus antecessores
recentes. Porém, não quer dizer isto que seja um livro fácil, no sentido de
ficar aquém na complexidade narrativa dos livros anteriores, pelo contrário, a
condução das vozes (ou da voz unificadora) é aqui ainda mais complicada uma vez
que António, o escritor, intervém de um modo mais assumido como uma das
personagens do livro, que pode criar alguma confusão no leitor incauto, já que
esta personagem-escritor surge no meio da voz das outras personagens. De
modo mais assumido que em outros livros, mas ainda não uma personagem directa:
as verdadeiras personagens indicam e dirigem-se a “o que escreve o livro”, o
nome António Lobo Antunes aparece em alguns momentos, e deparamos com um jogo
discursivo em que umas vezes é o escritor que quer dominar as vozes das
personagens, noutras são as próprias que lhe negam esse poder.
É então na progressão da corrida de toiros que as
personagens desenvolvem uma narrativa estilhaçada, sem história como António
Lobo Antunes sempre preteriu, antes um labirinto de vivências de uma família que
ao morrer a mãe acaba ela também estilhaçada, cujos factores dessa desintegração
já a vinha desmoronando à medida que os filhos se tornavam adultos,
identificando no passado e nas suas infâncias os pontos fracos dos alicerces da
família. Aliás, a pretensa história que tanto queremos todos saber qual é e que
nunca existe, só se desvenda depois de terminarmos a leitura, uma vez que é com
as pontas soltas dadas pelas vozes das personagens que falam e que vão pegando
nos restos que as outras deixam, que vamos conhecendo a infelicidade de Beatriz
e as sombras dos cavalos no mar, o porquê de Francisco reclamar só para si a
herança dos bens da família, das razões porque Ana se droga, se afinal João é um
pedófilo ou um homem perdido na sua infância, como e porquê o pai arruína a
fortuna no jogo, qual afinal o papel de Mercília, o alheamento da filha Rita
falecida precocemente, o aparecimento de um filho bastardo que os irmãos evitam
de falar, os cavalos, os toiros, a quinta, a casa em Lisboa, a pensão onde iam
passar férias, etc.
Não poderei dizer, se quiser concordar com o
autor, que este é o seu melhor livro. Porém as minhas razões particulares como
leitor pouco interessam para qualificar o romance de melhor, pior ou igual em
relação aos anteriores, muito menos quando se trata de uma primeira leitura. É
que a cada novo livro, a releitura torna-se ainda mais um factor importante para
compreender o que António Lobo Antunes escreve nestes seus livros. Não me
agradou, no princípio, a frequência com que repete as frases “como é triste
esta casa às três horas da tarde” e “que cavalos são aqueles que fazem
sombra no mar”, único factor negativo que encontrei na minha leitura. Mas,
como sempre senti nos outros livros, é uma sala de espelhos em que nos olhamos
distorcidos, umas vezes reconhecendo-nos, outras tentando não o fazer. E se é
uma sala de espelhos, também o interpreto como o espelho da memória em que o
escritor se vem mirando: sinto que há neste livro muito mais autobiografia –
rudimentar e camuflada, evidentemente.
Para finalizar: se conseguirmos entrar dentro do
livro de tal forma como se estivéssemos a assistir ao que se diz em tempo real,
então vamos entendê-lo. Senão, e como disse o escritor em entrevista, se o
leitor fizer surf por cima das páginas, vai conseguir lê-lo com mais ou
menos dificuldade, mas sem nunca saber o que vai lá dentro. É preciso estar
devidamente preparado e atento, porque se o leitor considerar que é como ler um
qualquer livro vai, citando uma frase do romance, folheando o ar com a boca
sem encontrar a página em que se respira.
José Alexandre Ramos
17.10.2009
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Maria
Celeste Pereira
“Estou sentada não no carro com o meu marido,
sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, a
ver as luzes dos barcos. Não ficou bem, recomeça. Estou sentada não no carro com
o meu marido, sozinha num dos degraus que conduzem à praia do estacionamento
frente ao mar, sem ver as luzes dos barcos. Outra vez, corrigindo a partir de
frente ao mar. Estou sentada não no carro com o meu marido, sozinha num dos
degraus que conduzem à praia do estacionamento frente ao mar, mais a ouvir que
olhando e não são as ondas que oiço, é o que mora no interior das ondas e as….”
Assim começa o último capítulo do último livro de António Lobo Antunes. E, aqui
chegada, é já com alguma saudade que me vou despedindo de todo um suceder de
afectos, ou da sua falta, através dos quais as personagens nos vão levando ora
hesitantemente, ora sem dúvidas, fortemente, com raiva mesmo, até desvendarmos a
história que o autor nos quer transmitir. Ou será aquela que queremos entender?
Provavelmente um pouco de ambas…
Um pouco ao jeito do que li anteriormente (Meu nome é Legião), Também aqui as
personagens se identificam pelos seus sentires, os seus desamores mais do que
amores, as suas mínguas de carinho, as suas existências amarguradas, todas elas.
Algumas quase que apagadas; existindo apenas porque tinham que existir, pelo seu
propósito na família, mas não existido de facto, não se sentindo o seu ser.
Então, vamos paulatina e inexoravelmente, assistindo à decadência de uma família
ribatejana, em que os cavalos e os toiros são (foram) a sua riqueza e o jogo, a
droga, a pedofilia, a doença, a sua ruína.
Devo dizer que estava com uma curiosidade extrema e uma impaciência em relação à
leitura deste romance do autor que não me lembro de ter tido com nenhum outro.
Devido, sem dúvida, a algumas das afirmações feitas pelo autor nas entrevistas
que deu; a algumas críticas que fui lendo entretanto e, sobretudo pelo misto de
vontade e de receio que tinha em verificar se seria desta que o autor me iria
desiludir…
Nem um pouco! Devo dizer que foi dos seus livros (dos que li, claro), se não o
que mais apreciei, sem dúvida ficará no topo juntamente com o que li
anteriormente, já referido.
O tipo de escrita que utiliza é, do meu ponto de vista, aquele a que já nos
acostumou. A.L.A. consegue subverter a forma da linguagem convencional e
torná-la, verdadeiramente, numa arte Maior. Só um trabalho intenso, persistente
e acurado consegue um resultado final deste quilate. Um trabalho de mestre, sem
dúvida, mas desprovido do hermetismo que o tornaria incompreensível.
Que me recorde (e admito que a memória me esteja a falhar) é o primeiro livro
que leio do autor no qual ele próprio se dá voz como António Lobo Antunes, sem
qualquer margem para dúvida. Também acontece de as personagens interagirem com
ele sentindo-se compelidas a dizer (ou não dizer) algo a mando do autor.
Interessante, também, esta interacção.
Um aspecto muito falado relativo à construção deste romance foi a utilização
muitas vezes mesmo de sobretudo duas frases que, em jeito de estribilho, vão
percorrendo todo o livro. Era também um dos aspectos que eu receava não gostar.
Contudo, tão bem me soube lê-las de todas as vezes que surgiram e que oportuno o
seu aparecimento me pareceu sempre. Mais um aspecto de pendor poético a juntar a
todos os outros que o autor nos oferece…
Para terminar, dado que não me compete a mim contar a história, apenas aqui
quero deixar a impressão que o livro me causou, digo apenas:
Mais um livro que li com imenso agrado. Mais uma saudade que me ficou. Mais uma
quantidade de momentos bem passados que eu recomendo.
Maria Celeste Pereira
Ponto de Cruz
02.11.2009
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Paulo Neto
Para um começo da leitura de
Que Cavalos São
Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
Boa pergunta, embora a
posteriori saibamos ser verso de toadilha de infância.
O título do último livro
de António Lobo Antunes.
Os cavalos, a sombra e o
mar.
Uma família ribatejana.
A mãe que aguarda a morte
à hora marcada, um pai finado, marialva também dado ao jogo e os filhos: 3
raparigas e outros tantos rapazes.
Todos com sua cruz.
Ana é toxicodependente.
Rita que um cancro matou.
Beatriz que os homens
deixam para trás.
João é pederasta.
Francisco consome-se em
ódio.
O bastardo que é
invisível.
Mas… o que me ocorreu de
imediato foi a isotopia da morte.
Não inúsita, em LA.
Pelo contrário, desde
sempre de atalaia.
E o desde sempre remete
para há 30 anos, aquando da saída de “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”.
Mas aqui, a morte
mistura-se com a “Fiesta”.
E esta lembra E. Hemingway,
aquele que não exorcizou a morte, embora a tentasse desalmadamente.
E onde está a “fiesta”?
Na organização do romance.
Senão vejamos:
Um curto capítulo
introdutório:
- antes da corrida.
Quatro capítulos em
sequência:
- tércio de capote.
- tércio de varas.
- tércio de bandarilhas.
- a faena.
Todos eles se dividindo em
quatro subcapítulos, assim como o antepenúltimo:
- a sorte suprema.
Fecha como abre, com um
curto capítulo de conclusão:
- depois da corrida.
Assim, entre um antes e um
depois, desenrola-se a lide espanhola.
E chegando a Espanha,
chegamos a Frederico Garcia Lorca.
E a um dos meus títulos
preferidos, da morte do “matador”:
Llanto por Ignacio
Sanchez Mejia
Que se divide assim:
-
La cogida y la muerte.
-
La sangre derramada.
-
Cuerpo presente.
-
Alma ausente.
Estes quatro momentos
fundem-se no verso:
“Estamos com un cuerpo
presente que se esfuma…”
Ainda assim, no momento 1,
lemos:
“lo demás era muerte y
solo muerte”
No momento 2, lemos:
“la luna de par en par.
Caballo de nubes
quietas…”
No momento 3, lemos:
“Yo quiero ver aqui los
hombres de voz dura.
Los que que doman
caballos y dominam los rios…”
No momento 4, lemos:
“No te conoce el toro
ni la figura,
Ni caballos ni hormigas
de tua casa.”
E, perante tanta
recorrência, da morte, dos cavalos, dos rios, e da (tua)
casa, temos enunciado o microcosmos da diegese deste romance de LA.
Ou então, neste imenso
mosaico de Kristeva, onde todos os textos se interpelam, a intertextualidade
coincidiu com rigor.
Este seria o primeiro
passo, passo pioneiro no enfoque, para ler esta obra.
Sempre, um ponto de
partida.
Ou mais um ponto de
partida, de entre as infindáveis visões dos plurais leitores.
Aqui vo-lo deixo.
Nesta teia há sempre, pelo
menos, duas pontas.
Enrolai esta no indicador
direito e ide à cata de mais pontas…
Paulo Neto
enviado por e-mail
06.12.2009
Brevitas
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