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Tratado das Paixões
da Alma, 1990
1 artigo por
- Portnoy
Portnoy
António Lobo Antunes:
Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?
Não se pode resistir à tentação de ler um
romance com um título tão maravilhoso: Tratado das Paixões da Alma.
É o meu segundo romance de Lobo Antunes,
depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença
que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si
supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo
Antunes. Porém, dois romances tão separadas no tempo, e algumas
das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam
demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma
crítica séria e tirar conclusões a respeito.
Penso que se tivesse que escolher um autor
português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma
que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma
narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em
Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido
socialmente. De facto, as normas para o Prémio Nobel da Literatura
implicam que deve conceder-se "a quem haja produzido no campo da
literatura a obra mais destacada, na direcção correcta", o que se mostra
bastante ambíguo, ao que se junta "o que suponha uma contribuição
notável à sociedade"... mais ambiguidade.
Mas deixemos de lado as minhas fobias
pessoais.
Lobo Antunes é um escritor que trabalha
especialmente a forma das suas obras. Como afirmou numa entrevista:
«Interessa-me o trabalho com as palavras. As
histórias dos meus livros não me interessam nada» (..) «A estrutura,
sim; (...). Interessa-me tentar traduzir em palavras o que por definição
é intraduzível (as emoções, os impulsos) e estruturá-lo num todo
coerente. A intriga não me preocupa; o que procuro é estar mais perto do
coração, da vida».
Desta forma, esforçando-se em mostrar ao
leitor esse mundo interior de impulsos e emoções, cria o s romances nos
quais o ritmo temporal está completamente truncado. Se bem que o
conjunto da obra, os sucessivos capítulos, mostram uma certa
continuidade temporal, mantêm uma evolução da história sobre a linha do
tempo, o interior de cada capítulo, estruturado em diversos blocos,
mostram um caos temporal fruto da indagação do autor na memória das suas
personagens.
Tentar uma sinopse dos seus romances é um
trabalho infrutífero: uma sinopse não acrescenta nada a uma literatura
em que é primordial o uso de palavras para captar conceitos abstractos.
Não obstante, tanto Tratado das Paixões da Alma, como Que
Farei Quando tudo Arde? são, apesar do que se possa pensar pelo que
acabo de dizer, romances em que o humano está muito acima da técnica
narrativa. Lobo Antunes empurra-nos para uma frenética descida às
entranhas da mente humana, das paixões mais ocultas e os sentimentos
mais recônditos, empregando ara isso um tremendo labirinto de palavras
que dispõem frases que dispõem parágrafos que não se enlaçam
temporalmente com o seguinte, nem com o anterior. Lobo Antunes exige, é
inflexível literariamente.
A evolução que posso constatar nestes dois
romances aponta a uma maior dificuldade tanto na sua composição como na
sua leitura: em Que Farei Quando Tudo Arde?, Lobo Antunes
desmonta toda a narração ao nível de cada frase, de forma que parece
haver uma única voz dominante, diluindo os restantes narradores,
diluindo o próprio autor. Nas suas próprias palavras:
«Penso que há somente uma voz que se
fragmenta e divide; antes fazia planos detalhados, mas agora parto do
nada, de uma ideia vaga, o fio narrativo está para o escritor como a
corda para o alpinista, a meta para mim surge de como criar personagens
que despertem emoções sem esse fio, vejo-me como uma entidade entre duas
instâncias, traduzindo o que as vozes interiores me ditam, já não sei se
escrevo ou traduzo mensagens disformes.»
Em Tratado das Paixões da Alma, essa
possessão não alcança esses níveis de dissolução. Há uma voz única, a
voz de Antunes ou a voz de um narrados omnisciente mas também é um
diálogo contínuo entre duas personagens ao longo do tempo, personagens
que dialogam com a mesma voz, que são denominados com epítetos relativos
à sua profissão (que curioso... como Saramago) e que conversam
construindo uma história. No romance de 1990 existe todavia certo
interesse no que se conta, na trama narrativa. No de 2001, a trama
resolve-se precipitadamente, como que uma obrigação que não interessa ao
autor.
Lobo Antunes é um escritor arriscado que
pede ao leitor um esforço que talvez nos tempos em que vivemos não
estará acostumado. Mas também há que reconhecer que é um escritor
irregular: existem fragmentos nos seus romances que se prolongam
desnecessariamente, as contínuas repetições em que costuma recriar-se
não ajudam a que a narrativa avance fluidamente, conseguindo em certas
ocasiões um efeito contrário ao desejado: nessa exploração da alma
humana o leitor pode sair enfastiado de tanta mediocridade.
São os seus romances tratados sobre as
paixões da alma, tratado literário de lato nível. Talvez não seja o
melhor escritor do mundo, mas há que agradecer-lhe o esforço das suas
composições titânicas, nas quais sempre encontraremos brilhos de
perfeição. Seja como for, há que ler um homem que diz sobre a narrativa
contemporânea o seguinte:
«Dá-me a impressão que todos (os livros) são
escritos pela mesma pessoa. São histórias bem feitas, no geral, mas a
mim não me interessam as histórias bem feitas. Gosto de personagens com
densidade. Gosto das pessoas que vivem como que com uma guerra civil
interior, pessoas com quem podes ter uma luta, no bom sentido, claro.
Gosto das pessoas que esgrimam e deixam seu sangue mesclando-se com o
teu como num pacto».
Portnoy
em
El lamento de Portnoy
21.04.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
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