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Que
Farei Quando Tudo Arde?, 2001
2 artigos
por
- Fabrício Vieira
- Pedro
Fabrício Vieira
O
rito da palavra em Que Farei Quando Tudo Arde?
Após 19
romances publicados, com todas as particularidades que os caracterizam,
soa ao menos estranho abordar a obra do escritor português António Lobo
Antunes sob a perspectiva de gêneros literários. Apesar de ser um
romancista, reconhecido e aclamado como tal, Antunes, com seu trabalho
literário, opera um deslizamento que abala radicalmente os limites que
demarcam prosa e poesia. O próprio autor busca pontuar esse fato ao
afirmar repetidamente em entrevistas que não faz mais romances, nem
conta histórias: sua pretensão é a de colocar a vida entre as capas de
um livro.
Esse
deslizamento poético tem se acentuado a cada livro, atingindo talvez seu
momento mais representativo em um período que vai de O Esplendor de
Portugal, de 1997, a Que Farei Quando Tudo Arde?, lançado em
2001. Nesse curto intervalo, Antunes trouxe a público também
Exortação aos Crocodilos e Não Entres Tão Depressa Nessa Noite
Escura que, não por acaso, recebeu como subtítulo a palavra “Poema”.
Além da aguda exploração de vozes e tempos, que fazem da obra antuniana
um campo de criação plurivocal e policrônica singular, o autor tem
buscado uma sintaxe e uma prosódia muito particulares, marcadas por
traços como a descontinuidade frásica, as interrupções em itálico e as
intromissões parentéticas.
Um
exemplo expressivo dessa fase antuniana é exatamente Que Farei Quando
Tudo Arde?. Dividido em 32 capítulos não numerados e não nomeados
(todos se chamam apenas “capítulo”), Que Farei Quando Tudo Arde?
tem em seu núcleo fabular a história de um homem (Carlos) que abandona
mulher (Judite) e filho (Paulo) para se travestir em Soraia. Essa cisão
no eixo familiar se opera de forma traumática: Judite, que nunca
compreenderá ou aceitará o que ocorreu, se tornará alcoólatra e perderá
a guarda do filho. Paulo, viciado em heroína, não cortará os laços com
Carlos-Soraia, mas passará a vida tentando responder à questão: quem é o
meu pai? Carlos-Soraia se casará com um jovem rapaz (Rui) e fará shows
em boates até que a decadência o alcance. Por sua vez, Rui, também um
viciado, como Paulo, se suicidará na praia pouco depois da morte de
Carlos-Soraia.
Se o
livro se restringisse apenas ao desenvolvimento desse núcleo fabular,
provavelmente não teríamos muito mais que um melodrama contemporâneo.
Talvez por isso Antunes não permita que seus livros, ao menos em sua
edição ne varietur que a editora portuguesa Dom Quixote tem
publicado, tenham nem orelha, nem introdução, nem resumos de
contracapa.
Se
fôssemos nos preocupar apenas com a “história” deste livro, seria
importante considerarmos que Antunes leu nos jornais o caso de um
travesti português que morreu e deixou um filho de um casamento que teve
antes de se transformar. Além disso, havia seu jovem marido que foi
encontrado morto na praia. Temos aí a história de Que Farei Quando
Tudo Arde?. Mas que importa de fato saber isso? Está aí por acaso a
chave para se penetrar nessa obra? A força da obra de Lobo Antunes,
aquilo que faz dela algo excepcional e que aponta para sua permanência
dentro da literatura, está em outro lugar. A autonomia de seu texto
literário em relação ao mundo real, seu não-reflexo da existência como a
conhecemos, não pode ser deixada em segundo plano.
O início
de Que Farei Quando Tudo Arde? é conduzido pela voz de Paulo, que
afirma:
Tinha a
certeza que sonhara aquele sonho na véspera ou antevéspera
na
véspera
e por
isso mesmo, sem acordar, pensava
- Não
merece a pena preocupar-me já conheço isto
desinteressado de episódios que sabia falsos
- Estou a
dormir (ANTUNES, p.11)
Talvez,
como esse próprio começo do livro indica, sua poética pertença muito
mais à banda do sonho. Uma poética do devanear, na qual as palavras
pulsam e iluminam novos mundos.
No jogo
literário conduzido por Lobo Antunes, certas constantes poéticas podem
ser detectadas e destacadas. A estudiosa Maria Alzira Seixo avalia que a
“qualidade poética” da obra de Antunes se manifesta de vários modos,
como “no encadeamento verbal do discurso, na capacidade imagística
demonstrada, em situações de uma particular emoção nas quais a expressão
se detém para a sugerir em vez de explicitar”. A esses traços,
agregaríamos o cuidadoso tratamento rítmico e a musicalidade daí
decorrente.
Na
poética antuniana, desossar a palavra para reconfigurá-la, tanto em sua
relação com outras palavras e com seus possíveis referentes quanto com o
espaço da página, se mostra um ponto essencial. Pensar no rito da
palavra, em seu poder de encantamento, pode ser uma via de acesso
atrativa para se aproximar da obra desse escritor.
Passemos
ao caso da personagem Judite. Essa mulher abandonada, que vive
mergulhada em uma atmosfera de permanente embriaguez, nunca encontrará o
conforto perdido. Como em uma ópera, na qual certo tema se associa a tal
personagem e sempre que tocado faz com que o ouvinte dirija sua atenção
a esse ponto, Judite será anunciada e marcada por um leitmotiv: Por
quê Carlos?. Essa interrogação é feita por Judite quando Carlos
sinaliza o fim do casamento e surgirá repetidamente por toda a obra, de
forma muitas vezes aparentemente aleatória, como se a expressão
circundasse o livro para às vezes mergulhar nele, sempre dentro (ou em
torno) da fala de outras personagens. A expressão vai resgatar esse
momento chave em que Carlos anuncia que a família não poderá mais seguir
estruturada daquela forma. A primeira vez que Por quê Carlos?
surge é no começo de Que Farei Quando Tudo Arde?, na página 31. A última
vez, ocorrerá na página 481. Em sua primeira aparição, a expressão virá
dentro da fala de Paulo e remontará aos momentos de crise que levariam à
ruptura da família, em sua infância. Paulo ressalta o retorno obsessivo
da interrogação da mãe, que ecoa por tempos e lugares distantes já de
sua emissão original:
“Quando
eu era pequeno instalava-me cá fora, perto dos cavalos e do mar de modo
que as ondas lhes apagavam as vozes no interior da casa, (...) a minha
mãe a perguntar num sopro que os pinheiros levavam (...)
- Por quê
Carlos?
e o
- Por quê
Carlos?
não na
sala, de árvore em árvore de mistura com as nódoas de luz na camura, e a
pergunta da minha mãe sem a minha mãe
- Por quê
Carlos?
a mesma
pergunta ainda hoje
ainda
ontem
ainda
hoje no hospital ao comprido dos plátanos, olhava-se os troncos e a
pergunta em cada ramo, as sílabas claras, (...)
ontem
hoje,
disse hoje
- Não se
entendem com o tempo
- Por quê
Carlos? (ANTUNES, p.31)
O bailar
de Por quê Carlos?, conduzido num sopro pelas folhagens das
árvores infinitamente, marca uma dúvida que nunca poderá ser respondida,
pois, afinal, Carlos morrerá. Judite não só nunca compreendeu, como
nunca aceitou a forma como seu casamento (esse rito que deveria
representar a entrada em um estágio de equilíbrio e gozo) se dissolveu.
O Por
quê Carlos? assume nova forma em cada um de seus diversos retornos,
reconfigurando-se e ampliando o alcance de sua significação. Mais do que
uma indagação a Carlos, a frase se desloca para o questionamento da
própria vida, com suas injustiças e limitações de um possível ser feliz.
Também pode se estender a uma interrogação aos deuses e suas provações
muitas vezes cruéis. Por quê Carlos tinha de entrar na vida de Judite se
o que traria a ela era apenas sofrimento? Por quê não a deseja? Por quê
Carlos tinha de abandonar a família? Por quê tinha de se tornar
travesti? Por quê Carlos não podia dar uma chance para Judite tentar
encontrar a felicidade? Por quê a vida era tão injusta? Por quê os
deuses a abandonaram em sua miséria? Por quê tudo tem de arder?
Na fala
de Carlos-Soraia, a indagação de Judite também surgirá, tal qual eco de
um passado, permeado por angústias e incertezas que o tomavam quando
ainda casado, que não se apaga:
“(...) um
desejo culpado, vontade de fugir, aquilo que me obrigava a diminuir no
colchão e a minha mulher:
- Por quê
Carlos?
o desenho
das pernas a mudar no lençol, a voz que insistia afligindo-me mais
- Por quê
Carlos?
e o eco a
tremer dentro de mim tal como eu tremia Judite (...)
enquanto
os pinheiros
não os
pinheiros, outra coisa, um eco que se desvanecia, vinha, repetia por quê
Carlos
- Por quê
Carlos? (ANTUNES, p.133)
A
pulsação dessas palavras, que costumam ser dispostas sozinhas no
parágrafo como forma de serem destacadas, faz com que a dúvida
primordial de Judite se revitalize a cada retorno. Nesse trabalho
coreográfico com a palavra, o autor cria uma das imagens mais fortes do
livro. Por quê Carlos? assume a função de refrão, mas um refrão
que se desloca de uma forma imprevista (afinal, não sabemos quando
surgirá novamente) e que tem uma certa independência do resto do texto
podendo, assim, reaparecer a qualquer momento.
Curiosamente, na voz da própria Judite, quando a ela é dada a palavra, o
Por quê Carlos? praticamente desaparece e quando surge é para ser
colocado em xeque. Judite questiona se o Por quê Carlos? não é
uma criação dos devaneios de seu filho:
(...) o
meu filho julga que com o meu marido eu
- Carlos
eu
-Por quê
Carlos?
e com o
meu marido eu sozinha também (...)
para quê
ouvi-lo? (ANTUNES, p.251)
A
repetição de palavras, frases e imagens, como fica explícito nas
passagens acima citadas, é um recurso muito utilizado por Antunes, que
consegue com isso criar ritmos e cadências que vitalizam a musicalidade
do texto. Esse processo poético, tão característico de sua escritura,
detectável não apenas nos romances, mas também nas crônicas e mesmo nas
poucas poesias a que se pode ter acesso, tem um papel de destaque na
estruturação rítmica de seus textos. Entendemos que a acentuação desses
dois pontos (repetição-ritmo) está muito ligada ao fazer poético ou,
mais propriamente, à poesia. Lembramos que no entendimento do crítico e
poeta mexicano Octávio Paz, “a criação poética consiste, em boa parte,
na voluntária utilização do ritmo como agente de sedução”. E Antunes tem
se mostrado mestre em se utilizar dessa máxima de Paz. De forma mais
ampla, temos também a incessante iteração de motivos que perpassam seus
livros, como plantas, aves, cães, além de elementos aquáticos (rios,
mar, chuva), que criam uma intertextualidade que nos conduz por sua
obra. Se Antunes não faz continuações de seus livros, nem resgata
personagens, ele utiliza-se da repetição de certos tópicos e imagens
para fomentar um diálogo intra-obra (diálogo esse que se estende também
por suas crônicas).
Como as
ondas na praia que Paulo observa quando, ainda criança, sai de casa e se
senta na porteira enquanto seus pais discutem, o vaivém da palavra
poética de Lobo Antunes – mais intensa aqui, um pouco menos acolá, mas
sempre constante – nos convida a vagar mar adentro. Dessa forma, não
hesitamos em afirmar: António Lobo Antunes, poeta.
Fabrício Vieira
enviado por email em
25.09.2008
topo
Pedro
O espaço
exterior deixa de ser apenas uma imagem inerte, transformando-se num poço de
sentimentos, um passado e um presente de relações inter-pessoais, de
sofrimento e de felicidade. Os vários elementos que compõem os lugares vão
sendo descritos separadamente, sobrepondo-se ao longo do livro até construir
uma imagem por inteiro. Lobo Antunes volta ao passado e ao mesmo local muitas
vezes ao longo da narrativa, chegando a um auge onde deixa de ser necessário
referir o nome do sítio ou da pessoa, dando apenas um elemento da paisagem
para que o leitor perceba onde a personagem está e consequentemente o que
sente (um
elemento da paisagem transforma-se na sua totalidade),
"e as
gaivotas
não é verdade, detestava-las e no entanto não esqueceste as
gaivotas,
a forma como devoravam o peixe, esses gritos de criança à tarde",
para quê mais palavras? porque dizer eu odiava o meu pai Travesti, a minha mãe
Puta, o degredo da minha vida associada aos meus progenitores, se posso dizer
"odiava as gaivotas do Bico da Areia!".
Neste livro o "Cá Dentro" aparece como oposição ao "Lá Fora", o Interior,
lugar de opressão e sofrimento, o Exterior, como fuga da tristeza,
"Julgávamos que se
tinha ido embora e as notazinhas a mofarem da gente, o Rui a suspender a guita
e veia alguma, uma constelação de feridinhas, atira-lhe uma pedra Paulo, um
bocado de tijolo, um torrão, uma merda qualquer que o bicho dá-me cabo dos
nervos, o meu quarto nos Anjos a seguir ao quarto da finada,. quase todas as
noites despertava cuidando escutá-la, sentava-me na cama a ouvir até me dar
conta que era a dona Helena e no dia seguinte rosas novas na jarra, compradas
no mercado mais a carne, os tomates, o oregão, não escarlates, quase rosas,
procurar os guaches e pintá-las de azul, pintar o sol na parede e as nuvens e
as ondas, não as ondas do Bico da Areia, ondas a sério, grandes,
quantas vezes ao tornar de Chelas dava com a dona Helena no sofá e o senhor
Couceiro a segurar-lhe a mão e como não sou capaz de fazer as coisas de
maneira diferente magoá-los por me preocupar com eles, enfurecer-me por os
magoar e castigar-me magoando-os mais";
" - Queres apanhar um
tabefe não queres malcriada?
um cão invisível no quintal
antes do nosso..."
Pedro
em
Paisagir
29.03.2006
topo
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