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Segundo
Livro de Crónicas, 2002
3 artigos
por
- Ángel Basanta
- Gisela
Alina Pena
- Jason Manuel
Carreiro
Ángel Basanta
Segundo libro de crónicas
Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo
Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das
últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro
de Crónicas].
Na sequência do primeiro, também esta segunda
compilação é composta por artigos que o escritor tem vindo a escrever na
imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes
ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da
literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho
íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes
romances como O Esplendor de Portugal, Exortação aos Crocodilos
e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um
elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor
que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o
homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.
O livro tem 78 crónicas que compõem uma
autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão
escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão
ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito
anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre
o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações
sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde
em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no
fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões.
Entre outros, destacam-se "Receita para me lerem" e "Assobiar no
escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das
suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção
na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da
literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o
leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao
encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do
espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado
dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as
narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma
mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92
[109 e 110 na 1ª edição portuguesa]
).
Mas a literatura, como criação do autor e a sua
recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema
e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A
memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com
a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo
exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por
inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida
(como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa
com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor
e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor
fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e
frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as
nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.
por Ángel Basanta
em
El Cultural
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
topo
Gisela Alina Pena
Receita para me lerem: o
Segundo Livro de Crónicas
de Lobo Antunes
A produção literária de Lobo Antunes parece
demarcar-se do conceito clássico de narração, para convocar uma “aparente”
desconstrução genealógica, em relação ao cânone literário. Uma tendência para
a reconversão dos géneros literários, que pode ser o reflexo de uma
contingência histórico-cultural e ideológica, possibilitada pelo Portugal do
século XX, o Portugal contemporâneo de Lobo Antunes, o Portugal
pós-revolucionário, abatido por um profundíssimo mal-estar social e
civilizacional e, por isso, redimensionado pelo olhar subversivo do escritor,
convocando, desde 1979, a aflição de um mundo sem sentido, de fronteiras
físicas e mentais desumanizadas.
A perplexidade instaurada por esse olhar passa,
sobretudo, pela fuga, na cena literária, ao constrangimento da censura pidesca e
pela inauguração de um mundo de liberdade, traduzido com palavras em liberdade.
Os códigos da vida social e a sua elaboração pela ficção de Lobo Antunes sugerem
uma escrita que parece estar longe de ser um produto ligeiro, comparativamente
ao romance, por responder a imperativos de sobrevivência “alimentar”,
enunciativos e pragmáticos: o curto alcance do texto, limitado na sua extensão,
a consciência das expectativas de um público de jornal e a sua periodicidade
quinzenal. Adivinha-se a irrisão do cronista, sentado no seu lugar de cúmplice
disfarçado, face a uma concepção ingénua, menor e lateral da sua inserção
cronística. É na crónica, pela sua brevidade, concisão e fluidez temática,
suportada, no entanto, por uma estrutura fortemente elaborada e pensada, o lugar
onde questiona o que de mais profundo conforma a condição humana e esclarece o
que é a sua arte literária.
A experiência da crónica, na escrita de Lobo
Antunes, apesar de recente, adivinha-se ser um marco importante no percurso
ficcional traçado pelo autor. É possível encontrar três grandes momentos na sua
obra literária enunciados pelo próprio em 1994, numa entrevista a Rodrigues da
Silva: “Os livros que escrevi agrupam-se em três ciclos. Um primeiro de
aprendizagem, com Memórias de Elefante, Os Cus de Judas e
Conhecimento do Inferno; um segundo, o das epopeias, com Explicações dos
Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados e As Naus,
em que o país é a personagem principal; o terceiro, Tratados das Paixões da
Alma, A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel,
uma mistura dos dois ciclos anteriores, e a que eu chamaria de a “Trilogia de
Benfica”.
A crónica assume-se como um universo de expressão
narrativa, com uma geografia e uma latitude reduzidas, mas tensamente alinhavada
e, por isso, acolhida no lugar de género, porque a logística subjectiva e
discursiva prepara, ensaia e prolonga a ficção. Lobo Antunes escreve o projecto
da dinâmica do fragmento. O fragmento parece ser “a categoria literária”.
As crónicas instauram o poético claro-escuro da
vida, o relato que vira a alma do avesso e faz tremer por dentro pelo poder da
memória, obrigando-nos a percorrer os recônditos espaços do passado e da
intimidade, numa busca pela restauração de uma tranquilidade e de uma identidade
perseguidas. Com ternura e amargura, atravessamos o mundo de pequenos heróis e
de episódios de vivência pessoal e infantil. Memórias despoletadas pela
nostalgia de um passado perdido, motivações, fragmentos que desencadeiam imagens
irremediavelmente penduradas no tempo e em nós também. Ouve-se uma Angola feliz,
na viagem introspectiva que convoca para o seu discurso, e os seus espaços e as
suas pessoas e os seus lugares, mas, sobretudo, a dor da perda dos outros e de
si. Às narrativas empresta o tom de desabafo lírico, decorrente da sua
perturbação emotiva, da sua recordação pessoal e do registo subjectivo que
percorre transversalmente os textos.
“Proíbo que me tirem radiografias para que as
árvores de África não apareçam a tremer na película”, (Antunes, 2002: 217).
Procedimentos discursivos e temáticos recorrentes percorrem as suas crónicas: a
expressão memorial de um lugar tensamente sentido, dir-se-ia Angola, elemento
temático que contamina a memória do narrador; o eco de uma gargalhada feliz da
criança ausente, cuja vibração provoca batimentos de percussão ensurdecedora no
narrador que a escuta, instalado no lugar de adulto onde agora se encontra,
revendo o outro que foi no seu espaço de crescimento, “No nosso sangue existem
mais ausências do que glóbulos. E uma análise à velocidade de sedimentação
mostrará tudo em suspenso.”, (Antunes, 2002: 217); a expressão da subjectividade
do narrador no discurso de memória e auto – biográfico, como a memória invocada
pelo universo da família, da casa, da baixa de Benfica, da profissão de médico,
da condição de escritor, da experiência militar, da relação com as filhas, das
pessoas, mas igualmente da dor da perda dos outros e de si. Tudo atravessado
pela aguda frustração de uma nostalgia pelo tempo passado e perdido, pelas
pessoas que insistem em não ficar, pela vida que ensina tarde demais.
“As pessoas de quem gostámos e partiram amputam-nos
cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por
dentro.”, (Antunes, 2002: 217). Uma imagem belíssima, carregada de lirismo
confessional, que veicula a angústia profunda e aguda da memória do outro que
dolorosamente perdeu. Dele, criança. Da infância, de um tempo em que a
existência faz sentido, de um tempo de ordem, de inocência e de paz: “Fomos tão
poucos dantes!”, (Antunes, 2002: 218). À deriva, num presente asfixiante, tem
sede de inocência e nostalgia do universo familiar protegido, até porque a
consciência dolorosa da perda ainda não se configurava. Só os outros morriam e
“eles” pareciam eternos: “Esqueceste-te das estátuas com o nome das estações, do
roseiral? Das pestanas transparentes dos porcos? Do mês de Junho em que tudo era
verde, nítido, claro? De trazeres pilhas de livros para o jardim? De como te
chamavas nesse tempo? Que António eras tu? Dos versinhos que escrevias? De ires
ser escritor? Tão fácil ser escritor não é verdade? Tão fácil respirar.”
(Antunes, 2002: 218). Mais difícil é experimentar e suportar a
incomensurabilidade do tempo, da morte que não se compreende, porque parece não
se aceitar, de pedaços de memória que ficam suspensos, cristalizando o eixo da
vida, prolongando o sofrimento que ela causa, adensando o impacto emotivo nele
próprio e no leitor que toma conhecimento dela por esse meio.
O narrador e a maioria das personagens das crónicas
desfilam num mundo desumanizado, numa sociedade e numa época claramente marcadas
pelos sentimentos empedernidos que dificultam e limitam os relacionamentos,
mergulhados que estão num autismo atroador e de frustração aguda: os pequenos
heróis, a memória do pai, da mãe e dos avós, das figuras míticas que povoam o
espaço interior do narrador, Angola, as marcas sociais do universo da família,
da casa e do bairro de Benfica, a criança que foi outro e a memória nostálgica
desse fragmento.
Na crónicas, convoca a introspecção e obriga ao
confronto com situações, pessoas, lugares, sentidos e emoções, de tal forma
próximos e familiares, que nunca questionados por nós, na maior parte dos casos.
Respiramo-los inconscientemente e, de súbito, dá-se a revelação. Por isso,
projectamos, no reflexo das “páginas-espelho” das suas crónicas, sonhos e
catástrofes, desejos e recordações, o pulso que Lobo Antunes nos toma para
sentir o seu ritmo.
Regressamos da sua leitura já não os mesmos.
Anestesiados e endurecidos por uma sociedade que nos consome e desgasta, as
crónicas interrogam-nos já não sobre a vivência do narrador, mas sobre as
nossas. O “perigo” que a sua leitura pode constituir é o de vermos e ouvirmos
aquilo que nervosamente procuramos silenciar, porque dói. Somos nós mesmos que
ali estamos redimensionados. Será que procuramos essa verdade? Certamente.
“A verdadeira aventura que proponho é aquela em que
o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da
natureza humana”. (Antunes, 2002: 109). O leitor actualiza o acto da leitura a
partir do momento em que aceita a “chave” do texto e acompanha o narrador no
ímpeto do dizer a memória. O leitor torna-se leitor de si e o exercício da
memória, a literatura.
Nas crónicas, onde ensaia a metáfora das “páginas –
espelho”, denuncia as ligações complexas que o indivíduo instaura no seu
universo, problematiza a profunda dificuldade de apreensão e vivência do real e
da sua conversão em instituição literária. O esforço do leitor em juntar pedaços
de memória implica que, ao participar no desenvolvimento da narração da memória,
se constitua, também, como parte integrante da ficção e reconheça, ao mesmo
tempo, aquilo que em si existe de profundamente humano e paradoxal, fazendo-o
interrogar sobre aquilo que existe de tosco no seu quotidiano e acenando à
transfiguração plástica, através do bisturi que a sua “página-espelho”opera.
As crónicas de Lobo Antunes, citando Carlos Reis,
colocam-se naquele lugar de onde é possível ver, “diante dos nossos olhos, às
vezes tão cegos para a evidência das coisas, fluir esse mundo feito das
experiências do escritor e também das nossas vidas, mundo que transporta no seu
curso e na História colectiva, de que mal nos apercebemos, por dela estarmos tão
perto.” Desse lugar selecto, de onde se vê “um mundo matizado pela ternura de um
olhar dividido entre a lúcida consciência de si e a nostalgia de um tempo de
aniversários familiares em que era possível, diz Lobo Antunes, ser
indecentemente feliz.”
BIBLIOGRAFIA:
ANTUNES, António Lobo. (2002), Segundo Livro de
Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
CABRAL, Eunice, JORGE, Carlos e ZURBACH, Christine,
(2003), A Escrita e o Mundo em António Lobo Antunes, Actas do Colóquio
Internacional António Lobo Antunes da Universidade de Évora, Évora,
Publicações Dom Quixote.
REIS, Carlos, (1995), O Conhecimento da
Literatura, Introdução aos Estudos Literários, Coimbra, Almedina.
por Gisela Alina Pena
encontrado
aqui
topo
Jason Manuel Carreiro
A morte do autor e o nascimento do leitor:
um estudo da crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes (*)
Resumo
Neste estudo,
problematiza-se a relação entre a voz narrativa e a voz autoral na
crônica “Receita para me lerem”, de António Lobo Antunes, no intuito de
discutir a função estética de um texto literário compreendido como pura
exterioridade e as implicações de tal perspectiva na relação leitor –
obra.
Palavras-chave:
Autor; Narrador; Leitor; Estética; António Lobo Antunes.
I. Receita para me
lerem?
O titulo “Receita
para me lerem” (ANTUNES, 2002, p.109-11) pressupõe um texto preenchido
por domínios codificáveis no intuito de atingir uma fórmula pronta que
possa ser utilizada como ferramenta de leitura – afinal, uma receita é
indicação minuciosa sobre uma certa quantidade de ingredientes e a
maneira de prepará-los para atingir um resultado final.
Obviamente, a
crônica em questão não fornece estes domínios codificáveis com
facilidade – os textos de Lobo Antunes são construídos de modo a
impossibilitar a apreensão prévia de significantes e significados. O
texto do autor português possui uma direta relação com uma exterioridade
(assunto a que retornarei de modo mais detalhado adiante) de modo que
não há em “Receita para me lerem” o tal
conjunto de ingredientes que possam ser misturados com facilidade e
posteriormente digeridos:
(...) as
palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens,
situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para
conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é
aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do
inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto
aperceber-se-á apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes
dos livros: o país, a relação homem-mulher, o problema da identidade e
da procura dela, África e a brutalidade da exploração colonial, etc.
temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou
social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho.
(ANTUNES, 2002, p.109-10)
O narrador da
crônica (talvez possamos considerá-lo o escritor António Lobo Antunes,
presente de modo implícito) afirma na citação acima que os elementos que
dão a forma de seus romances são apenas “pretextos de superfície”
para conduzir a um “fundo avesso da alma”. Ora, se há um fundo avesso a
que o leitor possa ser conduzido, os “pretextos de superfície”, que
deveriam ser os ingredientes desta “Receita para me lerem”
não funcionam, afinal, segundo o narrador, esses elementos, que
são os “mais parcelares e menos importantes dos livros”, nada têm
a ver com seus livros. Se nada têm a ver, não pode haver então uma
“Receita para me lerem”. Pode haver, talvez,
uma “viagem ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana”, que
leitor e narrador devem percorrer juntos:
Disse em tempos que o
livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos:
reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois
somos. Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos
como quem regresse da caverna do que era. É a única salvação que
conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa.
(ANTUNES, 2002,
p.111, destaques meus)
Essa jornada em
companhia do narrador faz com que o leitor se apodere do texto, se sinta
parte dele, pura interioridade no exterior que é o texto:
“Peço-lhes que dêem por
ela, compreendam que vos pertence e, além de compreender que
vos pertence, é o que pode, no melhor dos casos, dar nexo à nossa vida”
(ANTUNES, 2002, p.111, destaques meus). Anton
Ehrenzweig (1977) diz que nossa mente observadora de superfície, por ter
à disposição apenas as estruturas formais (Gestalt) articuladas, é
incapaz de atingir as estruturas móveis e fluidas dissipadas nas camadas
profundas da mente. Porém, as funções estéticas formais (som, cores,
linguagem, etc.) podem permitir que a mente de superfície compreenda
esse “negrume do inconsciente, raiz da natureza humana”, caverna
do que éramos – mesmo que ele permaneça (e permanece) inatingível. Sua
função diante dessa inatingibilidade, então, é dar nexo à vida – a arte
como apaziguamento, consolo no angustiante percurso do homem em busca de
si mesmo. No melhor dos casos.
II. O texto como
exterioridade
Consideremos o
narrador da crônica em questão uma “representação literária” do desejo
do autor empírico – António Lobo Antunes – de falar acerca de seus
romances, de sua escrita, enfim. Vimos no tópico anterior que esta
escrita a que o narrador se refere é construída com elementos de
superfície (pre-textos) no intuito de conduzir o leitor (numa viagem
conjunta com o narrador) rumo a um negrume inatingível (inconsciente).
Mas se esse negrume é inatingível e permanentemente disforme, como é
possível percorrer um caminho em conjunto (narrador e leitor) se não há
um objetivo a ser atingido, um porto seguro a ser alcançado?
Partindo da
perspectiva postulada por Tatiana Levy (2003) de que, conforme o
pensamento de Maurice Blanchot, a arte se realiza na irrealização (ou
seja, faz-se necessária uma negação do real para construir uma
irrealidade fictícia), parece-me que o narrador da crônica compartilha
da perspectiva de que não há algo a ser atingido: o negrume permanecerá
negrume, mas há um caminho percorrido (no caso, o texto) que poderá (e
deverá) ser interpretado através das vozes e chaves que o constituem.
“A pessoa tem de
renunciar à sua própria chave aquela que todos temos para abrir a vida,
a nossa e a alheia e utilizar a chave que o texto lhe oferece”.
(ANTUNES, 2002, p.109)
Operando durante o
exercício da leitura com as chaves interpretativas espalhadas e por
vezes, escondidas ao longo do texto, o leitor se fará parte do fora, ou
no mínimo terá acesso à exterioridade que é o texto:
Fora é o próprio
espaço – mas um espaço sem lugar – da literatura. A experiência
literária constrói o Fora ela é o próprio Fora. E isso precisa
ficar claro desde já, pois o Fora não é o espaço onde a
literatura se constrói, mas a própria literatura.Em outras palavras,
literatura não é algo que se dê num espaço exterior ao mundo. Ela é
o Fora, esse não-lugar sem intimidade, sem um interior oculto,
onde o artista é aquele que perdeu o mundo e que também se perdeu, uma
vez que já não pode mais dizer Eu. (LEVY, 2003, p.29)
Note-se que a
postulação “sem um interior oculto” na citação confere total
autonomia e, porque não, liberdade ao texto, e remete diretamente ao
“negrume do inconsciente” de que trata o narrador, uma escuridão
interior oculta, que permanecerá oculta por se ausentar do texto devido
ao seu caráter hermético e inatingível.
Para além da
discussão acerca do gênero literário, a crônica, essa perspectiva
considerará a manifestação literária como uma exterioridade pura. Mas se
há nessa exterioridade um negrume que deixa de estar, (ele se ausenta na
exterioridade do texto) se há um lugar que se percorre e se presume
atingir, mas não se atinge jamais, no que consiste então o valor do ato
de ler? Vejamos.
O narrador
afirmará no início da crônica que se decepciona quando alguém lhe diz
que leu o seu livro. Ele nos informa que seus livros não são para
ser lidos conforme o sentido usual que se dá à leitura: “(...) a única
forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanha-los do mesmo
modo que se apanha uma doença”. (ANTUNES, 2002, p.109) Apanhar
essa exterioridade como doença remete à perspectiva Nietzsche /
deleuziana de que todo fenômeno se estabelece como um sintoma. Vânia
Azeredo (2002), ao explicar a busca nietzschiana pela origem do valor
dos valores (e Nietzsche remete à cultura Ocidental de modo geral) nos
diz que a possibilidade de interpretar e avaliar os sintomas (fenômenos)
somente será possível a partir do estabelecimento desse sintoma (para
ilustrar a referência, considero aqui o texto como doença que
desencadeará um sintoma no leitor) como um jogo de forças, de potência a
ser “apanhado” como doença (como afirma o narrador da crônica). É o
apanhamento da doença do texto que possibilitará o desencadeamento dos
sintomas (fenômenos), de modo que este desencadeamento é o fator que
possibilitará a escuta da voz do corpo, inebriado das forças do texto,
possibilitando então a viagem rumo ao negrume inatingível e ausente do
texto, porém, origem e fim da exterioridade enquanto processo criativo.
“Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de
restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo”. (ANTUNES,
2002, p.111) Tais restrições a que o narrador se refere na crônica podem
ser interpretados como a exigência de hierarquização, a ordenação, a
apoliniedade exigida pela tradição Ocidental - são restrições que negam
o obscuro, a maldade, a desordem, que querem calar o corpo, enfim.
III. Conclusão:
a morte do autor e o nascimento do leitor
Atingindo a
exterioridade do texto, apanhando esse “fora” como doença, dando voz ao
corpo e seus sintomas oriundos da “doença literária”, o narrador afirma
não ter nenhuma pretensão de fazer com que o leitor se consuma no
exercício que remete ao ermo profundo do ato da leitura, enquanto
perpassa vozes e dialoga com a cultura. Recomenda apenas que se faça o
caminho como num sonho:
Caminhem pelas
minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas
claridades e nas suas sombras, que se irão achando os significados do
romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de
claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a
viagem e fechado o livro convalesça. (ANTUNES, 2002, p.110)
Caminhando pela
dimensão onírica e convalescendo da doença apanhada, o leitor terá voz
entre as vozes do texto, mas vale ressaltar que o texto é para ser lido
e apanhado, e o leitor não será consumido neste exercício, mas ao mesmo
tempo, fará parte dele:
Exijo que o
leitor tenha uma voz entre as vozes do romance ou poema, ou visão, ou
outro nome que lhes apeteça dar a fim de poder ter assento no meio dos
demônios e dos anjos da terra. Outra abordagem do que escrevo é
limita-se a ser uma leitura, não uma iniciação ao ermo onde o
visitante terá a sua carne consumida na solidão e na alegria. Isto não
se tornará complicado se tomarem a obra como a tal doença que acima
referi: verão que regressam de vocês mesmos carregados de despojos.
(ANTUNES, 2002, p.110)
Esquivando-me da
pretensão de encerrar a questão proposta por Manuel Gusmão (1998) no
ensaio intitulado “Anonimato ou alterização?”, parece-me pertinente
considerar que a perspectiva proposta por Barthes, de que “(...) a morte
do autor paga-se com o nascimento do leitor” (BARTHES, 2004,
p.64)
indica realmente, como propõe o crítico português, um
processo de alterização, pois o nome do autor realmente acaba por “se
assinar” (conforme podemos notar na crônica estudada) dentro e fora do
texto. Afinal, em meio à miríade de vozes que clamam no percorrer do
texto, é a criação do autor e a leitura dessa manifestação artística que
constituem o processo que verdadeiramente importa: “Reparem como as
figuras que povoam o que digo não são descritas e quase não possuem
relevo: é que se trata de vocês mesmos”. (ANTUNES, 2002, p.111)
Conforme Barthes
(2004), podemos concluir que um texto é feito de escrituras múltiplas,
diversas chaves culturais que se parodiam, se contestam, dialogam. E o
local de encontro dessa multiplicidade não está no autor, conforme o
narrador da crônica “Receita para me lerem”
postula. Este local está no leitor, que é o alguém a quem se destina a
escritura, é esse alguém que deve abandonar a faculdade de julgar em
proveito da luminosidade inerente ao texto que passará a lhe pertencer
para, na melhor das hipóteses, dar nexo à sua vida de leitor e auxiliar
no apaziguamento da dor de sua existência.
Abstract
This paper
studies the relation between the narrative and authorship voices in
António Lobo Antunes’s chronicle “Receita para me lerem”, with the
purpose of discussing the aesthetic function of a literary text
considered as pure exteriority, as well as the implications of that
perspective in the relation between reader and literature.
Key words:
Author; Narrator; Reader; Aesthetics; António Lobo Antunes.
Referências
ANTUNES, António Lobo. Receita para me lerem. In: Segundo
livro de crónicas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002. p.109-11.
AZEREDO, Vânia Dutra de. Bom e mau, bom e ruim. In: Nietzsche
e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso Editorial / Editora
UNIJUÍ, 2000. p.47-90.
BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O rumor da língua.
São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.
EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma
introdução à teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1977.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: Estética: literatura e
pintura, música e cinema. (Col. Ditos e escritos III) Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2001. p.264-98.
GUSMÃO, Manuel. Anonimato ou alterização? Revista Semear, Rio de
Janeiro, nº.4, Abr/1998. Disponível em http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/4sem_18.html
Acesso em 06 jun. 2003.
LEVY,
Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e
Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS
GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC
Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de trabalhos
científicos, teses, dissertações e monografias. Belo Horizonte, 2004.
Disponível em
http://www.pucminas.br/biblioteca/normalização_monografias.pdf
por Jason Manuel Carreiro
Escritor, graduado em
Filosofia, mestre em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas.
O Esvaziar
das Núvens
e-mail de 05.06.2008
topo
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